sexta-feira, 20 de março de 2020

ANTHONY DE SA


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

10ª Vinheta


ANTHONY DE SA


Anthony de Sa (1966-) é um escritor canadiano, originário de uma família portuguesa, que nasceu e cresceu no seio da nossa comunidade (a “Little Portugal”) em Toronto. Na última década, publicou dois romances (“Kicking the Sky” e “Children of the Moon”) e uma colectânea de “stories” interligadas (“Barnacle Love”). Aliás, este último livro, o primeiro do autor, foi o que obteve maior sucesso crítico, pois ficou, aquando da sua publicação, na “shortlist” do Scotiabank Giller Prize, um dos mais prestigiados prémios literários do Canadá.

Como é evidente, não é por acaso que toda a produção literária de Anthony de Sa gira em redor de temas, directa ou indirectamente, relacionados com Portugal. Assim, em “Barnacle Love”, debruça-se sobre as motivações que levaram a emigrar para o Canadá a população açoriana, em particular, a necessidade de procurar uma outra vida sem os constrangimentos económicos e sociais das ilhas, sobre as dificuldades de integração num meio social totalmente díspar, e, por último, sobre a sua relação com os filhos, uma segunda geração que tem uma visão do mundo bem distinta e, muitas vezes, conflituosa em relação à dos pais.

“Kicking the Sky”, o seu primeiro romance, também passado na comunidade imigrante portuguesa de Toronto, desenrola-se a partir de um facto real: a violação e o assassinato, nos finais da década de setenta, de um jovem engraxador de origem portuguesa na Baixa da cidade. Como é natural, este caso abalou profundamente a comunidade imigrante, porque, de uma forma brutal, se viu obrigada a confrontar os seus sonhos e a expectativa de uma melhor vida, que a motivaram a emigrar, e a realidade bem crua em que de facto vivia. É esse confronto que vive o narrador do romance (o mesmo António Rebelo, da segunda parte de “Barnacle Love”), um jovem que se habituou a “fugir” dos pais, correndo de bicicleta, com os amigos, pelas ruelas e pátios de Toronto, e que descobre, a meio do percurso formativo da sua adolescência, que há um “mundo” adulto que ele apenas pressente e que se pode tornar profundamente perigoso.

Mas, provavelmente, o romance que justifique maior destaque seja o último, “Children of the Moon”, nem que seja porque o autor decidiu “descontextualizá-lo” da comunidade portuguesa de Toronto. “Inspirando-se em histórias familiares”, o romance situa-se em Moçambique e processa-se no quadro das guerras de libertação e civil que, durante algumas décadas, assolou aquele país. A caracterização dos narradores permite perspectivar alguns dos temas deste romance: Pó, a albina, de origem massai, que, nascida na Tanzânia, se vê obrigada a fugir do ostracismo e da “maldição” que lhe lançam por causa da sua cor de pele, até se encontrar “acampada” num hotel da Beira à espera da morte; Serafim, o jornalista brasileiro, corroído por um passado culpabilizador, que está a realizar uma investigação sobre a segregação do “albinismo” em África e procura recolher o testemunho de vida de Pó; e Ezequiel, o moçambicano, filho de pai português e mãe maconde, que, repudiado por ambas as comunidades, se vê mergulhado, desde jovem adolescente, na brutalidade da guerra, entre guerrilheiros e militares, “salvo” apenas pela sua intensa paixão por Pó, mas que presentemente se encontra em Toronto, a sofrer de demência e de stress pós-traumático, resultantes da sua experiência de guerra. No essencial, tenta-se perceber como o facto de ser marginalizado, mesmo que seja por motivos díspares, pode intensificar as relações entre as pessoas na procura de sobreviver a esse mal-estar e de ganhar um novo sentido para a vida.

O primeiro livro de Anthony de Sa, “Barnacle Love”, foi publicado em Portugal, com o título “Terra Nova”, pelas Publicações Dom Quixote, numa tradução de Maria Eduarda Colares, revista por Maria João Freire de Andrade. Estranhamente (ou talvez não…), apareceu subtítulado de “Romance”.


Março de 2020.

Foto do autor de Matthew Sherwood




sábado, 7 de março de 2020

O ESTADO CHINÊS E A CRIAÇÃO LITERÁRIA








ALGUMAS NOTAS SOBRE O ESTADO CHINÊS E A CRIAÇÃO LITERÁRIA


Uma postura bem comum a alguns leitores ocidentais (incluindo os de Portugal), que sempre me intrigou, é a de, quando abordam a literatura chinesa, considerarem que um escritor, só porque decidiu permanecer na sua terra natal e se sujeitou a aceitar as regras impostas pelo regime político que governa o seu país há várias décadas, deixa de ter interesse, pois inevitavelmente produz uma literatura “domesticada”; e que, por isso mesmo, só interessam os autores “dissidentes” e se estiverem eventualmente no exílio. Não só me perturba essa sobreposição dos critérios políticos aos estritamente literários e estéticos, como não a vejo extensível à obra de escritores que vivem em regimes autocráticos similares, mas de sinal contrário. Além disso, este posicionamento leva ao repúdio liminar de obras de vários autores muito respeitáveis e interessantes, como é o caso de Mo Yan ou Yan Lianke (para apenas referir escritores chineses já traduzidos e editados em Portugal). Não me admira, por isso, no caso dos leitores que conseguem ultrapassar esta atitude preconceituosa, o seu espanto e perplexidade quando descobrem que as obras destes autores veiculam visões claramente críticas em relação aos poderes estabelecidos na China continental.

É indiscutível que na China existe um regime político autoritário que cerceia as liberdades individuais e, por conseguinte, entre outras, as liberdades de criação artística. Por isso mesmo, gostaria que lessem o que vou escrever não como resultante de qualquer atitude de benevolência para com um regime que, mesmo tendo as suas justificações históricas, sociais e económicas, tem um posicionamento político de todo condenável, principalmente quando se constata que hoje a China é a segunda economia mundial e que vive uma prosperidade económica e social como nunca existiu na sua milenar história.

De facto, a postura, que acima referi, não tem em consideração a complexidade e as especificidades da situação sociopolítica chinesa. Veja-se o que se passa, por exemplo, no mundo da edição e da literatura.

Para analisar este assunto, é preciso ter presente as dimensões descomunais da população chinesa, os seus actuais níveis de alfabetização, próximos dos cem por cento, e as suas bem razoáveis taxas de literacia. São estes dados, antes do mais, que fazem com que a China dos dias de hoje seja, em termos mundiais, o segundo maior mercado nacional de livros (logo a seguir aos Estados Unidos) e que seja um dos países que mais compra direitos autorais no exterior.

Este imenso universo determina necessariamente uma maior dificuldade, por parte das entidades estatais, em controlá-lo. E, por isso mesmo, o Estado chinês foi forçado, em particular a partir do massacre da Praça Tiananmen no final do século passado, a tomar algumas medidas que é necessário perceber.

A primeira, é que decidiu abdicar de uma política activa de controle ideológico e estético, impondo espartanas orientações à produção artística e literária, para uma postura mais recuada, isto é, em que se exige apenas aos artistas e escritores que não afrontem directamente o poder político nem as orientações estabelecidas pelo Partido Comunista da China (PCC), dando assim, dentro deste quadro, uma maior liberdade estética e ideológica aos criadores.

A segunda, é que foi obrigado a abrir a edição, a distribuição e a comercialização de livros à iniciativa privada, incluindo aos investidores estrangeiros. Assim, hoje, cerca de metade dos livros editados na China pertencem a empresas privadas, sendo os restantes produzidos por organismos públicos, nacionais e regionais, e por entidades, directa ou indirectamente, dependentes do poder político, como é o caso, por exemplo, das universidades. O mesmo se passa na área da distribuição e comercialização de livros.  

Esta situação levou a reforçar o papel da General Administation of Press and Publication (recentemente transformada na State Administration of Press, Publication, Radio, Film and Television) que não só é a única entidade que pode passar licenças para as empresas privadas poderem editar (ou distribuir e comercializar), seja em que suporte for, como tem o poder de censurar e retirar essa mesma licença, obrigando o editor a abandonar esta actividade. De facto, mais uma vez, o cerceamento da liberdade de criação literária passa pelo condicionamento da edição, como sucede na maior parte dos regimes autocráticos.

Mas é necessário ter em consideração que existe uma expressiva edição de âmbito regional (não existe na China, como sucede em muitos outros países, um circuito nacional, devidamente estruturado, de distribuição de livros), cujo controle é mais difícil de estabelecer, e que existe uma cada vez maior e mais importante edição inteiramente marginal a este sistema, produzida por pequenas editoras locais. Recordo também, para se perceber bem a dimensão deste mercado, que existem mais de 6.000 editoras (incluindo, de forma estimada, as editoras não licenciadas), mais de 220.000 livrarias e que, segundo a associação chinesa de editores, a facturação bruta do comércio livreiro rondou, em 2018, os 55 biliões de dólares…

Mas, obviamente, não é apenas através da edição que se efectua o condicionamento da criação literária. Para se ser autor de obras publicadas pelas editoras estatais ou licenciadas, deve-se, sublinho, deve-se ser associado da poderosíssima China Writers Association (hoje dirigida pela escritora Tie Ning, mas que já foi dirigida por Mao Dun e Ba Jin, autores muito respeitados e considerados na China), organização não-governamental, com cerca de 9.000 associados, que deve orientar politicamente os escritores de acordo com as directivas estabelecidas pelo PCC. Além disso, é esta associação que gere, parece que de forma direcionada e não muito transparente, um dos principais fundos de apoio à tradução e edição de obras de autores chineses no exterior, o que, obviamente, lhe dá um significativo ascendente sobre estes. No entanto, é evidente, que o papel “orientador” da China Writers Association é notoriamente frágil, pois só intervém no caso de obras que ostensivamente afrontam as directivas referidas e que, por isso mesmo, ocasionam “escândalos sociais” e provocam “denúncias” generalizadas.

Percebe-se assim, como referem alguns estudos efectuados sobre a censura no actual regime chinês, que a intervenção dos organismos estatais é apenas indirectamente sobre o “conteúdo” das obras publicadas, visto que a sua preocupação essencial está no “impacto social” das críticas ao poder político que essas obras possam originar – daí que o seu papel censor seja fundamentalmente orientado para a edição. E percebe-se ainda que o estatuto de “dissidentes” de certos escritores, deriva não tanto da sua produção literária, mas principalmente das suas posições cívicas, mais ou menos públicas, de apoio, ou de directa participação, em movimentos insurrecionais, como foi o que ocorreu na Praça Tiananmen, que motiva a acção repressiva e prepotente do Estado, empurrando-os para o exílio ou enviando-os para a prisão.

Neste quadro, há dois factos objectivos e indiscutíveis que podem gerar alguma estranheza para quem observa a literatura chinesa contemporânea a partir do exterior. O primeiro, é que alguns desses autores, com posições críticas em relação aos poderes estabelecidos, viram não só as suas obras premiadas e reconhecidas pelas instituições literárias oficiais, mas eles próprios foram colocados, muitas vezes, em posições relevantes nessas mesmas instituições, ou que tenham sido integrados no corpo docente de diversas universidades ou ainda tenham sido agraciados com doutoramentos “honoris causa”. O segundo, sem dúvida o mais relevante, é que esta posição não estritamente dirigista do Estado chinês possibilitou o aparecimento de várias gerações de escritores que, confrontando activamente, e com riscos, os condicionalismos estatais, produzem obras com uma temática muito diversificada, debruçando-se de forma bastante exaustiva e arrojada sobre os contextos sociais, tanto urbanos como rurais, da China contemporânea, como além disso as elaboram com uma clara dimensão inovadora e experimental, bem longe do convencional “realismo socialista”. Saliente-se, por último, que esta constatação é extensível a outros domínios artísticos e não apenas à literatura. Hoje, cidades, como Xangai, Pequim, Cantão, Yangzhou ou Tianjin, são centros artísticos com uma dinâmica criativa em tudo semelhante às dos grandes centros ocidentais.

Perguntar-me-ão: então porque é que essa realidade não é amplamente conhecida no exterior da China? Ora, essa pergunta é uma das mais prementes e graves que coloca a si próprio o Estado chinês no domínio cultural e que resulta de uma constatação dramática: a de que o enorme ascendente económico e político da China em termos mundiais não tem a devida correspondência na projecção da sua cultura (com excepção de algumas regiões do Extremo Oriente) e que isso está a condicionar gravemente o seu posicionamento no quadro das nações e dos Estados. É evidente que há inúmeras razões para este facto, onde se destacam o ter herdado um Estado imperial (e socialista) fechado e há muitos séculos centrado em si próprio, o de possuir uma língua nacional, o mandarim, com uma grafia complexa e bem distante do alfabeto greco-romano, o que torna difícil afirmá-la como segunda ou terceira língua nos diversos países, e, por fim, o seu actual Estado ter uma má imagem externa, pois é consensualmente considerado como anti-democrático e persecutório. Por isso mesmo, o Estado chinês está hoje fortemente empenhado em inverter esta situação, dispondo-se a efectuar colossais investimentos na projecção da sua língua e cultura. Se o conseguir, e se esta política der os frutos desejados, irá transformar significativamente as relações entre o Oriente e o Ocidente e reconfigurar por completo o presente modelo civilizacional.


Março de 2020




segunda-feira, 2 de março de 2020

JONATHAN RABAN


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

9ª Vinheta



JONATHAN RABAN


Jonathan Raban (1942-) é um escritor inglês, que vive, desde a década de noventa, nos Estados Unidos, e que publicou uma vasta obra, nos domínios do romance, do ensaio e da chamada “literatura de viagens”. Aliás, tem sido neste último género que se tem destacado, tendo escrito alguns livros que já são hoje considerados como clássicos. Neste domínio também, obteve vários prémios, devendo referir-se o National Book Critics Circle Award para Não Ficção (“Bad Land”) e, por duas vezes, o extinto Thomas Cook Travel Book Award (com “Old Glory” e “Hunting Mister Heartbreak”).

A sua obra é habitualmente considerada como fundamental na transformação da “literatura de viagens”, pois abriu-a a novas soluções narrativas, em particular ao conciliar a descrição da paisagem e a observação das pessoas que a habitam, com a sua vivência pessoal e uma constante reflexão sobre a circunstância que está a viver, e ainda com uma análise (sociológica, histórica, etc.) do contexto geográfico onde decidiu viajar. De facto, desde o primeiro livro que deu notoriedade a Jonathan Raban, “Soft City”, publicado em 1974, (que não pode ser considerado um verdadeiro livro de viagens, já que é, no essencial, uma reflexão, de cariz mais sociológico, sobre certas “tribos” urbanas de Londres e sobre a relação entre o homem e a cidade), que já estão presentes todas as componentes que o autor vai desenvolver ao longo da sua obra. Um outro aspecto comum aos seus livros de viagens, e que hoje também já é considerado um modelo clássico neste género, é que, na generalidade dos casos, Jonathan Raban parte de uma “inspiração” literária que o “guia” no percurso a efetuar e sobre o qual irá escrever.

Mesmo tendo escrito e viajado por outras regiões (é o caso de “Arabia Through the Looking Glass” (1979), através do Médio Oriente, ou “Coasting” (1986), em que relata a sua viagem de veleiro em redor da costa da Grã-Bretanha), os livros de viagens mais importantes de Jonathan Raban centram-se no território dos Estados Unidos e na sua população. É o caso de “Old Glory: An American Voyage” (1981), em que relata a sua descida do Mississippi, “Hunting Mister Heartbreak”: A Discovery of America” (1990), em que prossegue a rota dos “pioneiros”, desde os portos europeus, através do continente norte-americano, até à costa do Pacifico, “Bad Land: An American Romance” (1996), onde narra os seus contactos e as vivências de várias gerações de camponeses das regiões despovoadas e isoladas de Montana e do Dakota do Norte, ou ainda “Passage to Juneau: A Sea and Its Meanings” (1999), em que descreve a sua viagem de barco desde Seattle a Juneau.

Mas, no conjunto da sua obra, talvez mereça um maior destaque o livro “Bad Land: An American Romance”. Utilizando documentos históricos, notícias de jornais, memórias, histórias de vida, em particular de pessoas que foi encontrando, ao longo de dois anos em que deambulou por Montana e pelo Dakota do Norte, Jonathan Raban vai não só descrevendo todo o processo de colonização desta região (que se iniciou no princípio do século XX e se prolongou até aos anos trinta), mas também como o governo dos Estados Unidos (através do Homestead Act), ao satisfazer os interesses da ferroviária Milhaukee Road (que necessitava, para s sua rentabilidade, de povoar aquelas regiões), vai ludibriando e atraindo os colonos que, convencidos, por um optimismo ingénuo, de que estavam a ser agentes activos de um grande projecto nacional, esgotam todas as suas economias, deslocando-se para a região e adquirindo algumas parcelas de terra.

 Mas a própria natureza e a diminuta dimensão das parcelas distribuídas vão destruindo as ilusões destes colonos: rapidamente percebem que foram arrastados para a miséria e que o seu sonho de independência, assente na ancestral convicção de que a posse da terra é o seu fundamental suporte, foi um imenso logro. Perante esta situação, só tiveram duas alternativas: desistir do seu projeto, migrando novamente para o Estado de Washington, em particular para Seattle, à procura do sustento para si e para as suas famílias, ou ficar, adquirindo as terras dos que as abandonaram, procurando subsistir, resignados a uma vida medíocre, e procurando soluções alternativas ao cultivo da terra, como, por exemplo, um fictício turismo. A paisagem que fica, e que Jonathan Raban literariamente retrata, é apenas o “desperdício” desse sonho colectivo: casas abandonadas, fazendas despovoadas, estradas que não vão a lado nenhum, estacas e arame farpado a delimitar propriedades que já ninguém explora nem deseja. Uma “bad land”.

A obra de Jonathan Raban está amplamente traduzida para francês e alemão, assim como existem alguns títulos seus em espanhol e em italiano.


“Bad Land” foi traduzido e editado para português, na década de noventa, com o título de “Terra Madrasta”. A edição foi da Quetzal Editores e a tradução, de elevada qualidade, de José Lima. Segundo declarações recentes da editora, a obra “passou completamente despercebida”.

Março de 2020.

Desconheço a autoria da foto do escritor.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

PEDRO ROSA MENDES



Pedro Rosa Mendes: “O Horror, esse lugar que ninguém queria admitir.”


Acabei agora de ler “Baia dos Tigres”.

A “arte combinatória”, que orienta as minhas leituras, fez com que lesse o conjunto da obra de Pedro Rosa Mendes ao contrário; isto é, do fim para o princípio, começando pelo seu último livro e acabando no primeiro. Mas não foi intencional, note-se; apenas sucedeu.

“Baía dos Tigres” é de facto a melhor obra de Pedro Rosa Mendes. Até aqui nada de novo, pois uma boa parte dos leitores e analistas portugueses também assim pensa; basta recordar as recensões elogiosas que teve, os prémios que obteve, e os números das vendas que conseguiu. E, porque não?, também as traduções e edições que teve no estrangeiro. É certo que alguns leitores dividem-se e também consideram o seu último livro, “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, de forma muito positiva, pois teve um muito bom acolhimento crítico e também foi premiado. Mas sinceramente não considero este romance tão conseguido como a sua primeira obra.

As razões desta minha preferência são fáceis de enunciar. A primeira, é porque considero este livro como um dos melhores sobre o tenebroso inferno em que se transformou a vida no interior de Angola e de Moçambique (mas principalmente da primeira), em consequência da guerra colonial e da guerra civil porque estes países passaram. E o valor deste testemunho não está apenas na narração das situações que estas guerras geraram, mas muito mais no poder expressivo com que essas situações são narradas em “Baía dos Tigres”. O trabalho sobre a língua de Pedro Rosa Mendes dá uma notável intensidade trágica a esta matéria, fazendo realçar a dimensão épica de um povo anónimo e sem voz. Realmente, desconheço na literatura portuguesa páginas que retratem de forma tão brutal e eloquente as dimensões mais inadmissíveis e intoleráveis da existência em que viveu (e ainda vive) grande parte da população angolana. Ao ponto de ser natural interrogarmo-nos sobre a dimensão que existe neste livro de reportagem e aquela que reporta já para a ficção e para o romance (“O Horror, esse lugar que ninguém queria admitir.”).

De facto, a capacidade expressiva de “Baía dos Tigres” consegue, para além de tudo, contagiar-nos com o medo e o cansaço do narrador-viajante, a sua compaixão e revolta pelas “desgraçadas” vítimas da fome e da guerra com que se cruza, a imundice e a destruição que o rodeia por todo o lado. Porque as inquestionáveis competências do autor como repórter permitem-lhe atingir diversos registos, alternando o tom, entre o humor amargurado e a mágoa, em que as situações são narradas, dando uma objectiva vivacidade que estimula o leitor a seguir aquele rosário de personagens, muitas vezes tingidas de um absurdo burlesco.

A segunda, é que, quando esta obra apareceu nos finais da década de noventa, não era muito comum, na literatura portuguesa contemporânea, pelo menos em forma de livro, a existência de obras de literatura de viagens/reportagens com esta qualidade literária. Ora, “Baía dos Tigres” permitiu chamar a atenção para esta lacuna e, a partir desta obra, começaram a aparecer muitos mais livros de viagens redigidos pelos nossos autores. Não quero dar a entender que haja uma mecânica causalidade entre o aparecimento deste livro e esta alteração do panorama literário português, mas este facto parece-me de ponderar.

Creio que estes elementos bastariam para transformar “Baía dos Tigres” num marco importante na recente literatura do nosso país. A única objecção que lhe coloco, e que é comum às restantes obras de Pedro Rosa Mendes, é que não é ininteligível a estrutura que encaminha a narrativa, dando nexo às diferentes situações descritas. Essa “falha”, na minha opinião, também é notória em “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”; só que, neste caso, que é um romance, tem um peso muito maior do que numa obra de literatura de viagens. Aliás, diga-se de passagem, esta aparente inexistência de uma arquitectura é bem comum a muitos livros de viagens, dando a ideia de que os autores consideram que o “roteiro”, que motivou a obra, lhes basta; sucede, no entanto, que, em “Baía dos Tigres”, o autor optou, na minha opinião de forma correcta, por não seguir narrativamente a sequência dos locais da viagem; mas, por outro lado, também não é claro o que em alternativa fundamentou a presente ordenação das narrativas.  

Por último, gostava de assinalar mais duas reflexões que a leitura desta obra me suscitaram.

Não interessa as circunstâncias, mas tomei conhecimento de “Baía dos Tigres” ainda em forma de projecto. E já na altura considerei, nessa condição, como muito, mas mesmo muito, interessante. Saliente-se que o livro, como resultado desse projecto, falhou. Mas ainda bem, porque a obra publicada revela-se muito melhor do que a que poderia gerar a enunciação do projecto. O que permite chegar a uma curiosa conclusão: é que um bom projecto tem quase sempre em germe um bom livro, mesmo que resulte em moldes muito diferentes daquilo que foi previsto.

A última obra publicada de Pedro Rosa Mendes, o já referido “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, foi em 2010. A partir daí, o autor não publicou mais nenhum livro. É evidente que desconheço as razões pessoais que originam esta situação. De facto, não tenho a honra nem o gosto de me considerar amigo de Pedro Rosa Mendes, pois, ao longo dos anos, só nos cumprimentámos, e trocamos algumas palavras, uma meia dúzia de vezes. Mas recordo uma entrevista que o autor deu, quando recebeu, com este seu último livro, o Premio PEN de Narrativa, em que afirmava esperar que, tal como a crítica tinha gostado do romance, o público também gostasse e que isso se reflectisse em livros vendidos. Não sei quais foram as vendas de “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”; mas talvez seja significativo (pelo menos, no nosso país, onde as tiragens baixas, permitem realizar mais do que uma edição) que a obra tenha tido uma única edição.

Por outro lado, recordo que Pedro Rosa Mendes, para além de escritor, foi um brilhante jornalista e que efectuou algumas reportagens particularmente importantes na nossa comunicação social. A clareza com que expunha a matéria jornalística e a coragem com que afrontava as situações e os poderes estabelecidos, tornaram-no num dos nossos jornalistas mais respeitados. Nos últimos anos, no seguimento de outros trabalhos jornalísticos, Pedro Rosa Mendes informou e deu notícia, de forma quase obsessiva, sobre a situação angolana (o que não admira, depois de ter “vivido” e escrito um livro como “Baía dos Tigres”), denunciando a incompetência e a corrupção dos poderes políticos e económicos daquele país. No momento em que os poderes políticos e económicos tratavam com complacência, para não falar de cumplicidade, a situação angolana, argumentando com absurdas razões tácticas, Pedro Rosa Mendes era das poucas vozes públicas em Portugal que afrontava essa situação e a denunciava, expondo-se a processos judiciais (que sempre ganhou) e a ameaças de toda a ordem. O resultado, recordo, foi o que se sabe: nos inícios de 2012, cancelaram o programa na Antena 1, onde mantinha uma crónica, segundo notícias públicas, por criticar frontalmente a realização de um programa da RTP 1 a partir de Angola, e depois de, já em 2011, a agência Lusa ter encerrado o seu lugar de correspondente em Paris (de acordo com informações da altura, porque era muito dispendioso). Em resumo, conseguiu-se silenciar Pedro Rosa Mendes, deixando-o sem trabalho e sem acesso ao seu público.

Hoje, depois do “Luanda Leaks”, em que se tornou admissível, de bom-tom, e até louvável, acusar Isabel dos Santos e a sua família (que, durante quarenta anos, assinale-se, “imperou” em Angola) de corrupção, de enriquecimento obscuro e de dar cobertura a outros “clãs” que obscenamente enriqueceram com a exploração das riquezas do seu povo, deixando-o na mais brutal miséria, é de toda a justiça recordar o trabalho e a figura de Pedro Rosa Mendes.

Quanto ao autor, nada sei dele. Segundo parece, desistiu do jornalismo, da literatura e possivelmente do país. Ou estarei enganado? Se for o caso, e perante os trabalhos que realizou, como é o caso de “Baía dos Tigres”, tem que se reconhecer que é profundamente lamentável e uma grande perda.     

Fevereiro de 2020.

Desconheço a autoria do foto do escritor.



sábado, 15 de fevereiro de 2020

JONA OBERSKI


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


8ª Vinheta




JONA OBERSKI


Jona Oberski (1938-) é um escritor holandês, filho de uma família judia alemã que fugiu para a Holanda, poucos anos antes da II Guerra Mundial se iniciar. Nos anos setenta do século passado, começou a publicar prosa narrativa e tem até hoje três livros editados. É formado em física nuclear.

Mas, sem sombra de dúvida, o que distingue Jona Oberski é o seu primeiro livro, de cariz autobiográfico, “Kinderjaren” (na versão inglesa, “Childhood”), entre livro de memórias e romance, publicado pela primeira vez em 1978. Para além da sua qualidade literária,  o que é mais relevante nesta obra é a sua dimensão de testemunho sobre o universo concentracionário dos campos nazis, feito a partir do olhar de uma criança.

De facto, Jona Oberski, com a idade de dois anos, foi deportado, com a sua família, para o campo de Westerbork, e depois, para o de Bergen-Belsen. Aqui esteve detido durante três anos, onde viu morrer o seu pai de fome e a sua mãe enlouquecer de dor.

A sorte de Jona Oberski é que, passado esse tempo, foi deportado, com a mãe e uma tia, para Auschwitz e que o comboio, que o transportava, foi bombardeado por um avião russo, descarrilando e permitindo a sua fuga para uma pequena aldeia ainda na Alemanha, onde conseguiu sobreviver até ao final da guerra.

Os méritos particulares de “Kinderjaren” derivam não só de ser o “olhar” de uma criança para a situação de guerra e para a existência no campo de concentração, mas também porque a própria narrativa procura acompanhar a inteligibilidade que ela tem deste universo, entre a perplexidade e o medo, tornando-se fragmentada, ilusória, sujeita à mediação e à segurança que lhe são transmitidas pelos adultos. Por outro lado, o autor procura sempre expressar, com nitidez, a interpretação que uma criança de tenra idade (o protagonista tem sete anos quando o livro termina) faz das situações trágicas e inimagináveis que está a viver, e essa atitude narrativa transmite a esta obra uma dimensão de verosimilhança que, em termos literários, é a sua principal componente expressiva.  

“Kinderjaren” foi traduzido para inglês, francês, espanhol, alemão e italiano.


Fevereiro de 2020




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

PETER NÁDAS


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

7ª Vinheta



PETER NÁDAS

Peter Nádas (1942-) é um escritor húngaro, de origem judia, considerado actualmente como um dos mais importantes autores europeus, que se tem dedicado à produção narrativa, ensaística e dramatúrgica, além de ser um grande apaixonado pela fotografia. Foi galardoado com vários prémios húngaros e europeus (recordo, entre muitos, o Österreichischer Staatspreis für Europäische Literatur/Austrian State Prize for European Literature, o Prix du Meilleur Livre Étranger e o Franz Kafka Prize) e foi nomeado por diversas vezes para o Prémio Nobel de Literatura.

Integrando uma das mais robustas literaturas europeias contemporâneas (recordo, para situar, os nomes de Tibor Déry, Sándor Márai, Péter Esterházy, György Konrád, Imre Kertész ou de László Krasznahorkai, para apenas referir os mais conhecidos no exterior da Hungria), Peter Nádas tem uma vasta obra, difícil de caracterizar, pois passou por diversas fases e centros de interesse. No entanto, pode afirmar-se que ela se caracteriza por uma reflexão muito peculiar sobre o fluir do tempo e da História e na sua acção sobre os destinos individuais e nas opções mais intimas e pessoais e ainda por uma constante desconfiança em relação ao papel dos podres públicos sobre a vida das pessoas - sendo esta posição de Peter Nádas resultante de ter vivido boa parte da sua existência sob o regime comunista húngaro. Por último, convém salientar que toda a sua obra reflete um registo de exigência moral para com a vida (a sua e a dos outros) de que resulta a necessidade de uma posição clara e inequívoca em termos políticos.

Há, no conjunto da sua obra narrativa, principalmente composta por novelas, curtos romances e textos de carácter mais autobiográfico, quatro romances que se destacam nitidamente (os títulos aqui apresentados são da sua versão inglesa): “The End of a Family Story” (edição original de 1977), “A Lovely Tale of Photography” (1999) e os monumentais “A Book of Memories” (1986) e “Parallel Stories” (2005), este último uma trilogia a que o autor dedicou cerca de dezoito anos.

“A Book of Memories”, como o título pretende assinalar, é um romance sobre o peso da memória no quotidiano e o seu estatuto no devir do eu como entidade unívoca. Sempre escrito na primeira pessoa, “A Book of Memories” é um conjunto de três narrativas encadeadas: a primeira, de uma personagem anónima, narra a infância e a adolescência de um jovem sob o regime estalinista húngaro e da sua incapacidade em atingir a plenitude intelectual e afectiva nesse contexto; depois, ainda na mesma narrativa, salta-se para a Berlim dos anos oitenta, onde o mesmo jovem, agora adulto, entre relações amorosas tempestuosas e intensas, procura escrever uma biografia de um escritor alemão, dos finais do séc. XIX e inícios do séc. XX, chamado Thomas; a segunda narrativa tem esta personagem como protagonista e narra a sua vivência quotidiana, feita de boémia e experimentação sensorial, característica dos meios modernistas, na passagem do século na Europa Central; a terceira narrativa tem como protagonista um amigo/amante do primeiro narrador, que herdou o manuscrito da biografia, e que regressa à tentativa de compreender, numa diferente perspectiva, a experiência de viver sob o regime comunista. Convém, por último, salientar que os críticos, resultante da sua complexidade filosófica, da densidade da análise psicológica e pelo seu sentido de observação, consideram esta obra muito devedora da narrativa proustiana e que, pela ambição de transmitir uma visão global do homem e da sociedade, está na linha das obras de Robert Musil e de Hermann Broch. É justificável assinalar ainda que Susan Sontag considerou “A Book of Memories” como “o mais importante romance escrito no nosso tempo (está a referir-se aos anos oitenta) e um dos maiores do séc. XX”.

 “Parallel Stories” é uma obra gigantesca que retrata o percurso de centenas de personagens durante o séc. XX na Europa Central, a partir de três protagonistas, amigos na década de sessenta, mas cujo passado, e mesmo o seu futuro, pouca relação têm entre si (o romance, em termos de arco temporal, vai desde os anos vinte aos anos oitenta), mas cuja existência reflete bem as mutações de mentalidade e de comportamento social e político que se processaram no séc. XX, tanto na Alemanha como na Hungria (mas o livro estabelece conexões com outras regiões da Europa Central e Oriental). Segundo o próprio autor afirmou, sentia necessidade de escrever este romance porque “A Book of Memories” tinha sido escrito sob o regime comunista, e com este, elaborado em maior liberdade, poderia clarificar as suas posições e explicitar certas situações que tinha omitido (como a perseguição dos judeus, os campos de concentração, e a própria II Grande Guerra) ou atenuado o seu relevo no anterior livro.

Neste sentido, talvez seja de assinalar que Peter Nádas dá muita importância à observação e ao pormenor, principalmente sensorial, que se tornam mais determinantes na obra do que a própria sucessão interminável (e que parece poder continuar indefinidamente) de situações que constituem a trama de elevada complexidade de “Parallel Stories”. Daí o enfâse na componente física, corpórea, das personagens (o autor costuma assinalar nas suas entrevistas que considera o corpo o centro de tudo), e o sentido que tem a descrição das emoções eróticas, que o autor analisa com uma minúcia quase clínica, para compreender as motivações e opções sociais das suas personagens.

As suas obras têm sido amplamente traduzidas em inglês, francês e alemão e também em espanhol e italiano.


Fevereiro de 2020

Foto do autor de Gábor Valuska





sábado, 8 de fevereiro de 2020

ANN-MARIE MACDONALD

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

6ª Vinheta



ANN-MARIE MACDONALD


Ann-Marie MacDonald (1958-) é uma escritora canadiana que se tem destacado pelo seu trabalho dramatúrgico (obteve vários prémios com esta sua actividade criativa, incluindo o Governor’s General Award com a sua peça “Goodnight Desdemona”), como guionista e actriz, mas também por ter escrito três romances muito bem recebidos pela crítica e pelos leitores (“Fall on Your Knees”, 1996, “The Way the Crow Flies”, 2003, e “Adult Onset”, 2014).


Os romances desta autora centram-se no núcleo familiar e nos conflitos, ocultações, ambiguidades e traumas que se tecem no seu seio. E, assim, Ann-Marie MacDonald tanto se tem debruçado sobre as repercussões dos comportamentos nefastos dos seus membros nas relações intergeracionais, e cujos efeitos podem durar décadas e décadas (“Fall On Your Knees”), ou sobre as conexões difíceis, culpabilizadas e dolorosas que a família mantem com a sua envolvência (“The Way the Crow Flies”) ou ainda sobre o mal-estar gerado entre a maternidade e os projetos pessoais (“Adult Onset”). Mas sempre com estruturas narrativas muito complexas e trabalhadas, com inúmeras recorrências temporais, tramas elaboradas e sinuosas, um grande sentido de observação, diálogos bem contextualizados e peculiares (não fosse esta escritora uma notável dramaturga…), num estilo que concilia dramaticidade, lirismo e um suave fio de humor. Além disso, como as personagens principais são retratadas de uma forma global, incluindo as suas imperfeições e fragilidades, a autora consegue gerar no leitor uma sensação de mal-estar, pois este sente-se constantemente a balançar entre o repúdio e a empatia. Por último, duas notas mais para caracterizar a sua obra: há sempre, nos seus romances, alusões autobiográficas (como se partissem delas as construções romanescas) e uma ambiência que remete, como uma reminiscência, para a obra de Margaret Atwood (em particular, para o magnífico romance “Cat’s Eye”) e para as trilogias de Robertson Davies.


A obra que mais merece ser destacada (até porque hoje já é considerada um clássico da literatura contemporânea canadiana) é “Fall On Your Knees”, o seu primeiro romance, publicado em 1996. Esta obra é um romance histórico (como, de certo modo, também o é o romance seguinte, “The Way the Crow Flies”), que decorre desde o início do séc. XX, em Cape Breton Island (e a paisagem desta ilha, descrita entre o sombrio e o mágico, é determinante para a caracterização das personagens e do enredo romanesco), e os anos vinte e trinta do mesmo século, em Nova York, e que narra o percurso de James Piper, um homem perturbado pelas suas obsessões, e da família que constitui, composta pela sua mulher (que, quando vai viver com ele, é ainda uma criança) e pelas suas três filhas.


No essencial, pode afirmar-se que o romance divide-se em duas partes: uma primeira, em que a entidade determinante é a figura paterna, o referido James Piper, e a sua acção nefasta sobre a mulher e as filhas, até que, depois da sua participação voluntária na I Guerra Mundial e do encadeamento de sucessivas mortes familiares (o falecimento, por parto, da sua primogénita, e da consequente morte, por acidente, de um dos gémeos filhos desta, e, por fim, da sua própria mulher), aquele se transforma numa sombra de si próprio, num espectro, ruído de culpas; uma segunda, em que a acção determinante se estabelece entre as irmãs que sobreviveram, em parte na sua ânsia de redimir e dominar a figura traumática do pai e de um passado que as persegue como uma verdadeira assombração. Pelo meio, num enredo repleto de segredos, mentiras, equívocos e peripécias imprevistas, vão aparecendo situações de relações incestuosas, interraciais, homossexuais, e de prostituição, até que toda a teia destas existências traumatizadas se vai definindo e clarificando, com o papel apaziguador do tempo, terminando o romance, como nas tragédias shakespearianas, com a serenidade possível para as gerações futuras.


A sua obra narrativa está traduzida para francês, espanhol, alemão e italiano.


Fevereiro de 2020


Foto da autora de Arlen Redkop