Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Africana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Africana. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 13 de maio de 2022

ADRIENNE YABOUZA


 

A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

 

13. Adrienne Yabouza (1965-)

 

É uma escritora da República Centro-Africana, de expressão francesa, que já escreveu vários livros para a infância e juventude e oito romances e colectâneas de contos (os primeiros escritos em colaboração com o escritor francês Yves Pinguilly). Sem estudos nem formação académica (boa parte da sua vida teve que criar sozinha os seus cinco filhos), passou por diversos trabalhos e ofícios, até que, por fim, “montou” um salão de cabeleireiro na capital, que lhe serviu para ouvir as histórias de vida das suas vizinhas. Devido às guerras civis que recentemente assolaram o seu país, foi obrigada a exilar-se por duas vezes: primeiro, em 2004, para a República do Congo, depois, de novo, em 2013, tendo pedido asilo político em França.

Os romances de Adrienne Yabouza centram-se fundamentalmente na situação social e familiar das mulheres africanas, em particular as do seu país, e inspiram-se nas histórias que foi ouvindo às suas clientes e vizinhas. As tramas são, na generalidade, lineares; mas este facto não obsta a que, para além do testemunho sobre as situações vividas pelas mulheres africanas, os seus romances não tenham qualidades estilísticas, com um aproveitamento significativo do humor no tratamento sarcástico de situações bem desumanas, em especial de abuso sexual, e na utilização de africanismos, oriundos das diversas línguas nativas, e que procuram exprimir a ambiência local. Essas tramas percorrem todas as fases da vida destas mulheres, desde a infância e a adolescência (“Le Bleu du ciel biani biani”, 2010) até à viuvez (“La Maltraite des veuves”, 2013, e “Co-épouses et co-veuves”, 2015) e à velhice. Por outro lado, reflectem também o sofrimento próprio das mulheres em contextos de guerra civil, demonstrando como são constantemente utilizadas como despojos (e troféus), e como aquela é sempre gerada por situações de corrupção e de ânsia de partilha, por parte de grupos com interesses específicos e antagónicos, das riquezas públicas (“La Défaite des mères”, 2008, e “La Pluie lave le ciel”, 2019).    

O romance mais interessante parece-nos ser “Co-épouses et co-veuves”, em particular porque se debruça sobre um tema pouco tratado em termos literários: a situação da mulher num quadro social poligâmico (é justo lembrar aqui o carácter percursor da obra da moçambicana Paulina Chiziane, que também se tem debruçado sobre este tema no contexto do seu país e da África Austral).

As personagens centrais de “Co-épouses et co-veuves” integram uma unidade familiar em Bangui, constituída por Lidou e as suas duas esposas, Ndongo Passy e Grekpoubou, e cinco filhos (respectivamente, um da primeira e quatro da segunda), onde não há conflitos nem ciúmes, e, pelo contrário, parece a existir uma certa harmonia erótica e afectiva. À morte súbita do marido, as duas mulheres vêem-se obrigadas a lutar pela sua sobrevivência e pelo seu património, como se fossem irmãs, confrontando-se com a guerra civil, a corrupção institucionalizada, assim como com as trafulhices geradas por uma sociedade marcadamente patriarcal. Saliente-se, por fim, que, mesmo numa ambiência social e política sinistra, existe uma clara jovialidade, composta por um tratamento afectuoso, humorado e optimista, no retrato esboçado das personagens e das situações que estas se vêem obrigadas a atravessar.

Este romance está traduzido para inglês.

Maio de 2022

Desconheço a autoria da foto da escritora.



sexta-feira, 22 de abril de 2022

HAJI JABER

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

7. Haji Jaber (1976-)

Ou Haji Jabir (conforme a transcrição), é um escritor eritreu, de expressão árabe, que, desde 2012, já publicou cinco romances, tendo sido nomeados os dois últimos para o International Prize for Arabic Fiction, o mais importante galardão para narrativa em língua árabe. Refugiado de guerra, vive actualmente, após um longo exílio, no Qatar, trabalhando como jornalista no canal televisivo Al Jazeera.

Como sucede com grande parte dos narradores árabes contemporâneos, as obras de Haji Jaber só estão escassamente traduzidas para línguas ocidentais (segundo creio, só foi traduzido para italiano o seu segundo romance, que recebeu o título “Fuga dalla piccola Roma”, e cujo título original, em tradução literal para inglês, é “Fatima’s Port”, 2013). Esta circunstância, mesmo considerando que a crítica árabe refere a sua dimensão polifónica, a não linearidade narrativa, e a sua ancoragem documental, torna muito difícil ponderar as suas características estilísticas.

No entanto, os seus dois últimos romances chamam a atenção pela sua temática: tratam-se de “Black Foam”, 2018, e de “The Abyssinian Rimbaud”, 2021 (numa tradução literal para inglês).

O primeiro centra-se numa comunidade etíope judia, os “Falash Mura”, que, por falta de condições de subsistência, emigra para Israel e aí se confronta com tremendas situações de segregação racial. O romance tem como narrador um eritreu, não judeu,  que vai mudando de identidade e de nome, conforme o contexto social e/ou religioso onde se encontra, e que decide acompanhar esta comunidade como forma de se exilar.

O segundo, conforme o título indica, gira em torno da(s)  estadia(s) do poeta na Etiópia, em Harar, narrado na perspectiva da sua mulher, Mariam, uma etíope cristã (a única mulher, que se conhece, com que Rimbaud se relacionou), e que, poucos anos depois, irá abandonar, “pagando-lhe” com algumas moedas, quando decide dedicar-se ao tráfico de armas.   

Abril de 2022

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.



quinta-feira, 22 de outubro de 2020

VÉRONIQUE TADJO

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

23ª Vinheta


VÉRONIQUE TADJO

 

Véronique Tadjo (1955-) é uma importante escritora da Costa do Marfim, que, desde os finais da década de oitenta, escreveu e publicou vários livros de poesia, romances e obras para a infância e juventude. Formada na Sorbonne, com uma tese sobre cultura americana, viveu em diversos países europeus e africanos. Já venceu, entre outros, o Grand Prix littéraire d’Afrique noire, com o romance “Reine Pokou”, em 2005. No domínio dos livros para a infância e juventude, área a que Véronique Tadjo tem dedicado intensamente a sua capacidade criativa como escritora e ilustradora, as suas obras têm obtido um significativo sucesso, pois foram traduzidas para diversas línguas e estão editadas em vários países europeus e africanos.

Para além de três livros de poesia e dos já referidos livros para a infância e juventude, Véronique Tadjo publicou seis romances, todos centrados em temáticas muito distintas e recorrendo, quase sempre, à mitologia e à tradição cultural africana. A recriação destas fontes, através de uma linguagem com fortes conotações líricas, é principalmente notório nos seus primeiros romances, em particular, no conjunto de narrativas fragmentárias de “À vol d’oiseau”, 1992, do “apocalíptico” “Le Royaume aveugle”, 1991, e em “Reine Pokou, concerto pour un sacrífice”, 2005, onde recorre a uma lenda para perceber não só a origem do seu país, mas também a violência que o domina na actualidade. Depois, mudando de registo, os seus romances seguintes orientam-se para as relações familiares, em “Loin de mon père”, 2010, e para a incomunicabilidade amorosa, em “Champ de bataille et d’amour”, 2006. Por fim, há ainda os seus romances que se debruçam sobre algumas das tragédias que recentemente assolaram o continente africano, como o genocídio dos tutsi no Ruanda, em “L’Ombre d’Imana”, 2001, ou a epidemia do Ébola, em “En compagnie des hommes”, 2017.

Por fim, deve assinalar-se que uma das características da obra da autora é que as suas narrativas decorrem sempre à partir de um “olhar” interior que vai reflectindo sobre as situações descritas, procurando retirar delas uma certa forma de sabedoria que consiga conciliar a vida mesmo com os factos mais terríveis. Quer isto dizer, que os seus romances diluem os contextos situacionais a breves anotações, sem muitos pormenores, centrando-se, no essencial, nos “efeitos” que produziram nos narradores ou personagens principais. Daí que a sua obra tenho um forte registo poético e monológico, em que os mitos e as lendas tradicionais africanas aparecem como “background” dos narradores e personagens.

Não há dúvida, porém, que, no conjunto da obra de Véronique Tadjo, se destaca o romance “L’Ombre d’Imana”. Com o objectivo de melhor compreender o genocídio no Ruanda, a autora aceitou participar numa residência literária neste país, e, em parte para redimir pela criação e pela afirmação da vida a presença avassaladora da morte, decidiu escrever este romance. Nele, tenta entender como é que a “sombra de Deus” (os Ruandeses acreditam que a “sombra de Deus", a que chamam Imana, “cobre” o seu país) desapareceu durante (e após) o genocídio, deixando os homens à mercê dos seus impulsos mais brutais e criminosos, o que provocou não só um rastro de morte como deixou marcas indeléveis na memória dos sobreviventes e até na própria realidade concreta que os rodeia (recordo que uma das “chagas” vivas destes acontecimentos foram os “filhos de guerra”, isto é crianças geradas com as violações que ocorreram durante o genocídio). Recorrendo a três personagens femininas, à sua própria experiência e ao confronto com a experiência dos outros, no seu estilo já característico, em que concilia géneros com os modelos narrativos assentes na fragmentação e na elipse, Véronique Tadjo vai dar voz neste romance às vítimas e aos carrascos, recolhendo depoimentos e testemunhos presenciais, procurando entender como conseguiram superar aquele colossal trauma, em particular quando aqueles papéis muitas vezes se inverteram. De facto, a autora parte do pressuposto que aqueles acontecimentos imanam da própria condição humana, capaz, conforme as circunstâncias, tanto do Bem como do Mal. Por isso, não procura efectivamente exorcizar o impossível, mas, em particular, compreender como a sobrevivência e a necessidade de reconstruir a vida se foi sobrepondo à referida presença da morte num penoso caminho em que a memória procura libertar-se, possibilitando a continuidade da vida e apaziguando o ódio, dos sinais que, em seu redor, registam uma violência abjecta.

Os romances de Véronique Tadjo estão traduzidos para inglês, alguns para espanhol e italiano, e foram editados em vários países europeus e africanos, o mesmo sucedendo, ainda com maior destaque, com as suas obras para a infância e juventude.

Apenas tenho conhecimento da edição de um título de uma obra sua para a infância e juventude no nosso país. No entanto, recolhi a informação de que “L’Ombre d’Imana” foi traduzida para português por Francisco Guesdes, e editada em Angola, com o título “A Sombra de Imana”. Não conheço esta edição.

Outubro de 2020.

Direitos da foto da autora pertencentes à RAMA




sábado, 1 de fevereiro de 2020

SONALLAH IBRAHIM


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

4ª Vinheta


SONALLAH IBRAHIM

 
Sonallah Ibrahim (1937-) é um escritor egípcio, que integrou a denominada “geração de sessenta” (composta, entre outros, para apenas referir os mais presentes nos circuitos internacionais da edição, pelos escritores Baha Taher e Gamal Ghitany), e que é conhecido pelas suas claras posições de esquerda, anti-imperialistas e de repúdio de todos os governos que até hoje lideraram o seu país. Foi um activo militante comunista, o que levou a que o regime de Nasser, no final dos anos cinquenta, o prendesse, julgasse por traição e o condenasse a sete anos de prisão, dos quais cumpriu cinco.

 
Foi nessa altura que começou a escrever, redigindo o seu primeiro livro (ainda hoje um dos mais prestigiados do autor), cujo título em inglês é “That Smell”, e que de imediato lhe granjeou um significativo reconhecimento nacional e internacional.

 
Depois de sair da prisão, decidiu dedicar-se em exclusivo à sua futura obra, tendo publicado, até hoje, mais de uma dezena de romances e um diário de prisão. Foi-lhe concedido alguns prémios literários nacionais (que o autor sistematicamente rejeitou por considerar que são concedidos por “governos indignos”) e internacionais.

 
Toda a sua obra narrativa reflecte a suas posições políticas e a sua atitude crítica em relação à sociedade egípcia. Mas esta sua atitude alarga-se a todo o mundo árabe, pois redigiu também romances sobre a situação sociopolítica do Líbano ou sobre os conflitos no Iémen e em Omã.

 
Hoje, Sonallah Ibrahim é considerado um dos mais importantes escritores egípcios, não só pelas suas inovações formais, mas também pela introdução de novos modelos narrativos na literatura do seu país, e ainda por se ter debruçado sobre temas, como a política e a vida sexual, em moldes que até aí não tinham aparecido. Além disso, a sua obra é uma ininterrupta e exaustiva reflexão sobre as relações entre o Ocidente (incluindo a Rússia soviética, sobre quem lança um olhar crítico no seu último romance, intitulado “Ice”, na versão inglesa) e o Egipto.

 
No quadro de uma obra bem variada, em termos de técnicas e estilos narrativos, centrada na contemporaneidade (não se deve omitir, no entanto, a sua “intromissão” no romance histórico, com o seu recente romance “Turbans et chapeaux”, na versão francesa), pode realçar-se, a título de exemplo, o já referido “That Smell” e ainda “The Committee”.

 
“That Smell”, o primeiro romance de Sonallah Ibrahim, é, desde a sua edição em 1966, considerado um clássico e, ao mesmo tempo, uma obra que revolucionou a narrativa egípcia. O romance descreve os primeiros tempos de um homem que, depois de ter estado preso, regressa à sua cidade e à sua vida “normal” e, por conseguinte, como se vai adaptando aos novos ritmos, às pequenas sensações e emoções que a liberdade lhe dá, a gerir a sua pulsão sexual e até ao reatamento (ou não) das suas anteriores relações de amizade. Mas, como já se referiu, o que é mais relevante neste romance é a perspectiva com que o narrador encara o mundo que se lhe abre com a sua libertação e o estilo narrativo com que descreve esse “embate”. 

 
É comum considerar (todas os analistas o fazem) “The Committee” como uma obra de cariz kafkiano… De facto, este romance é uma alegoria, em que um narrador anónimo, ao ser recebido por um Comité, de quem espera indeterminadas possibilidades de futuro, percebe, pela forma ambígua, humilhante e misteriosa como é inquirido e pela missão que é coagido a efectuar, que o seu destino se encaminha para fins paradoxais e perversamente perigosos. No fundo, esta obra pretende ser uma sátira subtil ao regime autoritário egípcio dos anos setenta (o regime de Sadat) e à sua “abertura” aos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. De facto, o narrador, por indicação do Comité, vai acabar por se ver envolvido numa teia criada por personagens sinistras e misteriosas, manipuladas pelo “Doutor”, uma entidade difusa e fugidia que está na “sombra” de inúmeros “grandes negócios” obscuros.

 
A obra de Sonallah Ibrahim tem sido amplamente traduzida para francês e inglês, assim como existem títulos seus em espanhol, italiano e alemão.

 
Foto do autor de Frederic Reglain

 
 


 
 
 

Fevereiro de 2020