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domingo, 30 de novembro de 2025

ANDRÉ DE RICHAUD

 


ANDRÉ DE RICHAUD

Muitas vezes, para não dizer sempre, pouco fica de uma vida na memória das pessoas, mesmo entre amigos e familiares: talvez um gesto, da mesma forma que dizemos que, de um poema, se fixou um verso, ou um estilo de andar, como diz a belíssima canção de Leo Ferré. E, contudo, esta constatação resulta de uma pergunta decisiva (“o que fica de uma vida?”) que, por sistema, recalcamos, temendo a resposta dolorosamente incómoda, e que fica a pairar no meio de muitas outras fantasmagorias que criamos. Sim, pergunta decisiva, mas também retórica, pois a resposta é de todos conhecida.

Talvez seja por isso que sinto um enorme fascínio pelas curtas biografias de escritores que aparecem nas badanas de um livro ou no seu início, principalmente nas edições concluídas depois da morte do seu autor: exala delas uma brisa perfumada que paira como o rasto de um percurso e muitas vezes de uma obra.

Estas considerações são um pouco fruto de ter agora acabado de ler “La Douleur”, uma novela de 1930 de André de Richaud (1907-1968), um autor (poeta, dramaturgo e narrador) que está bastante esquecido (mesmo, segundo creio, no seu próprio país, a França), e que, no entanto, escreveu (de acordo com informações que recolhi, pois este foi o primeiro livro que dele li) algumas obras memoráveis, principalmente durante a década de trinta.

Muito precoce, “La Douleur” foi o segundo romance de André de Richaud, escrito quando tinha pouco mais de vinte anos. Sem ser nenhuma obra-prima, pois tem algumas fragilidades claramente resultantes da juventude do autor, é, no entanto, uma bela obra sobre a carência sexual e os seus devastadores efeitos emocionais e ainda sobre o paroxismo mórbido a que podem chegar as relações entre mãe e filho. Além disso, a narrativa é estilisticamente brilhante, em particular na forma como articula um realismo cru, dir-se-ia orgânico, com um lirismo de grande intensidade simbólica.

A edição que eu li (da Grasset, colecção “Les Cahiers Rouges”) tem uma introdução a apresentar o autor e a obra. Não vem subscrita (provavelmente redigida por algum editor da Grasset ou pelo próprio Bernard Grasset, que foi amigo próximo do autor). Mas é, na sua singeleza, tão fascinante e tão característica que me motivou a arrojar-me a traduzi-la. Aqui vai:

“André de Richaud nasceu a 6 de Abril de 1909 [?], em Perpignan onde o seu pai é professor. Em 1914, este é mobilizado; não regressará da guerra. O filho e a sua mãe refugiam-se em casa dos seus avôs maternos, em Althen-des-Paluds, nessa região de Vaucluse [ou, aportuguesando, Valclusa] onde André de Richaud irá situar a acção da maior parte dos seus romances.

Mme. de Richaud morre em 1923; o seu filho entra como aluno interno no liceu de Carpentras. A partir de 1926, prossegue os seus estudos na Universidade de Aix, onde frequenta os cursos de Direito e de Filosofia. Recebe a sua agregação e obtém um posto de ensino no liceu de Meaux.

Em 1930, publica na editora de Bernard Grasset o seu primeiro romance [?]: “ la Douleur”. O livro chama a atenção de um júri [de um prémio] literário que conta, entre os seus membros, com Mauriac, Bernanos e Julien Green. Mas o seu tema, audacioso para a época, impede que ele seja galardoado. Joseph Delteil, que reconheceu as qualidades excepcionais do jovem romancista, assume então, apaixonadamente, a sua defesa e enceta uma polémica cujo efeito sensacionalista compensa largamente o do prémio perdido. Em 1932, André de Richaud publica o seu segundo [?] romance, “la Fontaine des lunatiques”, e Charles Dullin encena sucessivamente as suas duas peças de teatro: “le Village” (1932) e “le Château des papes” (1933).

Richaud abandona o ensino para se consagrar inteiramente a uma carreira literária que se anuncia sob os melhores auspícios. Mais tarde, evocando perante um jornalista a época dos seus brilhantes começos, André de Richaud resumi-la-á assim: “Eu era jovem, rico, célebre e invejado…” Mas, apesar dos sufrágios de escritores tão diferentes como Cocteau, Camus ou Joseph Delteil, apesar dos sucessos estimáveis que lhe valem “l’Amour fraternel” (1936) e sobretudo “la Barette rouge” (1938), André de Richaud não encontra o lugar que merece. Isso deve-se à originalidade desconcertante do seu talento, que não se associa a nenhuma corrente, e à ambiência tenebrosa dos seus romances, cheios de uma surda violência. Um crítico de “la Barette rouge” viu em André de Richaud um “Dostoiévski provençal”. No entanto, com o passar dos tempos, é muito mais com a escola do romance gótico americano que a comparação se impõe: Richaud está mais próximo do Faulkner de “Luz em Agosto” do que do Dostoiévski de “Os Possessos”. Em 1945 e 1947, André de Richaud publica, com “le Mauvais” e “la Rose de Noël”, os dois primeiros volumes de uma saga que nunca terminará.

Alcoólico, esquecido, miserável, ele vive doravante de expedientes e ajudas, como este prémio de poesia, criado para permitir que um autor em dificuldades possa partir de férias, e que ele obtém graças à protecção de Cocteau. Ele aloja-se num hotel da rue des Canettes, cuja patroa é, nem mais nem menos, do que a famosa Céleste Albaret que foi a governanta de Proust. Para arranjar algum dinheiro, caligrafa “canções” que vende por intermédio de um farmacêutico do bairro. Contudo, em 1956, publica, na editora Grasset, “l’Etrange Visiteur”, espantoso pequeno romance que combina o género policial e a veia fantástica.     

 Retira-se depois para Vallauris. Aldrabando na idade (ele não tem sequer cinquenta anos), consegue ser admitido num asilo de velhos. É aqui que escreve o seu último livro: “Je ne suis pas mort”, [1965] narrativa autobiográfica onde a complacência desesperada ergue-se até ao trágico pelo seu próprio excesso e o rancor e a raiva assumem acentos líricos. O livro perturba todos os que ainda se recordam de André de Richaud, e Marcel Aymé, numa carta aberta, apela a André Malraux, então Ministro da Cultura. Mas, para Richaud, é demasiado tarde; ele morre em 29 de Setembro de 1968.

O escândalo que causa “la Douleur”, por alturas do seu aparecimento, faz lembrar o que provocara “Com o Diabo no Corpo” (1), dez anos antes. O primeiro romance de Richaud e o de Radiguet têm aliás um ponto em comum: em “la Douleur” trata-se também de um caso de adultério no qual as circunstâncias de guerra dão a gravidade de uma traição. Mme. Delombre, viúva de um capitão morto na frente de batalha e que leva, com o seu jovem filho, uma existência aparentemente irrepreensível, apaixona-se por um prisioneiro alemão. Estas ligações, que afrontam ao mesmo tempo a moral e o sentido cívico, são geralmente condenadas a um fim infeliz, e ainda mais quando se desenrolam no quadro de uma aldeola perdida onde a malevolência e a inveja tomam por empréstimo a máscara da indignação patriótica. Os amores furtivos de Mme. Delombre e do soldado Otto conformam-se a esta regra. Perseguida, humilhada e além disso abandonada pelo seu amante, Mme. Delombre encontrará finalmente no seu próprio filho, uma criança de dez anos, o mais implacável dos juízes.

A intriga anedótica perdeu hoje o poder de choque que tinha sobre os leitores de 1930. Contudo, o livro guarda toda a sua força de fascínio. É que o tema do lamentável adultério é apenas um pretexto utilizado pelo autor para abordar um outro que não deixou de todo de ser tabu: uma vergonhosa obsessão da carne que fala mais alto que os sentimentos sobre os quais ela tenta dissimular-se, perverte as relações das personagens e até contamina as suas percepções mais inocentes. O título do romance toma então um outro sentido à medida que se revela este mundo de pulsões secretas e de fantasmas recalcados; a dor que aqui se trata não é uma dor moral.”

 

(1)Das traduções e edições portuguesas desta obra, a mais recente é da Relógio d’Água, 2009, trad. de Renata Botelho.



sexta-feira, 24 de junho de 2022

RACHID O.

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

24. Rachid O. (1970-)

É o pseudónimo de um escritor marroquino de língua francesa, radicado em França desde os vinte anos, e que até hoje publicou quatro livros de narrativas, onde assume abertamente a sua homossexualidade e utiliza a sua experiência pessoal como matéria-prima.

Os narradores dos livros de Rachid O., num contínuo monólogo, vão reflectindo, num estilo límpido e lírico, na esquiva felicidade que se corporiza em fugazes encontros e relações amorosas, no fascínio pela cultura e pelo conforto (o “Chocolat chaud” do título de uma das suas narrativas) do modo de vida ocidental, mas também na inevitável nostalgia da beleza e da tepidez da sua terra de origem; e ainda no estigma violento com que a moral e a religião muçulmana os marca por causa do seu estatuto sexual e que se reflecte no repúdio familiar (tanto mais doloroso quanto sentem uma enorme paixão pela figura paterna, pela sua integridade e pelo seu sentido de dádiva).

“Analphabetes”, 2013, o seu último “romance”, mantendo as características dos livros anteriores, tem, provavelmente, um interesse maior, visto que, seguindo o mesmo registo pessoal, abre-se, inequivocamente, a uma maior dimensão política (sem ser, no entanto, uma obra abertamente militante), já que descreve diversas formas e situações de analfabetismo. Analfabetos, segundo o autor/narrador, somos todos nós um pouco, principalmente quando não conseguimos compreender o Outro, e o rejeitamos, ou não somos capazes expressar o que se sente e pensa (como sucedeu confessadamente com o autor durante os dez anos que antecederam este livro). Assim, ao longo da obra, vão aparecendo várias personagens (e situações) que exemplificam esta visão do mundo: o seu pai, recentemente falecido, que era literalmente analfabeto, mas com uma serena compreensão do mundo, o irmão “bem-intencionado” que exige do narrador o abandono do celibato em nome da moral, a jovem mulher que, sob o jugo patriarcal, é humilhada a comprovar a sua virgindade, o prostituto permanentemente difamado, o colono que, incapaz de perceber a prepotência sexual e amorosa do seu estatuto, é vítima do seu amante, etc., etc..

Junho de 2022.

Desconheço a autoria da foto do escritor.



quinta-feira, 16 de junho de 2022

GIOVANNI DI IACOVO

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

22. Giovanni Di Iacovo (1975-)

É um escritor italiano que, até hoje, já publicou cinco romances, um livro indefinível sobre a cultura pop gótica, alguns contos em antologias, e diversos ensaios sobre a literatura italiana contemporânea e de crítica literária comparada, fruto do seu trabalho como professor e investigador na Universidade Gabriele d’Annunzio de Pescara, sua cidade natal. Durante algum tempo dedicou-se também à gestão administrativa local, é organizador e programador de um festival literário, guionista de programas de televisão e de filmes, e integrou uma banda musical electropop italo-alemã chamada Anticorpi.

Há, na sua obra narrativa, uma fortíssima dimensão lúdica, fantasista até, em que se joga e mescla a iconologia pop e televisiva com os arquétipos da tradição literária e judaico-cristã. Mas essa estratégia narrativa está focada na realidade quotidiana, analisando e satirizando os comportamentos sociais (e culturais) contemporâneos. E os temas podem ir desde os níveis diversos de sofrimento e dor e o efeito anestesiante da televisão (aproveitando, como contexto, a guerra da Bósnia, como é o caso do seu primeiro romance, “Sushi Bar Sarajevo”, 2006), a actual obsessão consumista e hedonista (“Tutti i poveri devono morire”, 2010), a violência sexual, a prostituição e o HIV (“La sindrome dell’ira di Dio”, 2013), ou ainda os modelos românticos, constantemente renovados, das relações amorosas, como sucede em “Confessioni di uno Zero”, 2018.

Provavelmente, o romance mais interessante seja “Tutti i poveri devono morire”. O romance centra-se numa “comunidade” internacional da alta burguesia, conhecida pelo nome de “Cenacolo di Caino”, que se dedica, por simples prazer, a todo o tipo de crimes e de violência sobre as classes mais pobres e desfavorecidas. A questão nevrálgica desta “seita” está em criar todo o tipo de relações e de códigos que permitam a impunidade e a continuidade do massacre. Para narrar esta trama, tão absurda como complexa, de banalização do assassínio, o autor reencaminha-a para “tournures” bem rocambolescas, num estilo sarcástico e delirante, com personagens com comportamentos pretensamente racionais dentro da sua irracionalidade ética. Por último, mas não menos importante, o romance revela-se como uma espécie de sinuosa e macabra parábola sobre a actual sociedade mercantil e sobre o estatuto de consumidores (ou de consumíveis) que todos temos.  

Junho de 2022.

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 



segunda-feira, 6 de junho de 2022

JEAN-FRANÇOIS HAAS

 


A Vontade de Ler: Um Autor, uma Obra

20. Jean-François Haas (1952-)

É um escritor suíço, de expressão francesa, que começou a publicar romances já tardiamente (com 55 anos), tendo já publicado seis romances e uma colectânea de contos, e obtendo, com essas obras, diversos prémios nacionais (em particular, com o seu primeiro livro, “Dans la gueule de la baleine guerre”,2007).

Os seus romances, sempre focados na realidade contemporânea (a Segunda Guerra Mundial, a exploração económica, os emigrantes e os refugiados, por exemplo), são, antes do mais, complexas parábolas que utilizam diversos registos estilísticos (incluindo o próprio calão), reflectindo sobre a violência e a presença do mal ao longo da história de hoje. Partindo de um confessado humanismo assente em valores judaico-cristãos, a obra de Jean-François Haas parte do pressuposto de que o Mal (assim como, obviamente, a busca do Bem) faz parte da própria natureza humana e, por conseguinte, torna-se determinante compreender como esta “pulsão”, chamemos-lhe assim, pode ser atenuada ou, favoravelmente, reencaminhada para o Bem. Segundo o autor, claramente expresso por diversos meios, é fundamentalmente através do amor (em todas as suas manifestações) e do perdão. Para este “percurso”, é decisivo o papel da narrativa e da ficção, como forma estruturante de situar o homem e compreender a história (que aparece, por vezes, ao nível pessoal, como um factor condicionante desse percurso), e o sentido do belo (ou, por outras palavras, da criação artística) como “farol” para o reposicionar (e até redimir).

Esta doutrina, aparentemente simples, depois contextualizada, em termos romanescos, através de diversos focos e temas, coloca todas as suas obras no mesmo patamar, ainda que os modelos narrativos, com a sua componente experimental, os contextos, as personagens e as situações variem substancialmente.

Mesmo tendo uma similitude estrutural (o fio condutor é a rememoração da existência de um homem) com o seu primeiro romance, o já referido “Dans la gueule de la baleine guerre”,2007, a obra que me chama mais a atenção é a última, “Tu écriras mon nom sur les eaux”, 2019. Deve-se, no entanto, assinalar, nem que seja por mera curiosidade “nacional”, a sua colectânea de contos “Le Testament d’Adam”, 2017, pois, num deles, uma das personagens é um jovem de origem portuguesa, um “secondo”, que se confronta com um professor suíço num exame oral em torno do Tratado de Tordesilhas…

Este romance é uma dupla saga, em redor de dois emigrantes: um suíço, com uma infância de maus-tratos, e outro, um judeu ucraniano, de Odessa, que perdeu os seus, nas escadarias, quando da revolta do Potemkin. Encontram-se em Colónia, e juntos, vão, durante sete anos, na década de vinte do século passado, procurar sobreviver, realizando todo o tipo de trabalhos, mas, principalmente, aproveitar-se dos seus ofícios (um alfaiate, outro sapateiro), para conseguirem economizar e realizar o seu sonho de emigrar, pagando a passagem para os Estados Unidos. Aqui chegados, vão de novo realizar todos os trabalhos que aparecem, até se estabelecerem e constituírem uma empresa. Tudo isto é narrado por um sobrinho-neto do primeiro, que lhe descreveu as inúmeras e dolorosas dificuldades que os dois emigrantes passaram, assim como as suas famílias, envolvidas nas atrocidades e conflitos que atravessaram a Europa e os Estados Unidos durante todo o século XX.

Junho de 2022.

 

Foto do autor de Charles Ellena.




sexta-feira, 3 de junho de 2022

LING XI

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

19. Ling Xi (1972-)

É uma autora chinesa que decidiu expressar-se literariamente em língua francesa, após ter emigrado para França em 1998 e aí se ter formado. Começou a publicar em 2006 e tem até hoje duas colectâneas de novelas e dois romances editados. Duas dessas obras foram publicadas por Maurice Nadeau (o director do jornal “La Quinzaine Littéraire” e, provavelmente, desde os anos sessenta, um dos mais notáveis leitores de literatura do séc. XX), o que, por si só, é um garante da qualidade literária da obra da autora.

Como é natural, boa parte das suas narrativas situam-se na China e procuram reflectir as mutações culturais, sociais e económicas da sua população rural e urbana, com a correspondente desadequação e o consequente processo migratório. Mas, como a autora referiu numa entrevista, não pretende realizar um retrato folclórico nem efectuar nenhuma autobiografia (a única excepção, e redigida a pedido de Maurice Nadeau, é uma das novelas de  “L’Épaule du cavalier”, 2016, a que precisamente dá origem ao título da colectânea).

De facto, os romances da autora (“La Trosième moitié”, 2010, e “Gorge des Tambours”, 2022), espelhando um grande arco temporal, e envolvendo várias gerações, não pretendem propriamente “representar” o processo histórico. As personagens apenas reflectem a referida desadequação e a correspondente estranheza social e cultural, expressas numa escrita lírica e, de certo modo, simbólica. Talvez assim se compreenda por que motivo aparece, tanto nos romances como nas novelas, como tema recorrente, diversas formas de androgenia e de metamorfose. A androgenia não é apenas fruto de imposições, sentidas como absurdas, do Estado chinês, mas também de um paradigma cultural que dilui as fronteiras sexuais e o binarismo, e, de certo modo, corporiza o sentimento de desenraizamento cultural e de não-pertença a um lugar.

Por tudo isto, o livro que ainda parece mais fascinante de Ling Xi seja o primeiro, a colectânea de novelas intitulada “Été strident” de 2006. Essas três novelas têm, como personagens nucleares, seres desadequados e em permanente metamorfose: é o velho (em 2070) que recorda quando o seu pai o abandonou, com o sonho de ser poeta em Paris, e que viveu, fragilmente, sempre em contramão aos valores sociais dominantes e que se resigna a ser criador de baratas; o jovem operário, de uma beleza excepcional, que vive o sonho de ser um cantor lírico, que todas as noites se veste de mulher, com quimono de seda, para ir cantar a um salão de chá e que ninguém conhece objectivamente a sua identidade; ou o emigrante em Paris que, incapaz de aceitar o comportamento das suas colegas de escritório, vive num mutismo total, aterrorizado com a ideia de regressar à China, onde foi obrigado a viver a sua infância disfarçado de menina.

Por último, uma pequena nota que poderá ter a sua relevância: não é provavelmente por acaso que as personagens centrais das suas novelas sejam figuras masculinas.

Junho de 2022.

A autoria da foto da escritora é de Catherine Fruchon-Toussaint.

  


  


terça-feira, 31 de maio de 2022

JONATHAN WABLE

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

18. Jonathan Wable

É um escritor francês de quem, em termos biográficos, pouco ou nada se conhece. Pelo desenho com que se apresenta publicamente, da sua autoria, e que aqui reproduzo, parece ter cerca de trinta anos. Para além de escritor, é também desenhador e fotógrafo, um entusiasta pelas obras de Julien Gracq e de Jacques Abeille, e animador de leitura em hospitais e em escolas do ensino secundário. Em 2013, publicou um romance intitulado “Six photos noircies”.

O romance integra um conjunto de vinte contos (esta estratégia narrativa, aparentemente simples, pode, desde que interligada em profundidade, revelar-se muito fascinante – veja-se o caso de alguns romances de Faulkner), onde duas personagens, Valente Pacciatore e Tirenzio Perochiosa, respectivamente, um biólogo e um médico, levam uma série de investigações, que se pretendem racionais e científicas, sobre factos muito obscuros, por vezes violentos, outros apenas fantasmagóricos ou alucinados. Como “prova” das suas investigações, o biólogo tira sistematicamente seis fotografias (não se esclarecendo o porquê deste número, se por limitações técnicas ou outras). As investigações (que decorrem em data indefinida, mas que pelo contexto, se percebe que será nos finais do séc. XIX) decorrem nos quatro cantos do mundo (um delas, parece, em Lisboa), muitos deles verdadeiramente recônditos.

Há claramente na obra uma dimensão fantástica e de romance “fin-du-siècle”, muito próxima do “gótico” inglês. Mas o que mais impressionou a crítica é o domínio das técnicas narrativas, o cuidado clássico do estilo e a capacidade inventiva da construção das diversas tramas.

Maio de 2022.



segunda-feira, 23 de maio de 2022

JUAN LUIS ZABALA

 


A Vontade de Ler: Um Autor, uma Obra

16. Juan Luis Zabala (1963-)

É um escritor basco que utiliza como instrumento de expressão literária a língua do seu povo. Com uma obra diversificada, abrangendo a poesia, a literatura para a infância e juventude, a biografia, o conto e o romance, já granjeou vários prémios, principalmente no domínio do conto. É também jornalista e tradutor.

Segundo a crítica, nos seus primeiros romances, publicados na década de oitenta, “Zigarrokin ziztrin baten azken keak”, 1985, e “Kaka esplikatzen”, 1989, (respectivamente, em tradução literal, “A Última Fumaça de um Imundo Cigarro” e “A Merda Explicada”), com uma estrutura epistolar, existe certas afinidades entre a sua prosa e alguma narrativa da Europa Central (Handke, Bernhard, etc.). Mas é apenas com os romances publicados após um amplo período de interregno, nos finais da década seguinte e no presente século, que consegue um maior reconhecimento do público e da crítica.

Esses romances, alguns deles “inspirados” na sua experiência pessoal, são “Galdu arte”, 1996, que tem como contexto o movimento dos “gaztetxes”, centros juvenis culturais criados com a ocupação de casas devolutas na década de oitenta no país basco (e que já foi traduzido para espanhol com o título “Hasta la derrota, siempre”), “Agur, Euzkadi”, 2000, (em tradução literal, “Adeus, Euzkadi”) e “Txistu eta biok”, 2016, (também traduzido para espanhol com o título “Txistu y yo”) que granjeou um prémio concedido pelos editores e livreiros bascos.

Na nossa opinião, o romance mais interessante é talvez “Agur, Euzkadi”. O romance centra-se na “ressurreição”, nos finais da década de noventa, de Lauaxeta (um poeta e jornalista basco que foi fuzilado em 1937 pelas tropas fascistas de Franco) e que aparece em Guernica, sem saber como nem compreendendo nada do que o rodeia. Depois de um momento de perplexidade, decide aceitar esta nova vida e vai procurar apoio para se saber situar, encontrando-o em Julen, um outro jornalista, que acredita na sua história, e que o leva a conhecer o actual País Basco. Esta trama simples permite a Juan Luis Zabala, através dos diálogos entre as duas personagens, efectuar uma longa reflexão sobre o papel da morte e o sentido da vida, sobre o fluir do tempo, assim como sobre os valores e os modelos da sociedade contemporânea.

A crítica refere que existem algumas similitudes entre este romance e “O Ano da Morte de Ricardo Reis” de José Saramago.   

Maio de 2022.

Direitos autorais da foto do escritor pertencem ao Diário Vasco.



segunda-feira, 16 de maio de 2022

LARS AMUND VAAGE

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

14. Lars Amund Vaage (1952-)

É um escritor norueguês com uma significativa obra publicada nos domínios da dramaturgia, da literatura para a infância e juventude, da poesia, do conto e do romance. As suas obras, principalmente de poesia e narrativa, têm recebido diversos prémios nacionais, e dois dos seus romances já foram nomeados para o importante Nordic Council Literature Prize em 1996 (“Rubato”) e em 2021 (“Det uferdig huset”, em tradução literal, “A Casa Inacabada”).

Começou a publicar romances nos finais da década de setenta com “Øvelse Kald vinter” (“Exercício Inverno Frio”), ainda muito dependente da estética literária dominante no seu país do “realismo social”. É com o seu único livro de contos “Kyr” (“Vacas”), 1983, que se percebe que se efectua uma inflexão estética na sua obra, aproximando-se de um discurso mais pessoal e reflexivo. Mas é principalmente com o romance “Rubato” que se torna mais nítida essa inflexão, quando Lars Amund Vaage resolve aproveitar a sua experiência pessoal como músico (a sua primeira, e malograda, orientação artística), centrando-se numa personagem que, tendo abandonado a actividade musical, resolve, bem mais tarde, reflectir sobre os motivos desse abandono, e sobre a importância da criação e da comunicação como via de realização pessoal.

Provavelmente é o seu romance “Syngja” (“Cantar”), 2012, a sua obra mais interessante. Considerada unanimemente como a mais pessoal, “Syngja” tem, como personagem principal, um escritor já consagrado que tem uma filha autista que não sabe falar nem entende a linguagem (como sucede na vida real com o escritor). Sem pretensões autobiográficas, e fugindo, em termos estilísticos, a qualquer registo melodramático, o romance procura expor não só o modo de ser e a vida dessa filha (hoje já adulta), a sua (ir)receptividade aos tratamentos e aos especialistas, mas, sobretudo reflecte sobre as formulas de relacionamento familiar e o papel da linguagem e da necessidade de expressão e comunicação.  Daí que o romance, naturalmente, estabelecendo constantes relacionamentos com a situação do autista, derive para o estatuto do escritor, o seu isolamento estrutural e, por consequência, sobre o papel da ficção como instrumento de aproximação ao mundo e ao Outro. 

Maio de 2022.

A foto do autor é de Helge Skodvin.



terça-feira, 10 de maio de 2022

THOMAS VAN AALTEN

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

12. Thomas van Aalten (1978-)

 É um escritor holandês que já publicou nove romances e uma novela. Além disso, escreveu dois guiões de filmes, faz crítica literária regular em diversos jornais e revistas e é professor universitário de Comunicação Social. Para além de ser muito prolixo, é também bastante interveniente em termos sociais, tornando-se uma presença regular na comunicação social, em particular na web e nos meios audiovisuais, a comentar, muitas vezes de forma acentuadamente polémica, não só a produção literária do seu país, mas também a vida social e política. Genericamente, pode afirmar-se que as suas posições se situam na esquerda liberal (ou, provavelmente, de forma mais acertada, num peculiar liberalismo de esquerda).

Como seria previsível, o caracter controverso e iconoclasta da figura do autor afectou a leitura da sua obra e, por conseguinte, a crítica, por vezes, divide-se na sua avaliação. No entanto, reconhece-se o carácter experimental da sua narrativa, a vivacidade na construção de tramas complexas, gerando “tournures” imprevisíveis, as personagens peculiares, os diálogos tocando as raias do “non-sense”, as situações muitas vezes surrealizantes e o carácter inovador da arquitectura romanesca, “jogando” com o tempo e o espaço e com a forma de apresentação das personagens e dos seus contextos. Refere-se ainda a radicalidade do seu sentido crítico em relação ao modo de vida dos seus compatriotas, em particular das classes média e alta, e à sua obsessão pelo bem-estar, pelo consumo e pelo luxo. Por último, na tentativa de contextualizar as suas narrativas, é costume referir-se a obras tão distintas, como as de William S. Burroughs, de Denis Johnson, de Bret Easton Ellis, do cineasta David Lynch, de Michel Houellebecq e de Haruki Murakami.

Sem ter a pretensão de definir “ciclos” no conjunto da obra Thomas van Aalten, creio que é possível delinear as suas “flutuações”. Os dois primeiros romances, “Sneeuwbeeld”, 2000, (literalmente, “Imagem de Neve”) e “Tupelo”, 2001, particularmente sombrios e terríveis, têm, como personagens centrais, dois jovens da idade do autor (repare-se que o primeiro romance foi publicado quando Thomas van Aalten tinha apenas vinte e um anos) e retrata as suas dificuldades, entre a droga, o sexo e o álcool, em definir o seu percurso, pressentindo que estão a escorregar para um abismo de destruição e morte; o terceiro e o quarto, “Sluit deuren en ramen”, 2003 (“Fechar Portas e Janelas”) e “Coyote”, 2006, são distopias, o primeiro, reflectindo a actual obsessão securitária, e o segundo, mais experimental e alucinado, apresenta, de forma fragmentária e aparentemente desconexa, um conjunto de personagens imorais e de situações brutais numa gigantesca cidade fictícia; o quarto, “De onderbreking”, 2009 (“A Interrupção”), retoma a personagem de Victor Tupelo (eventual alter-ego do autor), como um escritor de sucesso que questiona, num diálogo ininterrupto com um porteiro de hotel (seu leitor), as relações entre realidade e ficção; e ainda “De schuldigen”, 2011 (“Os Culpados”), que se centra numa família a viver num constante gozo consumista (composta por um banqueiro falido, em permanente especulação financeira, a esposa, que passa o tempo em clínicas estéticas e em curas de desintoxicação, e um filho, que vive à deriva, fugido de casa e em ruptura com os pais), que, quando se encontra acidentalmente num luxuoso hotel no Dubai, é vítima de um ataque terrorista, e onde se defende a tese que a falência da actual sociedade ocidental se deve aos hábitos da classe dominante, o seu principal inimigo.

Porém, a partir de “Leeuwenstrijd”, 2014 (“Luta de Leão”), que referiremos mais adiante, processa-se uma inflexão na obra de Thomas van Aalten, não só por ter uma outra orientação estética, onde a dimensão experimental é mais atenuada, mas principalmente porque se passa a centrar na realidade holandesa do séc. XX: assim, “Henry!”, 2016, o romance seguinte, situa-se na década de sessenta, em redor do “boom” consumista de revistas “mundanas”, e “Een vrouw van de wereld”, 2020 (“Uma Mulher do Mundo”), na fase de franca expansão económica da Holanda da década de setenta, que se debruça sobre o vazio hipócrita e entediante de uma mulher, casada com um próspero homem de negócios, violento e alcoólico, que descobre que existe um mundo bem distinto da Amesterdão onde vive, através de uma relação adultera com um jovem surinamês; por último, “Voorstad” (“Subúrbio”), já no corrente ano, contextualizado na actualidade, sobre as alterações sociais (e arquitectónicas) num subúrbio abastado, onde os antigos residentes se confrontam como uma nova população, de origem estrangeira, mas com meios financeiros suficientes para “contaminar” o seu espaço.   

Não há dúvida que o romance, de certo modo, mais ambicioso, e provavelmente mais interessante, de Thomas van Aalten, é “Leeuwenstrijd” (“Luta de Leão”). A estratégia narrativa do romance é bastante simples e comum: a descoberta de um traje de leão num sótão “familiar” leva um adolescente a tentar descobrir a sua origem e a conhecer o percurso da sua família durante quatro gerações, desde um antepassado, imigrante italiano que se fixou, em 1920, como mineiro em Limburg, até à actualidade. Ao longo de cem anos, é não só a história e as vicissitudes por que a Holanda passou que são reflectidas, mas também as perspectivas de cada geração em relação a essa mesma história: desde o bisavô (filho de um militante comunista, obrigado a fugir do fascismo italiano, e por isso a emigrar para a Holanda), que se sente asfixiado em Limburg, trabalhando no comércio e de noite num circo, e que, perfilhando posições liberais conservadoras, se vê envolto em histórias de espionagem, e que é obrigado, por sua vez, a fugir da guerra para a América, ao seu avô, socialista e radical, empenhado nas lutas sociais dos anos sessenta e setenta, ao seu pai, um executivo publicitário, ambicioso e ansiando por prestígio e promoção social, até à figura central do romance, um jovem revoltado com o actual modelo social e que procura sistematicamente assumir posições radicais.

Para dar realce aos conflitos ideológicos geracionais e aos modos diferentes de reagir ao fluir dos acontecimentos, o autor resolve não seguir uma evolução cronológica, entrecruzando as histórias do passado com as do presente, e apresentando-as sempre na perspectiva do seu actor principal. O “fato de leão”, que está na origem do título, e que o bisavô utilizava no seu trabalho circense, assume assim um valor simbólico, pois não só representa o elo familiar que se sobrepõe aos antagonismos entre pais e filhos, mas também a diversa energia para, ao longo dos tempos, cada geração teve que incorporar para superar as dificuldades que vão surgindo.   

Maio de 2022.

Foto do escritor da autoria de Keke Keukelaar.



terça-feira, 3 de maio de 2022

NURIA LABARI

 


A Vontade de Ler: um Autor, uma Obra

10. Nuria Labari (1979-)

 É uma escritora e jornalista espanhola que já publicou um livro de contos e dois romances. Logo com a colectânea de histórias “Los borrachos de mi vida”, 2009, obteve o reconhecimento da crítica e do meio literário, ganhando até um prémio relevante, e sendo encarada como uma das contistas mais interessantes da sua geração. De seguida, publicou um romance, “Cosas que brillan cuando están rotas”, 2016, centrado numa jornalista e nas suas incertezas, profissionais e pessoais, quando enfrenta e regista no seu trabalho os efeitos devastadores do atentado de 11 de Março de 2014, ao mesmo tempo que é obrigada a resolver dramáticos problemas pessoais e familiares.

Mas provavelmente o seu romance mais interessante (e que foi, paralelamente, um significativo sucesso comercial) é “La mejor madre del mundo”, 2019, onde a autora lança uma perspectiva peculiar sobre a maternidade, procurando desmistificá-la e principalmente libertá-la dos lugares comuns com que é costume encará-la. A narradora é uma escritora que, aos trinta e cinco anos, tendo problemas de fertilidade, sente uma necessidade obsessiva de ter filhos. Passados cinco anos e dois partos, percebe que a sua vida e o seu corpo se modificaram totalmente. Decide então escrever um romance sobre a maternidade, assumindo-o como uma aposta decisiva: ou o livro se transforma num básico diário, e então, a partir daqui, será apenas uma simples mãe, ou consegue fazer dele uma obra mais universal e tornar-se-á efectivamente numa escritora.

O romance, entrecruzando a autoficção com o ensaísmo (a autora vai, ao longo do livro, reflectindo sobre o que escreveram e disseram algumas figuras marcantes da literatura sobre a maternidade), é redigido com um intenso humor, escalpelizando a situação da mulher e, sobretudo, o estatuto materno na actual sociedade, com uma crueza e um realismo que conseguem alterar a visão de todo mirifica que habitualmente se tem da maternidade.     

Foto da autora de Guillermo Mestre.  

Maio de 2022. 



terça-feira, 26 de abril de 2022

PASI ILMARI JÄÄSKELÄINEN


 

A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

8.Pasi Ilmari Jääskeläinen (1966-)

É um escritor finlandês que publicou até hoje três romances e duas colectâneas de contos. Vencedor de vários prémios nacionais, tem cultivado um modelo narrativo, onde, de forma experimental, mescla diversos géneros, entre a fantasia, a ficção científica e o gótico, dando origem a um estilo a que o autor denomina realismo fantasista ou fantasia realista (o que é, obviamente, uma contradicção nos seus termos).

Os seus romances mais conhecidos são “Lumikko ja yhdeksän muuta” e “Harjukaupungin salakäytävät” , em particular devido às suas traduções inglesas, pois foram publicados na prestigiada editora The Pushkin Press, com os títulos, respectivamente,  “The Rabbit Back Literature Society” e “Secret Passages in a Hillside Town”.

 O romance que parece ser mais interessante é “The Rabbit Back Literature Society”, que já foi traduzido para francês, espanhol, galego, italiano, alemão e holandês. A sua trama desenrola-se em redor de uma sociedade literária criada, há muitos anos, por uma famosa escritora de livros para crianças numa pequena cidade finlandesa, entre jovens aspirantes a escritores, e inicia-se quando uma jovem professora é integrada como novo elemento (facto que não sucedia há décadas). Conforme os ritos da sua iniciação se vão desenrolando, e em particular um deles, a que chamam “O Jogo”, começam a acontecer vários mistérios e a revelar-se diversos segredos intrigantes. Entre eles, o desconcertante desaparecimento da própria fundadora da sociedade literária ou a existência de uma biblioteca em que os exemplares de algumas obras clássicas têm enigmáticas variantes de trechos ou até personagens com características distintas das originais, etc., etc.

 Há no romance uma clara dimensão lúdica, mas, paralelamente, a manifesta ambição de construir uma parábola sobre a arte peculiar de contar histórias e sobre o seu saber, quase mágico, na compreensão do mundo.

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 

Abril de 2022.

 


quinta-feira, 14 de abril de 2022

FATIMA DAAS

 

A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

5. Fatima Daas (1995-)

É uma jovem autora francesa que publicou um único livro em 2020, “La Petite Dernière”, no registo de autoficção. Tanto o seu processo de escrita como a sua publicação foram assumidamente apoiados por Virginie Despentes, o que só por si permite perceber (e enquadrar) qual o registo em que foi escrito.

O seu romance tem, antes do mais, o valor de um testemunho, dada a sua ambiência peculiar. De facto, a narradora, assumindo-se inequivocamente como “duplo” da autora (todos os capítulos, alguns deles muito breves, começam sempre com a mesma frase: “Eu chamo-me Fatima” ou até “Eu chamo-me Fatima Daas”), apresenta-se como a filha mais nova (tem duas irmãs) de uma família argelina de fortes convicções islâmicas, já nascida nos subúrbios de Paris (as irmãs nasceram na Argélia). Ela própria é crente nesta religião, mas sente que esta lhe cerceia a sua liberdade, e principalmente a sua felicidade, pois é reconhecidamente lésbica.

Num estilo assente em linguagem coloquial, fortemente sincopado e cru, “La Petite Dernière” vai descrevendo, ao longo da narrativa, os dilemas da narradora/autora entre as suas raízes magrebinas, que não pretende perder, o seu fascínio pelo universo ocidental, em particular pela literatura francesa (Duras, Ernaux), e as suas paixões amorosas que a “colocam em pecado”, segundo a sua religião; em resumo, um percurso intelectual e emocional em tudo similar a muitos jovens dos “banlieux” parisienses...

O romance já foi traduzido para inglês, espanhol, catalão, italiano e alemão.

Abril de 2022

 

Foto da escritora de autoria de Dravot.



segunda-feira, 11 de abril de 2022

SIMONA LO IACONO

 


A Vontade de Ler: um Autor, uma Obra

4. Simona Lo Iacono (1970-)

É uma autora italiana, natural da Sicília, que, a partir de 2008, publicou sete romances e uma colectânea de contos, tendo obtido alguns prémios no seu país. Segundo declarações suas, as escritoras, que mais determinantes foram para o seu trabalho, são Lalla Romano, Marguerite Yourcenar e Elsa Morante. Desses romances, na sua maioria com um contexto histórico, e situados em diferentes épocas, o que obteve maior consenso crítico foi “Le streghe di Lenzavacche”, 2016, já que foi seleccionado para o Prémio Strega.

Mas o livro possivelmente mais fascinante da autora será “L’albatro”, 2019, em particular por ser uma biografia romanceada e uma abordagem dessa figura única das letras italianas que é o seu conterrâneo, o Príncipe Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o autor de “Il Gattopardo”.

O livro parte de duas estratégias narrativas interessantes. Primeiro, centra-se unicamente em duas fases da vida de Lampedusa: a infância, onde procura revelar como o escritor se abriu ao deslumbramento do mundo e da sua terra; e o final da vida, quando a amargura e a doença o empurraram para o recolhimento e um melancólico silêncio. D e certo modo, “L’albatro” encena o anverso e o reverso de uma existência dedicada à reflexão e à literatura. Segundo, ao colocar como narrador a figura de um amigo de infância (empregado da casa), de humilde origem social, Antonno, seu cúmplice de sempre, uma espécie de mudo guardião (é a ele que se refere a figura de albatroz do título) que o vigia e apoia, e que principalmente está presente nos momentos em que Lampedusa tem de tomar dolorosas decisões perante o desvanecimento do tempo e dos valores em que tinha sido criado.

O romance está traduzido para alemão.

Abril de 2022.

Desconheço a autoria da foto da escritora.



sexta-feira, 8 de abril de 2022

BENJAMIN MAACK

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

3. Benjamin Maack (1978-)

 

É um escritor alemão que já publicou uma colectânea de poemas, dois livros de contos e uma narrativa longa de cariz biográfico. Um dos seus contos foi galardoado no Ingeborg-Bachmann-Preis e a revista Frankfurter Allgemeinen Sonntagszeitung englobou-o, em 2012, no conjunto dos vinte autores mais promissores da literatura alemã. É também jornalista.

Este reconhecimento crítico deve-se aos seus contos e, fundamentalmente, às duas colectâneas que publicou, com os títulos “Die Welt ist ein Parkplatz und endet vor Disneyland” (este delicioso título pode ser traduzido, literalmente, por “O Mundo É Um Parque de Estacionamento e Termina À Frente da Disneylandia”), 2007, e “Monster” (“Monstro”), 2012. A comunicação social salientava, em particular, o humor, o sentido crítico e o aparente nonsense realista das situações com personagens centrais comuns (e a chamarem-se todas Benjamin), incapazes de controlar certos momentos, banais mas decisivos, das suas vidas. Muito circunstanciados e inconclusivos, onde o humor não consegue desvanecer a ambiência opressiva, estes contos têm, como substracto, o tema da morte, que, nas suas diversas formas, está sempre presente.

Sucede que este prometedor percurso literário foi, de súbito, interrompido por um colapso nervoso e uma grave depressão. Durante vários anos, envolvendo prolongados internamentos e tratamento com psicotrópicos, Benjamin Maack foi obrigado a abandonar a sua vida habitual. Procurou então, através da escrita, “salvar-se”, registando, no seu segundo internamento, tudo o que vivia. Foi assim que nasceu “Wenn das noch geht, kann es nicht so schlimm sein” (em tradução literal, “Se Isto Ainda É Possível, Não Pode Ser Tão Mau”), o livro de 2020, em que, quase diariamente, anotou e reflectiu sobre a situação psicológica e física por que estava a passar.

Segundo a crítica, a narrativa descreve, de forma implacável e sem subterfúgios, todos esses momentos, desde a propensão suicida às euforias absurdas, desde o total bloqueio para pensar, resultante das drogas tomadas, ao quotidiano quase infantil na ala psiquiátrica, assim como os sentimentos de culpa por se tornar um peso para a família ou em que se convencia que nada mais poderia fazer com a sua vida. Para isso, teve que inventar uma linguagem fragmentária, com hiatos, que procurasse expressar essas emoções e estados físicos. Foi assim que o livro ultrapassou literariamente o mero relatório “clínico”, transformando-se num testemunho radical de uma doença que é ainda um tabu social. É essa dimensão de busca em expressar situações, que vão desde o quase vegetativo ao desespero total, e a utilização constante de uma certa ironia trágica, além de uma exigente e dolorosa sinceridade, como forma de análise catártica, que conferem a “Wenn das noch geht, kann es nicht so schlimm sein”  uma assinalada qualidade literária.  

Abril de 2022

 

Foto do autor de Heike Steinweg.



sábado, 2 de abril de 2022

ANNA BAAR

 


1.     A Vontade de Ler: um Autor, uma Obra.

     Anna Baar (1973-)


É uma escritora austríaca de origem croata, onde passou parte da sua infância. Desde 2012, publicou poesia, contos, libretos de ópera e três romances. Os seus livros têm sido nomeados para vários prémios austríacos, integrando as suas shortlists. É reconhecida pela crítica de língua alemã como uma escritora relevante no quadro actual literatura austríaca. Não tem nenhum livro traduzido.

“Nil”, o seu último romance, publicado em 2021, centra-se num(a) narrador(a) que escreve histórias em folhetim para uma revista feminina. A sua história vai-se desenvolvendo, de acordo com as reacções dos leitores, até que recebe um ultimato do seu editor para que a conclua e conceba um final, mesmo que abrupto, mas que satisfaça quem a lê. E, perante esta imposição, a narradora sente-se confusa, não só não conseguindo apanhar uma solução satisfatória, mas principalmente temendo os reflexos que essa solução poderá ter sobre a sua vida “real”, convicta que as personagens que criou lhe irão escapar e que, de alguma forma, irão transpor a fronteira entre a ficção e a realidade, confrontando-a e afectando o seu porvir.

 Segundo os críticos, “Nil” é, ao mesmo tempo, denso e bem-humorado, com personagens secundárias bem delineadas e originais, revelando-se como uma reflexão inovadora sobre o papel da escrita de ficção.  

Abril de 2022

 

Direitos da foto da autora de “Klagenfurt”.



quinta-feira, 8 de abril de 2021

ROLAND JACCARD

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

26 ª Vinheta


ROLAND JACCARD

 

A minha fixação com a relação entre sinceridade (termo claramente em desuso, mas que aqui pretendo caracterizar como o conjunto das pulsões pessoais que motivam o acto de escrever) e criação literária, e a forma como coexistem sem se destruir (é esta, na minha opinião, um dos temas nucleares e sempre presentes na literatura como em qualquer criação artística), leva-me a aproximar-me de um rosário de autores, ao mesmo tempo fascinantes e incómodos. Já escrevi sobre alguns deles e agora é a vez de Roland Jaccard.

Roland Jaccard (1941-) é um escritor suíço (nasceu em Lausanne, seu permanente refúgio) de língua francesa, indiscutivelmente prolífico e complexo. Psicanalista, crítico literário, editor, ensaísta, diarista, romancista e blogger, revela na sua obra, já com várias dezenas de títulos, ser possuidor de uma cultura vastíssima, multidireccionada, que vai, obviamente, desde a psicanalise à filosofia, à literatura, ao cinema e a todas as restantes formas de expressão artística. Activista, empenhado em diversas causas, Roland Jaccard tem demonstrado ser um espírito livre, corajoso, afrontando por sistema aquilo a que hoje se chama o “politicamente correcto” e, ao longo da sua vida, a moral dominante.

Da sua obra, creio que é importante destacar, na sua qualidade de psicanalista, a coordenação de uma “Histoire de la psychanalyse”, 1993, ou os seus ensaios sobre Melanie Klein, Freud, ou a Loucura. Ainda neste aspecto, é fundamental também realçar o seu importante ensaio “L’exil interieur: schizoïde et civilization”, 1975, onde, articulando os trabalhos de Freud e Klein com a etno-psicanálise (Georges Devereux) e o pensamento de Norbert Elias, considera que o processo civilizacional é tendencialmente esquizoide e, por isso mesmo, sem os referentes necessários para integrar e tratar a esquizofrenia individual e que o actual processo de “normalização” e padronização do homem irá desfigurar por completo a “sua” humanidade. Convém ainda salientar que, como na restante produção narrativa do autor, esta obra entrecruza as componentes ensaísticas com experiência pessoal, efectuando objectivas conexões com os modelos mais narrativos da sua produção literária.

Ainda no domínio do ensaísmo, convém destacar, na área do cinema, as obras sobre Louise Brooks, o primeiro com a colaboração da própria actriz, 1977, e “Portrait d’une flapper”, 2007, e “John Wayne n’est pas mort”, 2019. Estes livros, em particular os dois últimos, são, ao mesmo tempo, análises do comportamento destas figuras icónicas do cinema, mas também, como sucede na restante obra deste autor, uma espécie de ajuste de contas e de denúncia de uma moral dominante que considera acentuadamente hipócrita. Há, nesta perspectiva, que referir que o ensaísmo de Roland Jaccard, na linha das obras de Montaigne e de Pascal, parte sempre da experiência pessoal como sustentáculo a uma exaustiva reflexão sobre o sentido da vida, dos valores da moral individual e da sua relação com a moral dominante.

Mas, a partir de “Dictionnaire du parfait cynique”, 1982 (que, no essencial, é um conjunto de citações e de referências de diversos autores e personalidades, algumas delas forjadas, como o próprio autor confessa, em que se preconiza uma postura cínica sobre a vida e em que se estabelece as regras de uma postura objectivamente de repúdio de qualquer tipo de idealismo), passando, muito em particular, por “La tentation nihiliste”, 1989 (que posteriormente será e ditada conjuntamente com outra obra do autor, intitulada “Le Cemitiere de la morale”, 1995), a sua obra aproxima-se cada vez mais de posições pessimistas e mesmo niilistas. Recorrendo à obra e à postura existencial de autores como La Rochefoucauld, Lichtenberg, Schopenhauer, Nietzsche ou Wittgenstein, atraído pela personalidade de autores como Leopardi, Panizza, Bierce, Klima, Dazai, Zwieg, Hedayat, Zorn, Connolly, Amiel, entre outros, Roland Jaccard orienta-se para uma total descrença em relação a humanidade e a retirar qualquer significado à própria existência, considerando que o homem é apenas uma espécie de cadáver adiado; tal postura, leva-o a entender, tal como o seu amigo E. M. Cioran, de cujo pensamento o autor é um profundo admirador, que o suicídio é o caminho mais coerente e consequente; mas, e é esta é uma das suas contradicções, como ele refere ao longo das suas recentes obras (“L’Enquête de Wittgenstein”, 1998, “Cioran et compagnie”, 2004, e “Penseurs et tueurs”, 2018, por exemplo), o seu fascínio pelo suicídio é fundamentalmente pela sua ideia e possibilidade, visto que é ela que lhe dá motivação para continuar a existir e retirar algumas “seductions de la existence” (para utilizar o título de uma obra colectiva em que participou com François Bott, Daniel Grisoni e Yves Simon), como, por exemplo, o seu enorme fascínio pelas obras de certos pensadores e artistas, pelas relações de amizade e (destaco este aspecto por causa da sua importância na reflexão e na criação de Roland Jaccard) pelas relações amorosas. Mas estes fascínios, mesmo que fundamentais para manter a “joie de vivre”, não justificam a existência de qualquer ética, e, principalmente, de qualquer pretensão filosófica, que procure dar qualquer sentido à existência, na linha do que afirmou, em toda a sua obra, E. M. Cioran.

Convém, no entanto, ter claro que Roland Jaccard desvaloriza o sentimento amoroso, tal como ele é consensualmente estabelecido, porque o considera contaminado por um sentimentalismo bacoco. Para o autor, o sentimento amoroso é apenas o estrito percurso de afirmação do seu desejo erótico e sexual, como é bem explícito na sua obra mais narrativa, diarística e ficcional.

Talvez assim se compreenda por que motivo Roland Jaccard se fascina pelas mulheres que, a seu modo, fundamentalmente contribuíram para a afirmação, libertação e independência da entidade sexual feminina (Louise Brooks, Lou André-Salomé) como matriz da sua própria existência. E daí que desvalorize outros papéis específicos da mulher, como a maternidade, que considera obscena (na minha opinião, de uma forma absurda).

Ora, como Roland Jaccard reafirma várias vezes na sua obra, o seu objecto de desejo é, em exclusivo, as mulheres muito jovens (veja-se um dos títulos mais emblemáticos do conjunto da sua obra, “Une Liaison dangeureuse”, 2015, onde, em conjunto com Marie Céhère, narra em detalhe a sua paixão por uma jovem de 23 anos, a subscritora do livro, com quem o autor vive uma relação amorosa quando tem 73 anos), o que quer dizer que, no caso das restantes mulheres, não se torna para ele relevante a sua identidade feminina (no quadro de uma reflexão que o aproxima, malgré lui, da obra de Otto Weininger, “Geschlecht und Charakter”).

Assinale-se também que, ao acentuar esta tónica de encarar a mulher como objecto de desejo, Roland Jaccard torna nítido que para si existem dois universos femininos distintos: o que integra o campo muito exclusivo das mulheres que amou em algum momento da sua vida ou que poderá vir a amar e o que, por razões etárias ou de repúdio do seu desejo, estão fora desse campo (que, obviamente, é o de quase todas as mulheres), e que se tornam, por isso, simplesmente desinteressantes ou geradoras de equívocos, ou ainda, verdadeiras inimigas, pois, pela sua falta de disponibilidade em aceitar o desejo que lhes manifestou, se revelam como seres malignos e geradores de amargos, para não dizer inadmissíveis, dissabores e frustrações (que, naturalmente, se foram reforçando com o avanço da idade do autor).

Deve ainda referir-se que o autor sempre assumiu o papel de “dragueur” (para não dizer predador) de jovens mulheres e que toda a sua obra diarística e narrativa espelha esta forma de estar. Aliás, foi este seu modo de estar que o levou a frequentar regularmente, desde jovem, a piscina Deligny, junto do Sena e do Quartier Latin, onde veio a conhecer Gabriel Matzneff, de quem se tornou amigo, e por quem Roland Jaccard sempre teve consideração como escritor, que foi, como se sabe, acusado recentemente de pedófilo, abusador de menores e de estimular, como cliente, a prostituição infantil, e, por isso, socialmente ostracizado (em particular, depois da publicação de “Consentimento” de Vanessa Springora), e que Roland Jaccard, com a coragem e a independência de espírito que o caracteriza, continuou a reconhecer como amigo e a defender como escritor.

Por tudo isto, percebe-se que perpassa, subliminarmente por toda a sua obra, uma acentuada misoginia. E que esta, resultante no essencial da sua posição niilista, se torna bastante incómoda para certos leitores, como é o meu caso, que, mesmo considerando interessante e relevante a sua reflexão, sente-se, obviamente, incapaz de a acompanhar até as suas consequências e conclusões.

Por último, salientar que Roland Jaccard, na maior parte das suas obras diarísticas e narrativas (a trilogia de “L’Âme est un vaste pays”, 1983, “Des femmes dispairaissent”, 1985” e “L’Ombre d’une frange”, 1987, e ainda as narrativas de “Sugar babies”, 1986, onde procura recriar o universo intimista de certa literatura japonesa, ou “Station terminale”, 2017, na minha opinião, o seu mais bem construído e interessante romance, constituído pelo diário de um suicida, que se chama Roland e nasceu em Lausanne, e que é descoberto nos seus despojos por um irmão, um burguês bem estabelecido na mesma cidade suíça, que decide comentá-lo e se interroga sobre se deve ou não publicá-lo), revela ser um admirável estilista, principalmente pela cáustica presença do humor e da sátira, pela sua capacidade em exprimir a dimensão sensorial e emotiva da existência, e pela forma desabrida e fulgurante com que analisa a hipocrisia das regras sociais dominantes, dos costumes e do modo de estar de certa burguesia franco-suíça.     

Hoje, provavelmente, Roland Jaccard é um homem só, minado pelos seus fantasmas e pelas suas contradicções, olhando de uma forma cada vez mais condoída para uma época que passou e para os amigos que foi perdendo. Mas ainda com duas âncoras que garantem a sua sobrevivência: a sua escrita, que, furiosamente, continua (veja-se o seu “Le Blog de Roland Jaccard”, https://leblogderolandjaccard.com/), e uma obra aberta ao juízo do tempo.

Os únicos livros de Roland Jaccard que se encontram editados em Portugal são o seu ensaio “Freud”, tradução de Vitor Ribeiro Ferreira, e publicado pelas Publicações Dom Quixote (1987), e o “Manifesto para uma morte doce”, tradução de Wanda Ramos, e publicado pela Bertrand (1995), que o autor escreveu em conjunto com Michel Thévoz, e foi originalmente editado em 1992.

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 

Abril de 2021.