sexta-feira, 19 de junho de 2020

ARTO PAASILINNA


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

16ª Vinheta


ARTO PAASILINNA


Arto Paasilinna (1942-2018) é seguramente o escritor finlandês mais conhecido em todo o mundo, tendo a sua obra atingido esse pico de popularidade (e de vendas) nas duas últimas décadas do séc. XX. De facto, mesmo sendo um “campeão” de vendas no seu país, foi no exterior da Finlândia que ela granjeou a sua projecção, principalmente em França, onde é muito apreciada e respeitada.

Nascido na Lapónia, de uma família pobre e muito numerosa, Arto Paasilinna foi obrigado na sua infância, em consequência das guerras soviético-finlandesas, a sucessivas deslocações pelo norte da Finlândia. Tendo o pai morrido ainda o escritor era uma criança, o escritor teve uma formação quase apenas autodidacta e, por lhe terem reconhecido capacidades redactoriais, ainda muito novo começou a trabalhar nos jornais, onde se manteve durante uma década. Depois de publicar o seu primeiro romance em 1973, decidiu dedicar-se em exclusivo à actividade de romancista. Com o seu terceiro romance publicado, em 1975, cujo título, em inglês, é “The Year of the Hare” e, em francês, “La Lièvre de Vatanen”, obtém um enorme sucesso, tanto no seu país como no estrangeiro (ainda hoje é o livro mais famoso do autor), o que lhe garante definitivamente a sua vida como escritor. A partir dessa altura, e até 2009, ano em que teve um acidente vascular cerebral, publicou todos os anos um novo romance. O conjunto da sua obra ascende, por isso, a mais de uma trintena de romances, e ainda a várias colectâneas de contos e obras de temática diversa.

Porém, se a sua obra foi um inquestionável sucesso de público e de leitores, já não se pode afirmar que a crítica tenha sido tão unanime e consensual na defesa das suas qualidades literárias.

Creio, antes do mais, porque Arto Paasilinna é encarado como um humorista e que a sua obra, por vezes, carrega em excesso na componente caricatural das suas personagens. Este elemento estratégico da narrativa é tão acentuado, em detrimento de todos os outros, que provoca no leitor a ideia de que Arto Paasilinna é apenas um autor cómico. Em segundo lugar, porque a maior parte das suas obras realça, no essencial, um único tema: as incapacidades de um homem de classe média, urbano, em (sobre)viver. Inadaptadas, insatisfeitas com as imposições da sociedade de consumo, as personagens de Arto Paasilinna estão em constante “fuga”: ou se suicidam, ou deambulam perdidas e sem sentido, ou, por fim, escapam-se para o meio rural, em particular para a floresta finlandesa. Por isso, grande parte das tramas destes romances caracterizam-se por este “on the road”, tornando-se a viagem, e as peripécias consequentes, um elemento determinante. Em contraste, o mundo rural é apresentado como rude, por vezes com tónicas absurdas e quase irrealistas, mas onde as relações, mesmo sendo por vezes desconfiadas e hostis, se tornam gradualmente de uma grnuína franqueza e mais adequadas às necessidades existenciais de comunicação. Em terceiro lugar, porque as suas personagens aparecem com características muito semelhantes de livro para livro: os homens são sempre rudes e inadaptados e as mulheres seres egoístas, manipuladores, mas também muito inconsequentes.

Porém, deve ser realçada, como componente positiva, a diversificada crítica social, tocando um amplo conjunto de problemas comuns às actuais sociedades urbanas. Por outro lado, é também de destacar a relevância dada à floresta finlandesa como elemento interagente com as personagens, particularmente bem descrita e viva. Aliás, há uma componente muito relevante de fábula nos romances de Arto Paasilinna, onde, muitas vezes, os animais falam e se relacionam com os humanos. Em terceiro lugar, mesmo sendo o humor a tonalidade narrativa mais relevante na sua obra, há, inúmeras vezes, um “olhar” enternecido e condoído sobre as inadaptações das personagens. Por último, e provavelmente a mais relevante, há indiscutivelmente uma enorme capacidade criativa em Arto Paasilinna na elaboração de tramas e na arquitectura das situações narradas, atingindo uma dimensão surrealizante e absurda. É esta capacidade, associada a uma inquestionável fluidez narrativa, que tornam as suas obras acentuadamente agradáveis de leitura e justificam o seu sucesso.

No conjunto da sua obra, parece-me ser de destacar os seguintes romances: “Paratiisisaaren vangit” (na versão francesa, “Prisioners de l’île paradisiaque”), 1974, o já referido “Jäniksen vuosi” (na versão inglesa, “The Year of the Hare” e, em francês, “La Lièvre de Vatanen”), 1975, “Ulvova mylläri” (na versão inglesa, “ The Howling Miller”, na versão francesa, “Le Meunier hurlant”), 1981, Hirtettyjen kettujen metsä” (na versão francesa, “La Fôret des renards pendus”), 1983, “Hurmaava joukkoitsemurha” (na versão francesa, “Petits suicides entre amis”), 1990, e, por último, para evidenciar alguma obra da fase final da produção narrativa de Arto Paasilinna, “Kymmenen riivinrautaa” (na versão francesa, “Les Dix Femmes de l'industriel Rauno Rämekorpi”), 2001.

Das obras referidas, provavelmente a mais equilibrada e significativa seja “Ulvova mylläri” (na versão inglesa, “ The Howling Miller”, na versão francesa, “Le Meunier hurlant”). O romance, ocorrendo nos anos imediatos ao fim da II Guerra Mundial, quando a personagem principal, Gunnar Huttunen, depois de abandonar o exército, após a guerra da Lapónia, aparece numa aldeia rural no norte da Finlândia, com o fito de reconstruir um velho moinho. Hábil e metódico, conseguiu restaura-lo e inicialmente esse sucesso, associado à sua postura afável e ao facto de ser um animado contador de histórias, fez com que fosse bem acolhido pelos aldeões e até conseguisse seduzir a conselheira rural da terra… Só que Gunnar, entre outras pequenas bizarrias comportamentais, tinha um defeito perturbador: à mais pequena contrariedade, necessita de ir uivar como um lobo para o meio da floresta, acossando os cães e incomodando toda a aldeia. É esse defeito que leva os vizinhos a expropriar-lhe o seu moinho e a propor (e conseguir) que seja internado num hospício psiquiátrico, o que o obriga a esconder-se na floresta e a iniciar uma verdadeira “guerra” com os aldeões que, em crescendo, vai assumir contornos verdadeiramente grotescos e absurdos.

Esta parábola permite a Arto Paasilinna não só efectuar um verdadeiro libelo contra os comportamentos sociais intolerantes com a diferença, salientar como é ténue a pelicula que separa a loucura da normalidade e satirizar as posturas comunitárias que rapidamente se transformam, desde que vagamente afrontadas nas suas normas, em interesseiras, mesquinhas e corruptas.

A obra de Arto Paasilinna foi amplamente traduzida e editada em francês, alemão, italiano e espanhol.

No nosso país, editados pela Relógio d’Água, foram publicados os seguintes romances: “A Lebre de Vatanen” (“Jäniksen vuosi”), traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e revisto por Frederico Sequeira; “Um Aprazível Suicídio Em Grupo” (“Hurmaava joukkoitsemurha”), traduzido por Merja de Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares e revisto por Frederico Sequeira; e “As Dez Mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi” (“Kymmenen riivinrautaa”), traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e revisto por Júlia Ferreira e Inês Achega Leitão.   

Junho de 2020

Foto do autor de Martii Kainulainen



segunda-feira, 25 de maio de 2020

EMILE HABIBI


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

15ª Vinheta

EMILE HABIBI



Emile Habibi (1922-1996) é um escritor palestiniano, de nacionalidade israelita. E neste simples enunciado está grande parte do destino deste militante e escritor.

Logo após a Declaração de Independência de Israel e a guerra israelo-árabe que lhe sucedeu, Emile Habibi, já como dirigente do Partido Comunista da Palestina, decidiu permanecer em Israel, obter a sua nacionalidade e, a partir do interior, defender a causa palestiniana. Como figura pública, defendeu o Plano da ONU para a existência de dois Estados (Palestina e Israel), posição que lhe gerou hostilidades de ambos os lados, tanto árabe como israelita. Mais tarde, protagonizou a luta para que o Estado de Israel se tornasse um estado laico, democrático e multiétnico e foi com esta posição que contribuiu para a criação do Partido Comunista de Israel (que, durante muitos anos, foi o único partido que integrava, como militantes, palestinianos e israelitas) e que foi eleito como deputado para o Knesset (o órgão legislativo de Israel), onde se manteve mais de vinte anos.

Emile Habibi começou a publicar romances e novelas já tardiamente (a edição da sua primeira obra data de 1968), mas rapidamente se tornou, com Mahmoud Darwich na poesia, um dos autores mais relevantes da literatura palestiniana. De facto, mesmo tendo escrito alguns contos, a prioridade deste escritor foi, no contexto histórico que vivia o seu povo, a actividade política e jornalística, centrando-se só no final da sua vida na produção literária. O conjunto da sua obra é constituído, fundamentalmente, por cerca de meia dúzia de romances e uma peça de teatro, e foi premiado não só pela OLP como pelo Estado de Israel: recebeu o Israel Prize, tendo sido até hoje a única vez que foi outorgado a um palestiniano. Aliás, o facto de lhe ter sido concedido este prémio, e de o autor o ter aceite, foi fortemente criticado tanto por palestinianos como por israelitas (na altura, Emile Habibi argumentou, em defesa da sua posição, que a concessão deste prémio poderia ser uma forma de aproximar os dois povos e, em resposta a estas críticas, resolveu oferecer a verba pecuniária a instituições que apoiavam as crianças vitimas da Intifada).

A conjuntura social e política que vivia o seu povo, levou-o a considerar que era inevitável, para a sua sobrevivência, a luta política e, por isso não admira que a sua obra literária se centre na defesa da sua causa.

A sua obra caracteriza-se pela utilização sistemática da sátira e da ironia. Segundo os especialistas, este humor negro desabrochou no autor em consequência da Guerra dos Seis Dias, e da aparatosa (e humilhante) derrota árabe, e tornou-se uma forma de afrontar e procurar dar algum sentido ao desespero palestiniano. De facto, a sua obra debruça-se sobre o quotidiano contraditório e absurdo da população palestiniana, tanto a que permaneceu no território israelita como a que se refugiou nos países limítrofes. Mas, para além deste aspecto, vai também procurar realçar, através da literatura, a identidade cultural palestiniana, para que este povo, numa fase particularmente esgarçada e destroçada da sua história, reforce a sua autonomia como nação (recorde-se que alguns dirigentes israelitas, marcadamente sionistas, defendiam que os palestinianos não tinham identidade, pois não tinham uma cultura nem uma literatura própria, e que a Guerra do Seis Dias era uma definitiva derrota da sua causa como nação, pois que eliminara a hipótese de eles construírem um património identitário).  

Os livros de Emile Habibi que é habitual destacar (apresenta-se os títulos em inglês) são a colectânea de contos “The Sextet of Six Days” e os romances “The Strange Circumstances Surrouding the Disappearance of Sa’id Abu’l-Nahs, the Pessoptimist”, “Shame” e “Daughter of the Ghoul” (que em França foi intitulado “Soraya, fille de l’ogre”).

Mas, nem que seja pelo sucesso mundial que obteve, a obra que é a maior referência, no conjunto da produção literária deste autor, é “The Strange Circumstances Surrouding the Disappearance of Sa’id Abu’l-Nahs, the Pessoptimist”. E esse sucesso foi tal que, como sucede muitas vezes, obliterou os restantes títulos, ao ponto de, para o comum dos leitores, parecer que Emile Habibi é o autor de um único livro.

“The Pessoptimist”, como é habitualmente referenciado, é um romance epistolar de um palestiniano que escreve a um professor israelita, e onde se vai aludindo, através da história reinventada, com um humor sardónico e surrealizante, do próprio narrador, a história recente do seu povo, e como, ao longo do tempo, este vai variando entre os sentimentos de não existir (de desaparecer), que procura impor quem o oprime, e o de ser maior e superior ao opressor, porque, apesar das perseguições e do repúdio, consegue sobreviver e amar (as três partes em que se divide a obra têm o nome de diferentes mulheres por quem o narrador se apaixona e que, de certo modo, corporizam o desejo de reconhecimento e felicidade que o povo palestiniano procura).

Existem obras de Emile Habibi traduzidas para inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. Em Portugal, “The Pessoptimist” foi traduzido (provavelmente a partir do francês) por António Belmiro Guimarães, e publicado pela Ed. Caminho, com o título “As Estranhas Circunstâncias do Desaparecimento de Saíd Abu Nahs, o Optissimista”.  

Maio de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


quarta-feira, 13 de maio de 2020

FULVIO ABBATE



OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

14ª Vinheta



FULVIO ABBATE


Fulvio Abbate (1956-) é um caso peculiar no contexto das letras italianas. Porquê? Porque este escritor siciliano é, antes do mais, um comunicador e um agitador. Como jornalista, depois de um período como redator num jornal de Palermo, foi, durante quase duas décadas, colunista de L’Unitá; a seguir, com bastante regularidade, participou em diversos programas de televisão, como comentador da vida política italiana, ao mesmo tempo, que mantinha um programa próprio num canal por cabo; por fim, decidiu passar esse programa para o YouTube.

Depois de romper com o PC italiano, que considerava demasiado conservador, começou (?) a defender posições anarquistas e fundou no seu país o movimento Situazionismo e libertà. É membro do College de Pataphysique. Grande admirador de Pasolini, a quem dedicou alguns livros e uma investigação jornalística para deslindar os reais motivos da sua morte, tem-se também centrado, em diversas revistas e jornais, à análise e estudo das obras de alguns dos principais artistas plásticos de vanguarda.

Como romancista, já publicou, desde o início dos anos noventa, mais de meia dúzia de obras. Os temas vão desde Palermo e o seu entusiasmo adolescente pelo comunismo (“Zero maggio a Palermo”), à Itália actual, mergulhada num ininterrupto “caldo” televisivo (“Oggi è un secolo”), às “articulações” entre a Itália fascista e o presente (“Dopo l’estate”), ao delírio revolucionário dos anos setenta e oitenta (“Quando è la rivoluzione”), etc. Inclassificável, forte satirista (um dos seus romances chama-se “La peste bis”, uma espécie de paródia pós-moderna do romance de Albert Camus), reconhece-se que Fulvio Abbate tem, entre o humor e o lirismo, um estilo bem peculiar, com uma forte componente experimental. Por fim, infletiu de novo na sua produção narrativa, centrando-se num modelo que desliza da autoficção para um “delírio autobiográfico”, onde integra a história cultural italiana com fantasias, os mitos da cultura popular e os seus anseios como homem e cidadão (Intanto anche dicembre è passato”, “La peste nuova” e “I promessi sposini”).

Infatigável, Fulvio Abbate continua a diversificar-se por inúmeras actividades, tendo publicado vários livros sobre a sua Palermo natal, sobre Roma e, como já se referiu, sobre Pier Paolo Pasolini.

“LOve”, uma das suas últimas obras, é, mais uma vez, inclassificável: romance, autobiografia, tratado, manual, é tudo isto ao mesmo tempo, fazendo uma espécie de peregrinação por lugares, pessoas, momentos, emoções, em resumo, apresenta-se como uma espécie de “suma” dos afectos que lhe calharam em destino…

Saliente-se também que fez a introdução à edição italiana de “O Banqueiro Anarquista” de Fernando Pessoa.  

Desconheço a autoria da foto do escritor.


sábado, 18 de abril de 2020

DONG XI

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

13ª Vinheta


DONG XI


Dong Xi (1966-) é um escritor chinês que, desde os finais dos anos oitenta, tem publicado uma significativa obra narrativa, principalmente nos domínios da novela (onde se tem mais destacado), do conto e do romance. No entanto, foi apenas quando o seu trabalho narrativo foi adaptado ao cinema e à televisão (em que o próprio escritor participou) é que passou a ser reconhecido a nível nacional. Saliente-se que, desde a década de noventa, Dong Xi é escritor profissional e, como tal, membro da Associação de Escritores da China, tendo ganho, ainda nessa década, com uma novela (“Life Whitout Language”, na versão inglesa e “Une vie de silence”, na versão francesa), o prestigiado Lu Xun Literary Prize.

A crítica literária tem acentuado que uma das tónicas essenciais da obra de Dong Xi é o princípio de que nada é partilhável, porque a comunicação é sempre imperfeita. Além disso, que cada homem transporta consigo um passado que inevitavelmente é sombrio e que condiciona qualquer relação. Há quem considere que este espírito resulta do autor ter nascido numa família rural pobre, oriunda de uma província chinesa (Guangxi) distante dos grandes centros urbanos e de ter passado fome na sua infância durante os períodos do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural.

Por isso, é uma componente constante, na caracterização das personagens das suas novelas e romances, o peso do passado e a necessidade de o entender, como forma de sobrevivência no presente. E a superação da mágoa desse passado processa-se sempre através da ironia, mesmo que ela se torne, por vezes, negra e cínica, e por uma atitude de refluxo em relação ao universo em redor, temendo sempre que dele venha o pior.

Compreende-se assim que, em termos estilísticos, as obras de Dong Xi agreguem diversos elementos aparentemente em conflito: por um lado, a utilização do non-sense como instrumento de humor, como se a própria realidade (em particular, a realidade política e o seu efeito nefasto no quotidiano individual) só pudesse ser entendida no registo de absurdo; por outro, um registo realista, mas minimalista e elíptico, repleto de evasivas e silêncios, com que se procura retratar a vida banal no seio de famílias comuns. Daí que a crítica assinale que os autores que mais “influenciaram” a obra de Dong Xi sejam Franz Kafka e Raymond Carver.

“Life Whitout Language” (1996), uma das suas primeiras novelas, é, ainda hoje, considerada como a mais relevante e significativa de Dong Xi. A história desenrola-se no seio de uma família, vivendo numa aldeia rural da China recôndita, constituído por um pai cego e um filho surdo, aos quais se junta, uma jovem, muda, que naturalmente a integra, quando chega à aldeia, passando a viver com o filho. No momento em que nasce uma criança normal nesta estranha e marginalizada família, gera-se um momento de júbilo entre todos, crentes que vão superar, através dela, todas as dificuldades de comunicação com os vizinhos e serão aceites e integrados; só que, conforme cresce, esta criança vai sentir sobre si, o estigma que a aldeia tinha lançado sobre a família, repudiando-a, perseguindo-a e ostracizando-a: a sua salvação, ou pelo menos, a sua sobrevivência obriga-a a repudiar o mundo, voltando a confinar a sua existência ao núcleo familiar, aceitando a sua comunicação fragmentada e o seu silêncio.

Há, como é evidente, nesta parábola, uma significação aberta que permite que represente de certo modo várias realidades possíveis (e os comentadores referem as relações entre os cidadãos e o Estado, as relações entre o mundo rural, repleto de seres sem voz, e a afirmação crescente da vida urbana, etc.). Porém, a interpretação mais consensual assenta de que esta obra é uma forma de revelar as dificuldades de comunicação entre os homens, cujo relacionamento é essencialmente feito de esparsos sinais que apenas exprimem de forma desajeitada e lateral o âmago da necessidade de afecto e de partilha que todos procuram.

Existem obras de Dong Xi traduzidas e editadas em inglês e francês. Em inglês, estão traduzidas a novela “Life Whitout Language” (publicado na “Chinese Literature Today”, vol. 6) e o romance “Record of Regret”. Em francês, estão publicados o romance “Sauver une vie”, a colectânea de novelas “Tu ne sais pas combien elle est belle” (que inclui a novela “Une vie de silence”, acima referida) e a colectânea de contos “Accrocher les coins de la bouche au bord des oreilles”.

Lisboa, Abril de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.



domingo, 5 de abril de 2020

MAURICIO WACQUEZ


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

12ª Vinheta


MAURICIO WACQUEZ

Mauricio Wacquez (1939-2000) foi um escritor chileno, tradutor e professor, que publicou cinco romances, algumas colectâneas de contos, ensaios e artigos, coligidos postumamente (segundo a sua própria definição, era um “escritor parco”). Começou a publicar na década de sessenta e integrou a chamada “generación de los novíssimos”, onde se destacaram Poli Delano e António Skarmeta (para apenas referir os mais conhecidos no exterior do Chile). Algumas das suas obras foram finalistas de prémios (Casa de las Americas, Seix-Barral, etc.), na sua maioria publicadas em Espanha, país onde residiu uma boa parte da sua vida.

Provavelmente por causa deste facto e porque a sua obra assume uma postura claramente gay, ela, enquanto o autor foi vivo, passou por completo desapercebida no seu país, com exceção de alguns autores (é o caso, por exemplo, de Júlio Cortázar, José Donoso e Jorge Edwards) que muito a apreciavam.  

Uma das características reconhecidas na obra de Mauricio Wacquez é a sua preocupação com o estilo, procurando utilizar a língua espanhola de forma inovadora e criativa. Aliás, as suas primeiras obras, pelas razões acima referidas, eram curtas, resultantes de um pendor fortemente autocrítico e da sua necessidade de pensar a frase, como um ourives de filigrana, palavra a palavra. Não admira por isso, que, nas palavras do próprio autor, as suas obras mais relevantes sejam as suas últimas, que considera com maior maturidade e mais próximas do que pretendia. Aliás, a leitura do conjunto da sua obra transmite a ideia, como sucede em muitos outros autores, de que Maurício Wacquez desejou sempre escrever o mesmo livro (até quando enveredou pelo romance histórico, como foi o caso de “Frente a un Hombre Armado”), dado que todos eles rodeiam uma mesma problemática: a incomunicabilidade, a castração social, a angustiante incapacidade de consumar no objecto amado o seu desejo.

Outra componente da sua obra é o seu carácter (quase) autobiográfico e a importância das experiências vividas na infância e na adolescência, em particular, as resultantes das dificuldades de comunicação e de satisfação afectiva. De certo modo, a infância e a adolescência na obra de Mauricio Wacquez apenas parcialmente são fases de esplendor; pelo contrário, a impossibilidade de afirmar desejos e afectos, os constantes equívocos, a opressão de uma moralidade paterna plena de certezas, leva as personagens principais e os narradores dos seus romances a um obscuro e angustiante mal-estar.

 No entanto, há um significativo consenso de que a obra mais relevante deste autor é “Epifania de una Sombra”, a sua última obra, e que integrava uma trilogia, intitulada “La Obscuridad”, em que Mauricio Wacquez trabalhava quando morreu e que não chegou a concluir (o escritor morreu de SIDA)

“Epifania de una Sombra” é, mais uma vez, sobre a infância e adolescência, mas apresentada de uma forma não cronológica e linear, amalgamando diversos espaços (o campo e a cidade) e distintos tempos, em que as situações são associadas por nexos profundos, procurando assim entender melhor o fluir e a formação emocional da personagem principal, Santiago Warni (assumidamente uma representação ficcional do autor) e dos seus amigos. Saliente-se que o narrador deste romance se identifica com o autor, que, a partir do presente, feito de cansaço e doença, rememora, de forma fragmentária e fantasista, e procura perceber aquilo que no seu “duplo”, ainda criança e adolescente, já gera sentido para o que hoje vive. Por último, salientar que a descrição tanto da paisagem rural como urbana, tem uma componente funcional na obra, pois sincretiza os diversos estados emocionais que atravessam as personagens.

Algumas das suas obras estão traduzidas para francês.

Lisboa, Abril de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


quarta-feira, 1 de abril de 2020

DÁMIAN TABAROVSKY


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

11ª Vinheta



DÁMIAN TABAROVSKY


Dámian Tabarovsky (1967-) é um escritor argentino que, desde o início dos anos noventa, tem escrito várias novelas e ensaios. Também efectuou algumas traduções e é editor. Provavelmente a sua obra mais conhecida é um ensaio, “Literatura de Izquierda”(2004), uma análise polémica da actual situação do universo literário e em que preconiza uma estratégia social e estética para a literatura de hoje, reflectindo sobre o peso dos mercados e dos editores nas opções estéticas dos autores (o título desta obra é um pouco equívoco, pois não se relaciona directamente com a literatura de autores que se posicionam socialmente “à esquerda” nos termos convencionais, mas sobre o que deve ser, na opinião do autor, uma “literatura de esquerda”). Mais tarde, prolonga esta reflexão e análise com “Fantasma de la Vanguardia” (2018). É um dos críticos e analistas literários mais interventivos do seu país, colaborando com regularidade em jornais e revistas espanhóis e argentinos, sempre com posições acentuadamente polémicas e irreverentes.

Os seus romances que mais se destacam serão, provavelmente, “Autobiografia Médica”, “Una Belleza Vulgar” e “El Amo Bueno”.

Na caracterização da sua obra, refere-se sistematicamente a forma como Dámian Tabarovsky articula ironia, erudição e ainda uma postura anti-capitalista, numa perspectiva externa à esquerda convencional. Daí que as suas obras reflictam uma atitude que entende a literatura como um acto de resistência, assente na linguagem, considerada como o núcleo essencial do acto literário. Por isso, as suas narrativas, assumindo o autor o seu carácter expositivo e ilustrativo das suas teses sobre a literatura, recusam-se a qualquer interpretação alegórica e/ou metafórica, evidenciando o papel estético da frase e a relevância do trabalho sintáxico e efectuando um permanente confronto com os modelos clássicos e com os códigos convencionais da narrativa.

Uma das componentes, que integram o modelo clássico da narrativa, e que a obra de Dámian Tabarovsky sistematicamente confronta, é o da trama. Mas não através das opções estéticas do “Nouveau Roman”, mas antes através de um método digressivo, para utilizar os termos ao autor, ou “derivativo”, o que leva a que as suas narrativas interliguem constantemente os elementos ficcionais com perspectivas ensaisticas. Dois exemplos bem claros deste método, para que se tem encaminhado a obra de Dámian Tabarovsky, são as suas duas últimas novelas: “Una Belleza Vulgar” e “El Amo Bueno”.

“Una Belleza Vulgar” tem como eixo uma circunstância banal: uma folha que cai de um plátano numa rua de Buenos Aires. A partir daí, e enquanto a folha vai esvoaçando até ao chão, o autor anota a vida comum das pessoas que habitam nos edifícios nas proximidades, reflectindo sobre ela, o que lhe permite remeter para inúmeras questões sociais, políticas e até estéticas e literárias. No essencial, a folha que tomba é apenas um “alibi” para o autor remeter para o que lhe é essencial: pensar o mundo, a sociedade e a literatura, partindo do pressuposto de que nada ultrapassa o nível do banal, e que, por isso mesmo, a narrativa não tem sustentabilidade nem para uma simples trama. A folha que cai é um acto “vazio” (nem metáfora chega a ser) onde tudo cabe.

Em “El Amo Bueno”, o modelo narrativo é absolutamente idêntico ao da anterior obra (daí que o autor considere que as duas obras façam um díptico): três cães, num quintal de Buenos Aires, fazem um enorme buraco (um autêntico túnel), conseguindo encontrar vestígios de anteriores ocupações daquele lugar. Mais uma vez, partindo de uma circunstância vulgar, Dámian Tabarovsky elabora inúmeras digressões reflexivas sobre a trágica história recente do seu país, sobre o actual estádio do capitalismo, sobre os resíduos em que o neoliberalismo transforma as nossas vidas, e até sobre o lugar da palavra literária em relação ao poder.

Algumas das obras de Dámian Tabarovsky estão traduzidas para francês (publicadas pela Ed. Christian Bourgois), inglês e alemão.

Abril de 2020

Foto do autor de Mauro Rico e Romina Santarelli.




sexta-feira, 20 de março de 2020

ANTHONY DE SA


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

10ª Vinheta


ANTHONY DE SA


Anthony de Sa (1966-) é um escritor canadiano, originário de uma família portuguesa, que nasceu e cresceu no seio da nossa comunidade (a “Little Portugal”) em Toronto. Na última década, publicou dois romances (“Kicking the Sky” e “Children of the Moon”) e uma colectânea de “stories” interligadas (“Barnacle Love”). Aliás, este último livro, o primeiro do autor, foi o que obteve maior sucesso crítico, pois ficou, aquando da sua publicação, na “shortlist” do Scotiabank Giller Prize, um dos mais prestigiados prémios literários do Canadá.

Como é evidente, não é por acaso que toda a produção literária de Anthony de Sa gira em redor de temas, directa ou indirectamente, relacionados com Portugal. Assim, em “Barnacle Love”, debruça-se sobre as motivações que levaram a emigrar para o Canadá a população açoriana, em particular, a necessidade de procurar uma outra vida sem os constrangimentos económicos e sociais das ilhas, sobre as dificuldades de integração num meio social totalmente díspar, e, por último, sobre a sua relação com os filhos, uma segunda geração que tem uma visão do mundo bem distinta e, muitas vezes, conflituosa em relação à dos pais.

“Kicking the Sky”, o seu primeiro romance, também passado na comunidade imigrante portuguesa de Toronto, desenrola-se a partir de um facto real: a violação e o assassinato, nos finais da década de setenta, de um jovem engraxador de origem portuguesa na Baixa da cidade. Como é natural, este caso abalou profundamente a comunidade imigrante, porque, de uma forma brutal, se viu obrigada a confrontar os seus sonhos e a expectativa de uma melhor vida, que a motivaram a emigrar, e a realidade bem crua em que de facto vivia. É esse confronto que vive o narrador do romance (o mesmo António Rebelo, da segunda parte de “Barnacle Love”), um jovem que se habituou a “fugir” dos pais, correndo de bicicleta, com os amigos, pelas ruelas e pátios de Toronto, e que descobre, a meio do percurso formativo da sua adolescência, que há um “mundo” adulto que ele apenas pressente e que se pode tornar profundamente perigoso.

Mas, provavelmente, o romance que justifique maior destaque seja o último, “Children of the Moon”, nem que seja porque o autor decidiu “descontextualizá-lo” da comunidade portuguesa de Toronto. “Inspirando-se em histórias familiares”, o romance situa-se em Moçambique e processa-se no quadro das guerras de libertação e civil que, durante algumas décadas, assolou aquele país. A caracterização dos narradores permite perspectivar alguns dos temas deste romance: Pó, a albina, de origem massai, que, nascida na Tanzânia, se vê obrigada a fugir do ostracismo e da “maldição” que lhe lançam por causa da sua cor de pele, até se encontrar “acampada” num hotel da Beira à espera da morte; Serafim, o jornalista brasileiro, corroído por um passado culpabilizador, que está a realizar uma investigação sobre a segregação do “albinismo” em África e procura recolher o testemunho de vida de Pó; e Ezequiel, o moçambicano, filho de pai português e mãe maconde, que, repudiado por ambas as comunidades, se vê mergulhado, desde jovem adolescente, na brutalidade da guerra, entre guerrilheiros e militares, “salvo” apenas pela sua intensa paixão por Pó, mas que presentemente se encontra em Toronto, a sofrer de demência e de stress pós-traumático, resultantes da sua experiência de guerra. No essencial, tenta-se perceber como o facto de ser marginalizado, mesmo que seja por motivos díspares, pode intensificar as relações entre as pessoas na procura de sobreviver a esse mal-estar e de ganhar um novo sentido para a vida.

O primeiro livro de Anthony de Sa, “Barnacle Love”, foi publicado em Portugal, com o título “Terra Nova”, pelas Publicações Dom Quixote, numa tradução de Maria Eduarda Colares, revista por Maria João Freire de Andrade. Estranhamente (ou talvez não…), apareceu subtítulado de “Romance”.


Março de 2020.

Foto do autor de Matthew Sherwood