quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

OS MEUS ROMANCES DE 2019



Os Meus Romances de 2019

 
1º “White Teeth” de Zadie Smith (Penguin, 2000). Já aqui escrevi sobre este romance e por que razão o considero fundamental para compreender a actual realidade urbana. De facto, não conheço nenhum romance que analise de uma forma tão abrangente as presentes relações multiculturais e multi-étnicas das nossas cidades. Além disso, não sei o que mais destacar em “White Teeth”: se a dimensão polifónica e a conjugação estrutural de todos os fios narrativos, se a ironia com que encara e descreve essas relações, se o sentido de observação e de captação dos pormenores que dão vivência a toda a trama, ou ainda a forma como consegue compreender essas relações sem nenhum juízo ético. De qualquer modo, um primeiro grande romance de uma escritora, cuja obra posterior só veio confirmar as suas enormes qualidades. Saliento, por fim, que há uma tradução portuguesa desta obra, que foi descatalogada. Mas era de toda a justiça literária que se procurasse efetuar uma nova tradução e edição.

2º “Ferito a morte” de Raffaele La Capria (Mondadori, 2016). Também já aqui escrevi sobre este romance, publicado pela primeira vez em 1961. Como já aparece em muitos outros romances da literatura italiana, esta obra é um belíssimo texto sobre o desabrochar emocional da adolescência, a descoberta das cumplicidades da amizade e das primeiras paixões, ao mesmo tempo que é um verdadeiro hino de louvor à cidade de Nápoles. O adjetivo que mais nos aparece à mente para o classificar é o de “solar”: pelos poentes marítimos, as pescas subaquáticas sob o brilho dourado do mar, o entardecer sobre os corpos adormecidos à sombra dos cais palacianos.

3º “L’Énigme du retour” de Dany Laferrière (Le Livre de Poche, 2009). Este romance é uma profunda e emotiva reflexão sobre o exílio e a emigração. Articulando poesia, autobiografia e ensaio, este autor haitiano debruça-se sobre as feridas abertas no exilado/emigrante, confrontado com mundos radicalmente distintos que o levam a estar em permanente transito entre realidades (concretas e imaginárias) e que gera um mal-estar irremediável. Sobre este romance, contextualizando-o na vida política do Haiti e na literatura deste país, já publiquei um texto (está em https://transpubl2.blogspot.com/2019/05/dany-laferriere.html) e, para não me repetir, aconselho a sua leitura para quem pretenda saber mais alguma coisa sobre este autor e esta obra.

4º “Los Dias Terrenales” de José Revueltas (ALLCA XX/Scipione Cultural, 1997). Talvez se justifique falar um pouco mais desta obra, pois o seu autor é pouco conhecido no nosso país e seguramente quase desconhecido das gerações de leitores mais jovens. José Revueltas (1914-1976) foi um escritor mexicano e um militante comunista muito activo no seu país. Com quinze anos, ingressou no Partido Comunista do México e poucos meses depois foi logo preso, iniciando então uma sucessão de prisões políticas que culminou com a prisão em 1968, quando foi considerado um dos líderes ideológicos do movimento estudantil que motivou o “Masacre de Tlatelolco”, em que várias centenas de estudantes e outros civis foram assassinados pelo exército e outras “forças de segurança” mexicanas. Mas essa coerência das suas posições ideológicas, não lhe retirou, pelo contrário, a sua independência crítica e, a prova disso, é que, pelo menos por duas vezes, foi expulso do PCM. Um dos fortes motivos dessas expulsões foi a sua produção literária, essencialmente constituída por narrativas, dramaturgia, guionismo e ensaios, iniciada nos princípios dos anos quarenta. “Los Dias Terrenales”, publicado em 1949, foi uma das obras que motivou mais reacções violentas por parte dos comunistas e da esquerda mexicana em geral, ao ponto de levarem o autor a retirar a obra do mercado e a desistir de publicar qualquer texto narrativo durante sete anos. De facto, este romance, passado no seio da militância comunista, não é um romance militante: é uma obra muito sombria e trágica, mas, por isso mesmo, de uma clarividência luminosa sobre a condição humana e os seus limites. No fundo, é um romance sobre a imperfeição dos homens e a convicção de que a luta sobre os ideais essenciais do comunismo, tais como a igualdade, a justiça social, o fim da exploração do homem pelo homem e, porque não?, a liberdade, mesmo que tenha sempre resultados medíocres e funestos, faz parte integral da condição humana, e que, por isso mesmo, é uma luta sisífica. Em termos estilísticos, para além de muitas passagens admiráveis, gostaria de salientar a forma como é descrita, logo nas primeiras páginas do romance, uma pesca clandestina fluvial, levada a cabo por uma coluna comunista para matar a fome à população camponesa. E também é de realçar a imagem, através de várias personagens, que é dada da mulher mexicana, em particular da mulher militante, nos anos vinte do século passado, feita de miséria, fome e humilhação.  

5º “La Bâtarde” de Violette Leduc (Gallimard, 1964). Creio que esta autora francesa, com excepção de alguns grupos (os movimentos de mulheres e as intelectuais feministas), é mais citada do que lida actualmente. Mas é pena, por várias razões. A mais óbvia, é que quando se fala tanto em auto-ficção, não se assinale que os romances de Violette Leduc são objectivamente auto-ficção “avant la lettre”. Em seguida, porque esta é autora tem, na maior parte das suas descrições, um estilo particularmente criativo e inovador (um pormenor técnico: por vezes, é mesmo genial a forma como utiliza os verbos na construção das suas imagens). Os seus romances, e este em especial, são corajosos esforços de autocompreensão, de despojamento “sem filtros” de si, mesmo que, por vezes, tombe em algum sentimentalismo e autocomiseração. Violette Leduc é, para lá de uma notável escritora, uma verdadeira “personagem”, dadas as peculiaridades da sua personalidade, e este facto é evidentemente um dos atractivos das suas obras. Mas, para além disto, “La Bâtarde” é um interessantíssimo fresco sobre a vida intelectual parisiense entre as duas guerras mundiais e expõe um “retrato”, muito interessante e ambíguo, do genial e malogrado Maurice Sachs, uma das grandes paixões da autora. Por último, duas notas sobre esta obra e edição. A primeira, é que é raro encontrar um título de um romance que consiga conter toda a ambiência da obra e, por isso mesmo, seja fundamental para perceber o “olhar” que Violette Leduc lança sobre si própria. A segunda, é para assinalar o magnífico prefácio que Simone de Beauvoir lhe redigiu, pois é exemplar na forma como articula uma postura notoriamente afectuosa para com a autora e o modo lúcido e inteligente com que analisa esta obra.

 



segunda-feira, 30 de setembro de 2019

EM JEITO DE BALANÇO

 



EM JEITO DE BALANÇO

 

Desde sempre, o que mais me motivou para a literatura, foi a descoberta de autores e obras que, perante os meus olhos, abriam novos universos que comigo e com a minha experiência entravam em diálogo.

Como é natural, sentia necessidade de partilhar estas descobertas. Quando era novo, tive a sorte de ter um pequeno grupo de amigos, tão fascinados pela literatura como eu, com quem as partilhava (e, claro, também as desilusões que alguns autores e obras em nós criavam). Hoje, estou certo que uma das motivações, mas não só, que levaram as gerações antes da minha a manter tertúlias durante anos e anos tinham que ver com esta necessidade de partilhar estas descobertas.

Um amigo meu, que, na minha opinião e na de inúmeras pessoas que com ele conviveram, foi um dos intelectuais que mais contribuiu para a mudança de mentalidade(s) no nosso país (o que fazer com o apreço e a estima que tenho por ti, Eduardo?), costumava dizer (e creio que escreveu) que a literatura, mesmo que não tivesse outra utilidade, era um excelente tema de conversa e que, apenas por isso, já justificava plenamente a sua existência.

Talvez haja, na opinião deste meu amigo, uma excessiva diminuta expetativa das potencialidades e do papel que a literatura deve ter na nossa vida e na nossa sociedade… Mas tenho a certeza que todos nós já saboreámos situações que confirmam a pertinência da sua afirmação.

Mais tarde, e durante um longo período da minha vida, tive a sorte de me pagarem para continuar a partilhar, agora publicamente, essas descobertas literárias. Depois, por vicissitudes diversas e pena minha, tive de abandonar esta atividade. E, durante uma década, só em privado (para saturação de familiares e alguns amigos) conseguia satisfazer esta minha necessidade. E, assim, talvez tenha perdido a mão…e o lugar.

Mas, diga-se de passagem, se foi principalmente o prazer da descoberta de universos literários e este gosto de os partilhar que me motivaram para a literatura, essa paixão não poucas vezes gerou, em meu redor, dissabores e incompreensões. O que sempre me pareceu estranho.

Recordo que há muitos, muitos anos, tentei explicar esta minha motivação a uma amiga da altura (e que é hoje uma historiadora respeitada e, ao mesmo tempo, uma comentadora da vida social e política portuguesa que, em defesa de uma conceção absurda e infundamentada do Ocidente, tem assumido posições conservadoras, racistas e xenófobas), se insurgiu violentamente contra mim (com a frontalidade que sempre fez seu apanágio), considerando que esta minha paixão me iria transformar num inútil erudito. Mas também houve e há outras pessoas que, veladamente, foram insinuando que este meu prazer de partilhar descobertas se trata de um puro ato de exibicionismo de leituras e conhecimentos.

Nada desses comentários me podia afetar e, por isso, continuei, desde que dispusesse tempo para isso, a ler, a descobrir autores e obras e a tentar partilhá-los. Foi esse desejo que me levou a criar blogs, para onde canalizo o resultado deste desejo de partilha, e me levou a aproximar-me do facebook e a criar um perfil nesta rede social. Mas não tenho ilusões: nem uma coisa nem outra me satisfazem completamente; mas têm pelo menos a vantagem de ajudar-me a não saturar os mais próximos, pois os meus leitores virtuais têm sempre a possibilidade de passarem à frente (como já acontecia, como é evidente, quando escrevia em jornais e revistas). Além disso, sei muito bem que nem toda a gente que anda na web e nas redes sociais se interessa por literatura (mas também na vida real) e que, mesmo entre estes que se interessam, poucos há que estejam com disposição de conhecer autores e obras que não sejam originários da Europa e dos Estados Unidos (e, vá lá, um pouco da América Latina). Mas fica-me a satisfação (sempre ilusória) de dar gosto ao dedo…

Aproveito esta circunstância para contar uma história e dar uma informação que pouca gente sabe. Há cerca de quarenta anos que comecei a construir uma base de dados com informação sobre autores. Quando a iniciei, havia uma razão prática: eu necessitava de elementos de informação para o trabalho de recensão de livros que então fazia e, como era fundamentalmente sobre autores contemporâneos, tinha, para obter certos dados fatuais, que procurar entre milhares de jornais, revistas e catálogos (que ia acumulando em casa), a maior parte estrangeiros, para os conseguir descobrir. De facto, esta base de dados facilitava-me a vida e poupava-me imenso trabalho e tempo.

E assim a criei e a fui aumentando, cada dia com mais um novo autor… Até que apareceu a web e essa informação tornou-se mais acessível. E a minha base de dados relativamente inútil. Mas tinha-me ficado o “bichinho” (costumo dizer que a sua construção é o meu tricot ou crochet…) e, por isso, mesmo depois da web, continuei a “alimentá-la”, conforme a disponibilidade e os canais de informação, até hoje. Presentemente, em números redondos, essa base de dados tem cerca de cinquenta mil entradas de autores de todo o mundo, principalmente do séc. XIX, XX e XXI. Enfim, tornou-se uma espécie de Wikipédia pessoal.

Agora estou muito contente por nunca ter desistido de construir essa base de dados. Poderá ser inútil para os outros; mas, para mim, é cada vez mais uma fonte inesgotável de informação e de inspiração, pois dá-me pistas sobre autores e literaturas que, na massa informe de dados que é hoje a web, seria muito difícil destacar.

É evidente impossível ler tantos autores (… e obras). Mas é sempre possível descobrir mais alguma informação sobre eles, para sinalizar alguns, saber mais sobre o seu universo literário, ler-lhes uma ou mais obras, e, principalmente, convidar (ou alertar) os meus possíveis leitores para a sua existência. E, por isso, fico satisfeito quando consigo suscitar a curiosidade, nem que seja de um único leitor, para as referências que aqui faço sobre um autor ou uma obra.

Tudo isto é um pouco inútil? Talvez. Para que serve essa partilha e descoberta? Não sei. Mas talvez dê origem a uma boa conversa, como diria o meu querido amigo Eduardo.

E aqui fica uma última história para que possam compreender melhor este meu desejo de continuar. Há já uns tempos, uma ilustre escritora portuguesa, numa cerimónia pública de consagração da sua carreira, anunciou que iria “abandonar a literatura” (isto é, a produção literária). Porém, acrescentou, logo de seguida, que, se ela sentia necessidade de “abandonar a literatura”, tinha a certeza que a “literatura nunca a abandonaria”, enquanto tivesse saúde para a acolher.

Ora, é precisamente isto que eu sinto com esta minha paixão pela literatura e por esta necessidade de partilha.      



domingo, 1 de setembro de 2019

JAKUCHŌ SETŌCHI

 
 

 
Jakuchō Setōchi ou a sinceridade como força de libertação
 
Há já muitos anos, um escritor, intelectual com forte intervenção cívica na vida portuguesa, respeitado por todos os quadrantes políticos e conhecido pelo seu espírito de abertura e tolerância, encontrou-me na rua e, depois de uma saudação, retirou-me o livro que levava debaixo do braço, folheou-o, e, com um abanar melancólico de ombros, disse: “Ah, estes já ficam muito longe…”
O livro era uma novela de Yasunari Kawabata.
Eu, que até lhe tinha uma grande estima, achei, na minha presunção de juventude, que aquela atitude do meu amigo revelava pouca curiosidade e um excessivo desinteresse por um povo e uma literatura que eu considerava relevantes para a história da humanidade. Como era possível que um homem generoso, culto e inteligente, se recusasse a compreender uma civilização milenar e a desinteressar-se pela sua criação literária?
De facto, só mais tarde, depois de ler mais alguns autores japoneses, percebi que a satisfação daquela minha genuína curiosidade não era tão fácil de concretizar como aqueles meus verdes anos poderiam antever: é evidente que o povo japonês tem (tinha?) uma diversificada simbólica, ritos e comportamentos bem distantes dos da minha cultura e que uma plena compreensão da sua literatura exige mais enquadramento informativo do que em relação a qualquer obra de um autor ocidental, tornando a leitura mais árdua e difícil; mas também é verdade que a descoberta de um universo bem diverso do nosso pode dar origem a um fascínio redobrado à leitura de uma obra literária japonesa. É por isso, e porque acredito que aquilo que aproxima a humanidade é muito mais do que o que a distancia, que continuo a ler obras desta literatura e a encontrar prazer e encantamento em textos que inalam um “perfume” aparentemente exótico, mas que, com o convívio, se percebe que é muito próximo e comum.  
A título de exemplo, assinalo que, ainda recentemente, li uma obra de um autor japonês, não muito distante de nós em termos temporais e que conhecia relativamente bem a cultura ocidental (vivera algum tempo nos Estados Unidos e em França), Nagai Kafū (1879-1959), e da estranheza que senti pela sua quase mitificação do universo da prostituição e a dificuldade em compreender, na sua fundamentação mais profunda, as razões que o levam a ter um “olhar” enternecido (até à comoção) pelas protagonistas desse universo, encarando-as como entidades com um papel acolhedor e materno perante a fragilidade e a impotência existencial dos seus clientes.
Recordei-me daquele incidente com o intelectual português, por causa da escritora Harumi Setōchi (1922-). De facto, provavelmente, não existe ninguém mais distante do meu universo do que esta autora: mulher, japonesa e monge budista (aliás, saliente-se, mudou o seu nome, como é canónico, para Jakuchō Setōchi, depois de tomar votos em 1973). Mas é essa distância, sem dúvida, um dos factores que gera em mim um grande fascínio pela sua obra.
Antes de avançar com alguma informação sobre o que conheço desta obra, creio que se justifica, como forma de enquadramento, salientar certos aspectos do universo editorial e literário contemporâneo japonês.
O primeiro aspecto relaciona-se com a enorme relevância dos “magazines literários” neste universo editorial e literário. Estas revistas, na generalidade de carácter mensal, procuram cativar diversos segmentos de leitores e, por isso mesmo, exigem uma produção literária com características muito peculiares, isto é, em que o autor é obrigado a condicionar a criatividade literária à acessibilidade e à temática, e, no caso da ficção, a uma trama potencialmente sedutora do grande público. Como eram uma fonte de rendimento regular, foram inúmeros os autores, ao longo do séc. XX, que se dedicaram a este tipo de produção narrativa, de cariz mais popular, em complemento de uma actividade literária com uma componente mais exigente em termos de criatividade.
 Por conseguinte, torna-se compreensível a importância que estes “magazines literários” tiveram (e têm) no desenvolvimento das formas narrativas da literatura japonesa (recorde-se, por exemplo, que provavelmente o prémio literário com mais prestigio do Japão, o Akutagawa, concedido semestralmente, é organizado há várias décadas por um destes magazines, o Bungeishunjū). Esta relevância reflecte-se duplamente: primeiro, na importância que têm as peças de pequena dimensão, como o conto e a crónica (ou, em complemento, o folhetim), na evolução das formas narrativas; segundo, a importância de modelos narrativos concebidos para cativar amplos segmentos de população na obra dos mais significativos autores da literatura japonesa contemporânea.
Ora, Harumi Setōchi, escreveu, ao longo da sua vida, sempre para estes “magazines literários” e, por isso mesmo, essa produção narrativa tem uma enorme relevância no conjunto da sua obra.
Um segundo aspecto que gostaria de referir sobre a vida literária japonesa, relaciona-se com a substancial codificação dos modelos narrativos nesta literatura. Neste contexto, destaco, dada a relevância que tem para caracterizar a obra de Harumi Setōchi, aquele que os analistas têm nomeado como “I-Novel” (Watakushi shōsetsu). Este modelo narrativo, que se difundiu somente no período Meiji e com a introdução da estética naturalista no Japão, tem um carácter claramente confessional, onde o autor procura descrever algum evento ou situação, muito pessoal e íntimo, em princípio socialmente negativo e oculto. Percebe-se, por isso, que há alguma similitude entre este modelo narrativo e aquele que, recentemente, alguns teóricos e analistas do fenómeno literário classificam de autoficção no quadro da narrativa ocidental. No entanto, convirá dar alguns esclarecimentos complementares: primeiro, não é obrigatório que exista uma relação directa entre o sujeito narrador e o autor (isto é, o “I-Novel” pode ter um sujeito narrador na terceira pessoa do singular, ou ter um personagem-narrador identificado e distinto do autor ou ainda vários narradores; o que é fundamental é que o leitor tenha capacidade de reconhecer que a trama da obra se relaciona com qualquer acontecimento (ou acontecimentos) que sucederam ao autor. Percebe-se, neste quadro, que um dos parâmetros de valoração destas obras é a sinceridade (parâmetro, na minha opinião, inevitavelmente ambíguo no domínio da produção artística) ou, por outras palavras, como é que a técnica narrativa consegue exprimir em profundidade e tornar explicita essa dimensão pessoal e íntima da vida do autor que a trama descreve. Por último, percebe-se também que a “I-Novel” tem uma dimensão de “roman à clef”, pois é fundamental que o leitor tenha a capacidade de reconhecer na trama narrada um acontecimento da vivência do autor. Como pormenor, só referir que Osamu Dazai é reconhecido como o autor mais prestigiado que se dedicou à produção de “I-Novels”.
Convém este esclarecimento para compreender um pouco a obra de Harumi Setōchi, pois esta autora publicou vários títulos que podem ser classificados como “I-Novel”, mesmo reconhecendo que alguns deles procuram fugir ao modelo canónico.
Ainda antes de avançar para as referências à sua obra, creio que é fundamental (e na perpectiva do “I-Novel”) fazer referência a uma circunstância biográfica da autora, pois ela tornou-se decisiva na formação do seu pensamento e crucial para a compreensão da sua obra.
Harumi Setōchi casou-se, com pouco mais de vinte anos, com um professor de música mais velho do que ela e que foi colocado, no quadro do serviço diplomático, em Pequim. Passado pouco tempo, no entanto, e já depois de ter tido uma filha, apaixonou-se por um aluno do marido e, durante um certo período, viveu um trio amoroso, até que a situação se tornou insustentável, obrigando-a a abandonar marido e filha, a regressar ao Japão, e, mais tarde, a divorciar-se.
Esta experiência amorosa teve um papel determinante na orientação da sua obra futura. Não só a autora se refere a ela, expondo-a de forma corajosa na sua autobiografia, como, de forma directa ou indirecta, está presente, em termos temáticos, em toda a produção narrativa que escreveu e publicou.
Seguindo uma “vocação” que se lhe manifestou desde muito nova (ainda antes de se casar já se tinha formado em Literatura Japonesa), Harumi Setōchi decidiu, depois do divórcio, dedicar-se em exclusivo à literatura.
Começou então a escrever para os referidos “magazines literários”, em particular, histórias orientadas para jovens adolescentes. Foi uma destas histórias, intitulada “Qu Ailing, a girl student” (tradução inglesa do título em japonês), que chamou a atenção para o seu trabalho narrativo, uma vez que obteve um prémio para jovens autores. Mas é uma outra narrativa (“The Pistil”), de cariz diverso, a que obtém maior notoriedade, mas uma notoriedade traumática: esta história de uma jovem mulher, que abandona uma conjugalidade estável e próspera, por uma vida de prostituta de luxo, em consequência da sua forte obsessão sexual, foi considerada obscena e pornográfica, principalmente devido à utilização constante do calão a referenciar os órgãos genitais femininos e um excessivo realismo na descrição do prazer orgástico da mulher. Essa reacção, fortemente crítica, fechou-lhe as portas dos editores e, por isso, durante alguns anos, Harumi Setōchi não conseguiu publicar a sua produção literária.
Viu-se, por isso, obrigada a efectuar uma inflexão na sua carreira literária: começou a escrever biografias romanceadas de figuras femininas marcantes da era Meiji (1867-1912). É o caso de “Tamura Toshiko” (1961), com que obteve um novo prémio literário, e que é a primeira de uma série de várias obras similares (escreveu nesta fase cerca de oito biografias), todas elas com as mesmas características: são todas centradas em mulheres que, em consequência de um comportamento passional intenso e da necessidade de serem manifestamente sinceras consigo próprias, entram em confronto com os padrões normalizados que a sociedade impõe ao comportamento feminino, conseguindo, no entanto, por vezes com sacrifício da sua própria vida, romper com essa teia social asfixiante, garantindo uma liberdade de comportamento às mulheres que, até aí, não existia.
Paralelamente, começou de novo a escrever narrativas (contos e romances), organizadas em duas séries, conforme o nome das personagens centrais femininas (Tomoko e Makiko) e inspiradas notoriamente nas experiências pessoais da autora (“I-Novel”), sobre mulheres vivendo triângulos amorosos (ou objectivamente adúlteras), em que um dos “lados” é quase sempre um homem casado, e sobre os dilemas emocionais, morais e até psicológicos que vivem nessas circunstâncias. A crítica reconhece nessas obras que Harumi Setōchi tem uma assinalável capacidade de análise psicológica; mas, ao mesmo tempo, vai continuando a acusá-la de excesso de erotismo e que as personagens femininas centrais destas narrativas manifestam um  sensualismo demasiado exarcebado. É deste período um dos contos mais famosos da autora, “The End of the Summer”, premiado e traduzido para várias línguas, e que lhe granjeou, em definitivo, o estatuto de escritora importante no quadro da literatura japonesa da segunda metade do séc. XX.
Nos primeiros anos da década de setenta, Harumi Setōchi resolve começar a trabalhar no diário “The Confessions of Lady Nijō” (1306), escrito por uma cortesã do séc. XIV com uma vida amorosa muito atribulada, recriando a sua biografia e efectuando uma versão para japonês moderno deste clássico. Segundo testemunho da própria autora, quando fez cinquenta anos, por influência desta obra, resolveu cortar o cabelo, passando a viver de cabeça rapada, e a entrar para um convento budista como monja, mudando o seu nome para Jakuchō Setōchi. 
Inicia-se então um dos períodos, na perspectiva dos críticos, mais profícuos da autora. De facto, ela própria reconhece, com alguma ambiguidade, que o seu estatuto de monja budista, originando uma certa austeridade de vida, lhe serviu para a afastar da turbulência amorosa em que vivia e, dessa forma, conseguir a serenidade necessária pra se dedicar de um modo mais criativo à sua produção literária. Seja como for, é deste período algumas das obras mais elogiadas de Jakuchō Setōchi, como é o caso de “Mt. Hiei”, considerado hoje como uma das obras-primas no modelo “I-Novel” ou a biografia “Ask The Blossoms”, sobre o poeta Saigyo (a única biografia da autora tendo como personagem central um homem), que ganhou o Tanizaki Prize, ou o segundo volume da sua autobiografia, intitulado “Places”, que obteve o Noma Prize.
Durante a década de noventa, dedicou grande parte do seu tempo à produção de uma versão em japonês contemporâneo do “Genji Monogatari”, que foi publicada com um enorme sucesso de vendas e que lhe deu, em definitivo, o estatuto de “respeitável escritora”, ao ponto de receber, das mãos do Imperador, em 2006, a condecoração da “Ordem da Cultura”. Longe ia o tempo em que era acusada de escritora pornográfica e de feminista radical, provocando a degradação moral das jovens gerações e a destruição da sociedade japonesa tradicional.
Não se julgue, contudo, que Jakuchō Setōchi, hoje, com quase cem anos, repudiou as posições anteriormente defendidas. Sucede apenas que os tempos mudaram e a sociedade japonesa passou a considerar que, nos livros e nas entrevistas que a autora continua a realizar, há uma sabedoria mitigada pela idade que lhe dá uma outra capacidade de entender o caminho andado pela sociedade japonesa e, em particular, pela mulher.
Pode afirmar-se, porém. que as componentes mais relevantes da sua obra estão concluídas, permitindo que a crítica possa já destacar alguns traços fundamentais.
O primeiro aspecto a destacar, é que a autora notoriamente considera que a dimensão erótica e a sensualidade da mulher têm contribuído decisivamente para a sua libertação das cadeias que a sociedade patriarcal lhe tem colocado, contribuindo dessa forma para uma significativa abertura dos costumes e da moral. Neste contexto, a mulher encontra-se muitas vezes no dilema entre responder afirmativamente aos seus impulsos emocionais e afectivos ou acatar os comportamentos convencionais (de esposa e mãe) que habitualmente a sociedade lhe exige. Mas, na perspectiva de Jakuchō Setōchi , este é um falso dilema, pois a mulher, se for “sincera” com as suas emoções, tenderá a segui-las, sob pena, se o não fizer, de se autodestruir; mas, por outro lado, a autora também tem consciência que a correspondência positiva ao que determina a sexualidade e o desejo femininos podem dar origem a significativos condicionamentos individuais, uma vez que a paixão, que a carência sexual em parte provoca, leva a mulher a uma sujeição e, por vezes, a um sofrimento emocional que pode ser muito destrutivo.
É para compreender a ambivalência deste comportamento emocional determinado pela sexualidade que a situação de triângulo amoroso, ou até mesmo do adultério, é importante para Jakuchō Setōchi, pois permite-lhe efectuar, pela evidência das tensões e dos condicionalismos, uma exaustiva análise dos efeitos psicológicos, éticos e filosóficos da sexualidade e do comportamento amoroso feminino.
Segundo os analistas, é no quadro desta capacidade afirmativa e/ou destrutiva das relações amorosas que aparece na obra de Jakuchō Setōchi o espectro da Morte. De facto, essa presença fantasmagórica revela-se também de forma ambivalente: por vezes, parece o final desejado pelo paroxismo da paixão amorosa; por outras, manifesta-se como a sombra destruidora dos amantes que sentem o esgarçar do envolvimento amoroso, mas, paralelamente, são incapazes de por fim ao relacionamento, por comodismo, excesso de sofrimento ou obsessão sexual.
Hoje, há quem considere a obra de Jakuchō Setōchi como uma peça importante para pensar a sexualidade e o desejo femininos e os seus efeitos pessoais e sociais, e, por consequência, uma referência no pensamento feminista mundial. Não sei se a autora se reconhece nessa classificação; mas não há dúvida nenhuma que a sua obra poderá ser importante para perceber a diversidade das implicações na mulher dos seus envolvimentos amorosos.
Por último, referir que os críticos conseguem distinguir duas componentes bem distintas na sua obra e ambas, por razões diversas, entendidas como muito significativas: por um lado, a sua produção narrativa com maiores inovações estéticas e literárias, e que integra as suas narrativas concebidas ou próximas do modelo do “I-Novel” e as suas autobiografias; por outro, na perspectiva relacionada com os efeitos sociais de uma obra literária, a que realizou com objectivos mais populares, em particular as suas biografias de figuras femininas do período Meiji, que se tornaram exemplares pela clareza expositiva e pelo rigor da fundamentação histórica (sendo, por isso, importantes para compreender aquele período), mas principalmente pela adequação estratégica da narrativa em defesa dos valores e dos comportamentos das figuras retratadas.
Termino a assinalar que algumas obras (não muitas) de Jakuchō Setōchi estão traduzidas para inglês, francês e italiano.   
 



sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A LÁPIDE DO MEU AVÔ



A LÁPIDE DO MEU AVÔ

 

Por vezes, há um pequeno gesto de um filho, ou uma situação que se vive nas salas do dia a dia, ou um simples objeto que alguém nos traz e, num lampejo, a memória, como se fosse uma fiada de lenços atados, saída da cartola de um ilusionista, leva-nos a desfilar situações há muito esquecidas. E sentimos a necessidade de registar essa ordem construída pela memória e um impulso, quase ético, de tornar público o que o tempo nos colocou no palco da vida.

Quando tinha uns vinte anos, a minha mãe suplicou-me para que tomasse parte numa cerimónia: o descerramento de uma lápide na casa onde o meu avô tinha vivido numa aldeia do interior do país.

Já na altura era avesso a este tipo de cerimónias e daí a súplica dela.

Mas, neste caso, abri uma excepção e acedi. Havia razões para o fazer (para além, obviamente, do pedido da minha mãe).

Eu era o neto único do meu avô Adelino e esta cerimónia tinha sido organizada pelos moradores mais velhos da aldeia.

O meu avô era, nos anos vinte e trinta do século passado, a única pessoa que sabia ler e escrever na aldeia. E fora ele que ensinara as primeiras letras aos vizinhos (na aldeia, nem tasca havia, quanto mais escola…). Passados uns quarenta anos, os moradores, reconhecidos com o seu gesto, decidiram colocar a referida lápide na parede frontal da sua casa.

O meu avô Adelino era para mim apenas algumas fotos de formato oval no fundo das gavetas da casa dos meus pais, entre papéis avulsos e mais fotografias. E certas histórias que a minha mãe contava.

Uma delas era que ele tinha morrido por causa de traumatismos resultantes de uma luta de varapau que tivera com um rival de uma aldeia próxima. Ainda nos anos trinta. E que fora assim que a minha mãe ficara órfã com seis ou sete anos.

O sustento da minha avó brotava de uma pequena horta, em socalcos, onde semeava algumas couves e outros legumes, batatas e milho. E um ou dois porcos e meia dúzia de cabras. Tudo criado no curral que ficava debaixo da habitação. Ah, e claro, uma capoeira, com algumas galinhas e coelhos, ao lado da entrada, num pátio interior. Mas dinheiro não havia.

A minha avó vivia paredes meias com uma irmã e outro irmão. “Paredes meias” é a expressão certa, pois passava-se por uma porta interior, atravessando um tabique, da casa dela para aquela onde vivia os meus tios.

O irmão era deficiente mental profundo (“o doido de nascença”, como era conhecido na aldeia). Nem sabia falar, manifestando-se apenas por esgares de satisfação ou urros, quando sentia dores ou se magoava. Vestia uma espécie de bata de sarja, abotoada à frente, porque “obrava” onde estava e quando sentia necessidade. Dentro da sua perturbação, era um homem sereno: abria-se sempre num riso largo, satisfeito, quando reconhecia alguém e nunca tivera uma reação violenta contra pessoas ou animais. Era-lhe conhecida uma única obsessão: retirar as pedras das calçadas para as bermas, pois aleijavam-lhe os pés descalços quando levava à cabeça gigantescos fardos de ervedeiros para as cabras ou cestas cheias de legumes. Era o “animal de carga” da família.

Quando era miúdo, impressionava-me o ritual de todas as férias: o meu pai, com tesoura e navalha, cortava, à porta de casa, a barba e o cabelo de vários meses ao meu tio. Ele sentava-se muito direito à espera que o meu pai terminasse e, quando este lhe chegava o espelho ao rosto, depois de um momento de espanto, explodia numa enorme gargalhada, ao reconhecer a sua cabeça escanhoada e de cabelo curto.

As duas irmãs eram tão semelhantes como duas lágrimas. Pequenas, pareciam duas colunas de ossos e pele, secas e muito direitas. E um rosto miúdo, com uma mortalha de rugas, coroado por uma película de cabelo negro, preso em carrapito.

Viviam com a serena e afetuosa cumplicidade das necessidades de sobrevivência. Ao ponto de aceitarem partilhar na cama o mesmo homem durante décadas.

Da relação entre o meu avô e a minha tia, nasceu um rapaz, meio-irmão mais novo da minha mãe.

Foi, portanto, com a angústia da resignação que, quando o marido morreu, a minha avó pediu a uma irmã do meu avô que não vivia na aldeia que criasse a minha mãe. Só lá ficou o seu meio-irmão, pois ainda era criança de berço. E foi assim que ela saiu da aldeia, onde só voltou depois de casada.

Esse meio-irmão da minha mãe também não teve grande sorte. Enquanto esteve na aldeia, passou a infância e a adolescência a pastorar na montanha o rebanho do povo e a lavrar a terra. Com dezasseis anos, fugiu para a Lisboa, onde um parente lhe arranjou trabalho como marçano. Aos vinte anos, já na década de cinquenta, quando foi chamado para a tropa, voltou à aldeia para se despedir da família. Na festa que fez, ao lançar um foguete, esfacelou uma mão e, passadas pouco mais de vinte e quatro horas, morreu de tétano: na aldeia não havia médico nem maneira de o levar a um hospital. Ninguém conseguiu acudir-lhe e morreu dessa forma, delirando de febre e suplicando ajuda.

Nos inícios da década de sessenta, os irmãos da minha avó morreram um a seguir ao outro, ficando ela sozinha a residir na casa. Recusava-se a abandoná-la.

Certo dia, ligaram da aldeia para Lisboa, a alertar os meus pais de que a minha avó tinha tresloucado. Parece que não se alimentava nem já sabia como fazer comida. Fomos de imediato buscá-la e, quando chegámos, constatámos que a minha avó dançava em casa, vestida apenas por uma saia negra, ao som de nenhuma música.

Lavámo-la e vestimo-la, preparando-a para a trazer. Mas, mal chegou à porta, gritou de pânico, agarrando-se a tudo o que podia com as poucas forças que tinha e correndo, em desvario, pela casa toda.

Depois, exausta, num choro mudo, agarrou-se à minha mãe a implorar que a deixasse ficar.

Viveu os seus últimos tempos na casa dos meus pais, em Lisboa, e nunca mais voltou à aldeia. Eu, com a perfídia típica dos miúdos, divertia-me a judiar a sua senilidade mental. Recordo-me como a consegui perturbar, dizendo-lhe para olhar para a Lua à noite, pois andavam lá homens. Sentada, abanando o tronco para a frente e para trás, começou a rezar o terço com um fervor mais nervoso e, encarando-me de forma inquisitiva, parou a sua ladainha e disse-me, com uma voz cava, que era muito mau e que procurava torturá-la com conversas doidas, pois ela bem sabia que era impossível haver homens na Lua.

Passado algum tempo, deixou de reconhecer as pessoas e desaprendeu de saber comer. Uma noite, enquanto dormia, morreu.

Os meus pais, poucos anos depois, venderam tudo o que tinham na aldeia. Incluindo a casa. E assim terminou a ligação física da minha família com aquele lugar.

Recordo-me que foi perante o olhar branco do meu avô na foto da gaveta, que compreendi que, participar na referida cerimónia, era apenas um breve sinal de “reconhecimento” da miséria, resignação e sofrimento indescritível que aquela gente passara e que o rio do tempo estava rapidamente a levar para a foz do esquecimento.

Era só uma pequena lápide contra o tempo. Mas hoje reconheço que fui bastante ingénuo.

Há uns quatro ou cinco anos, resolvi regressar a aldeia. Gostava que a minha mulher e os meus filhos conhecessem onde nascera a minha falecida mãe, que eles não chegaram a conhecer. Já que não existia mais nenhum elo material, ao menos que ficasse registado na sua memória o lugar onde nascera a sua avó. Para que esta não fosse apenas algumas fotos no fundo de uma gaveta.

Fui sabendo notícias da aldeia e, por isso, a minha expectativa não era grande.

Quando descemos do carro, na estrada que termina ao cimo da aldeia, reparei logo no abandono. A maioria das casas tinha ruído, e o mato e as silvas deixaram só um estreito carreiro no caminho principal. As lajes de xisto, que o formavam, estavam quebradas e soltas e tornava-se arriscado, para não dizer perigoso, descer pelo que restava da rua. Reparei na casa do avô, que se mantinha de pé e com as janelas de madeira nos caixilhos. A não ser um ou outro vidro partido e as grandes silvas que amarinhavam pela parede frontal, onde estava ainda a lápide, não se via nenhuma alteração em relação à casa que conhecera. Mas, ao aproximar-me do pátio interior que, numa parede lateral, dava acesso à porta principal, percebi que era impossível lá chegar, dado o tufo, mais alto do que um homem, de mato e silvas que aí se encontrava. Era impossível entrar ou sequer bater à porta.

Não se via viva alma na aldeia nem se ouvia nenhum ruído, a não ser o silvo da brisa, batendo nas folhas das árvores, daquela tarde quente de Verão. Por isso, começámos a descer com cuidado a rua, gritando para um lado e para o outro: “Está aqui alguém? Está aqui alguém?”.

O abandono e o isolamento do local assustavam os miúdos e, por isso, caminhávamos, pé ante pé, receosos do que iriamos encontrar. Porém, alguns pequenos chãos cultivados na margem da ribeira, que corria no fundo do vale, e que se viam da encosta que descíamos, davam-nos a certeza de que alguém deveria estar por ali.

Já estávamos dispostos a desistir, quando ouvimos responder ao nosso alarido. Encaminhámo-nos para o lado donde tinha vindo o “oi” de resposta e parámos junto a uma larga entrada que se abria para um amplo pátio interior. Não se via ninguém. Perguntámos se podíamos entrar e começámos a avançar.

Mas parámos logo, especados. Principalmente os meus filhos que ficaram lívidos com o que todos víamos.

A um canto do pátio, numa banheira de metal, rodeada de ervas e trevos floridos, encontrava-se umas duas dezenas de gatos mortos, alguns ainda sagrando e outros meio putrefactos.

Nem conseguíamos mexer-nos com aquela descoberta sinistra. Ainda nos encontrávamos na mesma posição, quando apareceu um velhote de mãos encardidas e gretadas de trabalhar no campo.

Comecei a conversa como se aquele achado não estivesse ali mesmo ao lado. Contou-me então que era o único habitante da aldeia e que lá vivia com a mulher e o filho. Que as outras casas, que se mantinham de pé, eram de gente que vivia em Lisboa ou tinha emigrado para as Franças e Araganças. Perguntei-lhe pela sua graça e disse-me o seu nome; mas, de imediato, acrescentou que era conhecido por “o Americano”, pois fora o único na região que emigrara para a América, onde ainda tinha vivido uns anos. Perguntou-me se era filho de alguém da terra e disse-lhe que sim, e logo voltou a interrogar-me se ainda lá tinha casas ou terras. Respondi-lhe que não e tentei explicar quem era a minha família. O gesto de abandono da mão e o comentário ao meu esclarecimento (“Ah, pois, “esses” já cá não têm nada…”) foram bem claros sobre qual o interesse de o Americano.

Mas tentou ser educado. Pediu-me desculpa pelo seu empenho e contou-me que tinha comprado tudo o que podia de casas e propriedades ali na aldeia. Inquiri-lhe para quê e disse-me de imediato que não sabia, mas, depois, acrescentou: “As propriedades valem sempre alguma coisa…”. De seguida, coçando a cabeça, foi-me dizendo que ia lavrando as que era capaz e restaurando as casas conforme arranjava dinheiro. Voltei a perguntar-lhe para quê e respondeu-me que “pode ser que apareça alguém que queira regressar à aldeia e queira uma casa”. E que, além disso, as conseguia comprar por tuta e meia.

Continuámos a conversa com trivialidades, até que, quando íamos já a abandonar o local, lhe perguntei sobre o que faziam ali aqueles gatos mortos. Disse-me que as pessoas, quando morreram ou saíram da aldeia, deixaram muitos gatos ao abandono e que eles fugiram para o mato, procurando sobreviver, e que lá se criaram e reproduziram. E que se tinham tornado uma verdadeira praga, pilhando as capoeiras e comendo a criação, entrando em casa e roubando a comida, até quando a mulher a estava a fazer. Por isso, fora obrigado a rodear a aldeia com armadilhas de caça. E que, quando por lá passava, e via algum preso e morto, os trazia para ali. Depois, quando a banheira estava cheia, fazia uma cova funda e enterrava-os.

Quando já estávamos nas despedidas, deu-me o seu número de telefone, esclarecendo que era o único que funcionava na aldeia, para a eventualidade de conhecer alguém da terra que quisesse vender o que lá tinha. Disse-lhe que ficasse descansado, que assim faria. Mas nunca lhe telefonei e rapidamente perdi o papel onde ele tinha assente o número.

Quando chegámos ao cimo da aldeia, olhei para a encosta em frente e recordei-me de um terror noturno, que tinha em miúdo, quando cá dormia.

O vale é muito fundo e as encostas da serra muito abruptas. Principalmente a que fica em frente da aldeia. De noite, com a lamparina apagada, e sozinho no quarto, que na altura me parecia enorme, via, através do vão da janela, uma enorme parede de urze, mato e pinheiros, iluminada pelo luar. Nem se vislumbrava uma nesga de céu. E, numa alucinação, parecia que aquela parede avançava lentamente de encontro à encosta da aldeia, até que as plantas, as árvores e a terra entravam pela janela, enterrando-me no fundo dos escombros da casa.

Ali de cima, olhando para as casas em ruínas e os caminhos da aldeia, serpenteando pela encosta abaixo, percebi que aquele pesadelo se tinha cumprido: as plantas silvestres e o mato da ladeira em frente estavam gradualmente, estação após estação, a absorver a encosta habitada, atabafando tudo o que deste lado existe.

Este ano, a caminho da sede de freguesia, passei pelo cruzamento que desce para a aldeia. Reparei que ainda existia uma tosca tabuleta pintada à mão a indicar a direção. Mas não me senti com coragem de lá ir.

Na sede da freguesia, encontrei o presidente da junta na tasca local e perguntei-lhe se ainda habitava alguém na aldeia.

Disse-me que sim. O Americano tinha morrido, mas ainda lá ficaram a viúva e o filho. E que, todos os anos, no mês de Julho, os que saíram para Lisboa ou emigraram para o exterior, realizavam um almoço no pequeno largo em frente à casa que fora do meu avô, trazendo mesas, cadeiras, toalhas e vitualhas para a rua. Era a forma que tinham arranjado de fazer renascer, num ritual, a aldeia…

Ao regressar, paro novamente na encruzilhada, no alto da serra, a observar mais uma vez aquela tabuleta. E lembro-me das conversas que lá longe, a centenas de quilómetros, tenho com os meus amigos de Lisboa sobre o envelhecimento da população e a desertificação do interior.

De súbito, sob o brilho ofuscante do sol de Verão, pareceu-me ver, refletido na tabuleta, o olhar a preto e branco que a foto do meu avô registou. E avassala-me uma sombria resignação.

Provavelmente tudo isto será inevitável, penso. Uma inevitabilidade apocalíptica.

Depois fecho os olhos, para apagar a hipnose do olhar do meu avô. E reconsidero, menos tenso, que, mais uma vez, estou a confundir a inevitabilidade da minha própria morte com a do mundo.

Arranco com o carro e sigo pela estrada. Para trás deixo um mundo que morre comigo e cujos valores me esforcei, talvez sem sentido, por transmitir aos meus filhos.

 

 

Lisboa, Setembro de 2016.

 

José Manuel Cortês



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

MIRIAM TOEWS

 

Foto de Adam Rankin


Miriam Toews

 

Miriam Toews (1964-) nasceu em Manitoba, um dos Estados canadianos da chamada zona das Grandes Planícies, numa família menonita. Mesmo que se procure fugir aos excessos de biografismo, estes dois factos vão revelar-se determinantes na obra narrativa desta autora, que é composta, até hoje, por sete romances e um livro com componentes biográficas (sobre o destino e a morte do seu pai).

Manitoba é um Estado com uma baixa densidade demográfica, em particular na sua região Norte, e um clima bastante agreste, bem semelhante ao de Saskatchewan, repleto de lagos e de florestas coníferas. Simplesmente, o facto de ter uma costa aberta para a baía de Hudson, ocasiona que, sendo tão frio como o de Saskatchewan, atingindo habitualmente no Inverno temperaturas de 20 graus negativos, seja mais húmido; mas, por outro lado, em consequência de ser uma gigantesca planície, também sofre influências, através dos Estados Unidos, das correntes do Golfo do México, atingindo no Verão temperaturas superiores a 30 graus, em particular na região sul deste Estado, onde faz fronteira com o Dakota do Norte e o Minnesota. Aliás, esta região, não só é a mais densamente povoada como é a mais rica em termos agrícolas, sendo, neste aspecto, uma das mais produtivas de todo o Canadá. Ora, foi aqui que, em meados do séc. XIX, se estabeleceu uma comunidade de emigrantes menonitas, oriundos da Ucrânia, de que Miriam Toews descende.

Mesmo considerando que este não é o local mais adequado para expor detalhadamente a doutrina religiosa dos menonitas, sempre se recorda que é resultante de uma dissidência no seio do anabaptismo, e que foi criada no séc. XVI, na Frísia, por Menno Simons. Esta dissidência, brutalmente perseguida, tanto pelas restantes seitas anabaptistas, como pelos luteranos, levou os menonitas a dispersar-se por várias regiões do Leste europeu nos sécs. XVII e XVIII. Sempre em busca de uma liberdade de culto que lhes era difícil de obter, algumas destas comunidades, já no séc. XIX, resolveram deslocar-se para o Canadá e para os Estados Unidos, onde se estabeleceram e prosperam, em particular, através da actividade agrícola e da criação de gado. Sendo menos resilientes ao progresso técnico e social do que os amish (que são, por sua vez, uma dissidência dos menonitas), são, contudo, um grupo bastante conservador e patriarcal, com rigorosas regras comportamentais, muito opressivo em relação às mulheres, e, por isso, tem tendência a isolar-se e a fechar-se, em defesa dos seus costumes, excomungando todos aqueles que afrontem as regras comportamentais estabelecidas. Por último, é importante referir que algumas destas comunidades menonitas viram-se obrigadas, por dificuldades de reconhecimento de direitos pretendidos de autonomia por parte do Estado para a sua prática religiosa e para a suas especificidades socio-culturais (por exemplo, recusam-se a enviar os filhos para as escolas públicas e a cumprir o serviço militar), a emigrar de novo para a América Latina, existindo colónias em quase todos os países desta zona do mundo, devendo-se destacar, para compreender a obra desta autora, as do México e da Bolívia.

Um outro aspecto muito relevante para compreender estas comunidades, e, consequentemente a obra de Miriam Toews, é que nas suas colónias apenas se fala plautdietsch, uma língua não escrita que é uma variante do baixo alemão oriental com influências neerlandesas, fixada no séc. XVII, sendo, nas mais conservadoras e ortodoxas, interdito, sob pena de excomunhão, que alguém ensine a ler e a escrever outra língua, em particular às mulheres.

Para concluir, apenas salientar que existem hoje cerca de um milhão e meio de menonitas em todo o mundo, espalhados por perto de uma centena de países.

Ora estas informações são fundamentais para compreender e situar a obra de Miriam Toews, pois a maioria dos seus romances (com excepção dos dois primeiros, “Summer of My Amazing Luck” e “A Boy of Good Breeding”, e, mais recentemente, de “The Flying Troutmans”) estão explicitamente relacionados com a experiência vivida pela autora como membro desta comunidade. Aliás, toda a sua obra, pois os restantes livros também se situam em contextos sociais muito similares ao das comunidades menonitas. A própria Miriam Toews, em diversas entrevistas, tem salientado que ainda hoje se considera uma “menonita secular”, o que revela a ambiguidade do seu relacionamento com a sua comunidade originária, e que deriva em grande parte por entender que existem aspectos positivos na sua ética, mas também por considerar, provavelmente, que é impossível “libertar-se” da formação que esta comunidade lhe incutiu durante a infância e adolescência.

Na obra desta autora há algumas constantes que são fáceis de destacar: o contexto social dos protagonistas dos seus romances é sempre o de pequenas comunidades rurais, extremamente conservadoras, mesmo fechadas e imperialmente patriarcais; os protagonistas, quase sempre mulheres, sentem-se, por motivos óbvios, profundamente desadequados ao meio social envolvente e à sua extrema solidão (ou isolamento). Perante esta situação, essas mulheres ou anseiam e sonham por uma outra vida, muitas vezes com desejos fúteis e irrealistas (sabendo, contudo, que, se “fugirem”, serão excomungadas e perderão qualquer possibilidade de contacto ou apoio da comunidade de onde saíram), ou se conformam mais ou menos às regras sociais impostas, arrastando, ao longo da vida, “traumas” destrutivos que afectará a sua vida emocional e a sua estabilidade psicológica.

Mas esta situação, objectivamente trágica, é sempre encarada pela autora com um imenso humor, como se o jogo da vida não passasse de uma colossal farsa. A maior parte destas protagonistas são adolescentes ou jovens adultos presos entre duas teias, a das convenções da sua comunidade, que abominam, e a incapacidade de se entender e se ajustar aos comportamentos da sociedade “exterior”, o que os leva a muitos momentos absurdos, irrisórios, mas também hilariantes. Por isso, pode dizer-se que os romances de Miriam Toews são, antes do mais, romances de personagens (passe o pleonasmo desta expressão). Quer isto dizer que, todas as situações descritas procuram, antes do mais, explicitar as peculiaridades dos seus comportamentos, a forma como entendem e reagem às solicitações externas, revelando por essa via a sua personalidade, isto é, as suas fragilidades e dependências, mas também a força optimista, quase jubilosa, como reagem às adversidades e à sua falta de competências para viver. Por isso mesmo, pode afirmar-se que há um constante “olhar” afectuoso da autora sobre essas mesmas personagens que permite, em descritos contextos de enorme adversidade, manter com elas uma constante cumplicidade. Vários comentadores e analistas da obra de Miriam Toews destacam a importância deste olhar para “suportar” a leitura dos seus romances, pois consegue, pela ironia e pelo humor, quebrar possíveis excessos melodramáticos.

Outro aspecto constante dos romances de Miriam Toews é que partem sempre, como a autora assinalou em diversas entrevistas, de uma “ideia” que, quase por si só, suporta a trama e o fluir da narrativa. Por outras palavras, não se pressente nas suas obras, a existência de uma estrutura ou de uma arquitectura prévia, sendo o próprio desenvolvimento narrativo da referida “ideia” que vai gerando o romance, os seus constantes “flashbacks” e o “zizaguear” das peripécias descritas.

Este ambiente das comunidades rurais canadianas espelha-se logo na primeira obra de Miriam Toews, intitulada “Summer of My Amazing Luck”, e cuja “ideia”, segundo declarações da autora, deriva de uma reportagem jornalística que realizou. As personagens principais deste romance são duas “welfare mothers” (expressão que designa mães solteiras que criam os seus filhos com apoios assistenciais do Estado) que vivem obcecadas em descobrir quem são os pais dos seus filhos e para onde foram. O romance é principalmente constituído pelo “retrato” destas personagens, da motivação que as levou a esta situação de mães de filhos sem pai e do que ambicionavam nos homens que procuraram, em suma, pelos seus sonhos e devaneios, pelas grotescas dificuldades financeiras porque passam, que lhes condiciona a existência e as empurra para uma viagem alucinada em busca de um possível pai das suas crianças que elas desconhecem o paradeiro. Porém, logo neste primeiro romance, o que se destaca é o humor da narrativa e a forma afectuosa, sem juízos éticos, com que encara o modo de viver destas jovens mulheres e o seu quotidiano medíocre.

O segundo romance, “A Boy of Good Breeding”, parte de uma “ideia” já de si suficientemente pícara: o “mayor” de uma aldeia “ficcionada”, chamada Algren, no Manitoba, no seu desejo de conhecer pessoalmente o primeiro-ministro (que prometeu, como sinal de apoio ao desenvolvimento rural, ir visitar a “cidade mais pequena” do Canadá no Dia nacional), esforça-se até ao absurdo por manter Algren com a mesma população (1500 pessoas, o mínimo necessário para manter o estatuto de cidade), pois, para garantir esta visita, não pode ter nem mais nem menos algum habitante. Compreende-se facilmente que o romance narra todo um conjunto de peripécias necessárias para o “mayor” conseguir este desiderato, sempre em tom de sátira, colocando inúmeras questões sobre o papel dos poderes públicos em controlar a vida privada dos cidadãos, incluindo os básicos actos de nascer, de morrer ou ainda de amar. Mas, mesmo neste contexto, e perante a ambição caricata do mayor, ou as diversas, e aparentemente “disfuncionais”, personagens que vão aparecendo na trama, a autora abandona esse “olhar” humorado e enternecido, que se torna uma das suas principais características estilísticas.

Só no terceiro romance, intitulado “A Complicated Kindness” (que já fui publicado no nosso país com o título “Estranha Ternura”, traduzido por Vítor Guerreiro e editado pela Ed. Palavra), Miriam Toews se decide a abordar explicitamente a problemática das comunidades menonitas. Aqui, tanta a protagonista como as principais personagens coadjuvantes (com excepção do pai da protagonista, que é um homem, mesmo amando a sua família, “aprisionado” às convenções estabelecidas pela sua igreja) são mulheres inconformadas com as regras, por vezes absurdas, impostas pelo autoritarismo dogmático com que se condiciona os comportamentos pessoais. Não admira, por isso, que o desejo de todas elas, seja, antes do mais, “fugir” e procurar os lugares onde os seus sonhos, mesmo fúteis, têm possibilidades de se concretizar. Mais uma vez, para além do já referido humor, é de realçar a forma como a autora se aproxima das personagens, aceitando as suas fragilidades, quer de quem condiciona a existência das pessoas, quer de quem não aceita as regras impostas.

O quarto romance, intitulado “The Flying Troutmans”, que segue a tradição do Big Road Trip, não refere explicitamente a comunidade menonita, mas, tal como os dois primeiros, percebe-se que a ambiência peculiar desta comunidade está presente. No essencial, narra o regresso de uma jovem tia à sua terra natal, chamada em “salvação” de dois sobrinhos adolescentes (um rapaz e uma rapariga), quando a sua irmã, que tinha sido abandonada pelo marido e pai das crianças, é internada com uma depressão profunda. Como não quer ficar a cuidar dos sobrinhos, decidi fazer uma viagem com os dois miúdos pelo interior dos Estados Unidos em busca do pai que está (mais uma vez) em parte incerta. Esta trama básica serve para elaborar um retrato destes jovens problemáticos (e da própria tia), numa linguagem bem coloquial, procurando perceber não só o seu passado, perante uma mãe disfuncional, histérica e violenta, mas principalmente o seu comportamento e a forma como reagem às intempéries da vida.

Com “Irma Voth” (que também foi publicado no nosso país, com um título homónimo ao do original, e que foi traduzido por Lucília Filipe e editado pela Quetzal), o quinto romance, retoma-se a ambiência menonita, mas com uma ligeira inflexão temática na obra desta autora. Segundo declarações de Miriam Toews, a “ideia” deste romance nasceu do convite do realizador mexicano Carlos Reygadas que, depois de ler “A Complicated Kindness” e de ter visto a sua foto na contracapa do romance, decidiu convidá-la para actriz de um filme que pretendia realizar sobre uma colónia menonita do seu país. O filme, realizado em 2007, intitulou-se “Silent Light”, e obteve o reconhecimento da crítica, pois ganhou o Prémio do Júri do Festival de Cannes, representou o México nas candidaturas os Óscares, e a própria autora, que nunca tinha sido actriz, obteve uma nomeação para melhor actriz nos Ariel Awards da Academia Mexicana de Cinema.   

O romance narra a história de uma jovem menonita, Irma Voth, que, após ter “fugido” para casar com um mexicano não-menonita, é “expulsa” da sua colónia e vive na sua periferia, numa pequena quinta, em Chihuahua, no México. Quando o seu marido a abandona, fica numa situação desesperada, pois a sua comunidade mantem a recusa de a aceitar e ela encontra-se completamente impreparada para se integrar no mundo exterior. É neste quadro de impasse que, entretanto, aparece uma equipa de cinema mexicana que pretende realizar um filme sobre a colónia de onde ela é originária e que a resolve contratar para funcionar como intérprete (recorde-se que estas comunidades falam apenas plautdietsch) e para simples trabalhos domésticos. Esta situação vai permitir contextualizar esta personagem no conflito com uma realidade “exterior” com comportamentos socioculturais radicalmente distintos e perceber como se irá processar a sua adaptação a essa realidade.

“All My Puny Sorrows”, o seu sexto romance, segundo declarações da autora, foi motivado pelo suicídio da sua irmã em 2010. A narradora, filha de uma família menonita, vai descrevendo a sua relação com uma irmã mais velha, uma pianista talentosa e reconhecida, casada, possuindo tudo para ser feliz, mas que deseja morrer; pelo contrário, a narradora apresenta-se como uma escritora falhada, com várias relações fiascadas e criando vários filhos de pais ausentes. A sua relação sempre foi conflituosa, mas, quando recebe a notícia de que a sua irmã passou por uma mais tentativa de suicídio, decide tudo fazer para que a ela volte a ter gosto em viver. “All My Puny Sorrows” é uma obra profundamente trágica, mas que a autora, mais uma vez, procura esquivar-se a um sentimentalismo fácil, através do humor e de uma manifesta afirmação da alegria de viver.

Por último, “Women Talking”. Este romance é, segundo a autora, uma “resposta ficcional” a um facto real: em Manitoba, na Bolívia, numa colonia menonita, entre os anos de 2005 a 2009, mais de uma centena de mulheres foi violada sistematicamente, com idades compreendidas entre os 3 anos e os 65. No dia seguinte à noite da violação, as mulheres encontravam-se todas na mesma situação: acordavam de manhã, confusas, sem se lembrar nada do que se passara, mas com vestígios de esperma, doridas e com diversas equimoses. Quando se queixavam, a resposta da sociedade patriarcal, dada pelos sacerdotes e orientadores espirituais, era sempre mais ou menos semelhante: tinham sido possuídas por “demónios” ou o que narravam era resultante de mentes perturbadas, histéricas, que, em consequência do seu desejo em pecar, tinham inventado os factos que descreviam. Só que, acidentalmente, foram descobertos dois homens que, de um modo furtivo, tentavam entrar numa casa alheia. E eles próprios confessaram que integravam um bando de homens que, por sistema, perpetrava as referidas violações, usando um spray anestésico que entorpecia as vítimas. Em tribunal, já em 2011, foi comprovado que oito homens da referida comunidade menonita tinham repetidamente estuprado 130 mulheres e foram condenados. Depois, tudo regressou ao seu dia a dia habitual e  continuou como dantes.

O romance de Miriam Toews inicia-se a partir destes factos, isto é, centra-se no “depois” dos acontecimentos acima descritos. E então “encena” uma situação em que oito mulheres, vitimas das referidas violações, resolvem reunir-se secretamente, durante uma semana, para discutir o que fazer, aproveitando-se do facto de os homens da comunidade se terem deslocado a uma cidade do exterior, procurando obter meios financeiros para caucionar e libertar os acusados. Como não sabem ler nem escrever (recordo que o plautdietsch é uma língua não escrita), pedem a um homem da comunidade (que será o narrador do romance), com um estatuto peculiar, pois já tinha sido excomungado, e posteriormente perdoado, tendo, entretanto, aprendido a escrever, que seja ele a registar os depoimentos e as decisões que as mulheres irão tomar. Só que, como se pode calcular, dada a situação particularmente condicionante destas mulheres, as decisões não vão ser fáceis nem lineares. O romance é, por conseguinte, constituído por estes depoimentos, a forma como cada uma vai reagir ao abuso que foi alvo e como, a partir de agora, se irá posicionar na comunidade, em particular perante os homens, sabendo que alguns deles são seus maridos e filhos.

Para concluir, creio que se torna bem claro que existe, na obra de Miriam Toews, uma componente catártica, sem nunca a autora ceder à facilidade da autoficção. Pelo contrário, há em todos os romances um elevado nível ficcional; por isso mesmo, destacam-se pelo fascínio que criam as personagens construídas por Miriam Toews (tendo, contudo, uma objectiva similitude de romance para romance), a forma como estas são integradas e “respondem” às distintas situações de quotidiano que, sendo banais e comuns, podem revelar-se também pícaras, e principalmente um estilo que consegue conciliar humor, fluidez narrativa e uma atitude cúmplice com as fragilidades da condição humana.

 

Lisboa, Agosto de 2019