Mostrar mensagens com a etiqueta Narrativa Italiana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Narrativa Italiana. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

CARMINE ABATE

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

20ª Vinheta


CARMINE ABATE

 

Carmine Abate (1954-) é um escritor italiano, de origem arbëreshë, da região da Calábria, que emigrou, com a sua família, ainda muito novo, para a Alemanha, onde viveu até aos seus trinta anos. A partir da década de setenta, publicou vários livros de poesia, de ensaio, de contos e dez romances, sendo neste género que mais se tem evidenciado, obtendo vários prémios no seu país, entre os quais se destaca o Prémio Campiello de 2012, com “La collina del vento”.

Antes do mais, para perceber a obra deste autor, talvez seja útil esclarecer um pouco quem são os arbëreshë. Este povo é constituído por albaneses que emigraram para o Sul da Itália, principalmente para a Calábria e para a Sicília, a partir dos finais do séc. XV, quando a sua originária terra foi conquistada e anexada pelo Império Otomano. Profundamente arreigado às suas tradições culturais, conseguiu manter a sua língua, transformada num dialecto ítalo-albanês, vários costumes e as suas práticas religiosas (são católicos de rito bizantino). Sendo considerados como a maior minoria da Itália, os arbëreshë têm obtido algum reconhecimento por parte das autoridades italianas, pois que a sua cultura e a sua língua são ensinadas nalgumas escolas e universidades. Porém, ainda hoje é um povo com uma vivência acentuadamente rural, e, por isso mesmo, a sua língua é de uso quotidiano em muitas aldeias e povoações. Segundo os últimos dados conhecidos, esta comunidade é constituída por cerca de cem mil pessoas.   

Tendo em conta esta origem e, em particular, a sua situação de emigrante na Alemanha, compreende-se que se considere habitualmente que os temas nucleares da narrativa de Carmine Abate sejam as tradições culturais da sua comunidade, o multiculturalismo, a emigração e os problemas decorrentes da condição de migrante. Entendo, no entanto, que há que perspetivar de forma mais ampla esta narrativa e considerar que ela se centra nas situações de confronto entre universos culturais distintos e as correspondentes formas de estar e de sentir.

No conjunto da sua obra, há três romances que, sendo inteiramente autónomos, se interligam numa unidade, que o próprio autor intitulou “Le stagioni di Hora”, e que são “Il ballo tondo” (1991), “La moto di Scanderberg” (1999) e “Il mosaico del tempo grande” (2006). Situados em Hora, um lugar mítico e ao mesmo tempo bem concreto, os dois primeiros romances são sagas familiares, onde o passado lendário dos arbëreshë e o espectro sombrio da emigração se cruzam, num registo ao mesmo tempo lírico, mágico e realista; o último tem um enfoque mais aberto a toda a comunidade, pois a narrativa procura cimentar, como num mosaico, vários “momentos” épicos da história do povo albanês e da “fuga” daqueles que em Itália vão dar origem aos arbëreshë.

Da restante obra narrativa de Carmine Abate, merece particular destaque os romances “Tra due mari” (2002), “La festa del ritorno” (2004), “La collina del vento” (2012), “La felicità dell’attesa” (2015) e “Le rughe del sorriso” (2018).

Mesmo continuando a “revisitar” a temática da cultura tradicional da sua comunidade (e o lugar de Hora, onde volta a situar alguns destes romances), Carmine Abate centra-se mais, nestas obras, no fenómeno migratório das gentes oriundas da “sua” Calábria e a sua integração nos países de acolhimento, sejam eles a Alemanha, a França ou a “América”. Saliente-se que estes romances procuram evidenciar, mais do que a problemática da integração, o contraditório rosário de sofrimento e mágoa do emigrante resultante da culpabilização de ter abandonado a sua terra, o seu património familiar e colectivo (decisivo para estruturar a sua identidade como migrante) e os objectos do seu afecto (filhos, pais, amigos e amores), e de como essa mágoa tem um efeito desagregador que lhe dificulta a sua inserção na sociedade em que optou (?) viver.

Assim, Carmine Abate, fruto da sua experiência de emigrante, compreendeu que existem dois “universos”, com peso equivalente, que se digladiam em quem emigra. Esses “universos”, ao mesmo tempo reais e fantasiados, são tingidos, por um lado, pelo sonho e pela ambição de se afirmar num “novo” mundo, e, por outro, gizados com a memória opressiva daquilo que ficou. Por isso mesmo, os seus romances, através dos seus narradores e personagens principais, procuram destacar, em diversos contextos e situações, a epicidade de quem parte, mas também de quem resiste a esse sonho e permanece, lutando pela preservação do seu património, no lugar em que nasceu. Esse lugar é sempre a Calábria, com os seus vestígios históricos, as suas montanhas e colinas, os seus mares, a sua paisagem agreste, as suas gentes - camponeses rudes e isolados -, as suas tradições e culturas, que se “colam”, como uma segunda pele, em todas as figuras que povoam a obra de Carmine Abate, sejam elas emigrantes ou não.

É este o caso de “Tra due mari”, cuja trama assenta no percurso de dois homens (um fotógrafo alemão que, após a II Guerra Mundial, resolve procurar na Calábria a luz que necessita para o seu trabalho, e um natural da região, obcecado com as “suas” tradições patrimoniais, em particular com a reconstrução de uma pousada, onde teria pernoitado Alexandre Dumas), nas cumplicidades e nas tensões que entre ambos se vão criando ao longo do tempo, e nos reflexos desta relação nas gerações futuras (pois os filhos destes homens casaram-se e deram origem a Florian, o jovem narrador que redige a sua história).

Mas talvez seja mais evidente a temática do confronto de culturas e a relevância dos já referidos “universos” nos romances “La collina del vento” e “La felicità dell'attesa”, que, de certo modo, formam um díptico. No primeiro, narra-se a história de uma família, os Arcuri, ao longo do séc. XX, e da sua defesa obstinada de uma colina, que considera como o seu lugar matricial, contra as ambições mafiosas da especulação imobiliária; o segundo, narra a vida na “América” de várias gerações de emigrantes de uma mesma família, também ao longo do séc. XX, e sua constante luta por vencer e por obter “um lugar ao sol” (uma das figuras determinantes de “La felicità dell'attesa” é Andy “The Greek” Varipapa, um calabrês que se tornou mundialmente conhecido como campeão de bowling), por serem felizes e apaixonar-se (também aparece no romance Norman Jean...), mas cujo peso do passado os leva a sentirem-se constantemente divididos, regressando e de novo  “fugindo”, para escapar à miséria e ao trabalho escravo nas minas calabresas.

A Calábria é também o lugar central de “Le rughe del sorriso”, mas agora como terra de “abrigo” dos refugiados africanos (é esta a constante ironia da História: uma terra de emigrantes que se transforma no “porto” de chegada de imigrantes…). Neste romance, a personagem principal é agora uma jovem somali que, depois de atravessar o Mediterrâneo e entrar num centro de acolhimento, desaparece com a sua família, “esfumando-se” na Europa. Só que a passagem da sua beleza e do seu sorriso deixou uma semente no seu professor de italiano que, apaixonado, vai tentar desvendar o passado daquela jovem até a sua chegada e descobrir os mistérios e tragédias que escondem aquele esfíngico sorriso. O seu objectivo é perceber qual foi o seu possível destino, se foi voluntário ou forçado, e o que ela procura na Europa, que a obriga constantemente a partir, para tentar seguir-lhe o rasto. Mas o romance, paralelamente, deseja também entender como é que a Calábria, terra de emigrantes, desertificada e com uma população envelhecida, reage a esta nova população e se lhe manifesta a mesma hospitalidade que as suas gentes procuraram no estrangeiro quando emigravam.

Pela minha parte, gostaria de destacar o romance “La festa del ritorno”, por me parecer ser o que, com a sua trama aparentemente simples, melhor sintetiza a problemática do autor. Mais uma vez neste romance, o narrador é um adolescente que vive na sua Calábria natal a amargura de se sentir abandonado pelo pai emigrante. Sucede, no entanto, que este pai, culpabilizado pelo abandono da sua terra e da sua família, vive em tormento a sua condição. Até que, em consequência de uma tragédia familiar, em que o adolescente se vê obrigado a assumir o papel do pai em defesa da família, levando-o a uma situação que lhe poderia trazer consequências dramáticas e irremediáveis, o emigrante resolve prometer ao filho que não voltará a emigrar (uma situação recorrente em alguns romances de Carmine Abate), ficando na sua terra para proteger os seus e a sua comunidade.

Convém, por último, referir que, se os romances de Carmine Abate têm uma estrutura quase sempre um pouco convencional (há sempre um narrador, habitualmente um jovem, que introduz as situações que se vão desenrolando ao longo do romance e que funciona como uma espécie de alter-ego, sempre distinto, do próprio escritor), a sua trama é, por vezes, bastante complexa, muito romanesca e nitidamente resultante da recriação da própria experiência do autor. Além disso, e é este o aspecto mais assinalável da sua obra, apresenta sempre um estilo bem musical, com uma utilização constante de termos dialectais, que lhe dão um colorido sensorial, emotivo e lírico, e que o recurso constante à cultura popular, arbëreshë ou apenas calabresa, consegue transmitir uma tonalidade mágica a muitas das situações narradas.

Existem vários romances de Carmine Abate traduzidos e editados em inglês, francês e alemão (em particular, da trilogia de “Le stagioni di Hora”, pois foram as obras que, provavelmente, maior sucesso internacional tiveram).

No nosso país, o Círculo de Leitores editou dois romances (“O Baile Circular” e “Entre Dois Mares”), sempre com traduções cuidadas de Eduardo Saló.

Setembro de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.




quarta-feira, 13 de maio de 2020

FULVIO ABBATE



OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

14ª Vinheta



FULVIO ABBATE


Fulvio Abbate (1956-) é um caso peculiar no contexto das letras italianas. Porquê? Porque este escritor siciliano é, antes do mais, um comunicador e um agitador. Como jornalista, depois de um período como redator num jornal de Palermo, foi, durante quase duas décadas, colunista de L’Unitá; a seguir, com bastante regularidade, participou em diversos programas de televisão, como comentador da vida política italiana, ao mesmo tempo, que mantinha um programa próprio num canal por cabo; por fim, decidiu passar esse programa para o YouTube.

Depois de romper com o PC italiano, que considerava demasiado conservador, começou (?) a defender posições anarquistas e fundou no seu país o movimento Situazionismo e libertà. É membro do College de Pataphysique. Grande admirador de Pasolini, a quem dedicou alguns livros e uma investigação jornalística para deslindar os reais motivos da sua morte, tem-se também centrado, em diversas revistas e jornais, à análise e estudo das obras de alguns dos principais artistas plásticos de vanguarda.

Como romancista, já publicou, desde o início dos anos noventa, mais de meia dúzia de obras. Os temas vão desde Palermo e o seu entusiasmo adolescente pelo comunismo (“Zero maggio a Palermo”), à Itália actual, mergulhada num ininterrupto “caldo” televisivo (“Oggi è un secolo”), às “articulações” entre a Itália fascista e o presente (“Dopo l’estate”), ao delírio revolucionário dos anos setenta e oitenta (“Quando è la rivoluzione”), etc. Inclassificável, forte satirista (um dos seus romances chama-se “La peste bis”, uma espécie de paródia pós-moderna do romance de Albert Camus), reconhece-se que Fulvio Abbate tem, entre o humor e o lirismo, um estilo bem peculiar, com uma forte componente experimental. Por fim, infletiu de novo na sua produção narrativa, centrando-se num modelo que desliza da autoficção para um “delírio autobiográfico”, onde integra a história cultural italiana com fantasias, os mitos da cultura popular e os seus anseios como homem e cidadão (“Intanto anche dicembre è passato”, “La peste nuova” e “I promessi sposini”).

Infatigável, Fulvio Abbate continua a diversificar-se por inúmeras actividades, tendo publicado vários livros sobre a sua Palermo natal, sobre Roma e, como já se referiu, sobre Pier Paolo Pasolini.

“LOve”, uma das suas últimas obras, é, mais uma vez, inclassificável: romance, autobiografia, tratado, manual, é tudo isto ao mesmo tempo, fazendo uma espécie de peregrinação por lugares, pessoas, momentos, emoções, em resumo, apresenta-se como uma espécie de “suma” dos afectos que lhe calharam em destino…

Saliente-se também que fez a introdução à edição italiana de “O Banqueiro Anarquista” de Fernando Pessoa.  

Desconheço a autoria da foto do escritor.


terça-feira, 2 de abril de 2019

NÁPOLES

 
 
 

Napoli, Nápoles.
Em louvor de Raffaele La Capria.
Não, não são cidades invisíveis. Também as há, mas não é sobre essas que quero escrever.
Nem sobre cidades fantasmas. Essas são as que aparecem em tantos e tantos westerns da nossa infância e adolescência (um dia, também será interessante falar delas).
Imaginárias? Não, não, demasiado vagas e distantes.
São as cidades que se constroem na cabeça de alguns leitores, principalmente os que gostam de narrativas (e que, por isso mesmo, também têm paixões irmãs pelo cinema e pela fotografia). São descrições que lemos de certos momentos e situações, de um entardecer numa praça, de um diálogo numa esplanada, de um beijo intenso que certas personagens deram à entrada de um restaurante ou junto a uma balaustrada de uma baía, pedaços de narrativas que ficaram na memória, conglomerando-se com fotogramas e sequências, de rostos de actores, em esvoaçantes roupas démodés, ao cruzarem um olhar, de passeios por passeios de mão dada, imagens fugazes de filmes, tantas vezes a preto e branco. E essas descrições e imagens formam uma malha urbana, de lugares mais sentimentais do que reconhecíveis, uma planta fragmentada, meio difusa.
Estas cidades estão repletas de uma carga emotiva, resultante de um efeito estético que recolhemos na nossa memória. Certos nomes de certos lugares, mais do que uma referência a um espaço com contornos “bem concretos e definidos”, estão associados a uma emoção específica e variável, resultante de uma leitura ou de uma visão.
Mas é evidente que estas “cidades” referem-se a cidades concretas e reais. Por vezes, o leitor conheceu-as primeiro nos livros ou nos filmes, antes de deambular por elas. E todos sabemos que Nova Iorque, Paris ou Londres não são iguais para quem leu ou viu filmes passados nessas cidades ou para quem não os leu ou viu. Ou leu ou viu outros. Há várias Nova Iorque, Paris ou Londres, conforme os livros que se leram ou os filmes que se viram.
É como se a “malha urbana”, que acima referi, se tornasse uma película que cobrisse os lugares "reais e concretos", dando-lhes uma outra cintilação, um fulgor e ressonância mais intensos e distintos.
Mas há cidades que nunca visitámos e que apenas nelas “passeámos” pelos livros e pelos filmes. No meu caso, existem, como com todos, várias.  
Há, no entanto, uma cidade, que agora gostaria de lembrar, que foi (e é) inúmeras vezes cenário numa das literaturas que mais me apaixona (uma paixão cega, sem uma explicação que eu consiga apreender): a narrativa italiana.
Estou a referir-me a Nápoles.  
Apenas no contexto da cultura italiana (mas ela aparece também em obras de outras culturas, e estou a recordar-me, de imediato, de livros de Stendhal e de Yourcenar), é seguramente uma das cidades mais utilizada como cenário narrativo. Provavelmente, tanto como Roma e, parece-me, muito mais do que Milão, Veneza, Turim, Florença, Bolonha ou Palermo. Ou - uma outra cidade mítica, por razões distintas e a outra escala - Trieste.
Para mim, é uma cidade que é uma pura construção emocional, afectiva e, por isso mesmo, fantasmática, pois não tem existência real. A minha Nápoles é a dos romances de Curzio Malaparte, de Raffaele La Capria, de Domenico Rea, de Ana Maria Ortese, de Erri de Luca ou de Elena Ferrante. Mas é também a dos filmes de Tótó e Mario Monicelli, de Rossellini e Ingrid Bergman, de De Sica, de Rosi, de Scola, de Risi e também de Tornatore.
É uma cidade com uma planta elástica, esfumada, mais de rostos do que casas, mais de momentos do que de ruas. Sim, eu sei: as “piazze” e as “corsi”. Castel dell’Oro, a Torre Annunziata e a Spaccanapoli, de Chiaia a Posillipo. E Avvocta e Vomero. Já vi inúmeras fotos das ruas, já percebi as similitudes com as cidades portuárias do Sul e a ambiência próxima de Lisboa. Mas isso não lhe retira, pelo contrário, nenhuma dimensão de fantasia literária - e até romântica.
Sim, há a(s) Camorra(s). As de Secondigliano e de Scampia. Sei que existem, mas não consigo integrá-las no meu imaginário. Pertencem a um submundo grotesco e brutal. Uma espécie de esgoto obscuro, sob o empedrado das calçadas e das praças. Nos interstícios da luz.
E há também, ao fundo, sobrepondo-se à cidade, a sombra do Vesúvio e a sua permanente neblina. Ou o arco perfeito do Golfo, entre Ísquia, Prócida e Capri. A quase constante serenidade do mar. Mas isso é o postal turístico e não a minha Nápoles.
Na minha Nápoles, eu sou protagonista num cenário que emana directamente dos livros de Raffaele de La Capria: estou no Verão de 49 (antes de ter nascido), a fazer pesca subaquática entre os recifes, as grutas e as falésias que ladeiam o Tirreno, mergulhado na água salgada e tépida da amizade, sob o sol do meio-dia e rodeado de uma miríade de centelhas de luz.
É esta a minha Nápoles.
 
Lisboa, 2 de Abril de 2019