Napoli, Nápoles.
Em louvor de Raffaele La Capria.
Não, não são cidades invisíveis. Também
as há, mas não é sobre essas que quero escrever.
Nem sobre cidades fantasmas. Essas
são as que aparecem em tantos e tantos westerns da nossa infância e
adolescência (um dia, também será interessante falar delas).
Imaginárias? Não, não, demasiado vagas
e distantes.
São as cidades que se constroem na
cabeça de alguns leitores, principalmente os que gostam de narrativas (e que,
por isso mesmo, também têm paixões irmãs pelo cinema e pela fotografia). São
descrições que lemos de certos momentos e situações, de um entardecer numa
praça, de um diálogo numa esplanada, de um beijo intenso que certas personagens
deram à entrada de um restaurante ou junto a uma balaustrada de uma baía,
pedaços de narrativas que ficaram na memória, conglomerando-se com fotogramas e
sequências, de rostos de actores, em esvoaçantes roupas démodés, ao cruzarem um
olhar, de passeios por passeios de mão dada, imagens fugazes de filmes, tantas
vezes a preto e branco. E essas descrições e imagens formam uma malha urbana,
de lugares mais sentimentais do que reconhecíveis, uma planta fragmentada, meio
difusa.
Estas cidades estão repletas de uma
carga emotiva, resultante de um efeito estético que recolhemos na nossa
memória. Certos nomes de certos lugares, mais do que uma referência a um espaço
com contornos “bem concretos e definidos”, estão associados a uma emoção específica
e variável, resultante de uma leitura ou de uma visão.
Mas é evidente que estas “cidades”
referem-se a cidades concretas e reais. Por vezes, o leitor conheceu-as primeiro nos livros ou nos filmes, antes de deambular por elas. E todos sabemos
que Nova Iorque, Paris ou Londres não são iguais para quem leu ou viu filmes
passados nessas cidades ou para quem não os leu ou viu. Ou leu ou viu outros.
Há várias Nova Iorque, Paris ou Londres, conforme os livros que se leram ou os
filmes que se viram.
É como se a “malha urbana”, que acima
referi, se tornasse uma película que cobrisse os lugares "reais e concretos",
dando-lhes uma outra cintilação, um fulgor e ressonância mais intensos e distintos.
Mas há cidades que nunca visitámos e
que apenas nelas “passeámos” pelos livros e pelos filmes. No meu caso, existem,
como com todos, várias.
Há, no entanto, uma cidade, que agora
gostaria de lembrar, que foi (e é) inúmeras vezes cenário numa das literaturas
que mais me apaixona (uma paixão cega, sem uma explicação que eu consiga apreender):
a narrativa italiana.
Estou a referir-me a
Nápoles.
Apenas no contexto da cultura
italiana (mas ela aparece também em
obras de outras culturas, e estou a recordar-me, de imediato, de livros de
Stendhal e de Yourcenar), é seguramente uma das cidades mais utilizada como
cenário narrativo. Provavelmente, tanto como Roma e, parece-me, muito mais do
que Milão, Veneza, Turim, Florença, Bolonha ou Palermo. Ou - uma outra cidade
mítica, por razões distintas e a outra escala - Trieste.
Para mim, é uma cidade que é uma pura
construção emocional, afectiva e, por isso mesmo, fantasmática, pois não tem
existência real. A minha Nápoles é a dos romances de Curzio Malaparte, de
Raffaele La Capria, de Domenico Rea, de Ana Maria Ortese, de Erri de Luca ou de
Elena Ferrante. Mas é também a dos filmes de Tótó e Mario Monicelli, de
Rossellini e Ingrid Bergman, de De Sica, de Rosi, de Scola, de Risi e também de
Tornatore.
É uma cidade com uma planta elástica,
esfumada, mais de rostos do que casas, mais de momentos do que de ruas. Sim, eu
sei: as “piazze” e as “corsi”. Castel dell’Oro, a Torre Annunziata e a
Spaccanapoli, de Chiaia a Posillipo. E Avvocta e Vomero. Já vi inúmeras fotos
das ruas, já percebi as similitudes com as cidades portuárias do Sul e a
ambiência próxima de Lisboa. Mas isso não lhe retira, pelo contrário, nenhuma
dimensão de fantasia literária - e até romântica.
Sim, há a(s) Camorra(s). As de
Secondigliano e de Scampia. Sei que existem, mas não consigo integrá-las no meu
imaginário. Pertencem a um submundo grotesco e brutal. Uma espécie de esgoto
obscuro, sob o empedrado das calçadas e das praças. Nos interstícios da luz.
E há também, ao fundo, sobrepondo-se
à cidade, a sombra do Vesúvio e a sua permanente neblina. Ou o arco perfeito do
Golfo, entre Ísquia, Prócida e Capri. A quase constante serenidade do mar. Mas
isso é o postal turístico e não a minha Nápoles.
Na minha Nápoles, eu sou protagonista
num cenário que emana directamente dos livros de Raffaele de La Capria: estou no
Verão de 49 (antes de ter nascido), a fazer pesca subaquática entre os recifes,
as grutas e as falésias que ladeiam o Tirreno, mergulhado na água salgada e tépida
da amizade, sob o sol do meio-dia e rodeado de uma miríade de centelhas de luz.
É esta a minha Nápoles.
Lisboa, 2 de Abril de 2019

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