Quando, nos últimos
anos setenta, se iniciou a renovação do “romance negro” em França, através
da coleção “Série Noire” da Gallimard, um dos escritores, que logo se demarcou
como protagonista desse processo, assinava as suas obras com a sigla A.D.G. Na
altura, especulou-se sobre quem se ocultava por debaixo desta sigla (chegou-se
mesmo a aventar a hipótese de ser Raymond Queneau…). Mais tarde, o autor justificou
o motivo da utilização de um pseudónimo com o facto de considerar que o seu
patronímico tinha um peso excessivo (chamava-se Alain Fournier) para quem
desejava fazer uma carreira literária… Ainda assinou alguns textos com o
pseudónimo Alain Dreux Gaillou; mas rapidamente optou pelas iniciais, sempre com
três pontos. Com o cinismo que gostava de cultivar, confessou a certo passo que
utilizava esta sigla porque “era uma comodidade que lhe permitia aparecer no
início de qualquer catálogo”…
Os seus romances,
publicados a um ritmo vertiginoso, impressionavam pela capacidade de
“mergulhar” nos “bas-fonds”, dando deles uma imagem rocambolesca e, ao mesmo
tempo, destituída de valores e onde, por circunstâncias banais, se poderia desencadear
a mais extrema violência. A.D.G. mostrava, combatendo uma certa visão
“romântica” dos confrontos entre polícias e marginais (que procura descobrir
éticas onde elas não existem…), como estes “voyous” não passavam de seres
medíocres, ávidos de dinheiro fácil e que, por isso mesmo, eram facilmente
instrumentalizados por uma burguesia instalada que os utilizava a seu belo
prazer nos seus “negócios” criminosos. Pressentia-se, em todas as suas obras,
uma componente fortemente anti-burguesa, mesmo anti-capitalista, considerando o
autor que a obsessão desenfreada pelo lucro desfigurava uma “certa” sociedade
francesa (em grande parte aquela que tinha conhecido na sua infância e
adolescência).
Mas o que
espantava nos seus romances, antes do mais, era a sua qualidade estilística.
Com uma verve diabólica e com um virtuosismo imparável, os seus livros explodiam
num francês rico e diverso, resultante da introdução do calão, de uma oralidade
transfigurada, inventando por sistema novas palavras, fazendo trocadilhos e
“jeux de mots”, tudo repleto de um humor corrosivo até à caricatura histriónica.
Ao mesmo tempo, as suas obras comprovavam que o autor possuía uma enorme
capacidade de efabular, sem que nunca as suas tramas abandonassem uma reconhecível
verosimilhança. E que existia um grande fascínio por uma França profunda
(muitos dos seus livros são passados em meios rurais como o seu Berry natal),
contextualizados nos anos cinquenta e sessenta. Em resumo, percebia-se que A.D.G.
tinha “bebido” na matriz estilística dos autores panfletários que utilizam uma
ironia verrinosa para “vergastar” certos segmentos sociais (e os meandros de
ética obscura em que se enredam), tornando-se, por conseguinte, no último
herdeiro de uma linhagem literária que tinha como expoentes contemporâneos autores
como Céline, Boudard, Audiard e Vautrin.
Os seus romances
mais importantes são publicados na década de setenta e oitenta, e chamam-se La
Divine Surprise (o seu primeiro livro), La Nuit des grands chiens malades,
Cradoque’s
band (uma “homenagem” a Céline), L’otage est sans pitié, Je
suis un roman noir e Pour venger pépère. No início dos
anos oitenta, A.D.G. decide exilar-se na Nova Caledónia, onde fica dez anos. Esse
exílio veio a quebrar, em grande parte, a sua veia narrativa. Ainda publicou
vários romances (Le Grand Sud, por exemplo), mas nenhum deles convenceu a
crítica nem o público. Depois, durante quase quinze anos, não publicou nada. Até
que em 2003 regressou, novamente cheio de pujança criativa, com Kangouroad
Movie e, mais tarde, com J’ai
déjà donné… Só que morre em 2004, com 57 anos, de cancro, uma doença
que nele se tinha manifestado alguns anos antes.
Mas o que torna
bem incómodo neste autor, pelo menos para alguns dos seus leitores, é a sua
militância bem empenhada na extrema-direita francesa, principalmente na órbita
da Front National. É que A.D.G., para além de romancista, foi um colaborador
regular de diversos jornais e revistas, regionais e nacionais, conotados com a
direita e a extrema-direita, como cronista e repórter (confesso que tenho
alguma curiosidade em ler a sua reportagem sobre o 25 de Abril publicada na “Minute”),
onde se destacou pela virulência dos seus ataques contra uma realidade política
bem pensante (estamos a referir-nos à França de Pompidou, de Giscard e de Mitterrand,
políticos que ele considerava como “farinha do mesmo saco” e que, na sua
perspectiva, favoreceram a instalação de um ambiente de corrupção) e contra o
que chamava de “pensamento dominante” que conotava como dependente da “intelligentsia”
de esquerda e até de extrema-esquerda. De facto, desde muito novo, e um pouco
em confronto com os seus pais que eram de orientação comunista, A.D.G. aproximou-se
de personalidades e de grupos da extrema-direita, em particular do editor,
escritor e panfletário Michel-Georges Micbert, um dos expoentes do chamado
anarquismo de direita, ideologia que o escritor assumiu partilhar e defender.
As suas posições
públicas foram sempre muito exacerbadas contra qualquer paladino da esquerda (à
excepção de Jean-Patrick Manchette, seu parceiro na renovação do “romance negro”),
com uma tremenda agressividade verbal (chegando mesmo a desacatos físicos), em defesa
de uma postura assente num certo elitismo tradicionalista (ele afirmou-se como defensor
de posições aristocráticas e anti-republicanas), anti-conformista e
revolucionário. Por outro lado, entendia que o referido “pensamento dominante”,
“cegamente” pró-democrático e, por consequência, anti-patriótico e
internacionalista (as suas posições contra a autonomia e independência da Nova
Caledónia colocaram-no sob ameaça de morte), tinha uma raiz judaica, povo que
ele considerava como fonte de todos os “complots” que mantinham um “status quo”
social e político útil à expansão dos seus interesses económicos.
Sem nenhuma
ironia, pode dizer-se que A.D.G. não era uma personagem simpática. Os seus
ataques aos adversários políticos eram muitas vezes sem qualquer tipo de
escrúpulos (a radicalidade das suas posições chegou-lhe a criar alguns
conflitos com os seus correligionários da extrema-direita), feita de “boutades”
e denúncias de carácter, utilizando, se necessário fosse, revelações sobre a
privacidade deles.
É sabido que não
é necessário que um escritor seja um santo. Há outros caminhos menos ínvios do
que a literatura para chegar à santidade. E não quero pôr em dúvida, utilizando
as estratégias de A.D.G., a integridade das motivações do autor em defender, na
sua perspectiva, semelhantes posições.
Mas,
provavelmente, tal como se afirmou em relação a Céline, o problema maior de
A.D.G. tenha sido o facto de não gostar da humanidade. Ou de ter dela uma imagem
tão idealizada que a tornava insuportável. O que, no fundo, quer dizer a mesma
coisa. É certo, no entanto, que está nesta sua postura ideológica grande parte
da força (e da fraqueza) da sua obra: o poder analítico e satírico dos seus
romances assenta, de um modo inquestionável, na sua matriz ideológica e até emocional.
É também sabido
que a literatura não é um mero instrumento de edificação moral. Mas, então,
para que serve a literatura? É esta a incómoda pergunta que obras, como a de
A.D.G., deixam a pairar como um espectro sombrio em pessoas, como o subscritor
destas linhas, que sempre entenderam a literatura, não só como uma forma de
expressão estética e artística, mas também como uma forma global de compreensão
da humanidade e da vida.




