sexta-feira, 3 de junho de 2022

LING XI

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

19. Ling Xi (1972-)

É uma autora chinesa que decidiu expressar-se literariamente em língua francesa, após ter emigrado para França em 1998 e aí se ter formado. Começou a publicar em 2006 e tem até hoje duas colectâneas de novelas e dois romances editados. Duas dessas obras foram publicadas por Maurice Nadeau (o director do jornal “La Quinzaine Littéraire” e, provavelmente, desde os anos sessenta, um dos mais notáveis leitores de literatura do séc. XX), o que, por si só, é um garante da qualidade literária da obra da autora.

Como é natural, boa parte das suas narrativas situam-se na China e procuram reflectir as mutações culturais, sociais e económicas da sua população rural e urbana, com a correspondente desadequação e o consequente processo migratório. Mas, como a autora referiu numa entrevista, não pretende realizar um retrato folclórico nem efectuar nenhuma autobiografia (a única excepção, e redigida a pedido de Maurice Nadeau, é uma das novelas de  “L’Épaule du cavalier”, 2016, a que precisamente dá origem ao título da colectânea).

De facto, os romances da autora (“La Trosième moitié”, 2010, e “Gorge des Tambours”, 2022), espelhando um grande arco temporal, e envolvendo várias gerações, não pretendem propriamente “representar” o processo histórico. As personagens apenas reflectem a referida desadequação e a correspondente estranheza social e cultural, expressas numa escrita lírica e, de certo modo, simbólica. Talvez assim se compreenda por que motivo aparece, tanto nos romances como nas novelas, como tema recorrente, diversas formas de androgenia e de metamorfose. A androgenia não é apenas fruto de imposições, sentidas como absurdas, do Estado chinês, mas também de um paradigma cultural que dilui as fronteiras sexuais e o binarismo, e, de certo modo, corporiza o sentimento de desenraizamento cultural e de não-pertença a um lugar.

Por tudo isto, o livro que ainda parece mais fascinante de Ling Xi seja o primeiro, a colectânea de novelas intitulada “Été strident” de 2006. Essas três novelas têm, como personagens nucleares, seres desadequados e em permanente metamorfose: é o velho (em 2070) que recorda quando o seu pai o abandonou, com o sonho de ser poeta em Paris, e que viveu, fragilmente, sempre em contramão aos valores sociais dominantes e que se resigna a ser criador de baratas; o jovem operário, de uma beleza excepcional, que vive o sonho de ser um cantor lírico, que todas as noites se veste de mulher, com quimono de seda, para ir cantar a um salão de chá e que ninguém conhece objectivamente a sua identidade; ou o emigrante em Paris que, incapaz de aceitar o comportamento das suas colegas de escritório, vive num mutismo total, aterrorizado com a ideia de regressar à China, onde foi obrigado a viver a sua infância disfarçado de menina.

Por último, uma pequena nota que poderá ter a sua relevância: não é provavelmente por acaso que as personagens centrais das suas novelas sejam figuras masculinas.

Junho de 2022.

A autoria da foto da escritora é de Catherine Fruchon-Toussaint.

  


  


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