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sexta-feira, 10 de junho de 2022

MICHAEL KAAN

 


A Vontade Ler: Um Autor, Uma Obra

21. Michael Kaan (1969-)

É um autor canadiano, filho de um pai de Hong Kong e de uma mãe canadiana, que publicou um único romance, “The Water Beetles”, 2017, com que foi finalista do Governor General’s Award (o mais importante prémio literário canadiano) para língua inglesa e ganhou o Books in Canada First Novel Award. Profissionalmente, é administrador hospitalar em Manitoba, sua cidade natal.

O romance (inspirado pelas memórias do pai do autor, que a mãe lhe entregou após a sua morte) inicia-se com um jovem de doze anos, filho de uma muito próspera família de Hong Kong, que, de súbito, vê a sua vida totalmente transformada com a conquista da cidade pelos japoneses em 1941. Depois de uma fase inicial, em que a família se barrica no seu palacete, temendo a violência que corria pelas ruas, os pais optaram, dada a escassez de víveres, dividir a família e “empurrar” os dois filhos mais novos (que inclui o protagonista) e outros familiares para fora de casa, para procurarem no interior da China formas de sobrevivência. Passado algum tempo, o protagonista é capturado pelos japoneses, e retido num campo de concentração, durante dois anos; até que, finalmente, consegue fugir, com o seu irmão, esquivando-se aos seus carcereiros, e regressar a sua casa. Durante a “fuga”, o jovem vê-se mergulhado nos horrores da guerra, constata a fome e a violência das aldeias chinesas, passa maus-tratos nas prisões japonesas e uma atroz fome.

Mas, no capítulo seguinte, constatamos que este protagonista é agora um velho médico, a viver em Kuala Lumpur, sofrendo as dificuldades da sua idade e com a sua incapacidade e inépcia para se adaptar as circunstâncias do tempo presente.

Entrecruzando capítulos entre o passado e o presente da personagem principal, percebe-se que “The Water Beetles”  não é, propriamente dito, um romance sobre os horrores da guerra (à parte, como é evidente, esses horrores estarem bem presentes), mas sim sobre a memória e sobre a forma como, ao longo da vida, os sobreviventes conseguem gerir as feridas silenciadas desse passado. Segundo a crítica, numa escrita contida, mas, ao mesmo tempo, introspectiva e poética, e revelando grande domínio das técnicas narrativas, o romance é, no essencial, uma reflexão ficcionada sobre a gestão da memória, sobre aquilo que ela emudece e recria, e como essa gestão determina, inevitavelmente, a forma de encarar a vida, a relação com os outros e até o próprio luto e a morte.

Junho de 2022.

Desconheço a autoria da foto do escritor.



sexta-feira, 20 de março de 2020

ANTHONY DE SA


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

10ª Vinheta


ANTHONY DE SA


Anthony de Sa (1966-) é um escritor canadiano, originário de uma família portuguesa, que nasceu e cresceu no seio da nossa comunidade (a “Little Portugal”) em Toronto. Na última década, publicou dois romances (“Kicking the Sky” e “Children of the Moon”) e uma colectânea de “stories” interligadas (“Barnacle Love”). Aliás, este último livro, o primeiro do autor, foi o que obteve maior sucesso crítico, pois ficou, aquando da sua publicação, na “shortlist” do Scotiabank Giller Prize, um dos mais prestigiados prémios literários do Canadá.

Como é evidente, não é por acaso que toda a produção literária de Anthony de Sa gira em redor de temas, directa ou indirectamente, relacionados com Portugal. Assim, em “Barnacle Love”, debruça-se sobre as motivações que levaram a emigrar para o Canadá a população açoriana, em particular, a necessidade de procurar uma outra vida sem os constrangimentos económicos e sociais das ilhas, sobre as dificuldades de integração num meio social totalmente díspar, e, por último, sobre a sua relação com os filhos, uma segunda geração que tem uma visão do mundo bem distinta e, muitas vezes, conflituosa em relação à dos pais.

“Kicking the Sky”, o seu primeiro romance, também passado na comunidade imigrante portuguesa de Toronto, desenrola-se a partir de um facto real: a violação e o assassinato, nos finais da década de setenta, de um jovem engraxador de origem portuguesa na Baixa da cidade. Como é natural, este caso abalou profundamente a comunidade imigrante, porque, de uma forma brutal, se viu obrigada a confrontar os seus sonhos e a expectativa de uma melhor vida, que a motivaram a emigrar, e a realidade bem crua em que de facto vivia. É esse confronto que vive o narrador do romance (o mesmo António Rebelo, da segunda parte de “Barnacle Love”), um jovem que se habituou a “fugir” dos pais, correndo de bicicleta, com os amigos, pelas ruelas e pátios de Toronto, e que descobre, a meio do percurso formativo da sua adolescência, que há um “mundo” adulto que ele apenas pressente e que se pode tornar profundamente perigoso.

Mas, provavelmente, o romance que justifique maior destaque seja o último, “Children of the Moon”, nem que seja porque o autor decidiu “descontextualizá-lo” da comunidade portuguesa de Toronto. “Inspirando-se em histórias familiares”, o romance situa-se em Moçambique e processa-se no quadro das guerras de libertação e civil que, durante algumas décadas, assolou aquele país. A caracterização dos narradores permite perspectivar alguns dos temas deste romance: Pó, a albina, de origem massai, que, nascida na Tanzânia, se vê obrigada a fugir do ostracismo e da “maldição” que lhe lançam por causa da sua cor de pele, até se encontrar “acampada” num hotel da Beira à espera da morte; Serafim, o jornalista brasileiro, corroído por um passado culpabilizador, que está a realizar uma investigação sobre a segregação do “albinismo” em África e procura recolher o testemunho de vida de Pó; e Ezequiel, o moçambicano, filho de pai português e mãe maconde, que, repudiado por ambas as comunidades, se vê mergulhado, desde jovem adolescente, na brutalidade da guerra, entre guerrilheiros e militares, “salvo” apenas pela sua intensa paixão por Pó, mas que presentemente se encontra em Toronto, a sofrer de demência e de stress pós-traumático, resultantes da sua experiência de guerra. No essencial, tenta-se perceber como o facto de ser marginalizado, mesmo que seja por motivos díspares, pode intensificar as relações entre as pessoas na procura de sobreviver a esse mal-estar e de ganhar um novo sentido para a vida.

O primeiro livro de Anthony de Sa, “Barnacle Love”, foi publicado em Portugal, com o título “Terra Nova”, pelas Publicações Dom Quixote, numa tradução de Maria Eduarda Colares, revista por Maria João Freire de Andrade. Estranhamente (ou talvez não…), apareceu subtítulado de “Romance”.


Março de 2020.

Foto do autor de Matthew Sherwood




sábado, 8 de fevereiro de 2020

ANN-MARIE MACDONALD

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

6ª Vinheta



ANN-MARIE MACDONALD


Ann-Marie MacDonald (1958-) é uma escritora canadiana que se tem destacado pelo seu trabalho dramatúrgico (obteve vários prémios com esta sua actividade criativa, incluindo o Governor’s General Award com a sua peça “Goodnight Desdemona”), como guionista e actriz, mas também por ter escrito três romances muito bem recebidos pela crítica e pelos leitores (“Fall on Your Knees”, 1996, “The Way the Crow Flies”, 2003, e “Adult Onset”, 2014).


Os romances desta autora centram-se no núcleo familiar e nos conflitos, ocultações, ambiguidades e traumas que se tecem no seu seio. E, assim, Ann-Marie MacDonald tanto se tem debruçado sobre as repercussões dos comportamentos nefastos dos seus membros nas relações intergeracionais, e cujos efeitos podem durar décadas e décadas (“Fall On Your Knees”), ou sobre as conexões difíceis, culpabilizadas e dolorosas que a família mantem com a sua envolvência (“The Way the Crow Flies”) ou ainda sobre o mal-estar gerado entre a maternidade e os projetos pessoais (“Adult Onset”). Mas sempre com estruturas narrativas muito complexas e trabalhadas, com inúmeras recorrências temporais, tramas elaboradas e sinuosas, um grande sentido de observação, diálogos bem contextualizados e peculiares (não fosse esta escritora uma notável dramaturga…), num estilo que concilia dramaticidade, lirismo e um suave fio de humor. Além disso, como as personagens principais são retratadas de uma forma global, incluindo as suas imperfeições e fragilidades, a autora consegue gerar no leitor uma sensação de mal-estar, pois este sente-se constantemente a balançar entre o repúdio e a empatia. Por último, duas notas mais para caracterizar a sua obra: há sempre, nos seus romances, alusões autobiográficas (como se partissem delas as construções romanescas) e uma ambiência que remete, como uma reminiscência, para a obra de Margaret Atwood (em particular, para o magnífico romance “Cat’s Eye”) e para as trilogias de Robertson Davies.


A obra que mais merece ser destacada (até porque hoje já é considerada um clássico da literatura contemporânea canadiana) é “Fall On Your Knees”, o seu primeiro romance, publicado em 1996. Esta obra é um romance histórico (como, de certo modo, também o é o romance seguinte, “The Way the Crow Flies”), que decorre desde o início do séc. XX, em Cape Breton Island (e a paisagem desta ilha, descrita entre o sombrio e o mágico, é determinante para a caracterização das personagens e do enredo romanesco), e os anos vinte e trinta do mesmo século, em Nova York, e que narra o percurso de James Piper, um homem perturbado pelas suas obsessões, e da família que constitui, composta pela sua mulher (que, quando vai viver com ele, é ainda uma criança) e pelas suas três filhas.


No essencial, pode afirmar-se que o romance divide-se em duas partes: uma primeira, em que a entidade determinante é a figura paterna, o referido James Piper, e a sua acção nefasta sobre a mulher e as filhas, até que, depois da sua participação voluntária na I Guerra Mundial e do encadeamento de sucessivas mortes familiares (o falecimento, por parto, da sua primogénita, e da consequente morte, por acidente, de um dos gémeos filhos desta, e, por fim, da sua própria mulher), aquele se transforma numa sombra de si próprio, num espectro, ruído de culpas; uma segunda, em que a acção determinante se estabelece entre as irmãs que sobreviveram, em parte na sua ânsia de redimir e dominar a figura traumática do pai e de um passado que as persegue como uma verdadeira assombração. Pelo meio, num enredo repleto de segredos, mentiras, equívocos e peripécias imprevistas, vão aparecendo situações de relações incestuosas, interraciais, homossexuais, e de prostituição, até que toda a teia destas existências traumatizadas se vai definindo e clarificando, com o papel apaziguador do tempo, terminando o romance, como nas tragédias shakespearianas, com a serenidade possível para as gerações futuras.


A sua obra narrativa está traduzida para francês, espanhol, alemão e italiano.


Fevereiro de 2020


Foto da autora de Arlen Redkop


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

MIRIAM TOEWS

 

Foto de Adam Rankin


Miriam Toews

 

Miriam Toews (1964-) nasceu em Manitoba, um dos Estados canadianos da chamada zona das Grandes Planícies, numa família menonita. Mesmo que se procure fugir aos excessos de biografismo, estes dois factos vão revelar-se determinantes na obra narrativa desta autora, que é composta, até hoje, por sete romances e um livro com componentes biográficas (sobre o destino e a morte do seu pai).

Manitoba é um Estado com uma baixa densidade demográfica, em particular na sua região Norte, e um clima bastante agreste, bem semelhante ao de Saskatchewan, repleto de lagos e de florestas coníferas. Simplesmente, o facto de ter uma costa aberta para a baía de Hudson, ocasiona que, sendo tão frio como o de Saskatchewan, atingindo habitualmente no Inverno temperaturas de 20 graus negativos, seja mais húmido; mas, por outro lado, em consequência de ser uma gigantesca planície, também sofre influências, através dos Estados Unidos, das correntes do Golfo do México, atingindo no Verão temperaturas superiores a 30 graus, em particular na região sul deste Estado, onde faz fronteira com o Dakota do Norte e o Minnesota. Aliás, esta região, não só é a mais densamente povoada como é a mais rica em termos agrícolas, sendo, neste aspecto, uma das mais produtivas de todo o Canadá. Ora, foi aqui que, em meados do séc. XIX, se estabeleceu uma comunidade de emigrantes menonitas, oriundos da Ucrânia, de que Miriam Toews descende.

Mesmo considerando que este não é o local mais adequado para expor detalhadamente a doutrina religiosa dos menonitas, sempre se recorda que é resultante de uma dissidência no seio do anabaptismo, e que foi criada no séc. XVI, na Frísia, por Menno Simons. Esta dissidência, brutalmente perseguida, tanto pelas restantes seitas anabaptistas, como pelos luteranos, levou os menonitas a dispersar-se por várias regiões do Leste europeu nos sécs. XVII e XVIII. Sempre em busca de uma liberdade de culto que lhes era difícil de obter, algumas destas comunidades, já no séc. XIX, resolveram deslocar-se para o Canadá e para os Estados Unidos, onde se estabeleceram e prosperam, em particular, através da actividade agrícola e da criação de gado. Sendo menos resilientes ao progresso técnico e social do que os amish (que são, por sua vez, uma dissidência dos menonitas), são, contudo, um grupo bastante conservador e patriarcal, com rigorosas regras comportamentais, muito opressivo em relação às mulheres, e, por isso, tem tendência a isolar-se e a fechar-se, em defesa dos seus costumes, excomungando todos aqueles que afrontem as regras comportamentais estabelecidas. Por último, é importante referir que algumas destas comunidades menonitas viram-se obrigadas, por dificuldades de reconhecimento de direitos pretendidos de autonomia por parte do Estado para a sua prática religiosa e para a suas especificidades socio-culturais (por exemplo, recusam-se a enviar os filhos para as escolas públicas e a cumprir o serviço militar), a emigrar de novo para a América Latina, existindo colónias em quase todos os países desta zona do mundo, devendo-se destacar, para compreender a obra desta autora, as do México e da Bolívia.

Um outro aspecto muito relevante para compreender estas comunidades, e, consequentemente a obra de Miriam Toews, é que nas suas colónias apenas se fala plautdietsch, uma língua não escrita que é uma variante do baixo alemão oriental com influências neerlandesas, fixada no séc. XVII, sendo, nas mais conservadoras e ortodoxas, interdito, sob pena de excomunhão, que alguém ensine a ler e a escrever outra língua, em particular às mulheres.

Para concluir, apenas salientar que existem hoje cerca de um milhão e meio de menonitas em todo o mundo, espalhados por perto de uma centena de países.

Ora estas informações são fundamentais para compreender e situar a obra de Miriam Toews, pois a maioria dos seus romances (com excepção dos dois primeiros, “Summer of My Amazing Luck” e “A Boy of Good Breeding”, e, mais recentemente, de “The Flying Troutmans”) estão explicitamente relacionados com a experiência vivida pela autora como membro desta comunidade. Aliás, toda a sua obra, pois os restantes livros também se situam em contextos sociais muito similares ao das comunidades menonitas. A própria Miriam Toews, em diversas entrevistas, tem salientado que ainda hoje se considera uma “menonita secular”, o que revela a ambiguidade do seu relacionamento com a sua comunidade originária, e que deriva em grande parte por entender que existem aspectos positivos na sua ética, mas também por considerar, provavelmente, que é impossível “libertar-se” da formação que esta comunidade lhe incutiu durante a infância e adolescência.

Na obra desta autora há algumas constantes que são fáceis de destacar: o contexto social dos protagonistas dos seus romances é sempre o de pequenas comunidades rurais, extremamente conservadoras, mesmo fechadas e imperialmente patriarcais; os protagonistas, quase sempre mulheres, sentem-se, por motivos óbvios, profundamente desadequados ao meio social envolvente e à sua extrema solidão (ou isolamento). Perante esta situação, essas mulheres ou anseiam e sonham por uma outra vida, muitas vezes com desejos fúteis e irrealistas (sabendo, contudo, que, se “fugirem”, serão excomungadas e perderão qualquer possibilidade de contacto ou apoio da comunidade de onde saíram), ou se conformam mais ou menos às regras sociais impostas, arrastando, ao longo da vida, “traumas” destrutivos que afectará a sua vida emocional e a sua estabilidade psicológica.

Mas esta situação, objectivamente trágica, é sempre encarada pela autora com um imenso humor, como se o jogo da vida não passasse de uma colossal farsa. A maior parte destas protagonistas são adolescentes ou jovens adultos presos entre duas teias, a das convenções da sua comunidade, que abominam, e a incapacidade de se entender e se ajustar aos comportamentos da sociedade “exterior”, o que os leva a muitos momentos absurdos, irrisórios, mas também hilariantes. Por isso, pode dizer-se que os romances de Miriam Toews são, antes do mais, romances de personagens (passe o pleonasmo desta expressão). Quer isto dizer que, todas as situações descritas procuram, antes do mais, explicitar as peculiaridades dos seus comportamentos, a forma como entendem e reagem às solicitações externas, revelando por essa via a sua personalidade, isto é, as suas fragilidades e dependências, mas também a força optimista, quase jubilosa, como reagem às adversidades e à sua falta de competências para viver. Por isso mesmo, pode afirmar-se que há um constante “olhar” afectuoso da autora sobre essas mesmas personagens que permite, em descritos contextos de enorme adversidade, manter com elas uma constante cumplicidade. Vários comentadores e analistas da obra de Miriam Toews destacam a importância deste olhar para “suportar” a leitura dos seus romances, pois consegue, pela ironia e pelo humor, quebrar possíveis excessos melodramáticos.

Outro aspecto constante dos romances de Miriam Toews é que partem sempre, como a autora assinalou em diversas entrevistas, de uma “ideia” que, quase por si só, suporta a trama e o fluir da narrativa. Por outras palavras, não se pressente nas suas obras, a existência de uma estrutura ou de uma arquitectura prévia, sendo o próprio desenvolvimento narrativo da referida “ideia” que vai gerando o romance, os seus constantes “flashbacks” e o “zizaguear” das peripécias descritas.

Este ambiente das comunidades rurais canadianas espelha-se logo na primeira obra de Miriam Toews, intitulada “Summer of My Amazing Luck”, e cuja “ideia”, segundo declarações da autora, deriva de uma reportagem jornalística que realizou. As personagens principais deste romance são duas “welfare mothers” (expressão que designa mães solteiras que criam os seus filhos com apoios assistenciais do Estado) que vivem obcecadas em descobrir quem são os pais dos seus filhos e para onde foram. O romance é principalmente constituído pelo “retrato” destas personagens, da motivação que as levou a esta situação de mães de filhos sem pai e do que ambicionavam nos homens que procuraram, em suma, pelos seus sonhos e devaneios, pelas grotescas dificuldades financeiras porque passam, que lhes condiciona a existência e as empurra para uma viagem alucinada em busca de um possível pai das suas crianças que elas desconhecem o paradeiro. Porém, logo neste primeiro romance, o que se destaca é o humor da narrativa e a forma afectuosa, sem juízos éticos, com que encara o modo de viver destas jovens mulheres e o seu quotidiano medíocre.

O segundo romance, “A Boy of Good Breeding”, parte de uma “ideia” já de si suficientemente pícara: o “mayor” de uma aldeia “ficcionada”, chamada Algren, no Manitoba, no seu desejo de conhecer pessoalmente o primeiro-ministro (que prometeu, como sinal de apoio ao desenvolvimento rural, ir visitar a “cidade mais pequena” do Canadá no Dia nacional), esforça-se até ao absurdo por manter Algren com a mesma população (1500 pessoas, o mínimo necessário para manter o estatuto de cidade), pois, para garantir esta visita, não pode ter nem mais nem menos algum habitante. Compreende-se facilmente que o romance narra todo um conjunto de peripécias necessárias para o “mayor” conseguir este desiderato, sempre em tom de sátira, colocando inúmeras questões sobre o papel dos poderes públicos em controlar a vida privada dos cidadãos, incluindo os básicos actos de nascer, de morrer ou ainda de amar. Mas, mesmo neste contexto, e perante a ambição caricata do mayor, ou as diversas, e aparentemente “disfuncionais”, personagens que vão aparecendo na trama, a autora abandona esse “olhar” humorado e enternecido, que se torna uma das suas principais características estilísticas.

Só no terceiro romance, intitulado “A Complicated Kindness” (que já fui publicado no nosso país com o título “Estranha Ternura”, traduzido por Vítor Guerreiro e editado pela Ed. Palavra), Miriam Toews se decide a abordar explicitamente a problemática das comunidades menonitas. Aqui, tanta a protagonista como as principais personagens coadjuvantes (com excepção do pai da protagonista, que é um homem, mesmo amando a sua família, “aprisionado” às convenções estabelecidas pela sua igreja) são mulheres inconformadas com as regras, por vezes absurdas, impostas pelo autoritarismo dogmático com que se condiciona os comportamentos pessoais. Não admira, por isso, que o desejo de todas elas, seja, antes do mais, “fugir” e procurar os lugares onde os seus sonhos, mesmo fúteis, têm possibilidades de se concretizar. Mais uma vez, para além do já referido humor, é de realçar a forma como a autora se aproxima das personagens, aceitando as suas fragilidades, quer de quem condiciona a existência das pessoas, quer de quem não aceita as regras impostas.

O quarto romance, intitulado “The Flying Troutmans”, que segue a tradição do Big Road Trip, não refere explicitamente a comunidade menonita, mas, tal como os dois primeiros, percebe-se que a ambiência peculiar desta comunidade está presente. No essencial, narra o regresso de uma jovem tia à sua terra natal, chamada em “salvação” de dois sobrinhos adolescentes (um rapaz e uma rapariga), quando a sua irmã, que tinha sido abandonada pelo marido e pai das crianças, é internada com uma depressão profunda. Como não quer ficar a cuidar dos sobrinhos, decidi fazer uma viagem com os dois miúdos pelo interior dos Estados Unidos em busca do pai que está (mais uma vez) em parte incerta. Esta trama básica serve para elaborar um retrato destes jovens problemáticos (e da própria tia), numa linguagem bem coloquial, procurando perceber não só o seu passado, perante uma mãe disfuncional, histérica e violenta, mas principalmente o seu comportamento e a forma como reagem às intempéries da vida.

Com “Irma Voth” (que também foi publicado no nosso país, com um título homónimo ao do original, e que foi traduzido por Lucília Filipe e editado pela Quetzal), o quinto romance, retoma-se a ambiência menonita, mas com uma ligeira inflexão temática na obra desta autora. Segundo declarações de Miriam Toews, a “ideia” deste romance nasceu do convite do realizador mexicano Carlos Reygadas que, depois de ler “A Complicated Kindness” e de ter visto a sua foto na contracapa do romance, decidiu convidá-la para actriz de um filme que pretendia realizar sobre uma colónia menonita do seu país. O filme, realizado em 2007, intitulou-se “Silent Light”, e obteve o reconhecimento da crítica, pois ganhou o Prémio do Júri do Festival de Cannes, representou o México nas candidaturas os Óscares, e a própria autora, que nunca tinha sido actriz, obteve uma nomeação para melhor actriz nos Ariel Awards da Academia Mexicana de Cinema.   

O romance narra a história de uma jovem menonita, Irma Voth, que, após ter “fugido” para casar com um mexicano não-menonita, é “expulsa” da sua colónia e vive na sua periferia, numa pequena quinta, em Chihuahua, no México. Quando o seu marido a abandona, fica numa situação desesperada, pois a sua comunidade mantem a recusa de a aceitar e ela encontra-se completamente impreparada para se integrar no mundo exterior. É neste quadro de impasse que, entretanto, aparece uma equipa de cinema mexicana que pretende realizar um filme sobre a colónia de onde ela é originária e que a resolve contratar para funcionar como intérprete (recorde-se que estas comunidades falam apenas plautdietsch) e para simples trabalhos domésticos. Esta situação vai permitir contextualizar esta personagem no conflito com uma realidade “exterior” com comportamentos socioculturais radicalmente distintos e perceber como se irá processar a sua adaptação a essa realidade.

“All My Puny Sorrows”, o seu sexto romance, segundo declarações da autora, foi motivado pelo suicídio da sua irmã em 2010. A narradora, filha de uma família menonita, vai descrevendo a sua relação com uma irmã mais velha, uma pianista talentosa e reconhecida, casada, possuindo tudo para ser feliz, mas que deseja morrer; pelo contrário, a narradora apresenta-se como uma escritora falhada, com várias relações fiascadas e criando vários filhos de pais ausentes. A sua relação sempre foi conflituosa, mas, quando recebe a notícia de que a sua irmã passou por uma mais tentativa de suicídio, decide tudo fazer para que a ela volte a ter gosto em viver. “All My Puny Sorrows” é uma obra profundamente trágica, mas que a autora, mais uma vez, procura esquivar-se a um sentimentalismo fácil, através do humor e de uma manifesta afirmação da alegria de viver.

Por último, “Women Talking”. Este romance é, segundo a autora, uma “resposta ficcional” a um facto real: em Manitoba, na Bolívia, numa colonia menonita, entre os anos de 2005 a 2009, mais de uma centena de mulheres foi violada sistematicamente, com idades compreendidas entre os 3 anos e os 65. No dia seguinte à noite da violação, as mulheres encontravam-se todas na mesma situação: acordavam de manhã, confusas, sem se lembrar nada do que se passara, mas com vestígios de esperma, doridas e com diversas equimoses. Quando se queixavam, a resposta da sociedade patriarcal, dada pelos sacerdotes e orientadores espirituais, era sempre mais ou menos semelhante: tinham sido possuídas por “demónios” ou o que narravam era resultante de mentes perturbadas, histéricas, que, em consequência do seu desejo em pecar, tinham inventado os factos que descreviam. Só que, acidentalmente, foram descobertos dois homens que, de um modo furtivo, tentavam entrar numa casa alheia. E eles próprios confessaram que integravam um bando de homens que, por sistema, perpetrava as referidas violações, usando um spray anestésico que entorpecia as vítimas. Em tribunal, já em 2011, foi comprovado que oito homens da referida comunidade menonita tinham repetidamente estuprado 130 mulheres e foram condenados. Depois, tudo regressou ao seu dia a dia habitual e  continuou como dantes.

O romance de Miriam Toews inicia-se a partir destes factos, isto é, centra-se no “depois” dos acontecimentos acima descritos. E então “encena” uma situação em que oito mulheres, vitimas das referidas violações, resolvem reunir-se secretamente, durante uma semana, para discutir o que fazer, aproveitando-se do facto de os homens da comunidade se terem deslocado a uma cidade do exterior, procurando obter meios financeiros para caucionar e libertar os acusados. Como não sabem ler nem escrever (recordo que o plautdietsch é uma língua não escrita), pedem a um homem da comunidade (que será o narrador do romance), com um estatuto peculiar, pois já tinha sido excomungado, e posteriormente perdoado, tendo, entretanto, aprendido a escrever, que seja ele a registar os depoimentos e as decisões que as mulheres irão tomar. Só que, como se pode calcular, dada a situação particularmente condicionante destas mulheres, as decisões não vão ser fáceis nem lineares. O romance é, por conseguinte, constituído por estes depoimentos, a forma como cada uma vai reagir ao abuso que foi alvo e como, a partir de agora, se irá posicionar na comunidade, em particular perante os homens, sabendo que alguns deles são seus maridos e filhos.

Para concluir, creio que se torna bem claro que existe, na obra de Miriam Toews, uma componente catártica, sem nunca a autora ceder à facilidade da autoficção. Pelo contrário, há em todos os romances um elevado nível ficcional; por isso mesmo, destacam-se pelo fascínio que criam as personagens construídas por Miriam Toews (tendo, contudo, uma objectiva similitude de romance para romance), a forma como estas são integradas e “respondem” às distintas situações de quotidiano que, sendo banais e comuns, podem revelar-se também pícaras, e principalmente um estilo que consegue conciliar humor, fluidez narrativa e uma atitude cúmplice com as fragilidades da condição humana.

 

Lisboa, Agosto de 2019