A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
19. Ling Xi (1972-)
É uma autora
chinesa que decidiu expressar-se literariamente em língua francesa, após ter
emigrado para França em 1998 e aí se ter formado. Começou a publicar em 2006 e
tem até hoje duas colectâneas de novelas e dois romances editados. Duas dessas
obras foram publicadas por Maurice Nadeau (o director do jornal “La Quinzaine
Littéraire” e, provavelmente, desde os anos sessenta, um dos mais notáveis
leitores de literatura do séc. XX), o que, por si só, é um garante da qualidade
literária da obra da autora.
Como é
natural, boa parte das suas narrativas situam-se na China e procuram reflectir
as mutações culturais, sociais e económicas da sua população rural e urbana,
com a correspondente desadequação e o consequente processo migratório. Mas,
como a autora referiu numa entrevista, não pretende realizar um retrato
folclórico nem efectuar nenhuma autobiografia (a única excepção, e redigida a
pedido de Maurice Nadeau, é uma das novelas de “L’Épaule du cavalier”, 2016, a que
precisamente dá origem ao título da colectânea).
De facto, os
romances da autora (“La Trosième moitié”, 2010, e “Gorge des Tambours”, 2022),
espelhando um grande arco temporal, e envolvendo várias gerações, não pretendem
propriamente “representar” o processo histórico. As personagens apenas reflectem
a referida desadequação e a correspondente estranheza social e cultural, expressas
numa escrita lírica e, de certo modo, simbólica. Talvez assim se compreenda por
que motivo aparece, tanto nos romances como nas novelas, como tema recorrente,
diversas formas de androgenia e de metamorfose. A androgenia não é apenas fruto
de imposições, sentidas como absurdas, do Estado chinês, mas também de um
paradigma cultural que dilui as fronteiras sexuais e o binarismo, e, de certo
modo, corporiza o sentimento de desenraizamento cultural e de não-pertença a um
lugar.
Por tudo
isto, o livro que ainda parece mais fascinante de Ling Xi seja o primeiro, a
colectânea de novelas intitulada “Été strident” de 2006. Essas três novelas
têm, como personagens nucleares, seres desadequados e em permanente
metamorfose: é o velho (em 2070) que recorda quando o seu pai o abandonou, com
o sonho de ser poeta em Paris, e que viveu, fragilmente, sempre em contramão
aos valores sociais dominantes e que se resigna a ser criador de baratas; o
jovem operário, de uma beleza excepcional, que vive o sonho de ser um cantor
lírico, que todas as noites se veste de mulher, com quimono de seda, para ir
cantar a um salão de chá e que ninguém conhece objectivamente a sua identidade;
ou o emigrante em Paris que, incapaz de aceitar o comportamento das suas
colegas de escritório, vive num mutismo total, aterrorizado com a ideia de
regressar à China, onde foi obrigado a viver a sua infância disfarçado de
menina.
Por último,
uma pequena nota que poderá ter a sua relevância: não é provavelmente por acaso
que as personagens centrais das suas novelas sejam figuras masculinas.
Junho de
2022.
A autoria da
foto da escritora é de Catherine Fruchon-Toussaint.


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