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sexta-feira, 1 de junho de 2018

YVES BONNEFOY

 
 
 
A POESIA COMO CONSTRUÇÃO DO PARAÍSO
 
Começo este breve texto sobre a obra de Yves Bonnefoy com um “lugar comum”: toda a criação artística é uma floresta de sinais que obriga o leitor a um reconhecimento, de modo a sinalizar o seu percurso no interior da obra, e assim, não se perder, perdendo-a.
 
Mas porquê começar com um “lugar comum” sobre a obra de Yves Bonnefoy? Porque um dos aspectos maiores da produção poética e ensaística deste autor é a caracterização de um “lugar”. E, por outro lado, utilizando as palavras do próprio autor, porque “a cerimónia do obscuro é a fatalidade de qualquer obra”.
 
Para comprovar a primeira asserção, lembremo-nos das obras poéticas Du mouvement et de l’immobilité de Douve, Mercure de France, 1953, e Dans le leurre du seuil, Mercure de France, 1975, e dos textos de reflexão ensaística, Les Tombeaux de Ravenne, 1953, L’acte et le lieu de la poèsie, 1958, ou ainda esse texto fundamental para a compreensão da arte pictórica que é L’arrière-pays, Skira, 1972.
 
Mas em que sentido é que poderemos formular esta motivação obsessiva de Yves Bonnefoy em caracterizar um lugar? Antes do mais, existe, obviamente, uma dimensão de pulsão inconsciente que impele o autor a canalizar toda a sua imagética para a construção de um “lugar primordial”. Mas, além disso, existe no projecto poético de Yves Bonnefoy, através de uma reformulação da relação interior/exterior, uma tentativa de efectuar uma profunda revalorização do “real” objectivável.
 
Pode-se, por isso, afirmar que este projecto de construção de um “lugar primordial” visa definir um espaço objectivo onde se possa realizar a ordenação poética necessária em termos existenciais ao próprio autor e, ao mesmo tempo, estabelecer um microcosmos onde seja legível, por um processo de cristalização, toda a ordem cósmica.
 
Como em qualquer outra actividade humana, um dos objectivos fundamentais da poesia, a forma de afirmação (existencial) de Yves Bonnefoy, é a superação do “escândalo da morte”, a confirmação da imortalidade do ser. Mas, ao contrário, por exemplo, da poética de Mallarmé, esta poesia do essencial de Yves Bonnefoy não considera o real (entendido aqui na sua dimensão ampla, que vai do emocional ao factual) como acidental.
 
Assim, para este autor, a diversidade do real é a simples dimensão física, concreta, de uma forma arquetípica permanente. A ordem cósmica integra em si a própria morte, fazendo dela a via de uma permanência em constante mutação e confirmando assim a imortalidade do real. A certeza de que a própria consciência do poeta faz parte dessa diversidade do real, e que a sua morte só provoca uma alteração brutal ao nível subjectivo, comprova a natureza imortal da forma cósmica.
 
Do mesmo modo, o instante torna-se a face revelada do eterno: a diversidade mutante do real, de um presente que é sempre já memória, confirma a permanência do tempo — da própria eternidade do tempo.
 
O real, e este é um aspecto determinante para a compreensão da poética de Yves Bonnefoy, é, portanto, um espaço concreto, físico, em unidade com um “além” que a ganga do tempo e da diversidade desfigura: é este Uno transcendental, mais real do que a realidade física, que a poesia deve procurar captar. (Note-se as evidentes correlações existentes entre esta concepção do real de Yves Bonnefoy e as doutrinas neoplatónicas paralelas ao cristianismo).
 
Mas se a morte se torna a via necessária para a comprovação da imortalidade do ser, como é que o homem, confirmando a plenitude desta certeza, pode assumir a natural angústia da sua própria morte? (Saliente-se que, por razões diversas, existe na poesia de Yves Bonnefoy, uma presença obsessiva da morte e uma cíclica irrupção do mito da Fénix).
 
Ora, antes do mais, Yves Bonnefoy considera, principalmente nos seus textos de carácter ensaístico, que o conceito, como instrumento de conhecimento do real, só agravou a angústia do homem perante a morte, soçobrando por completo com a sua assumpção. Conforme o autor refere em Les Tombeaux de Ravenne, o conceito, pela sua ambição de permanência e identidade, confronta-se estruturalmente com a própria morte; ou, por outras palavras, o conceito, negando a precaridade, só serve para iludir a realidade incontornável da morte. Assim, “a morte, desde os Gregos, é apenas uma ideia, cúmplice das outras, num reino eterno onde precisamente nada morre. É esta realmente a nossa verdade: ela ousa definir a morte, mas para a substituir pelo definido. Ora o definido é incorruptível, ele assegura, apesar da morte e desde que se esqueça as aparências brutais, una estranha imortalidade”.
 
É por isso que Yves Bonnefoy considera que o pensamento lógico é radicalmente “idealista” e, por conseguinte, de todo inadequado para a compreensão (assumindo aqui a palavra a sua significação etimológica) efectiva do real. Terá que ser outra linguagem, onde a motivação da palavra seja de ordem passional e empática que realizará aquela tarefa: só a linguagem poética, ao nomear as coisas, conseguirá apreender a sua “alma”; ou ainda: só a poesia, ao identificar os seres, conseguirá compreender o arquétipo formal do real.
 
A poesia torna-se assim a “residência que possui o ser”. Mas esta busca da poesia configura-lhe duas vertentes: por um lado, dá-lhe uma dimensão sagrada, diríamos mesmo religiosa, onde a figura divina seria um eterno ausente desejado, mas onde também a “transcendência do real” se pretende transfigurada em palavras e ritmos (Bonnefoy fala da poesia como um “templo da transcendência do real”); por outro, dá-lhe uma dimensão amorosa, uma vez que, para este poeta, só aquilo que se ama consegue configurar-se em nós como ser.
 
Ou por outras palavras: a imortalidade ontológica do real só ganha sentido quando o amor a revela, e este, por sua vez, só emana plenamente da poesia. (Repare-se na confluência de posições que existe entre Yves Bonnefoy, ao assumir que “só existe como ser aquilo que se ama”, e a doutrina de Leon Chestov.)
 
Mas o que entende Yves Bonnefoy por este conceito de “amor”? Aqui, o poeta, servindo-se da reflexão de Georges Bataille, encara-o como desejo de dissolução da dicotomia interior/exterior, como a apetência vocacional do Ser em se fundir de forma integral com a ordem cósmica. Essa fusão é, naturalmente, uma morte da identidade. Mas mais do que uma morte, ela é a integração da ordem cósmica na voz do poeta e vice-versa (os poemas de “Douve parle” e de “La Salamandre” são bem exemplificativos deste amoroso estar com o real). A poesia, manifestação natural do “ser poético”, é o lugar privilegiado para onde se procura confluir uma dupla morte (a morte da identidade e a morte do instante), mas, ao mesmo tempo, nostálgico, porque se reconhece, enfrentando a eternidade, como retido a uma determinada identidade e a um determinado instante: é este o risco do discurso poético.
 
No entanto, Yves Bonnefoy compreendeu que seria um logro intelectual projectar esse querer fusional no universal. Como já referimos atrás, esse querer é composto de uma dimensão passional e empática, inerente a própria poesia. Daí que a poesia se transforme numa busca, numa viagem (como refere Baudelaire, poesia e viagem “são do mesmo sangue”) com o objectivo de descobrir o verdadeiro lugar onde seja possível a “conversão profunda” do poeta com o universal. Como o próprio Yves Bonnefoy refere nos seus poemas “La Salamandre”: o lugar “em que se vive o instante em que a carne mais próxima de ti se transforma em conhecimento”.
 
Yves Bonnefoy, no extenso trabalho poético que é “Du mouvement et de l’immobilité de Douve”, descobre esse verdadeiro lugar na região do Douve, onde ele objectualiza e explana, através de um exaustivo conjunto de ramificações e correlações, toda a reflexão poética acima descrita.
 
De facto, a região do Douve corporiza-se numa personagem com que o poeta dialoga, se confronta, testa a sua própria concepção cosmológica (toda a poesia de Bonnefoy se resume à personalização de um lugar, à elaboração de uma geografia concreta com que o poeta se identifica). A imortalidade e o tempo, a morte e o instante, a amada e o acidente, assumem lugares concretos, espaços definidos. As pedras e as planuras, o pomar e as árvores do caminho, a salamandra e a “aranha” solar, a casa e a linha do horizonte, a noite e o dia, etc., constroem urna complexa teia simbólica de significação em mobilidade constante que transfigura a região do Douve num “lugar primordial” (num “locus patriae”) para o poeta, onde é possível conceber a dissolvência das fronteiras entre a consciência e a Natureza, assim como a cristalização do espaço e do tempo. Ou por outras palavras: é no Douve que é possível a consciência poética passar a ser a própria ordem natural, numa espécie de caos original (é a quietude do seio materno que, segundo Servier, os utopistas ambicionam) onde tudo é comunicante, mas duma comunicabilidade sensível e pré-lógica.
 
O Douve constitui-se assim num Paraíso (que tem, contudo, inúmeras vezes, a configuração de uma “terra gasta”), num “espaço utópico subjectivo”, onde o poeta ordena todas as suas inquietações intelectuais e existenciais formuladas em poética: não será, no fundo, esse o objectivo essencial de qualquer poesia?
 
Mas aqui levanta-se outra ordem de questões (que exigiam também um amplo desenvolvimento): definir a poesia de Yves Bonnefoy como a tentativa de construção de um “espaço utópico subjectivo”, talvez seja um pouco restrito como forma de caracterização. De facto, qualquer utopia se pode definir como a tentativa de elaboração de um espaço intelectual onde uma vontade individual se afirma como soberana e se inscreve como Lei; neste sentido, qualquer utopia tende, antes do mais, a satisfazer a necessidade “subjectiva” de construir uma alternância ética ou poética em relação ao real. Daí que, e são vários os exemplos na história do pensamento utópico, a utopia pretenda, muitas vezes, estabelecer-se como Modelo (transformando-se o pensamento utópico em utopista), vocacionado a servir como “luz” a colectivos, e dissolvendo assim, através de um racionalismo universalista, o papel do sujeito produtor.
 
Mas Yves Bonnefoy eleva um lugar concreto (o Douve) a um espaço transfigurado onde se objectualiza toda a dimensão pulsional e passional da sua imagética: o Douve só existe em Unidade com a consciência e o discurso poético de Yves Bonnefoy. O espaço utópico torna-se assim “infuncional” para o Outro (o que reforça a sua dimensão subjectiva), podendo só “atingi-lo”, como qualquer outro discurso poético, através de uma relação analógica intersubjectiva. Tanto mais que a rejeição de um pensamento conceptual, por parte de Yves Bonnefoy, como forma de compreensão da transcendência do real, limita este espaço utópico à cidadela da poesia, o que, como é natural, torna de todo absurda a sua formulação em termos de uma eventual extensão colectiva.
 
O que existe de estruturalmente ético na poesia de Yves Bonnefoy é a sua exemplaridade de percurso. A importância que Yves Bonnefoy dá à existência de uma relação harmónica com a ordem natural, através de um espaço utópico subjectivo ancorado a um espaço físico, tem o valor de um “conhecimento” capaz de transformar a existência do homem contemporâneo.
 
 
Texto escrito nos finais da década de oitenta para o Mestrado de Literatura Contemporânea Comparada da FCSH da Universidade de Lisboa.
 
 
Título: Poèmes (Du mouvement et de l’immobilité de Douve et Dans le leurre du seuil)
Autor: Yves Bonnefoy
Editor: Gallimard
Ano: 1982
360 págs., € 10,00
 
Título: L’arrière-pays
Autor: Yves Bonnefoy
Editor: Albert Skira
Ano: 1972
162 págs., € 45,00

 

 



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

PAUL ÉLUARD

 
 
A IMPLACÁVEL UNIVERSALIDADE DO AMOR
 
É sabido que uma das estratégias habituais do discurso poético tem sido a tentativa de “diluição” da circunstância que está na sua origem e que essa tem procurado ser, ao longo dos tempos, um dos seus elementos distintivos em relação ao discurso narrativo. Diga-se de passagem que essa estratégia tem também “contaminado” e fundamentado a orientação teórica dos estudos literários nos últimos anos, em particular, no esforço de procurar autonomizar o(s) universo(s) literário(s) do registo biográfico dos autores.
 
Porém, há um caso na literatura francesa contemporânea em que esta estratégia do discurso poético aparece acentuada de forma obsessiva e em permanente tensão com exigências éticas e sociais que determinam um compromisso com a circunstância: é o caso da obra de Paul Éluard (1895-1952). De facto, quem ler a poesia deste autor só de modo elíptico e “transversal” se aperceberá das circunstâncias históricas, pessoais e sociais, que o autor viveu e que muitas vezes motivaram de forma directa a sua produção literária.
 
Isto pode parecer tanto mais estranho quanto é conhecido que Éluard manteve posições bem comprometidas na cultura (e na política) francesa do seu tempo e um papel activo nos tremendos acontecimentos históricos porque passou a Europa durante a existência dele: relembro que participou como enfermeiro militar na I Guerra Mundial, tendo essa experiência um papel decisivo na formação da sua sensibilidade e da sua consciência cívica, assim como, mais tarde, também foi importante a Guerra Civil de Espanha e, obviamente, a resistência ao nazismo e à ocupação da França (onde, mais uma vez, o poeta participou de forma militante). Além disso, Éluard teve um papel empenhado nas vanguardas estéticas da primeira metade do séc. XX: se deixarmos de lado – como fez o poeta – a sua produção até 1916, ainda tingida de um lirismo um pouco “fin-de-siècle”, recordo o seu envolvimento no dadaísmo, depois no surrealismo e, por fim, como assumiu, na última fase da sua vida, o estatuto de bardo do comunismo mundial.
 
A intensidade com que Éluard viveu todos estes movimentos e acontecimentos históricos já seria motivo para que se esperasse que, para além das inevitáveis mutações de orientação estética, a sua “presença” se tornasse bem legível na sua poesia. Saliente-se que, ainda por cima, além destes factos “públicos”, é também conhecido que Éluard passou por uma acidentada vida amorosa, onde grandes paixões foram estilhaçadas por rupturas e lutos sufocantes: a sua paixão por Gala (1913), o seu casamento (1917), e depois o rompimento (1930); o amor e o casamento com Nusch (1934) e a sua morte súbita (1946); por último, a redentora relação com Dominique (1947) e o casamento, um ano antes de morrer.
 
Quando afirmo isto, não escondo que alguns dos acontecimentos referidos – e, em particular, algumas mulheres da sua vida – são “enunciados” na sua poesia; mas uma leitura “branca” desses poemas permite perceber que esses dados são referenciados em “nomes”, sem que estes afectem a substância temática (?) do poema - que continua a pretender superar pela universalidade a circunstância nomeada.
 
Hoje, salienta-se que Éluard foi um grande “poeta da liberdade e do amor” e que, em particular sobre este último tema, ascende ao lugar de um dos poetas cimeiros da história da literatura francesa.
 
Porém, convém recordar que existe uma articulação orgânica entre o projecto político que Éluard preconizava e defendia e a sua concepção da relação amorosa, visto que, segundo o autor, os valores que dão densidade a esta são os que fundamentam o projecto político. E, por isso mesmo, não se pode escamotear – principalmente na avaliação da figura pública que também foi Éluard – o seu entusiástico apoio a Estaline e à sua linha política. Mas também não é lícito minimizar, por este facto, a elevada qualidade da sua poesia, como aconteceu, em parte, nas comemorações recentes do centenário do seu nascimento. De facto, mesmo em França, estas comemorações foram muito “pardacentas” e a esta situação não é, decerto, estranho as referidas opções políticas do poeta…
 
Recorde-se que a concepção amorosa de Éluard (e daí a sua conexão com a poética e com a política) é a de uma “harmonia primordial” só possível de atingir através da mulher amada - que, no fundo, serve de elo perfeito entre o amante e a natureza e a vida: nesse sentido é que se tem de compreender como a relação amorosa, por si só, se opõe e combate a “besta cega” da tirania e da opressão.
 
Por tudo isto, nunca é de mais dizer o seguinte: goste-se ou não da intervenção cívica do “intelectual” Paul Éluard, compreenda-se ou não os seus erros de análise histórica, não se deve escamotear, seja que de forma for, o facto objectivo de que Éluard é um dos grandes poetas de sempre da problemática amorosa.
 
Justificam-se estas considerações com a minha recente leitura de Últimos Poemas de Amor, numa tradução (e prefácio) de Maria Gabriela Llansol, editada pela Relógio d’Água.
 
Para quem não conhece a poesia de Éluard aconselho vivamente a sua leitura. Não só porque a edição é bilingue, como a tradução é feita por um dos mais complexos escritores portugueses contemporâneos (infelizmente, faleceu há poucos dias…). Além disso, a escritora redigiu um prefácio que dá, por um lado, uma interessante visão do poeta e, por outro, permite compreender o que aproxima Llansol de Éluard…
 
A terminar, gostaria de assinalar que considero esta tradução “irregular”… Quando utilizo este termo, estou a ponderá-lo com rigor: não que haja “erros” de tradução (nem isso seria de esperar de uma escritora de reconhecida probidade intelectual e que, ainda por cima, viveu uma larga temporada na Bélgica francófona), mas porque, a par de luminosas versões para português de alguns versos, há, aqui e além, algumas soluções que me parecem resultantes de uma típica sensibilidades de prosadora (mesmo peculiar, como era o caso de Maria Gabriela Llansol).
 
É evidente que este meu comentário resulta da facilidade de confrontar o texto original com o traduzido e poder com uma simples leitura questionar as opções de tradução (é essa, não há dúvida, uma das virtudes da edição bilingue). Repito, no entanto, para que não haja equívocos: estas minhas reticências são apenas resultantes de divergências de gosto…E quanto a gosto cada um tem o seu…
 
Publicado na web em 2008.
 
 
Autor: Paul Éluard
Título: Últimos Poemas de Amor
Tradução (e prefácio): Maria Gabriela Llansol
Editor: Relógio d’Água
Ano: 2003
293 págs.,  € 15,00