A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
23. Rabee
Jaber (1972-)
É um
escritor libanês, de expressão árabe, que escreveu dezanove romances em pouco
mais de vinte anos. Esta produção literária ininterrupta transformou o autor
(um homem com uma vida reclusa e pouco dado a vir a público e a participar em
actos mundanos) numa das figuras mais proeminentes da literatura libanesa. A
confirmar este estatuto, estão os factos de os seus últimos romances terem sido
seleccionados para o International Prize for Arabic Fiction (o mais importante
galardão para narrativas em árabe), tendo o seu penúltimo, intitulado (em
tradução literal para inglês) “The Druze of Belgrade”, ganho este galardão
(rezam as crónicas, que o autor, quando percebeu quais eram as cerimónias
públicas em que era necessário estar presente, decorrentes desta outorga, pura
e simplesmente, “fugiu” de Abu Dhabi, cidade onde está sitiado o prémio) e de
ter sido seleccionado como um dos autores mais importantes de língua árabe com
menos de quarenta anos na antologia Beirut39, organizada pelo festival
literário internacional “Hay Festival”, em 2007, na altura em que Beirute foi Capital
Mundial do Livro. Por último, convém assinalar que Rabee Jaber foi jornalista
cultural no “Al-Hayat”, um dos mais importantes jornais árabes (entretanto
encerrado), e que a partir de 2014, segundo se pode saber (dadas as
dificuldades em conhecer no Ocidente a produção literária árabe, há que
efectuar sempre esta ressalva), não publicou mais nenhum livro.
Seja qual
for o quadro temporal das obras do autor (Rabee Jaber escreveu alguns romances
históricos, como é o caso do já referido), percebe-se que o seu tema nuclear são
as guerras religiosas, o que não admira, tendo em conta o percurso histórico do
seu país. No entanto, não são tanto os conflitos em si que interessam o autor
(à parte, eles estarem sempre presentes como “pano de fundo”, com o seu cortejo
brutal de chacinas e de massacres), mas as consequências e os traumas que deixaram.
E não só psicológicos (medo, ódio, consciência constante da fragilidade da
vida, etc.), mas também de desfiguração de valores e princípios e até de perca
de identidade.
Os romances
mais referenciados de Rabee Jaber são, para além do já acima citado, “America”,
2010, situado no princípio do séc. XX e centrando-se na emigração como forma de
procurar a salvação e a subsistência num mundo destituído de referências
culturais comuns, “The Birds of the Holiday Inn”, 2012, contextualizado na
guerra civil de 1975-76 e sobre como sobreviver e organizar o quotidiano no
seio de uma semelhante situação, “The Mehlis Report”, 2006, sobre os constantes
sequestros e atentados a diversas personalidades no seu país, e em torno do
relatório da ONU sobre o assassínio do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, e
“Byretus, Undeground City”, 2005, com uma componente fantástica acentuada,
sobre uma cidade subterrânea de Beirute, onde os seus mortos subsistem e
procuram reconstruir a existência que a cidade da superfície lhes roubou.
Mas o
romance que suscita mais interesse é “Confessions” de 2008. Não se julgue, pelo
título, que este romance tenha algum aspecto de autobiográfico, mesmo
recorrendo, em termos de referência, às “Confissões” de Santo Agostinho, pois
também aqui a memória é entendida como um “palácio labiríntico com imensos
quartos”.
A obra, de
uma assustadora violência, tem, como narrador, um homem que viveu toda a
infância e adolescência sob a guerra civil libanesa e que soube, pelo pai
moribundo, quando lhe contou que tinha decidido escrever a sua história, que
tinha sido retirado de um carro, ferido e ensanguentado, com quatro ou cinco
anos, onde a sua família original fora toda dizimada num ataque perpetrado por
ele e pelo irmão mais velho, no campo de refugiados de Shatila (prática a que
se dedicavam frequentemente), e que fora trazido para “substituir” um outro
filho dele também sequestrado e assassinado.
Percebe-se
que o romance, para além dos temas do ódio, da morte e das sequelas longas do
terror, é uma sinuosa indagação sobre a identidade e a memória. Numa linguagem
crua, mas ao mesmo tempo poética, o narrador vai questionar-se sobre o valor e
o sentido dos referentes com que construiu a sua memória, uma vez que todos os
seus registos “arderam”, não sabendo qual é a sua religião nem a sua cultura, e
principalmente que “inimigo” vive dentro dele.
Não há, no
entanto, nestas “memórias” de um homem sobre a sua infância nem nenhum gosto do
macabro (à parte, existirem, obviamente, muitas situações e descrições
verdadeiramente brutais), nem nostalgia. Com a serenidade daquilo que é uma
necessidade vital, o narrador vai percorrendo, fragmentariamente, a espiral do seu
terror mais íntimo, percebendo que, no final, apenas encontrará um buraco
negro.
Alguns
romances de Rabee Jaber foram traduzidos para inglês, francês, alemão e
italiano.
Junho de
2022
Desconheço a
autoria da foto do escritor.


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