sábado, 18 de julho de 2020

ANGEL WAGENSTEIN

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

 

17ª Vinheta



ANGEL WAGENSTEIN

 

Angel Wagentein (1922-) é um escritor búlgaro, nascido numa família judia sefardita. Por razões políticas, a sua família exilou-se em Paris; mas o autor, ainda adolescente, regressou à Bulgária, onde se envolveu na resistência anti-nazi, tendo sido preso por várias vezes e, por fim, condenado à morte em 1944. Por sorte (?), a sua prisão foi bombardeada, num dos primeiros raids aéreos sobre Sofia, e a sua execução adiada, até que a cidade foi liberta pelo Exército Vermelho.

Foi então para Moscovo, onde se formou em cinema, em particular em guionismo, trabalho que exerceu quase toda a sua vida, escrevendo dezenas de guiões, primeiro na Rússia, depois no seu país natal e também na ex-RDA. Nos finais dos anos cinquenta, um filme de Konrad Wolf, com guião seu, obteve o Prémio Especial do Júri do Festival de Cannes.

Só nos anos noventa, já com mais de setenta anos, após a quebra significativa da produção cinematográfica na Bulgária, é que Angel Wagenstein decidiu dedicar-se à escrita de romances, tendo redigido um tríptico: Петокнижие Исааково” (“Isaac’s Tora”, na versão inglesa, “Le Pentateuque ou les cinq livres d’Isaac”, na versão francesa), 1998, “Далеч от Толедо” (“Abraham le Poivrot, na versão francesa; ”Lejos de Toledo”, na versão espanhola), 2002, e „Сбогом, Шанхай” (“Farewell, Shangai”, na versão inglesa; “Adieu Shangai”, na versão francesa), 2004. Com esta obra obteve vários prémios literários e distinções, tanto no seu país, como na Europa, e, em particular, em França, onde a sua obra é muito apreciada e respeitada. Hoje, o seu trabalho como escritor assumiu um tal realce que eclipsou em parte a sua actividade no domínio cinematográfico.

Todos estes três romances, utilizando técnicas narrativas distintas e com uma total autonomia entre si, procuram atingir o mesmo objetivo: narrar a história do povo judeu, em particular o sefardita, ao longo do séc. XX, efetuando, no entanto, incursões a períodos anteriores, como se estes fossem lastros históricos e culturais que permitissem compreender o seu comportamento no presente. O resultado é uma trilogia que, segundo a maioria dos críticos, apresenta uma das visões mais originais e peculiares sobre a história desse povo.

Há uma intenção clara, no conjunto desta narrativa, de assinalar as facetas verdadeiramente absurdas dessa história e como elas se tornam irrelevantes, e até hilariantes, perante o destino inexorável da morte. Semelhante postura, não só interroga frontalmente uma cultura ancestral e os dogmas teológicos de uma religião, como o inevitável humor, decorrente do olhar do autor perante as situações narradas, mais do que satirizar, procura compreender a frágil, mas resiliente, forma de estar de um povo perante o Mal.

“Farewell, Shangai”, o último romance de Angel Wagenstein, centra a sua narrativa numa situação histórica concreta e pouco conhecida: nos anos trinta, a cidade de Xangai abriu-se à imigração judia, e durante toda a II Guerra Mundial, foi-se constituindo um gueto (calcula-se com cerca de trinta mil pessoas), com judeus oriundos principalmente da Alemanha e da Áustria, que fugiram da Europa, com o fito de, nesta longínqua cidade, puderem, com mais serenidade, reconstruir as suas vidas. Angel Wagenstein, utilizando e interligando os modelos da literatura de género, coloca em cena uma miríade de personagens que entrecruzam situações de paixão, traição e luta pelo poder nesta cidade, já de si romanesca pela vivência de comunidades confluentes de várias potências, e que era, por isso mesmo, perigosa, cosmopolita e rica. A ironia, que subjaz a todo o romance, é que se sabe como tudo terminou: a esperança e o sonho foram de novo esmagados pela perseguição, destruição e morte. Saliente-se, por último, que segundo as palavras do próprio autor, esta sua obra é “a mais cinematográfica”, provavelmente por ser a mais próxima dos modelos clássicos da narrativa.

O segundo título, ”Lejos de Toledo” (utilizo o título espanhol, visto que é a versão mais próxima do original), é o que mais diretamente se refere à história pessoal do autor e dos seus antepassados. O narrador é um velho especialista na história de Bizâncio, que regressa à sua terra natal búlgara, numa fase posterior ao fim do regime comunista e que aí encontra não só um antigo amor de adolescência, mas também o arquivo de um velho fotógrafo, onde está registado a história do seu povo nas últimas décadas. Com esta base, o historiador vai recriando, a partir dos seus antepassados, o percurso dos sefarditas, desde que foram expulsos de Espanha, passando pela Revolução Francesa, até se fixarem no Leste da Europa, e os diversos pogrons e perseguições que sofreram, as suas desesperadas tentativas de conseguirem ter um quotidiano normal e aceite pelos “vizinhos” e a sua decadência como comunidade autónoma. O registo narrativo assenta, mais uma vez, no humor, que procura realçar o absurdo das situações descritas e também a ambivalência das personagens entre os valores da religião que herdaram e a sua integração social, mas, neste caso, tingido de uma tonalidade acentuadamente nostálgica.   

Mas, sem sombra de dúvidas, a obra-prima de Angel Wagenstein é o seu primeiro romance, “Isaac’s Tora”, cujo longo subtítulo, “Concerning the Life of Isaac Jacob Blumenfeld Through Two World Wars, Three Concentration Camps and Five Motherlands”, permite já dar uma ideia da sua trama. O livro relata o destino do seu narrador, Isaac Blumenfeld, um simples alfaiate judeu da Galícia, que tem como único desejo de vida o de continuar a seguir os passos dos seus antepassados, sofrendo, mais do que crendo, o seu destino de judeu. Porém, é sobre ele que cai, como uma praga, sem abandonar a sua aldeia, todo o percurso mirabolante que o subtítulo descreve. Nesta situação está a extrema ironia da obra e o absurdo que a estrutura. Horrível absurdo esse que, em grande parte, foi comum a toda a comunidade judaica da Europa Oriental (a mesma que já tinha sido retratada por Sholom Alecheim, Shmuel Yosef Agnon e Isaac Bashevis Singer, escritores a quem Angel Wagenstein muito deve): a de ser consumida nos crematórios nazis e desvanecer-se no fumo que sai das suas chaminés.

A grande peculiaridade deste romance, é que resolve encarar a tragédia deste percurso com as armas do humor tradicional judeu, coligindo inúmeras histórias pícaras que os judeus contam sobre si, ao mesmo tempo que procura perceber como a sabedoria hassídica ajudou esta comunidade a enfrentar os atrozes desígnios de Deus… ou a Sua distracção. Essa ironia realça-se principalmente nos diálogos ininterruptos que o narrador tem com o seu maior amigo, Shmuel Bendavid, um Rabino que é ao mesmo presidente do Clube dos Ateus (?), e que foi empurrado para estas funções pela sua própria comunidade para que, com os seus conhecimentos e sensatez, a oriente e conduza nas “areias movediças” dos tempos sinistros que estão a atravessar.

Por último, deve salientar-se que a ironia que tinge toda esta obra não é um mero exercício estilístico, mas que reflecte a própria forma de estar com que o povo judeu procurou sobreviver, e que a sua utilização narrativa é um manifesto sinal de compreensão e afecto para com uma comunidade que se desvaneceu no tempo, mas que era composta por homens concretos e reais que o romance procura descrever a existência de uma forma detalhada e objectiva. Não há, e esse é um dos grandes méritos desta obra de Angel Wagenstein, nenhum estereótipo nem nenhum escamoteamento da brutalidade do destino que caiu sobre esta comunidade. E é por isso mesmo que a ironia se revela um eficaz instrumento de denúncia de todo e qualquer pensamento (e da correspondente acção política) que necessita de criar bodes expiatórios, sem rosto e informes, para atingir os seus desumanos desígnios.

Os três romances de Angel Wagenstein estão todos traduzidos para francês, espanhol e italiano. Para inglês e alemão estão apenas dois. 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

Julho de 2020


sexta-feira, 19 de junho de 2020

ARTO PAASILINNA


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

16ª Vinheta


ARTO PAASILINNA


Arto Paasilinna (1942-2018) é seguramente o escritor finlandês mais conhecido em todo o mundo, tendo a sua obra atingido esse pico de popularidade (e de vendas) nas duas últimas décadas do séc. XX. De facto, mesmo sendo um “campeão” de vendas no seu país, foi no exterior da Finlândia que ela granjeou a sua projecção, principalmente em França, onde é muito apreciada e respeitada.

Nascido na Lapónia, de uma família pobre e muito numerosa, Arto Paasilinna foi obrigado na sua infância, em consequência das guerras soviético-finlandesas, a sucessivas deslocações pelo norte da Finlândia. Tendo o pai morrido ainda o escritor era uma criança, o escritor teve uma formação quase apenas autodidacta e, por lhe terem reconhecido capacidades redactoriais, ainda muito novo começou a trabalhar nos jornais, onde se manteve durante uma década. Depois de publicar o seu primeiro romance em 1973, decidiu dedicar-se em exclusivo à actividade de romancista. Com o seu terceiro romance publicado, em 1975, cujo título, em inglês, é “The Year of the Hare” e, em francês, “La Lièvre de Vatanen”, obtém um enorme sucesso, tanto no seu país como no estrangeiro (ainda hoje é o livro mais famoso do autor), o que lhe garante definitivamente a sua vida como escritor. A partir dessa altura, e até 2009, ano em que teve um acidente vascular cerebral, publicou todos os anos um novo romance. O conjunto da sua obra ascende, por isso, a mais de uma trintena de romances, e ainda a várias colectâneas de contos e obras de temática diversa.

Porém, se a sua obra foi um inquestionável sucesso de público e de leitores, já não se pode afirmar que a crítica tenha sido tão unanime e consensual na defesa das suas qualidades literárias.

Creio, antes do mais, porque Arto Paasilinna é encarado como um humorista e que a sua obra, por vezes, carrega em excesso na componente caricatural das suas personagens. Este elemento estratégico da narrativa é tão acentuado, em detrimento de todos os outros, que provoca no leitor a ideia de que Arto Paasilinna é apenas um autor cómico. Em segundo lugar, porque a maior parte das suas obras realça, no essencial, um único tema: as incapacidades de um homem de classe média, urbano, em (sobre)viver. Inadaptadas, insatisfeitas com as imposições da sociedade de consumo, as personagens de Arto Paasilinna estão em constante “fuga”: ou se suicidam, ou deambulam perdidas e sem sentido, ou, por fim, escapam-se para o meio rural, em particular para a floresta finlandesa. Por isso, grande parte das tramas destes romances caracterizam-se por este “on the road”, tornando-se a viagem, e as peripécias consequentes, um elemento determinante. Em contraste, o mundo rural é apresentado como rude, por vezes com tónicas absurdas e quase irrealistas, mas onde as relações, mesmo sendo por vezes desconfiadas e hostis, se tornam gradualmente de uma grnuína franqueza e mais adequadas às necessidades existenciais de comunicação. Em terceiro lugar, porque as suas personagens aparecem com características muito semelhantes de livro para livro: os homens são sempre rudes e inadaptados e as mulheres seres egoístas, manipuladores, mas também muito inconsequentes.

Porém, deve ser realçada, como componente positiva, a diversificada crítica social, tocando um amplo conjunto de problemas comuns às actuais sociedades urbanas. Por outro lado, é também de destacar a relevância dada à floresta finlandesa como elemento interagente com as personagens, particularmente bem descrita e viva. Aliás, há uma componente muito relevante de fábula nos romances de Arto Paasilinna, onde, muitas vezes, os animais falam e se relacionam com os humanos. Em terceiro lugar, mesmo sendo o humor a tonalidade narrativa mais relevante na sua obra, há, inúmeras vezes, um “olhar” enternecido e condoído sobre as inadaptações das personagens. Por último, e provavelmente a mais relevante, há indiscutivelmente uma enorme capacidade criativa em Arto Paasilinna na elaboração de tramas e na arquitectura das situações narradas, atingindo uma dimensão surrealizante e absurda. É esta capacidade, associada a uma inquestionável fluidez narrativa, que tornam as suas obras acentuadamente agradáveis de leitura e justificam o seu sucesso.

No conjunto da sua obra, parece-me ser de destacar os seguintes romances: “Paratiisisaaren vangit” (na versão francesa, “Prisioners de l’île paradisiaque”), 1974, o já referido “Jäniksen vuosi” (na versão inglesa, “The Year of the Hare” e, em francês, “La Lièvre de Vatanen”), 1975, “Ulvova mylläri” (na versão inglesa, “ The Howling Miller”, na versão francesa, “Le Meunier hurlant”), 1981, “Hirtettyjen kettujen metsä” (na versão francesa, “La Fôret des renards pendus”), 1983, “Hurmaava joukkoitsemurha” (na versão francesa, “Petits suicides entre amis”), 1990, e, por último, para evidenciar alguma obra da fase final da produção narrativa de Arto Paasilinna, “Kymmenen riivinrautaa” (na versão francesa, “Les Dix Femmes de l'industriel Rauno Rämekorpi”), 2001.

Das obras referidas, provavelmente a mais equilibrada e significativa seja “Ulvova mylläri” (na versão inglesa, “ The Howling Miller”, na versão francesa, “Le Meunier hurlant”). O romance, ocorrendo nos anos imediatos ao fim da II Guerra Mundial, quando a personagem principal, Gunnar Huttunen, depois de abandonar o exército, após a guerra da Lapónia, aparece numa aldeia rural no norte da Finlândia, com o fito de reconstruir um velho moinho. Hábil e metódico, conseguiu restaura-lo e inicialmente esse sucesso, associado à sua postura afável e ao facto de ser um animado contador de histórias, fez com que fosse bem acolhido pelos aldeões e até conseguisse seduzir a conselheira rural da terra… Só que Gunnar, entre outras pequenas bizarrias comportamentais, tinha um defeito perturbador: à mais pequena contrariedade, necessita de ir uivar como um lobo para o meio da floresta, acossando os cães e incomodando toda a aldeia. É esse defeito que leva os vizinhos a expropriar-lhe o seu moinho e a propor (e conseguir) que seja internado num hospício psiquiátrico, o que o obriga a esconder-se na floresta e a iniciar uma verdadeira “guerra” com os aldeões que, em crescendo, vai assumir contornos verdadeiramente grotescos e absurdos.

Esta parábola permite a Arto Paasilinna não só efectuar um verdadeiro libelo contra os comportamentos sociais intolerantes com a diferença, salientar como é ténue a pelicula que separa a loucura da normalidade e satirizar as posturas comunitárias que rapidamente se transformam, desde que vagamente afrontadas nas suas normas, em interesseiras, mesquinhas e corruptas.

A obra de Arto Paasilinna foi amplamente traduzida e editada em francês, alemão, italiano e espanhol.

No nosso país, editados pela Relógio d’Água, foram publicados os seguintes romances: “A Lebre de Vatanen” (“Jäniksen vuosi”), traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e revisto por Frederico Sequeira; “Um Aprazível Suicídio Em Grupo” (“Hurmaava joukkoitsemurha”), traduzido por Merja de Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares e revisto por Frederico Sequeira; e “As Dez Mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi” (“Kymmenen riivinrautaa”), traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e revisto por Júlia Ferreira e Inês Achega Leitão.   

Junho de 2020

Foto do autor de Martii Kainulainen



segunda-feira, 25 de maio de 2020

EMILE HABIBI


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

15ª Vinheta

EMILE HABIBI



Emile Habibi (1922-1996) é um escritor palestiniano, de nacionalidade israelita. E neste simples enunciado está grande parte do destino deste militante e escritor.

Logo após a Declaração de Independência de Israel e a guerra israelo-árabe que lhe sucedeu, Emile Habibi, já como dirigente do Partido Comunista da Palestina, decidiu permanecer em Israel, obter a sua nacionalidade e, a partir do interior, defender a causa palestiniana. Como figura pública, defendeu o Plano da ONU para a existência de dois Estados (Palestina e Israel), posição que lhe gerou hostilidades de ambos os lados, tanto árabe como israelita. Mais tarde, protagonizou a luta para que o Estado de Israel se tornasse um estado laico, democrático e multiétnico e foi com esta posição que contribuiu para a criação do Partido Comunista de Israel (que, durante muitos anos, foi o único partido que integrava, como militantes, palestinianos e israelitas) e que foi eleito como deputado para o Knesset (o órgão legislativo de Israel), onde se manteve mais de vinte anos.

Emile Habibi começou a publicar romances e novelas já tardiamente (a edição da sua primeira obra data de 1968), mas rapidamente se tornou, com Mahmoud Darwich na poesia, um dos autores mais relevantes da literatura palestiniana. De facto, mesmo tendo escrito alguns contos, a prioridade deste escritor foi, no contexto histórico que vivia o seu povo, a actividade política e jornalística, centrando-se só no final da sua vida na produção literária. O conjunto da sua obra é constituído, fundamentalmente, por cerca de meia dúzia de romances e uma peça de teatro, e foi premiado não só pela OLP como pelo Estado de Israel: recebeu o Israel Prize, tendo sido até hoje a única vez que foi outorgado a um palestiniano. Aliás, o facto de lhe ter sido concedido este prémio, e de o autor o ter aceite, foi fortemente criticado tanto por palestinianos como por israelitas (na altura, Emile Habibi argumentou, em defesa da sua posição, que a concessão deste prémio poderia ser uma forma de aproximar os dois povos e, em resposta a estas críticas, resolveu oferecer a verba pecuniária a instituições que apoiavam as crianças vitimas da Intifada).

A conjuntura social e política que vivia o seu povo, levou-o a considerar que era inevitável, para a sua sobrevivência, a luta política e, por isso não admira que a sua obra literária se centre na defesa da sua causa.

A sua obra caracteriza-se pela utilização sistemática da sátira e da ironia. Segundo os especialistas, este humor negro desabrochou no autor em consequência da Guerra dos Seis Dias, e da aparatosa (e humilhante) derrota árabe, e tornou-se uma forma de afrontar e procurar dar algum sentido ao desespero palestiniano. De facto, a sua obra debruça-se sobre o quotidiano contraditório e absurdo da população palestiniana, tanto a que permaneceu no território israelita como a que se refugiou nos países limítrofes. Mas, para além deste aspecto, vai também procurar realçar, através da literatura, a identidade cultural palestiniana, para que este povo, numa fase particularmente esgarçada e destroçada da sua história, reforce a sua autonomia como nação (recorde-se que alguns dirigentes israelitas, marcadamente sionistas, defendiam que os palestinianos não tinham identidade, pois não tinham uma cultura nem uma literatura própria, e que a Guerra do Seis Dias era uma definitiva derrota da sua causa como nação, pois que eliminara a hipótese de eles construírem um património identitário).  

Os livros de Emile Habibi que é habitual destacar (apresenta-se os títulos em inglês) são a colectânea de contos “The Sextet of Six Days” e os romances “The Strange Circumstances Surrouding the Disappearance of Sa’id Abu’l-Nahs, the Pessoptimist”, “Shame” e “Daughter of the Ghoul” (que em França foi intitulado “Soraya, fille de l’ogre”).

Mas, nem que seja pelo sucesso mundial que obteve, a obra que é a maior referência, no conjunto da produção literária deste autor, é “The Strange Circumstances Surrouding the Disappearance of Sa’id Abu’l-Nahs, the Pessoptimist”. E esse sucesso foi tal que, como sucede muitas vezes, obliterou os restantes títulos, ao ponto de, para o comum dos leitores, parecer que Emile Habibi é o autor de um único livro.

“The Pessoptimist”, como é habitualmente referenciado, é um romance epistolar de um palestiniano que escreve a um professor israelita, e onde se vai aludindo, através da história reinventada, com um humor sardónico e surrealizante, do próprio narrador, a história recente do seu povo, e como, ao longo do tempo, este vai variando entre os sentimentos de não existir (de desaparecer), que procura impor quem o oprime, e o de ser maior e superior ao opressor, porque, apesar das perseguições e do repúdio, consegue sobreviver e amar (as três partes em que se divide a obra têm o nome de diferentes mulheres por quem o narrador se apaixona e que, de certo modo, corporizam o desejo de reconhecimento e felicidade que o povo palestiniano procura).

Existem obras de Emile Habibi traduzidas para inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. Em Portugal, “The Pessoptimist” foi traduzido (provavelmente a partir do francês) por António Belmiro Guimarães, e publicado pela Ed. Caminho, com o título “As Estranhas Circunstâncias do Desaparecimento de Saíd Abu Nahs, o Optissimista”.  

Maio de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


quarta-feira, 13 de maio de 2020

FULVIO ABBATE



OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

14ª Vinheta



FULVIO ABBATE


Fulvio Abbate (1956-) é um caso peculiar no contexto das letras italianas. Porquê? Porque este escritor siciliano é, antes do mais, um comunicador e um agitador. Como jornalista, depois de um período como redator num jornal de Palermo, foi, durante quase duas décadas, colunista de L’Unitá; a seguir, com bastante regularidade, participou em diversos programas de televisão, como comentador da vida política italiana, ao mesmo tempo, que mantinha um programa próprio num canal por cabo; por fim, decidiu passar esse programa para o YouTube.

Depois de romper com o PC italiano, que considerava demasiado conservador, começou (?) a defender posições anarquistas e fundou no seu país o movimento Situazionismo e libertà. É membro do College de Pataphysique. Grande admirador de Pasolini, a quem dedicou alguns livros e uma investigação jornalística para deslindar os reais motivos da sua morte, tem-se também centrado, em diversas revistas e jornais, à análise e estudo das obras de alguns dos principais artistas plásticos de vanguarda.

Como romancista, já publicou, desde o início dos anos noventa, mais de meia dúzia de obras. Os temas vão desde Palermo e o seu entusiasmo adolescente pelo comunismo (“Zero maggio a Palermo”), à Itália actual, mergulhada num ininterrupto “caldo” televisivo (“Oggi è un secolo”), às “articulações” entre a Itália fascista e o presente (“Dopo l’estate”), ao delírio revolucionário dos anos setenta e oitenta (“Quando è la rivoluzione”), etc. Inclassificável, forte satirista (um dos seus romances chama-se “La peste bis”, uma espécie de paródia pós-moderna do romance de Albert Camus), reconhece-se que Fulvio Abbate tem, entre o humor e o lirismo, um estilo bem peculiar, com uma forte componente experimental. Por fim, infletiu de novo na sua produção narrativa, centrando-se num modelo que desliza da autoficção para um “delírio autobiográfico”, onde integra a história cultural italiana com fantasias, os mitos da cultura popular e os seus anseios como homem e cidadão (“Intanto anche dicembre è passato”, “La peste nuova” e “I promessi sposini”).

Infatigável, Fulvio Abbate continua a diversificar-se por inúmeras actividades, tendo publicado vários livros sobre a sua Palermo natal, sobre Roma e, como já se referiu, sobre Pier Paolo Pasolini.

“LOve”, uma das suas últimas obras, é, mais uma vez, inclassificável: romance, autobiografia, tratado, manual, é tudo isto ao mesmo tempo, fazendo uma espécie de peregrinação por lugares, pessoas, momentos, emoções, em resumo, apresenta-se como uma espécie de “suma” dos afectos que lhe calharam em destino…

Saliente-se também que fez a introdução à edição italiana de “O Banqueiro Anarquista” de Fernando Pessoa.  

Desconheço a autoria da foto do escritor.


sábado, 18 de abril de 2020

DONG XI

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

13ª Vinheta


DONG XI


Dong Xi (1966-) é um escritor chinês que, desde os finais dos anos oitenta, tem publicado uma significativa obra narrativa, principalmente nos domínios da novela (onde se tem mais destacado), do conto e do romance. No entanto, foi apenas quando o seu trabalho narrativo foi adaptado ao cinema e à televisão (em que o próprio escritor participou) é que passou a ser reconhecido a nível nacional. Saliente-se que, desde a década de noventa, Dong Xi é escritor profissional e, como tal, membro da Associação de Escritores da China, tendo ganho, ainda nessa década, com uma novela (“Life Whitout Language”, na versão inglesa e “Une vie de silence”, na versão francesa), o prestigiado Lu Xun Literary Prize.

A crítica literária tem acentuado que uma das tónicas essenciais da obra de Dong Xi é o princípio de que nada é partilhável, porque a comunicação é sempre imperfeita. Além disso, que cada homem transporta consigo um passado que inevitavelmente é sombrio e que condiciona qualquer relação. Há quem considere que este espírito resulta do autor ter nascido numa família rural pobre, oriunda de uma província chinesa (Guangxi) distante dos grandes centros urbanos e de ter passado fome na sua infância durante os períodos do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural.

Por isso, é uma componente constante, na caracterização das personagens das suas novelas e romances, o peso do passado e a necessidade de o entender, como forma de sobrevivência no presente. E a superação da mágoa desse passado processa-se sempre através da ironia, mesmo que ela se torne, por vezes, negra e cínica, e por uma atitude de refluxo em relação ao universo em redor, temendo sempre que dele venha o pior.

Compreende-se assim que, em termos estilísticos, as obras de Dong Xi agreguem diversos elementos aparentemente em conflito: por um lado, a utilização do non-sense como instrumento de humor, como se a própria realidade (em particular, a realidade política e o seu efeito nefasto no quotidiano individual) só pudesse ser entendida no registo de absurdo; por outro, um registo realista, mas minimalista e elíptico, repleto de evasivas e silêncios, com que se procura retratar a vida banal no seio de famílias comuns. Daí que a crítica assinale que os autores que mais “influenciaram” a obra de Dong Xi sejam Franz Kafka e Raymond Carver.

“Life Whitout Language” (1996), uma das suas primeiras novelas, é, ainda hoje, considerada como a mais relevante e significativa de Dong Xi. A história desenrola-se no seio de uma família, vivendo numa aldeia rural da China recôndita, constituído por um pai cego e um filho surdo, aos quais se junta, uma jovem, muda, que naturalmente a integra, quando chega à aldeia, passando a viver com o filho. No momento em que nasce uma criança normal nesta estranha e marginalizada família, gera-se um momento de júbilo entre todos, crentes que vão superar, através dela, todas as dificuldades de comunicação com os vizinhos e serão aceites e integrados; só que, conforme cresce, esta criança vai sentir sobre si, o estigma que a aldeia tinha lançado sobre a família, repudiando-a, perseguindo-a e ostracizando-a: a sua salvação, ou pelo menos, a sua sobrevivência obriga-a a repudiar o mundo, voltando a confinar a sua existência ao núcleo familiar, aceitando a sua comunicação fragmentada e o seu silêncio.

Há, como é evidente, nesta parábola, uma significação aberta que permite que represente de certo modo várias realidades possíveis (e os comentadores referem as relações entre os cidadãos e o Estado, as relações entre o mundo rural, repleto de seres sem voz, e a afirmação crescente da vida urbana, etc.). Porém, a interpretação mais consensual assenta de que esta obra é uma forma de revelar as dificuldades de comunicação entre os homens, cujo relacionamento é essencialmente feito de esparsos sinais que apenas exprimem de forma desajeitada e lateral o âmago da necessidade de afecto e de partilha que todos procuram.

Existem obras de Dong Xi traduzidas e editadas em inglês e francês. Em inglês, estão traduzidas a novela “Life Whitout Language” (publicado na “Chinese Literature Today”, vol. 6) e o romance “Record of Regret”. Em francês, estão publicados o romance “Sauver une vie”, a colectânea de novelas “Tu ne sais pas combien elle est belle” (que inclui a novela “Une vie de silence”, acima referida) e a colectânea de contos “Accrocher les coins de la bouche au bord des oreilles”.

Lisboa, Abril de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.



domingo, 5 de abril de 2020

MAURICIO WACQUEZ


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

12ª Vinheta


MAURICIO WACQUEZ

Mauricio Wacquez (1939-2000) foi um escritor chileno, tradutor e professor, que publicou cinco romances, algumas colectâneas de contos, ensaios e artigos, coligidos postumamente (segundo a sua própria definição, era um “escritor parco”). Começou a publicar na década de sessenta e integrou a chamada “generación de los novíssimos”, onde se destacaram Poli Delano e António Skarmeta (para apenas referir os mais conhecidos no exterior do Chile). Algumas das suas obras foram finalistas de prémios (Casa de las Americas, Seix-Barral, etc.), na sua maioria publicadas em Espanha, país onde residiu uma boa parte da sua vida.

Provavelmente por causa deste facto e porque a sua obra assume uma postura claramente gay, ela, enquanto o autor foi vivo, passou por completo desapercebida no seu país, com exceção de alguns autores (é o caso, por exemplo, de Júlio Cortázar, José Donoso e Jorge Edwards) que muito a apreciavam.  

Uma das características reconhecidas na obra de Mauricio Wacquez é a sua preocupação com o estilo, procurando utilizar a língua espanhola de forma inovadora e criativa. Aliás, as suas primeiras obras, pelas razões acima referidas, eram curtas, resultantes de um pendor fortemente autocrítico e da sua necessidade de pensar a frase, como um ourives de filigrana, palavra a palavra. Não admira por isso, que, nas palavras do próprio autor, as suas obras mais relevantes sejam as suas últimas, que considera com maior maturidade e mais próximas do que pretendia. Aliás, a leitura do conjunto da sua obra transmite a ideia, como sucede em muitos outros autores, de que Maurício Wacquez desejou sempre escrever o mesmo livro (até quando enveredou pelo romance histórico, como foi o caso de “Frente a un Hombre Armado”), dado que todos eles rodeiam uma mesma problemática: a incomunicabilidade, a castração social, a angustiante incapacidade de consumar no objecto amado o seu desejo.

Outra componente da sua obra é o seu carácter (quase) autobiográfico e a importância das experiências vividas na infância e na adolescência, em particular, as resultantes das dificuldades de comunicação e de satisfação afectiva. De certo modo, a infância e a adolescência na obra de Mauricio Wacquez apenas parcialmente são fases de esplendor; pelo contrário, a impossibilidade de afirmar desejos e afectos, os constantes equívocos, a opressão de uma moralidade paterna plena de certezas, leva as personagens principais e os narradores dos seus romances a um obscuro e angustiante mal-estar.

 No entanto, há um significativo consenso de que a obra mais relevante deste autor é “Epifania de una Sombra”, a sua última obra, e que integrava uma trilogia, intitulada “La Obscuridad”, em que Mauricio Wacquez trabalhava quando morreu e que não chegou a concluir (o escritor morreu de SIDA)

“Epifania de una Sombra” é, mais uma vez, sobre a infância e adolescência, mas apresentada de uma forma não cronológica e linear, amalgamando diversos espaços (o campo e a cidade) e distintos tempos, em que as situações são associadas por nexos profundos, procurando assim entender melhor o fluir e a formação emocional da personagem principal, Santiago Warni (assumidamente uma representação ficcional do autor) e dos seus amigos. Saliente-se que o narrador deste romance se identifica com o autor, que, a partir do presente, feito de cansaço e doença, rememora, de forma fragmentária e fantasista, e procura perceber aquilo que no seu “duplo”, ainda criança e adolescente, já gera sentido para o que hoje vive. Por último, salientar que a descrição tanto da paisagem rural como urbana, tem uma componente funcional na obra, pois sincretiza os diversos estados emocionais que atravessam as personagens.

Algumas das suas obras estão traduzidas para francês.

Lisboa, Abril de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


quarta-feira, 1 de abril de 2020

DÁMIAN TABAROVSKY


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

11ª Vinheta



DÁMIAN TABAROVSKY


Dámian Tabarovsky (1967-) é um escritor argentino que, desde o início dos anos noventa, tem escrito várias novelas e ensaios. Também efectuou algumas traduções e é editor. Provavelmente a sua obra mais conhecida é um ensaio, “Literatura de Izquierda”(2004), uma análise polémica da actual situação do universo literário e em que preconiza uma estratégia social e estética para a literatura de hoje, reflectindo sobre o peso dos mercados e dos editores nas opções estéticas dos autores (o título desta obra é um pouco equívoco, pois não se relaciona directamente com a literatura de autores que se posicionam socialmente “à esquerda” nos termos convencionais, mas sobre o que deve ser, na opinião do autor, uma “literatura de esquerda”). Mais tarde, prolonga esta reflexão e análise com “Fantasma de la Vanguardia” (2018). É um dos críticos e analistas literários mais interventivos do seu país, colaborando com regularidade em jornais e revistas espanhóis e argentinos, sempre com posições acentuadamente polémicas e irreverentes.

Os seus romances que mais se destacam serão, provavelmente, “Autobiografia Médica”, “Una Belleza Vulgar” e “El Amo Bueno”.

Na caracterização da sua obra, refere-se sistematicamente a forma como Dámian Tabarovsky articula ironia, erudição e ainda uma postura anti-capitalista, numa perspectiva externa à esquerda convencional. Daí que as suas obras reflictam uma atitude que entende a literatura como um acto de resistência, assente na linguagem, considerada como o núcleo essencial do acto literário. Por isso, as suas narrativas, assumindo o autor o seu carácter expositivo e ilustrativo das suas teses sobre a literatura, recusam-se a qualquer interpretação alegórica e/ou metafórica, evidenciando o papel estético da frase e a relevância do trabalho sintáxico e efectuando um permanente confronto com os modelos clássicos e com os códigos convencionais da narrativa.

Uma das componentes, que integram o modelo clássico da narrativa, e que a obra de Dámian Tabarovsky sistematicamente confronta, é o da trama. Mas não através das opções estéticas do “Nouveau Roman”, mas antes através de um método digressivo, para utilizar os termos ao autor, ou “derivativo”, o que leva a que as suas narrativas interliguem constantemente os elementos ficcionais com perspectivas ensaisticas. Dois exemplos bem claros deste método, para que se tem encaminhado a obra de Dámian Tabarovsky, são as suas duas últimas novelas: “Una Belleza Vulgar” e “El Amo Bueno”.

“Una Belleza Vulgar” tem como eixo uma circunstância banal: uma folha que cai de um plátano numa rua de Buenos Aires. A partir daí, e enquanto a folha vai esvoaçando até ao chão, o autor anota a vida comum das pessoas que habitam nos edifícios nas proximidades, reflectindo sobre ela, o que lhe permite remeter para inúmeras questões sociais, políticas e até estéticas e literárias. No essencial, a folha que tomba é apenas um “alibi” para o autor remeter para o que lhe é essencial: pensar o mundo, a sociedade e a literatura, partindo do pressuposto de que nada ultrapassa o nível do banal, e que, por isso mesmo, a narrativa não tem sustentabilidade nem para uma simples trama. A folha que cai é um acto “vazio” (nem metáfora chega a ser) onde tudo cabe.

Em “El Amo Bueno”, o modelo narrativo é absolutamente idêntico ao da anterior obra (daí que o autor considere que as duas obras façam um díptico): três cães, num quintal de Buenos Aires, fazem um enorme buraco (um autêntico túnel), conseguindo encontrar vestígios de anteriores ocupações daquele lugar. Mais uma vez, partindo de uma circunstância vulgar, Dámian Tabarovsky elabora inúmeras digressões reflexivas sobre a trágica história recente do seu país, sobre o actual estádio do capitalismo, sobre os resíduos em que o neoliberalismo transforma as nossas vidas, e até sobre o lugar da palavra literária em relação ao poder.

Algumas das obras de Dámian Tabarovsky estão traduzidas para francês (publicadas pela Ed. Christian Bourgois), inglês e alemão.

Abril de 2020

Foto do autor de Mauro Rico e Romina Santarelli.