terça-feira, 31 de maio de 2022

JONATHAN WABLE

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

18. Jonathan Wable

É um escritor francês de quem, em termos biográficos, pouco ou nada se conhece. Pelo desenho com que se apresenta publicamente, da sua autoria, e que aqui reproduzo, parece ter cerca de trinta anos. Para além de escritor, é também desenhador e fotógrafo, um entusiasta pelas obras de Julien Gracq e de Jacques Abeille, e animador de leitura em hospitais e em escolas do ensino secundário. Em 2013, publicou um romance intitulado “Six photos noircies”.

O romance integra um conjunto de vinte contos (esta estratégia narrativa, aparentemente simples, pode, desde que interligada em profundidade, revelar-se muito fascinante – veja-se o caso de alguns romances de Faulkner), onde duas personagens, Valente Pacciatore e Tirenzio Perochiosa, respectivamente, um biólogo e um médico, levam uma série de investigações, que se pretendem racionais e científicas, sobre factos muito obscuros, por vezes violentos, outros apenas fantasmagóricos ou alucinados. Como “prova” das suas investigações, o biólogo tira sistematicamente seis fotografias (não se esclarecendo o porquê deste número, se por limitações técnicas ou outras). As investigações (que decorrem em data indefinida, mas que pelo contexto, se percebe que será nos finais do séc. XIX) decorrem nos quatro cantos do mundo (um delas, parece, em Lisboa), muitos deles verdadeiramente recônditos.

Há claramente na obra uma dimensão fantástica e de romance “fin-du-siècle”, muito próxima do “gótico” inglês. Mas o que mais impressionou a crítica é o domínio das técnicas narrativas, o cuidado clássico do estilo e a capacidade inventiva da construção das diversas tramas.

Maio de 2022.



sexta-feira, 27 de maio de 2022

CARLOS LABBÉ

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

17. Carlos Labbé (1977-)

É um escritor chileno que, a partir de 2001, publicou oito romances e um livro de contos. Em 2010, a revista Granta seleccionou-o como um dos narradores mais promissores em língua espanhola (em conjunto com Andrés Barba, Andrés Neuman, Pola Oloixarac, Santiago Roncagliolo, Samanta Schweblin e Alejandro Zambra, para apenas referir os mais conhecidos no nosso país). É também guionista (premiado), editor, crítico literário e especialista nas obras de Juan Carlos Onetti e de Roberto Bolaño. Por último, é compositor e músico popular já com cinco álbuns publicados.

O autor, descrente da eficácia dos modelos narrativos do sécs. XIX e XX, que considera que foram totalmente destroçados pelos canais multimédia e informáticos, tem-se dedicado, de obra para obra, à experimentação literária, procurando soluções estéticas e políticas radicais que combatam não só os discursos de “ocultação” dos diversos poderes, mas também a consolidação do capitalismo e a sua maior penetração no tecido social do seu país. Para estes objectivos, Carlos Labbé procura apetrechar-se com os conceitos e as teorias da crítica textual (Barthes, Genette), entrecruzando-os com os arquétipos narrativos das populações indígenas chilenas, fortemente embebidos do sentido do colectivo, das relações entre mundos físicos e espirituais, da presença do sagrado.

Assim, desde “Pentagonal: incluídos tú y yo”, 2001, um romance hipertextual, o autor tem utilizado todo o tipo de técnicas: desde o uso sistemático de diversos fios narrativos entrelaçados, com distintos espaços e tempos, em que as personagens cruzam espaços “reais” para imaginários, às tentativas de criação de romances corais com diversos narradores debruçando-se com perspectivas distintas sobre as mesmas situações, ou o aparecimento de situações similares em contextos distintos, ou as paródias dos modelos dos colectivos de escrita (em que o caso com maior destaque é o colectivo italiano Wu Ming), ou ainda ao jogo exaustivo das referências literárias e a deambulação constante entre subgéneros narrativos. Os romances de Carlos Labbé são, por isso, de uma inegável complexidade, mas de uma leitura unanimemente aceite como fascinante, dado o seu cuidado estilístico neo-barroco, a imaginação transbordante na construção de situações e de personagens e na tessitura do próprio enredo. Saliente-se ainda que em quase todos os romances deste autor se procura dar um papel activo ao próprio leitor, pois muitas vezes lhe concede a possibilidade de optar na sucessão dos capítulos ou dos trechos, podendo, dessa forma, reconstruir a trama como lhe aprouver.

Não se julgue, no entanto, que os romances de Carlos Labbé são meros exercícios lúdicos de literatura. Pelo contrário, estes romances (de onde destaco, de forma quase arbitrária, “Libro de plumas”, 2004, “Navidad y Matanza”, 2007, “Piezas secretas contra el mundo”, 2014, e “La parvá”, 2015) revelam-se como denúncias, com significativa carga simbólica e/ou alegórica, da situação económica e política do seu país, da sua história de violência e brutalidade sobre quem se opõe ao modelo compressor da implantação capitalista.

Provavelmente, pela sua dimensão alegórica, o romance mais fascinante de Carlos Labbé seja o seu último, intitulado “Viaje a Partagua”, 2021 (e que tem uma actual edição em conjunto com “La parvá”), onde se narra a viagem num camião de um  conjunto de emigrantes, mais ao menos clandestino, através de um imaginário país decrépito, prevendo-se que só um deles chegará à “terra prometida”.

Fruto, de certo modo, da ascensão de Trump ao poder (recordo que o autor vive regularmente, boa parte do ano, em Brooklyn) e da pandemia de Coronavírus, o romance parte de pressupostos fortemente radicais e críticos, defendendo a necessidade cada vez maior de depender do colectivo como forma de sobrevivência. Neste contexto, a literatura responde ao desejo irredutível de viajar como fuga à morte (num quadro em que este desejo parece criminoso, sabendo-se, como o autor refere numa entrevista, “que só os mortos podem viajar”), e que a alegria de contar, abstraindo qualquer ideia de modernidade e regressando a um “ponto zero” da linguagem (não generizada e de eliminado binarismo), se sobreporá à tirania das regras económicas e que levará, no final, a que o filho (todos os filhos) permaneça como a divindade donde a vida renascerá.  

Alguns dos livros do autor estão traduzidos para inglês. 

Maio de 2022.

Foto do autor de Juan Farias E.



segunda-feira, 23 de maio de 2022

JUAN LUIS ZABALA

 


A Vontade de Ler: Um Autor, uma Obra

16. Juan Luis Zabala (1963-)

É um escritor basco que utiliza como instrumento de expressão literária a língua do seu povo. Com uma obra diversificada, abrangendo a poesia, a literatura para a infância e juventude, a biografia, o conto e o romance, já granjeou vários prémios, principalmente no domínio do conto. É também jornalista e tradutor.

Segundo a crítica, nos seus primeiros romances, publicados na década de oitenta, “Zigarrokin ziztrin baten azken keak”, 1985, e “Kaka esplikatzen”, 1989, (respectivamente, em tradução literal, “A Última Fumaça de um Imundo Cigarro” e “A Merda Explicada”), com uma estrutura epistolar, existe certas afinidades entre a sua prosa e alguma narrativa da Europa Central (Handke, Bernhard, etc.). Mas é apenas com os romances publicados após um amplo período de interregno, nos finais da década seguinte e no presente século, que consegue um maior reconhecimento do público e da crítica.

Esses romances, alguns deles “inspirados” na sua experiência pessoal, são “Galdu arte”, 1996, que tem como contexto o movimento dos “gaztetxes”, centros juvenis culturais criados com a ocupação de casas devolutas na década de oitenta no país basco (e que já foi traduzido para espanhol com o título “Hasta la derrota, siempre”), “Agur, Euzkadi”, 2000, (em tradução literal, “Adeus, Euzkadi”) e “Txistu eta biok”, 2016, (também traduzido para espanhol com o título “Txistu y yo”) que granjeou um prémio concedido pelos editores e livreiros bascos.

Na nossa opinião, o romance mais interessante é talvez “Agur, Euzkadi”. O romance centra-se na “ressurreição”, nos finais da década de noventa, de Lauaxeta (um poeta e jornalista basco que foi fuzilado em 1937 pelas tropas fascistas de Franco) e que aparece em Guernica, sem saber como nem compreendendo nada do que o rodeia. Depois de um momento de perplexidade, decide aceitar esta nova vida e vai procurar apoio para se saber situar, encontrando-o em Julen, um outro jornalista, que acredita na sua história, e que o leva a conhecer o actual País Basco. Esta trama simples permite a Juan Luis Zabala, através dos diálogos entre as duas personagens, efectuar uma longa reflexão sobre o papel da morte e o sentido da vida, sobre o fluir do tempo, assim como sobre os valores e os modelos da sociedade contemporânea.

A crítica refere que existem algumas similitudes entre este romance e “O Ano da Morte de Ricardo Reis” de José Saramago.   

Maio de 2022.

Direitos autorais da foto do escritor pertencem ao Diário Vasco.



quinta-feira, 19 de maio de 2022

CAMILA FABBRI

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

15. Camila Fabbri (1989-)

É uma escritora argentina que já publicou dois livros de contos e um romance. Em 2021, foi considerada, pela revista Granta, uma das escritoras mais promissoras em língua espanhola com menos de trinta e cinco anos. É também dramaturga e actriz, tanto de teatro como de cinema.

A crítica, principalmente a dos seus colegas de ofício (Alejandro Zambra, Leila Guerriero, Marta Sanz, Rodrigo Fresán, entre outros), desde o primeiro livro, considerou muito favoravelmente a narrativa da autora, não só pelo seu cuidado estilístico (referindo-se constantemente ao seu classicismo, mas, ao mesmo tempo, ao seu caracter inovador e à sua “desenvoltura”, para utilizar uma expressão já consagrada de Eduardo Lourenço), mas, em particular, ao facto de criar, em cada história, uma ambiência muito própria. Essas histórias, descrevendo circunstâncias inteiramente banais, conseguem transmitir uma sensação de perigo, de catástrofe iminente, que, a seu modo, é, nos dias de hoje, bem comum e universal.

Mesmo aceitando que a autora, em entrevistas recentes, se assume principalmente como contista (“Los accidentes”, 2015, e “Estamos a salvo”, 2022), interessa-me, em especial, o seu romance “El día que apagaron la luz”, de 2021.

No dia 30 de Dezembro de 2004, houve um incêndio na discoteca de Cromañón, em Buenos Aires, quando decorria um concerto da banda de rock barrial (corrente de rock underground genuinamente argentina) Callejeros. No desastre, morreram 194 jovens e ficaram 1432 feridos, alguns deles com sequelas psicológicas e físicas durante vários anos. As consequências culturais, sociais e políticas desta tragédia na Argentina foram muito marcantes. A autora, entusiasta adolescente rockeira na altura, tinha assistido na véspera a um concerto com a mesma banda naquele local. 

Foi este facto que levou Camilla Fabbri a escrever o seu único romance (que ela própria classificou como um romance de não ficção). Para isso, resolveu recolher um conjunto de depoimentos dos sobreviventes e seus familiares e trabalhá-los em termos narrativos. É, obviamente, um romance sobre o luto e a morte; mas é, muito em particular, uma obra sobre uma geração (que inclui a própria autora) e os seus sonhos e anseios de adolescentes, os seus esforços para afirmar-se como uma determinada identidade e a sua perca de inocência. Note-se, no entanto, que “El día que apagaron la luz” não pretende ser um relato jornalístico: a autora coloca-se no centro da trama e reflecte sobre a sua própria adolescência, sobre o contexto em que a viveu e sobre o peso que um desastre tão grave como este assume na sua memória.   

Maio de 2022.

Foto da autora de Alejandro Guyot.



segunda-feira, 16 de maio de 2022

LARS AMUND VAAGE

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

14. Lars Amund Vaage (1952-)

É um escritor norueguês com uma significativa obra publicada nos domínios da dramaturgia, da literatura para a infância e juventude, da poesia, do conto e do romance. As suas obras, principalmente de poesia e narrativa, têm recebido diversos prémios nacionais, e dois dos seus romances já foram nomeados para o importante Nordic Council Literature Prize em 1996 (“Rubato”) e em 2021 (“Det uferdig huset”, em tradução literal, “A Casa Inacabada”).

Começou a publicar romances nos finais da década de setenta com “Øvelse Kald vinter” (“Exercício Inverno Frio”), ainda muito dependente da estética literária dominante no seu país do “realismo social”. É com o seu único livro de contos “Kyr” (“Vacas”), 1983, que se percebe que se efectua uma inflexão estética na sua obra, aproximando-se de um discurso mais pessoal e reflexivo. Mas é principalmente com o romance “Rubato” que se torna mais nítida essa inflexão, quando Lars Amund Vaage resolve aproveitar a sua experiência pessoal como músico (a sua primeira, e malograda, orientação artística), centrando-se numa personagem que, tendo abandonado a actividade musical, resolve, bem mais tarde, reflectir sobre os motivos desse abandono, e sobre a importância da criação e da comunicação como via de realização pessoal.

Provavelmente é o seu romance “Syngja” (“Cantar”), 2012, a sua obra mais interessante. Considerada unanimemente como a mais pessoal, “Syngja” tem, como personagem principal, um escritor já consagrado que tem uma filha autista que não sabe falar nem entende a linguagem (como sucede na vida real com o escritor). Sem pretensões autobiográficas, e fugindo, em termos estilísticos, a qualquer registo melodramático, o romance procura expor não só o modo de ser e a vida dessa filha (hoje já adulta), a sua (ir)receptividade aos tratamentos e aos especialistas, mas, sobretudo reflecte sobre as formulas de relacionamento familiar e o papel da linguagem e da necessidade de expressão e comunicação.  Daí que o romance, naturalmente, estabelecendo constantes relacionamentos com a situação do autista, derive para o estatuto do escritor, o seu isolamento estrutural e, por consequência, sobre o papel da ficção como instrumento de aproximação ao mundo e ao Outro. 

Maio de 2022.

A foto do autor é de Helge Skodvin.



sexta-feira, 13 de maio de 2022

ADRIENNE YABOUZA


 

A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

 

13. Adrienne Yabouza (1965-)

 

É uma escritora da República Centro-Africana, de expressão francesa, que já escreveu vários livros para a infância e juventude e oito romances e colectâneas de contos (os primeiros escritos em colaboração com o escritor francês Yves Pinguilly). Sem estudos nem formação académica (boa parte da sua vida teve que criar sozinha os seus cinco filhos), passou por diversos trabalhos e ofícios, até que, por fim, “montou” um salão de cabeleireiro na capital, que lhe serviu para ouvir as histórias de vida das suas vizinhas. Devido às guerras civis que recentemente assolaram o seu país, foi obrigada a exilar-se por duas vezes: primeiro, em 2004, para a República do Congo, depois, de novo, em 2013, tendo pedido asilo político em França.

Os romances de Adrienne Yabouza centram-se fundamentalmente na situação social e familiar das mulheres africanas, em particular as do seu país, e inspiram-se nas histórias que foi ouvindo às suas clientes e vizinhas. As tramas são, na generalidade, lineares; mas este facto não obsta a que, para além do testemunho sobre as situações vividas pelas mulheres africanas, os seus romances não tenham qualidades estilísticas, com um aproveitamento significativo do humor no tratamento sarcástico de situações bem desumanas, em especial de abuso sexual, e na utilização de africanismos, oriundos das diversas línguas nativas, e que procuram exprimir a ambiência local. Essas tramas percorrem todas as fases da vida destas mulheres, desde a infância e a adolescência (“Le Bleu du ciel biani biani”, 2010) até à viuvez (“La Maltraite des veuves”, 2013, e “Co-épouses et co-veuves”, 2015) e à velhice. Por outro lado, reflectem também o sofrimento próprio das mulheres em contextos de guerra civil, demonstrando como são constantemente utilizadas como despojos (e troféus), e como aquela é sempre gerada por situações de corrupção e de ânsia de partilha, por parte de grupos com interesses específicos e antagónicos, das riquezas públicas (“La Défaite des mères”, 2008, e “La Pluie lave le ciel”, 2019).    

O romance mais interessante parece-nos ser “Co-épouses et co-veuves”, em particular porque se debruça sobre um tema pouco tratado em termos literários: a situação da mulher num quadro social poligâmico (é justo lembrar aqui o carácter percursor da obra da moçambicana Paulina Chiziane, que também se tem debruçado sobre este tema no contexto do seu país e da África Austral).

As personagens centrais de “Co-épouses et co-veuves” integram uma unidade familiar em Bangui, constituída por Lidou e as suas duas esposas, Ndongo Passy e Grekpoubou, e cinco filhos (respectivamente, um da primeira e quatro da segunda), onde não há conflitos nem ciúmes, e, pelo contrário, parece a existir uma certa harmonia erótica e afectiva. À morte súbita do marido, as duas mulheres vêem-se obrigadas a lutar pela sua sobrevivência e pelo seu património, como se fossem irmãs, confrontando-se com a guerra civil, a corrupção institucionalizada, assim como com as trafulhices geradas por uma sociedade marcadamente patriarcal. Saliente-se, por fim, que, mesmo numa ambiência social e política sinistra, existe uma clara jovialidade, composta por um tratamento afectuoso, humorado e optimista, no retrato esboçado das personagens e das situações que estas se vêem obrigadas a atravessar.

Este romance está traduzido para inglês.

Maio de 2022

Desconheço a autoria da foto da escritora.



terça-feira, 10 de maio de 2022

THOMAS VAN AALTEN

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

12. Thomas van Aalten (1978-)

 É um escritor holandês que já publicou nove romances e uma novela. Além disso, escreveu dois guiões de filmes, faz crítica literária regular em diversos jornais e revistas e é professor universitário de Comunicação Social. Para além de ser muito prolixo, é também bastante interveniente em termos sociais, tornando-se uma presença regular na comunicação social, em particular na web e nos meios audiovisuais, a comentar, muitas vezes de forma acentuadamente polémica, não só a produção literária do seu país, mas também a vida social e política. Genericamente, pode afirmar-se que as suas posições se situam na esquerda liberal (ou, provavelmente, de forma mais acertada, num peculiar liberalismo de esquerda).

Como seria previsível, o caracter controverso e iconoclasta da figura do autor afectou a leitura da sua obra e, por conseguinte, a crítica, por vezes, divide-se na sua avaliação. No entanto, reconhece-se o carácter experimental da sua narrativa, a vivacidade na construção de tramas complexas, gerando “tournures” imprevisíveis, as personagens peculiares, os diálogos tocando as raias do “non-sense”, as situações muitas vezes surrealizantes e o carácter inovador da arquitectura romanesca, “jogando” com o tempo e o espaço e com a forma de apresentação das personagens e dos seus contextos. Refere-se ainda a radicalidade do seu sentido crítico em relação ao modo de vida dos seus compatriotas, em particular das classes média e alta, e à sua obsessão pelo bem-estar, pelo consumo e pelo luxo. Por último, na tentativa de contextualizar as suas narrativas, é costume referir-se a obras tão distintas, como as de William S. Burroughs, de Denis Johnson, de Bret Easton Ellis, do cineasta David Lynch, de Michel Houellebecq e de Haruki Murakami.

Sem ter a pretensão de definir “ciclos” no conjunto da obra Thomas van Aalten, creio que é possível delinear as suas “flutuações”. Os dois primeiros romances, “Sneeuwbeeld”, 2000, (literalmente, “Imagem de Neve”) e “Tupelo”, 2001, particularmente sombrios e terríveis, têm, como personagens centrais, dois jovens da idade do autor (repare-se que o primeiro romance foi publicado quando Thomas van Aalten tinha apenas vinte e um anos) e retrata as suas dificuldades, entre a droga, o sexo e o álcool, em definir o seu percurso, pressentindo que estão a escorregar para um abismo de destruição e morte; o terceiro e o quarto, “Sluit deuren en ramen”, 2003 (“Fechar Portas e Janelas”) e “Coyote”, 2006, são distopias, o primeiro, reflectindo a actual obsessão securitária, e o segundo, mais experimental e alucinado, apresenta, de forma fragmentária e aparentemente desconexa, um conjunto de personagens imorais e de situações brutais numa gigantesca cidade fictícia; o quarto, “De onderbreking”, 2009 (“A Interrupção”), retoma a personagem de Victor Tupelo (eventual alter-ego do autor), como um escritor de sucesso que questiona, num diálogo ininterrupto com um porteiro de hotel (seu leitor), as relações entre realidade e ficção; e ainda “De schuldigen”, 2011 (“Os Culpados”), que se centra numa família a viver num constante gozo consumista (composta por um banqueiro falido, em permanente especulação financeira, a esposa, que passa o tempo em clínicas estéticas e em curas de desintoxicação, e um filho, que vive à deriva, fugido de casa e em ruptura com os pais), que, quando se encontra acidentalmente num luxuoso hotel no Dubai, é vítima de um ataque terrorista, e onde se defende a tese que a falência da actual sociedade ocidental se deve aos hábitos da classe dominante, o seu principal inimigo.

Porém, a partir de “Leeuwenstrijd”, 2014 (“Luta de Leão”), que referiremos mais adiante, processa-se uma inflexão na obra de Thomas van Aalten, não só por ter uma outra orientação estética, onde a dimensão experimental é mais atenuada, mas principalmente porque se passa a centrar na realidade holandesa do séc. XX: assim, “Henry!”, 2016, o romance seguinte, situa-se na década de sessenta, em redor do “boom” consumista de revistas “mundanas”, e “Een vrouw van de wereld”, 2020 (“Uma Mulher do Mundo”), na fase de franca expansão económica da Holanda da década de setenta, que se debruça sobre o vazio hipócrita e entediante de uma mulher, casada com um próspero homem de negócios, violento e alcoólico, que descobre que existe um mundo bem distinto da Amesterdão onde vive, através de uma relação adultera com um jovem surinamês; por último, “Voorstad” (“Subúrbio”), já no corrente ano, contextualizado na actualidade, sobre as alterações sociais (e arquitectónicas) num subúrbio abastado, onde os antigos residentes se confrontam como uma nova população, de origem estrangeira, mas com meios financeiros suficientes para “contaminar” o seu espaço.   

Não há dúvida que o romance, de certo modo, mais ambicioso, e provavelmente mais interessante, de Thomas van Aalten, é “Leeuwenstrijd” (“Luta de Leão”). A estratégia narrativa do romance é bastante simples e comum: a descoberta de um traje de leão num sótão “familiar” leva um adolescente a tentar descobrir a sua origem e a conhecer o percurso da sua família durante quatro gerações, desde um antepassado, imigrante italiano que se fixou, em 1920, como mineiro em Limburg, até à actualidade. Ao longo de cem anos, é não só a história e as vicissitudes por que a Holanda passou que são reflectidas, mas também as perspectivas de cada geração em relação a essa mesma história: desde o bisavô (filho de um militante comunista, obrigado a fugir do fascismo italiano, e por isso a emigrar para a Holanda), que se sente asfixiado em Limburg, trabalhando no comércio e de noite num circo, e que, perfilhando posições liberais conservadoras, se vê envolto em histórias de espionagem, e que é obrigado, por sua vez, a fugir da guerra para a América, ao seu avô, socialista e radical, empenhado nas lutas sociais dos anos sessenta e setenta, ao seu pai, um executivo publicitário, ambicioso e ansiando por prestígio e promoção social, até à figura central do romance, um jovem revoltado com o actual modelo social e que procura sistematicamente assumir posições radicais.

Para dar realce aos conflitos ideológicos geracionais e aos modos diferentes de reagir ao fluir dos acontecimentos, o autor resolve não seguir uma evolução cronológica, entrecruzando as histórias do passado com as do presente, e apresentando-as sempre na perspectiva do seu actor principal. O “fato de leão”, que está na origem do título, e que o bisavô utilizava no seu trabalho circense, assume assim um valor simbólico, pois não só representa o elo familiar que se sobrepõe aos antagonismos entre pais e filhos, mas também a diversa energia para, ao longo dos tempos, cada geração teve que incorporar para superar as dificuldades que vão surgindo.   

Maio de 2022.

Foto do escritor da autoria de Keke Keukelaar.



sexta-feira, 6 de maio de 2022

ANTÓNIO XERXENESKY

 


A Vontade Ler: Um Autor, Uma Obra

11. António Xerxenesky (1984-)

É um escritor brasileiro que, desde 2006, já publicou quatro romances e três colectâneas de contos. É também Doutorado em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo. Em 2012, foi considerado, pela revista Granta, um dos escritores brasileiros com menos de quarenta anos mais promissores (numa lista de vinte, que incluía os nomes de João Paulo Cuenca, Julian Fuks, Daniel Galera, Michel Laub, Carola Saavedra e Tatiana Salem Levy, para só referir os mais conhecidos no nosso país) e o seu romance “F” foi finalista do Prémio São Paulo de Literatura e a sua tradução francesa foi também finalista no Prix Médicis para literatura estrangeira.

As narrativas deste autor têm três ingredientes bem característicos: um enorme prazer em construir tramas complexas que “brincam” com a realidade, introduzindo elementos fantasmagóricos, como se esta fosse, antes do mais, uma “construção mental”; esta dimensão lúdica leva a que o autor “baralhe” e mescle constantemente géneros e subgéneros narrativos, desde o western, a ficção científica, o policial e as obras fantásticas com mortos-vivos e zombies; por último, que o texto esteja repleto de referências literárias, explícitas e implícitas, como se a referida dimensão lúdica se estendesse à história da literatura dos últimos dois séculos. O resultado parece assim estar perto do que alguma crítica anglo-saxónica tem etiquetado de narrativas de “post-horror”, para além, de facto, de uma certa proximidade à ambiência de alguns romances de Roberto Bolaño (sobre quais António Xerxenesky fez a sua tese de doutoramento).

Torna-se assim compreensível o motivo por que os contextos geográficos (e até históricos) sejam pouco relevantes na sua obra: eles apenas servem para dar um conjunto de referências que permitam dar maior consistência à própria evolução do enredo. Estas opções talvez permitam entender a dificuldade de certa crítica brasileira em classificar (e aceitar) a sua obra (visto que são narrativas de género que por sistema se encaminham para outros universos) e também a perplexidade com que o leitor comum tem acolhido a sua produção literária.      

Não se julgue, no entanto, que a obra de António Xerxenesky se confina apenas a uma dimensão lúdica. Há sempre a intenção de, subliminarmente, ficcionar uma reflexão abrangente: ou a metaficção e as estratégias narrativas (“Areia Nos Dentes”, 2008), ou a literatura como referencial autónomo (“A Página Assombrada Por Fantasmas”, 2011), ou o sentido da arte (“F”, 2014), ou ainda o conhecimento como forma de apreensão do não visível (“As Perguntas”, 2017).

Talvez seja por isso que a obra do autor sofreu uma inflexão significativa no último romance, “Uma Tristeza Infinita”, 2021, onde se atenuou a já referida dimensão lúdica (há apenas alusões a Robert Walser) e se abandonou, pelo menos de forma tão explícita, a ambiência de “terror”.

A trama situa-se na Suíça do pós-guerra e tem, como personagens centrais, um casal, composto por um psiquiatra e uma física, que se encontra na vanguarda dos seus correspondentes conhecimentos científicos: o primeiro, utilizando como instrumento clínico a psicanálise, e abandonando os electrochoques e a aplicação sistemática de farmacológicos para tratar a depressão (a melancolia, como era conhecida na altura); a segunda, dedicando-se ao estudo da estrutura da matéria e das partículas elementares num centro de investigação nuclear. Por conseguinte, as questões centrais deste romance deslocam-se para os limites (em particular, éticos) do conhecimento científico e as suas possibilidades para compreender em profundidade a vida e a realidade material. Mas, paralelamente, reflecte também sobre o sentimento de culpa (boa parte dos pacientes, que o psiquiatra trata e com quem dialoga, estiveram diversamente relacionados com os genocídios perpetrados na II Guerra Mundial e, por outro lado, pairam, como sinistra sombra sobre o trabalho científico da mulher, as bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki) e sobre a forma como as opções políticas e pessoais (ou a falta delas) condiciona o percurso individual.   

Maio de 2022

Foto do autor de Renato Parada.



terça-feira, 3 de maio de 2022

NURIA LABARI

 


A Vontade de Ler: um Autor, uma Obra

10. Nuria Labari (1979-)

 É uma escritora e jornalista espanhola que já publicou um livro de contos e dois romances. Logo com a colectânea de histórias “Los borrachos de mi vida”, 2009, obteve o reconhecimento da crítica e do meio literário, ganhando até um prémio relevante, e sendo encarada como uma das contistas mais interessantes da sua geração. De seguida, publicou um romance, “Cosas que brillan cuando están rotas”, 2016, centrado numa jornalista e nas suas incertezas, profissionais e pessoais, quando enfrenta e regista no seu trabalho os efeitos devastadores do atentado de 11 de Março de 2014, ao mesmo tempo que é obrigada a resolver dramáticos problemas pessoais e familiares.

Mas provavelmente o seu romance mais interessante (e que foi, paralelamente, um significativo sucesso comercial) é “La mejor madre del mundo”, 2019, onde a autora lança uma perspectiva peculiar sobre a maternidade, procurando desmistificá-la e principalmente libertá-la dos lugares comuns com que é costume encará-la. A narradora é uma escritora que, aos trinta e cinco anos, tendo problemas de fertilidade, sente uma necessidade obsessiva de ter filhos. Passados cinco anos e dois partos, percebe que a sua vida e o seu corpo se modificaram totalmente. Decide então escrever um romance sobre a maternidade, assumindo-o como uma aposta decisiva: ou o livro se transforma num básico diário, e então, a partir daqui, será apenas uma simples mãe, ou consegue fazer dele uma obra mais universal e tornar-se-á efectivamente numa escritora.

O romance, entrecruzando a autoficção com o ensaísmo (a autora vai, ao longo do livro, reflectindo sobre o que escreveram e disseram algumas figuras marcantes da literatura sobre a maternidade), é redigido com um intenso humor, escalpelizando a situação da mulher e, sobretudo, o estatuto materno na actual sociedade, com uma crueza e um realismo que conseguem alterar a visão de todo mirifica que habitualmente se tem da maternidade.     

Foto da autora de Guillermo Mestre.  

Maio de 2022.