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segunda-feira, 23 de maio de 2022

JUAN LUIS ZABALA

 


A Vontade de Ler: Um Autor, uma Obra

16. Juan Luis Zabala (1963-)

É um escritor basco que utiliza como instrumento de expressão literária a língua do seu povo. Com uma obra diversificada, abrangendo a poesia, a literatura para a infância e juventude, a biografia, o conto e o romance, já granjeou vários prémios, principalmente no domínio do conto. É também jornalista e tradutor.

Segundo a crítica, nos seus primeiros romances, publicados na década de oitenta, “Zigarrokin ziztrin baten azken keak”, 1985, e “Kaka esplikatzen”, 1989, (respectivamente, em tradução literal, “A Última Fumaça de um Imundo Cigarro” e “A Merda Explicada”), com uma estrutura epistolar, existe certas afinidades entre a sua prosa e alguma narrativa da Europa Central (Handke, Bernhard, etc.). Mas é apenas com os romances publicados após um amplo período de interregno, nos finais da década seguinte e no presente século, que consegue um maior reconhecimento do público e da crítica.

Esses romances, alguns deles “inspirados” na sua experiência pessoal, são “Galdu arte”, 1996, que tem como contexto o movimento dos “gaztetxes”, centros juvenis culturais criados com a ocupação de casas devolutas na década de oitenta no país basco (e que já foi traduzido para espanhol com o título “Hasta la derrota, siempre”), “Agur, Euzkadi”, 2000, (em tradução literal, “Adeus, Euzkadi”) e “Txistu eta biok”, 2016, (também traduzido para espanhol com o título “Txistu y yo”) que granjeou um prémio concedido pelos editores e livreiros bascos.

Na nossa opinião, o romance mais interessante é talvez “Agur, Euzkadi”. O romance centra-se na “ressurreição”, nos finais da década de noventa, de Lauaxeta (um poeta e jornalista basco que foi fuzilado em 1937 pelas tropas fascistas de Franco) e que aparece em Guernica, sem saber como nem compreendendo nada do que o rodeia. Depois de um momento de perplexidade, decide aceitar esta nova vida e vai procurar apoio para se saber situar, encontrando-o em Julen, um outro jornalista, que acredita na sua história, e que o leva a conhecer o actual País Basco. Esta trama simples permite a Juan Luis Zabala, através dos diálogos entre as duas personagens, efectuar uma longa reflexão sobre o papel da morte e o sentido da vida, sobre o fluir do tempo, assim como sobre os valores e os modelos da sociedade contemporânea.

A crítica refere que existem algumas similitudes entre este romance e “O Ano da Morte de Ricardo Reis” de José Saramago.   

Maio de 2022.

Direitos autorais da foto do escritor pertencem ao Diário Vasco.



terça-feira, 3 de maio de 2022

NURIA LABARI

 


A Vontade de Ler: um Autor, uma Obra

10. Nuria Labari (1979-)

 É uma escritora e jornalista espanhola que já publicou um livro de contos e dois romances. Logo com a colectânea de histórias “Los borrachos de mi vida”, 2009, obteve o reconhecimento da crítica e do meio literário, ganhando até um prémio relevante, e sendo encarada como uma das contistas mais interessantes da sua geração. De seguida, publicou um romance, “Cosas que brillan cuando están rotas”, 2016, centrado numa jornalista e nas suas incertezas, profissionais e pessoais, quando enfrenta e regista no seu trabalho os efeitos devastadores do atentado de 11 de Março de 2014, ao mesmo tempo que é obrigada a resolver dramáticos problemas pessoais e familiares.

Mas provavelmente o seu romance mais interessante (e que foi, paralelamente, um significativo sucesso comercial) é “La mejor madre del mundo”, 2019, onde a autora lança uma perspectiva peculiar sobre a maternidade, procurando desmistificá-la e principalmente libertá-la dos lugares comuns com que é costume encará-la. A narradora é uma escritora que, aos trinta e cinco anos, tendo problemas de fertilidade, sente uma necessidade obsessiva de ter filhos. Passados cinco anos e dois partos, percebe que a sua vida e o seu corpo se modificaram totalmente. Decide então escrever um romance sobre a maternidade, assumindo-o como uma aposta decisiva: ou o livro se transforma num básico diário, e então, a partir daqui, será apenas uma simples mãe, ou consegue fazer dele uma obra mais universal e tornar-se-á efectivamente numa escritora.

O romance, entrecruzando a autoficção com o ensaísmo (a autora vai, ao longo do livro, reflectindo sobre o que escreveram e disseram algumas figuras marcantes da literatura sobre a maternidade), é redigido com um intenso humor, escalpelizando a situação da mulher e, sobretudo, o estatuto materno na actual sociedade, com uma crueza e um realismo que conseguem alterar a visão de todo mirifica que habitualmente se tem da maternidade.     

Foto da autora de Guillermo Mestre.  

Maio de 2022. 



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

PEDRO SALINAS

 
 
“A VOZ A TI DEVIDA”
 
            No quiero que te vayas,
            dolor, última forma
            de amar. Me estoy sintiendo
            vivir cuando me dueles
            no en ti, ni aquí, más lejos:
            en la tierra, en el año
            de donde vienes tú,
            en el amor com ella
            y todo lo que fue.
 
O que logo nos intriga, ao contactar com a obra poética de Pedro Salinas, é a inexistência de qualquer tradução (mesmo uma simples antologia) em língua portuguesa. Porque, apesar de tudo, nas últimas décadas, sempre se foi publicando alguma poesia traduzida… onde se tem destacado o número de obras de poetas de língua espanhola: lembro o papel editorial da Assírio & Alvim, da Relógio d’Água, da Cotovia, da Campo das Letras e da Quasi (constato agora que a maior parte delas faliu recentemente ou desistiu de se dedicar a esta linha editorial) e de tradutores, com trabalho consagrado e premiado, como José Bento, Albano Martins e Joaquim Manuel Magalhães. Recorde-se também que Pedro Salinas não só integra a chamada Geração de 27 (onde pontuam autores como García Lorca, Rafael Alberti, Vicente Aleixandre, Luis Cernuda, Jorge Guillén, Dámaso Alonso e Gerardo Diego), considerada como decisiva no percurso da poesia espanhola contemporânea e já relativamente bem conhecida e editada em Portugal, como é reconhecido como um dos maiores poetas de língua espanhola (de todos os tempos, mas em particular do século XX) de temática amorosa, tendo elaborado uma obra em que concilia uma enorme exigência conceptual e estética com uma linguagem mais acessível do que obscura.
 
 Pedro Salinas (1891-1951) dedicou toda a sua vida ao ensino universitário. Mal se formou, foi para leitor na Sorbonne, onde se doutorou. De seguida, deu entrada como professor nas universidades espanholas, tendo passado pelas de Sevilha, Múrcia e Madrid. Quando despoletou a Guerra Civil, estava a organizar e a dirigir a Universidade Internacional de Santander, e percebeu de imediato que não tinha condições para continuar em Espanha o seu trabalho pedagógico; por isso, aceitou o convite para ensinar no Wellesley College, nos Estados Unidos. Viveu o resto dos seus dias no exílio, ensinando, de forma alternada, na Universidade de Johns Hopkins e na de Puerto Rico. Morreu em Boston e foi enterrado em San Juan de Puerto Rico, junto ao mar que, na última etapa da sua existência, se tornou para ele uma referência simbólica à serena eternidade da vida.
 
 É comum imaginar-se que os poetas de temática amorosa tiveram uma atribulada vida afectiva, repleta de paixões arrebatadoras e de enorme dramaticidade… Não parece ser o caso de Pedro Salinas. Sabe-se apenas que as obras do autor, que são consensualmente consideradas como as mais perfeitas e acabadas (La Voz A Ti Debida, Razón De Amor e Largo Lamento), publicadas na década de trinta, foram motivadas por uma intensa (mas discreta) paixão amorosa por uma estudante norte-americana (e mais tarde professora de língua e literatura espanholas), Katherine R. Whitmore, bem documentada por um epistolário agora publicado.
 
O livro que li do autor é uma antologia da Alianza Editorial, publicada pela primeira vez no início da década de setenta e organizada por Julio Cortázar. O critério da selecção, para lá do gosto pessoal do organizador, assenta, em consonância com a concepção de poesia de Pedro Salinas, numa “visión atemporal”, “reuniendo poemas por afinidades y ritmos y contactos, de manera que todo está barajado como hay que barajar um mazo antes de esa gran partida en la que el poeta y su lector se juegan lo mejor que tienen.” E, como conclusão, Julio Cortázar constata que, sem ser esse um critério prévio, agregou essencialmente a poesia amorosa do autor (onde sobressaem, repito, as obras já acima referidas), entendendo que é nela que se torna mais relevante a sua dimensão lírica, alcançando a envergadura da poesia do seu parceiro de geração Luis Cernuda, ou de Octávio Paz, ou ainda, reclama o autor destas linhas, de Vicente Aleixandre e de Pablo Neruda.      
 
Na caracterização da obra de Pedro Salinas, deve-se, antes de mais, assinalar que, em termos de “ars poetica”, ela deriva bastante das concepções que Juan Ramón Jiménez (poeta que profundamente influenciou Pedro Salinas no início da sua obra) delineou para definir o seu próprio universo lírico. Como é sabido, na sua fase de maturidade, Jiménez defendeu uma poesia “pura”, despojada de circunstâncias que dessem um lastro inútil às imagens e metáforas que deveriam arquitectar, com precisão e rigor, mas sem referências a lugar e a tempo, a ordem interna do poema: o efeito estético resultava assim da objectividade sem mácula com que eram construídos os arquétipos simbólicos. Esta concepção da poesia, que impera nas colectâneas da década de vinte de Pedro Salinas, torna-se, nas obras seguintes (e que em substância “preenchem” a antologia que estamos a comentar), numa espécie de húmus para uma nova visão da poesia: esta passa a ser entendida como uma tentativa incessante de compreender a realidade, superando as suas opacidades imediatas; para conseguir atingir este Absoluto, a realidade deverá metamorfosear-se em símbolo no poema, e essa mutação só será possível se o poeta não se sujeitar à emoção, esforçando-se por usar as armas da inteligência sensível na elaboração da sua linguagem poética. Saliente-se que os detractores da obra deste poeta, que a acusam de ser demasiado “intelectualizada” e abstracta, cheia de exercícios lógicos e de sofisticados paradoxos, estão, no fundo, a reagir, sem aceitar nem compreender, aos próprios parâmetros estéticos em que foi concebida.
 
Não há dúvida, porém, que o aspecto mais relevante da obra de Pedro Salinas emana da sua concepção da relação amorosa. O poeta, em particular nas três colectâneas já acima referidas, reformula numa variante peculiar a concepção que encara o Amor como uma obsessiva busca para a fusão entre amante e amado, já com uma longa tradição no Ocidente (remonta, pelo menos, à Grécia Arcaica, com o mito do ovo cósmico/casal primordial, e prolonga-se até à “simbiose emotiva e espiritual” do romantismo e à “dissolução vitalista” de D. H. Lawrence). Na sua poesia, Pedro Salinas destaca principalmente a transfiguração do amante pelo objecto amado; quer isto dizer, que o amante perde por completo a sua autonomia ôntica, transformando-se numa espécie de “duplo” (de casulo) do amado: é este que “produz sentido” no amante, dando-lhe significado existencial e, desse modo, a todo o universo. Note-se que é essa a interpretação que se deverá deduzir de um dos títulos de uma das colectâneas mais importantes de Pedro Salinas, La Voz A Ti Debida (retirado, por sua vez, de um verso de Garcilaso de la Vega): o poeta não passa de um “médium” do amado(a) que, através dele, “fala e diz”. Por outro lado, também se pode perspectivar neste mesmo título uma radicalização da imagem romântica da “musa”: o poeta/amante é uma mera caixa de ressonância que vibra pelo efeito que sobre si produz a simples existência do amado(a).
 
E saliento o facto de a “simples existência” do amado(a), na lírica de Pedro Salinas, transformar o amante na sua vítima emotiva: como alude a epígrafe/subtítulo de La Voz A Ti Debida, subscrita por Shelley (“Thou Worder, and thou Beauty, and thou Terror”), tudo no amado – incluindo a sua ausência, física ou afectiva – gera um complexo emocional que transforma o amante num ser vibrátil, perdido entre o desespero e um dilacerante júbilo, entre a melancolia e uma irradiante e solar euforia. O Amor torna-se assim no Absoluto que o amante vê reflectido em tudo o que o rodeia e tudo transfigura: por isso, não existe maior prova do carácter totalizador do Amor do que sentir a sua presença avassaladora, mesmo (para não dizer principalmente) na ausência do amado...
 
Pedro Salinas, de modo coerente com a sua concepção de uma poesia “pura” (que almeja esse núcleo da realidade que está sempre para além do horizonte da palavra), restringe diversas vezes a nomeação do amante e do amado a um “eu” e a um “tu”, globalizantes e, de certo modo, abstractos. Esta utilização dos pronomes para indicar os agentes amorosos visa, de forma bem nítida, realçar a dialéctica dialogante do Amor. Porém, ao contrário do que consideram os detractores desta poesia, não há nenhuma intenção de gerar uma polissemia difusa que possa levar a uma contaminação dos conceitos de amante e de amado por outros conceitos filosóficos ou literários laterais (a Verdade, a Poesia, etc.): a leitura atenta dos poemas permite perceber que os pronomes são contextualizados de forma a estabelecer (tantos são os sinais de erotização corpórea) um perfeito equilíbrio entre símbolo e carnalidade no seu substrato.
 
Creio que, um pouco como sucedeu com Julio Cortázar e que com a maioria dos seus leitores, fui impelido a privilegiar a componente do lirismo amoroso da obra de Pedro Salinas. Provavelmente, porque é, com a passagem do tempo, aquela que se revela mais fascinante e mais original. Porém, é correcto assinalar que o presente texto não pretende ser mais do que uma introdução muito genérica à obra do autor e que, por isso mesmo, poderá dar uma visão muito estática dela, sem reflectir a diversidade filosófica (e até psicológica) com que, de poema para poema, num quadro formal muito constante, se vai analisando a problemática amorosa. Além disso, é injusto não anotar aqui, pelo menos, duas outras temáticas, entre várias, com significativa expressão na obra do poeta e que, em particular, se destacaram na sua fase final: a consciência da infinitude da dimensão temporal (bem representada pela já referida simbólica do mar) e das brutais adversidades que o Homem sujeita o seu próprio Destino. Creio que não vale a pena recordar que Pedro Salinas, mesmo no exílio, viveu de um modo doloroso a Guerra Civil que dilacerou o seu país e assistiu à tremenda carnificina da última Guerra Mundial, e que isso, naturalmente, teve de deixar decisivas “marcas” na sua obra.
 
 
Publicado na web em 2010.
 
Título: Poesía
Autor: Pedro Salinas
Selecção e nota preliminar: Júlio Cortázar
Editor: Alianza Editorial
Ano: 1999
190 págs., € 4,50
 
 
 
 



segunda-feira, 11 de maio de 2015

RUBÉN CABA E CABEZA DE VACA




 
 




Estou convencido que este texto vai parecer um verdadeiro rosário de confissões de ignorância… Antes do mais, começo por esclarecer que pouco conheço da obra do escritor espanhol Rubén Caba. Sei apenas que nasceu na década de trinta e que publicou poesia, romances, literatura de viagens e ensaios históricos, tendo obtido alguns prémios locais e regionais. Sei também que é filho de outro escritor, Pedro Caba Landa, um intelectual muito respeitado em toda a Espanha, em especial na Andaluzia e na Estremadura, pela sua produção poética, narrativa, mas principalmente ensaística, que sofreu sérias perseguições políticas por parte do regime franquista, em consequência de um ensaio, publicado no início dos anos trinta, intitulado Andalucia, su Comunismo y su Canto Jondo.

Mas devo a Rubén Caba o facto de me ter chamado a atenção, através do seu ensaio histórico La Odisea de Cabeza de Vaca (escrito em colaboração com Eloísa Gomez-Lucena), para a extraordinária figura do séc. XVI espanhol que é Alvar Nuñez Cabeza de Vaca.

Interrogo-me por que motivos não tomei conhecimento desta personagem até aos dias de hoje. Não só pela minha formação de base (sou licenciado em História), como por me ter passado despercebida a edição portuguesa da sua obra Naufrágios, publicada, em 1992, pela Teorema, numa segura tradução de José Colaço Barreiros (e que só agora li).

De facto, hoje sei que existe inúmera historiografia em espanhol e em inglês sobre Cabeza de Vaca, assim como bastante informação na web. Em português, desconheço a existência de qualquer estudo ou trabalho. Mas, mais uma vez, isso será, provavelmente, culpa minha…

Para que o leitor possa compreender algumas das razões do meu fascínio por esta figura e na eventualidade que haja alguém, como eu, que nunca tenha ouvido falar dela, vou expor algumas das principais peripécias da sua vida.

Cabeza de Vaca nasce nos finais do séc. XV, numa família da pequena nobreza, e, ainda bastante novo (talvez por se encontrar órfão), alista-se no exército espanhol, participando em diversas campanhas militares e pelejando em várias batalhas (por exemplo, na batalha de Ravena, integrando as forças da Liga Santa, organizada pelo papa Júlio II, que enfrentam os exércitos franceses de Luís XII, até os expulsarem dos territórios italianos).

Mas o que se destaca nesta vida atribulada é a sua participação na expedição marítima de Pánfilo de Narváez à Florida. Este, nomeado por Carlos I como “Adelantado” e Governador das terras a descobrir, vai encabeçar uma expedição, em 1527, em que Cabeza de Vaca participa como tesoureiro e “alguacil mayor”. Ora, esta expedição salda-se por um mortífero fiasco.

Constituída por cinco barcos e seiscentos homens, logo no fim da travessia atlântica, mais de cento e cinquenta deles abandonam a expedição e ficam em São Domingos. Depois, nas costas de Cuba, a frota sofre inúmeras tempestades e furacões, destroçando os navios e matando mais umas largas dezenas de homens. Mesmo assim, o comandante da expedição decide continuar e, cerca de um ano depois da sua partida, chega às costas da Flórida (na zona de Tampa Bay). Aí, a saga de desgraças continua.

Perante a hostilidade dos indígenas, o mau tempo e uma costa de difícil acesso (cheia de pântanos, rios e enseadas onde era difícil aportar), Pánfilo de Narváez, contra a opinião de Cabeza de Vaca e de outros oficiais, toma várias decisões erradas e, entre elas, a de dividir as forças expedicionárias, enviando homens para terra para operações de reconhecimento e em busca de eventuais aliados e deixando outros à guarda dos navios. Começa então o seu absurdo martírio. A pouco e pouco, por doença, fome e ataques dos índios, os que foram para terra vão morrendo. Os que ficaram nos barcos, ou são destroçados contra a costa pelos temporais ou tragados em mar alto pela intempérie (foi o que sucedeu a Pánfilo de Narváez). Os que sobraram em terra, procuram improvisar a construção de outras embarcações e inventar armas. Mortos e comidos os cavalos que levavam, alimentam-se de raízes e frutos, quando os encontram, ou até de lagartos e cobras. Por fim, começam até a comer os cadáveres dos companheiros.

Entretanto, procurando regiões onde os indígenas fossem mais conciliadores ou potenciais aliados, vão subindo pela costa da Flórida até à foz do Mississipi. Rapidamente são feitos escravos dos índios (os Apalaches e outras tribos). Os poucos que restam são separados e levados por diversas tribos. Cabeza de Vaca, ao princípio, é maltratado, passa fome, várias vezes fica à beira da morte, vive nu, até que, por fim, habitua-se a viver como os indígenas. Depois de muitas peripécias, fixa-se com uma tribo na ilha de Galveston, na costa do Texas. Durante seis anos, vive como escravo. Na melhor fase desta estadia, torna-se mercador dos próprios índios, comerciando com outras tribos, ao serviço daquela que o cativa e mantem. Faz então várias incursões no interior da América do Norte. Procura não perder o contato com alguns dos sobreviventes da expedição. Através dos indígenas, de quem vai aprendendo as línguas, fica a saber que poucos homens resistiram.

Um deles, a certo passo, consegue curar um índio ferido com uma flecha e que estava a beira da morte. Tal feito transforma a sua situação da noite para o dia. Os indígenas decidem trazer-lhes outros doentes e, através de orações e do que conhecem da anatomia humana (nenhum deles tinha qualquer estudo de medicina), vão curando moribundos, passando a ser encarados como curandeiros e xamãs. Começam a ser bem tratados, até adulados, e conseguem juntar-se na ilha de Galveston. Com Cabeza de Vaca, restam ao todo quatro sobreviventes. Um deles é o negro Estebanico, de Azamor, que é considerado como o primeiro negro que pisou o território do futuro Estados Unidos.

Juntos, conseguem convencer os índios a deixarem-nos sair (sempre com muitos entraves, pois as diversas tribos resistiam a que eles as abandonassem) e iniciam uma longa viagem em busca de comunidades espanholas que os recolhessem. Receando, no entanto, algumas tribos mais aguerridas da costa, decidem começar a subir o Rio Bravo, procurando fugir delas. Fazem assim uma longa incursão no sul do actual Estados Unidos, através, segundo se crê, o território do Texas (onde veem pela primeira vez bisontes), do Novo México e do Arizona, contactando com diversas tribos e sendo verdadeiramente idolatrados. Agora são diversas comunidades índias que os seguem, por vezes em conflito. Resolvem então começar a descer, a caminho do actual México, até que chegam ao rio Sinaloa, entrando em contato com exploradores espanhóis que os trazem para o “asentamiento” de Culiacán, já na costa do Pacífico. Atrás deles, segue uma autêntica chusma de indígenas que os venera.

São levados para a cidade do México e aí são recebidos com admiração e afecto pelo Governador e por Hernan Cortés. Entretanto, Cabeza de Vaca decide regressar a Espanha (os outros ficaram), onde chega, depois de mais algumas peripécias, em 1537. Tinham passado dez anos de imenso sofrimento e extrema provações desde que partira.

Toda esta odisseia, o próprio Cabeza de Vaca relata na sua obra Naufrágios, que escreveu e publicou no final da vida. Esta obra, para além de indiscutíveis qualidades literárias e narrativas, já que consegue exprimir de uma forma vibrante o calvário que foi esta expedição e as dolorosas dificuldades por que passou enquanto escravo dos indígenas, é um importantíssimo documento histórico. Basta dizer que é a primeira narrativa a descrever o território do actual Estados Unidos e as suas populações índias (Cabeza de Vaca fascinou-se com os costumes destas tribos e resolveu, por isso, anotá-los de uma forma detalhada ao longo da obra). Hoje, há ainda sérias dificuldades em perceber os locais onde realmente Cabeza de Vaca esteve (é esse um dos principais objetivos do livro de Rubén Caba, que resolveu “perseguir” e confirmar os locais onde ele andou), mas, de qualquer forma, é indiscutível que percorreu, com os seus companheiros, boa parte do Sul e do Sudoeste do actual Estados Unidos.

Mas se esta expedição e o seu testemunho já seriam mais do que suficientes para perceber a relevância desta figura histórica, o seu papel na construção do Império espanhol não ficou por aqui.

À chegada a Espanha, Cabeza de Vaca é recebido por Carlos V, e, em 1540, é nomeado, pelo rei, Capitão-geral, Governador e “Adelantado” do Rio de Prata, em substituição de Pedro de Mendonza, que, entretanto, morrera. Cabeza de Vaca, tremendamente ambicioso, parece que se esqueceu de tudo o que passara, pois continua obcecado, como uma boa parte dos seus conterrâneos, em enriquecer no El Dorado que era para eles o Novo Mundo.

Inicia, então, a sua segunda expedição ao Continente Americano, agora na América do Sul. Parte de Cádis, em 1540, chegando em poucos meses à ilha de Santa Catarina, no actual Brasil.

É já aqui que tomou conhecimento da fundação de Assunção, junto do rio Paraguai. Decide então dividir as suas forças: com duas centenas e meia de homens prosseguirá por terra até aquela povoação, enquanto a sua frota irá até o Rio de Prata e a Buenos Aires e, a partir daí, subirá o rio até se juntar a eles em Assunção.

Através de florestas inóspitas, Cabeza de Vaca chega ao rio Iguaçu e, de seguida, aos rios Uba e Paquiri. Exploradas estas regiões, volta de novo ao rio Iguaçu e aí divide os seus homens: ele segue pelo rio, enquanto o outro grupo irá por terra até ao rio Paraná. Foi assim que descobre as gigantescas cataratas de Iguaçu, e, passando inúmeras vicissitudes, dada a correnteza do rio, lá chegam ao Paraná e se juntam aos que foram por terra. Decide então que os muitos doentes, que já existiam, fossem pelo rio Paraguai até Assunção, com jangadas que manda construir, enquanto seguirá por terra, através do rio Monday.

É assim que, em 1542, chega a Assunção, assumindo as funções de Governador, recebidas de Domingos de Irala, que tinha governado em regime de substituição, após a morte de Pedro de Mendonza.

Sem sombra de dúvidas, Cabeza de Vaca não foi tão bom Governador como explorador. Em particular, porque nunca conseguiu demover as resistências dos “senhores” espanhóis da região, já cativados pelo governo de Domingos de Irala. De facto, face aos índios mais hostis, o novo governador vacila entre as tentativas de apaziguamento e uma repressão feroz, não agradando, nem com uma atitude nem com outra, aos colonos instalados.

Além disso, a enorme ambição de Cabeza de Vaca leva-o a continuar as suas expedições. O seu objetivo agora era chegar ao Perú por terra, inebriado com relatos de riquezas nessas regiões. Inicialmente, envia o anterior governador numa expedição que chega à Ilha de los Orejones (incluída na zona do Pantanal): aí ouvem falar de peças trabalhadas em ouro e prata e é essa informação que Domingos de Irala trouxe a Cabeza de Vaca.

Não admira, por isso, que Cabeza de Vaca tenha organizado uma nova expedição, agora chefiada por ele, para a região, procurando uma famigerada passagem até ao Perú.

Chegados, de novo, à já referida ilha, parte significativa dos expedicionários querem ali ficar (a ilha era tão sedutora que Cabeza de Vaca chamou-a Ilha do Paraíso) e fundar uma povoação. Mas o Governador recusa-se, já que o seu objectivo ainda não estava alcançado. Procura continuar a subir os diversos afluentes, tentando encontrar o tal caminho, sem o conseguir. Deve salientar-se que os lugares-tenentes de Cabeza de Vaca eram os seus principais rivais no domínio daquelas regiões (Domingos de Irala, Gonzalo de Mendonza, etc.) e, por isso, estes vão, naturalmente, conspirando contra ele.

Não admira, por isso, que, depois de largos meses mergulhados no Chaco Boreal (o Gran Chaco da guerra entre a Bolívia e o Paraguai no séc. XX), enfrentando a selva e índios hostis, com falta de géneros e de bens de subsistência, os exploradores se revoltem contra a persistência de Cabeza de Vaca em continuar a expedição. Aliás, o próprio sente-se doente, febril e enfraquecido. Por isso, acata a decisão da maioria de regressar a Assunção.

Termina aqui a vida de explorador de Cabeza de Vaca, iniciando-se uma outra fase dramática da sua existência. Doente, sem capacidade de se defender, é alvo de uma “junta” dos habitantes de Assunção que resolvem depô-lo e prendê-lo. Tiram-no, de sua casa, algemado e é encarcerado. Os fundamentos da prisão alternam entre abuso de poder e tibieza com os índios. E nomeiam, em substituição, Domingos de Irala como Governador.

Fica então preso durante onze meses, até que, em 1545, o embarcam para Espanha. Aqui, o Conselho das Índias confirma a condenação e desterra-o em Oran. Mais tarde, já em 1552, recorre da sentença e é parcialmente reconhecida a sua inocência, uma vez que lhe retiram a pena de desterro, continuando, no entanto, proibido de regressar às Américas.

A partir daqui, pouco se sabe dele. Especula-se sobre o destino dos seus últimos dias (terá ido para monge?) e nem a data ao certo se sabe da sua morte (1557?, 1560?).

Foi durante este período que escreveu a obra acima referida e uma outra, intitulada Comentários, onde descreve o que lhe sucedeu na sua segunda aventura americana. Mais uma vez, com inúmeras anotações e observações sobre os costumes indígenas.

Parece-me que é compreensível, por esta compacta biografia, porque é que considero Alvar Nuñez Cabeza de Vaca uma figura ímpar da História de Espanha. De facto, de um modo exemplar, ele representa todas as vertentes que assumiram a terrível aventura que foi a Conquista da América no séc. XVI, corporizando o “Siglo de Oro” espanhol em termos culturais e civilizacionais.

Ainda hoje se especula muito sobre a veracidade dos factos narrados, comparando-se, por isso, as suas obras com a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Como já referi, foi essa a motivação da obra de Rubén Caba: comprovar “in loco” a narrativa de Cabeza de Vaca. Porém, cada vez mais os historiadores reconhecem que, com um grau variável de ficção, Naufrágios e Comentários descrevem “grosso modo” as peripécias por que a sua vida passou. Por isso, é hoje inquestionável que, aliado ao valor documental destas obras, há que destacar a sua enorme relevância literária e o papel que desempenham na história da narrativa espanhola.

Creio que se percebe que o motivo do meu fascínio por Cabeza de Vaca se relaciona com a sua vivência tão extrema, em particular se confrontada com a minha acomodada existência (que não difere muito da de todos os meus amigos e conhecidos…). Até que ponto posso “conhecer” esta personagem, para além de toda a informação que ele próprio (e os investigadores posteriores) nos deixou? Porque aquilo que possa imaginar da sua vida não só me é fisicamente inaceitável como, em consequência disso, fica bem aquém do que de facto sucedeu. Realmente, parece que o meu próprio corpo não consegue admitir a experiência porque passou Cabeza de Vaca, que rejeita compreendê-la. Há como que uma rejeição física, orgânica, em admitir tamanhas provações e que isso origina uma efectiva incapacidade para as compreender.

Sendo assim, o que intriga nesta(s) sua(s) odisseia(s) é a força anímica que o levou a superar circunstâncias que o (nosso) corpo já não consegue admitir (nem assimilar).  E esta rejeição física transfigura a força anímica de Cabeza de Vaca, fazendo com que ela me pareça quase mítica.

 Por isso, pergunto: que “homens” são estes que conseguiram sobreviver a tão severas condições?

Colocada nestes termos, fica-se inclinado a pensar que a questão é gerada, antes do mais, pela distância temporal que nos separa e pelas circunstâncias ambientais da sua vivência (que estão de todo perdidas).

Mas percebe-se, de imediato, que esta é uma falsa conclusão. Basta recordar situações de tão extrema radicalidade vivenciadas mais perto de nós. Repare-se, por exemplo, no caso de Auschwitz. As descrições do sofrimento das vítimas deste campo são uma afronta tão brutal ao nosso corpo que nos leva a interrogar que homens são aqueles que conseguiram suportar sevícias tão “inimagináveis”. Não é esse, pelo menos em parte, o sentido da pergunta que Primo Levi, também ele sobrevivente de Auschwitz, coloca no seu romance inaugural Se questo è um uomo (na tradução portuguesa de Simonetta Cabrita Neto, intitulado Se Isto É Um Homem, publicado pela Teorema)?

Ou recorde-se a impressionante obra do escritor russo, de família espanhola, Ruben Gonzalez Gallego que descreve, em White on Black: A Boy’s story (versão inglesa do original russo que ganhou o Russian Booker Prize de 2003 e cuja tradução portuguesa só existe no Brasil na edição da Ediouro), a sua experiência abominavelmente asfixiante, como doente com paralisa cerebral, nos orfanatos e asilos soviéticos, em que eram encarceradas as crianças com deficiência física e mental à espera da morte num regime de abandono e maus tratos.  

A esta distância, confortáveis burgueses que todos somos um pouco (uns mais, outros menos, é certo), a vida de Cabeza de Vaca parece a de um ser humano distinto de nós. E isso faz-nos colocar uma questão perigosa: será que pertence àquela mesma humanidade que, com esforço, procuramos reconhecer como nossa? Não será isto uma pretensão demencial?

Os nossos princípios cristãos (lá estão eles!) levam-nos a responder de forma afirmativa. Mas, ao mesmo tempo, perguntamo-nos: não será uma arrogância estúpida e cega considerar-se que pertencemos à mesma Humanidade?

Sim, somos todos homens. É sabido e aceite a enorme maleabilidade da natureza humana e a sua excessiva (?) capacidade de adaptação à adversidade das situações. Mas sabe-se também que essa adaptabilidade transforma o homem, muitas vezes, em “sub-homens”. Ou em seres míticos. Como classificar aqueles duendes perdidos no pó do deserto, rodeados da família, vivendo a experiência, bem comum a tantas regiões da África subsaariana, de que estão gradualmente, sem apelo nem agravo, a morrer de fome? Ainda serão homens?  Ou deuses?

Não, não temos dúvida nenhuma: o nosso corpo não consegue aceitar tais vivências.

E isso, nos dias de hoje, coloca-nos também outra questão: como compreender as vivências daqueles que procuram, de um modo tão desesperado, atravessar, em riscos dramáticos de vida, o Mediterrâneo, em busca da Europa, não como o El Dorado de Cabeza de Vaca, mas como terra de sobrevivência?

Porque não basta toda a informação que em nosso redor circula para compreender estas situações. A sua racionalização leva-nos a admitir que são originadas por um Mal absoluto (passe a redundância), telúrico, que ultrapassa os valores com que calibramos as nossas vidas. Mas isto bastará para as compreendermos na realidade, quando, até organicamente, se torna abominável enfrentá-las?

É evidente que não estou a fazer nenhum apelo absurdo para que se regresse ao campo de Auschwitz dos tempos do III Reich ou que nos transformemos na sombra existencial daqueles que hoje atravessam o Mediterrâneo em dramáticas condições como garante absoluto para compreendermos as suas vivências. Mas também devemos ter a humildade necessária para percebermos que nunca as podemos compreender de uma forma integral. E reconhecer que esta distinção está, lamentavelmente, na origem muitas vezes da segregação e da xenofobia.

Não, em definitivo, não. Não chega toda a massa de informação em que vivemos mergulhados para nos reconhecermos com pertencentes à mesma humanidade.