segunda-feira, 20 de junho de 2022

RABEE JABER

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

23. Rabee Jaber (1972-)

É um escritor libanês, de expressão árabe, que escreveu dezanove romances em pouco mais de vinte anos. Esta produção literária ininterrupta transformou o autor (um homem com uma vida reclusa e pouco dado a vir a público e a participar em actos mundanos) numa das figuras mais proeminentes da literatura libanesa. A confirmar este estatuto, estão os factos de os seus últimos romances terem sido seleccionados para o International Prize for Arabic Fiction (o mais importante galardão para narrativas em árabe), tendo o seu penúltimo, intitulado (em tradução literal para inglês) “The Druze of Belgrade”, ganho este galardão (rezam as crónicas, que o autor, quando percebeu quais eram as cerimónias públicas em que era necessário estar presente, decorrentes desta outorga, pura e simplesmente, “fugiu” de Abu Dhabi, cidade onde está sitiado o prémio) e de ter sido seleccionado como um dos autores mais importantes de língua árabe com menos de quarenta anos na antologia Beirut39, organizada pelo festival literário internacional “Hay Festival”, em 2007, na altura em que Beirute foi Capital Mundial do Livro. Por último, convém assinalar que Rabee Jaber foi jornalista cultural no “Al-Hayat”, um dos mais importantes jornais árabes (entretanto encerrado), e que a partir de 2014, segundo se pode saber (dadas as dificuldades em conhecer no Ocidente a produção literária árabe, há que efectuar sempre esta ressalva), não publicou mais nenhum livro.

Seja qual for o quadro temporal das obras do autor (Rabee Jaber escreveu alguns romances históricos, como é o caso do já referido), percebe-se que o seu tema nuclear são as guerras religiosas, o que não admira, tendo em conta o percurso histórico do seu país. No entanto, não são tanto os conflitos em si que interessam o autor (à parte, eles estarem sempre presentes como “pano de fundo”, com o seu cortejo brutal de chacinas e de massacres), mas as consequências e os traumas que deixaram. E não só psicológicos (medo, ódio, consciência constante da fragilidade da vida, etc.), mas também de desfiguração de valores e princípios e até de perca de identidade.

Os romances mais referenciados de Rabee Jaber são, para além do já acima citado, “America”, 2010, situado no princípio do séc. XX e centrando-se na emigração como forma de procurar a salvação e a subsistência num mundo destituído de referências culturais comuns, “The Birds of the Holiday Inn”, 2012, contextualizado na guerra civil de 1975-76 e sobre como sobreviver e organizar o quotidiano no seio de uma semelhante situação, “The Mehlis Report”, 2006, sobre os constantes sequestros e atentados a diversas personalidades no seu país, e em torno do relatório da ONU sobre o assassínio do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, e “Byretus, Undeground City”, 2005, com uma componente fantástica acentuada, sobre uma cidade subterrânea de Beirute, onde os seus mortos subsistem e procuram reconstruir a existência que a cidade da superfície lhes roubou.

Mas o romance que suscita mais interesse é “Confessions” de 2008. Não se julgue, pelo título, que este romance tenha algum aspecto de autobiográfico, mesmo recorrendo, em termos de referência, às “Confissões” de Santo Agostinho, pois também aqui a memória é entendida como um “palácio labiríntico com imensos quartos”.

A obra, de uma assustadora violência, tem, como narrador, um homem que viveu toda a infância e adolescência sob a guerra civil libanesa e que soube, pelo pai moribundo, quando lhe contou que tinha decidido escrever a sua história, que tinha sido retirado de um carro, ferido e ensanguentado, com quatro ou cinco anos, onde a sua família original fora toda dizimada num ataque perpetrado por ele e pelo irmão mais velho, no campo de refugiados de Shatila (prática a que se dedicavam frequentemente), e que fora trazido para “substituir” um outro filho dele também sequestrado e assassinado.

Percebe-se que o romance, para além dos temas do ódio, da morte e das sequelas longas do terror, é uma sinuosa indagação sobre a identidade e a memória. Numa linguagem crua, mas ao mesmo tempo poética, o narrador vai questionar-se sobre o valor e o sentido dos referentes com que construiu a sua memória, uma vez que todos os seus registos “arderam”, não sabendo qual é a sua religião nem a sua cultura, e principalmente que “inimigo” vive dentro dele.

Não há, no entanto, nestas “memórias” de um homem sobre a sua infância nem nenhum gosto do macabro (à parte, existirem, obviamente, muitas situações e descrições verdadeiramente brutais), nem nostalgia. Com a serenidade daquilo que é uma necessidade vital, o narrador vai percorrendo, fragmentariamente, a espiral do seu terror mais íntimo, percebendo que, no final, apenas encontrará um buraco negro.

Alguns romances de Rabee Jaber foram traduzidos para inglês, francês, alemão e italiano.

Junho de 2022

Desconheço a autoria da foto do escritor.



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