sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A LÁPIDE DO MEU AVÔ



A LÁPIDE DO MEU AVÔ

 

Por vezes, há um pequeno gesto de um filho, ou uma situação que se vive nas salas do dia a dia, ou um simples objeto que alguém nos traz e, num lampejo, a memória, como se fosse uma fiada de lenços atados, saída da cartola de um ilusionista, leva-nos a desfilar situações há muito esquecidas. E sentimos a necessidade de registar essa ordem construída pela memória e um impulso, quase ético, de tornar público o que o tempo nos colocou no palco da vida.

Quando tinha uns vinte anos, a minha mãe suplicou-me para que tomasse parte numa cerimónia: o descerramento de uma lápide na casa onde o meu avô tinha vivido numa aldeia do interior do país.

Já na altura era avesso a este tipo de cerimónias e daí a súplica dela.

Mas, neste caso, abri uma excepção e acedi. Havia razões para o fazer (para além, obviamente, do pedido da minha mãe).

Eu era o neto único do meu avô Adelino e esta cerimónia tinha sido organizada pelos moradores mais velhos da aldeia.

O meu avô era, nos anos vinte e trinta do século passado, a única pessoa que sabia ler e escrever na aldeia. E fora ele que ensinara as primeiras letras aos vizinhos (na aldeia, nem tasca havia, quanto mais escola…). Passados uns quarenta anos, os moradores, reconhecidos com o seu gesto, decidiram colocar a referida lápide na parede frontal da sua casa.

O meu avô Adelino era para mim apenas algumas fotos de formato oval no fundo das gavetas da casa dos meus pais, entre papéis avulsos e mais fotografias. E certas histórias que a minha mãe contava.

Uma delas era que ele tinha morrido por causa de traumatismos resultantes de uma luta de varapau que tivera com um rival de uma aldeia próxima. Ainda nos anos trinta. E que fora assim que a minha mãe ficara órfã com seis ou sete anos.

O sustento da minha avó brotava de uma pequena horta, em socalcos, onde semeava algumas couves e outros legumes, batatas e milho. E um ou dois porcos e meia dúzia de cabras. Tudo criado no curral que ficava debaixo da habitação. Ah, e claro, uma capoeira, com algumas galinhas e coelhos, ao lado da entrada, num pátio interior. Mas dinheiro não havia.

A minha avó vivia paredes meias com uma irmã e outro irmão. “Paredes meias” é a expressão certa, pois passava-se por uma porta interior, atravessando um tabique, da casa dela para aquela onde vivia os meus tios.

O irmão era deficiente mental profundo (“o doido de nascença”, como era conhecido na aldeia). Nem sabia falar, manifestando-se apenas por esgares de satisfação ou urros, quando sentia dores ou se magoava. Vestia uma espécie de bata de sarja, abotoada à frente, porque “obrava” onde estava e quando sentia necessidade. Dentro da sua perturbação, era um homem sereno: abria-se sempre num riso largo, satisfeito, quando reconhecia alguém e nunca tivera uma reação violenta contra pessoas ou animais. Era-lhe conhecida uma única obsessão: retirar as pedras das calçadas para as bermas, pois aleijavam-lhe os pés descalços quando levava à cabeça gigantescos fardos de ervedeiros para as cabras ou cestas cheias de legumes. Era o “animal de carga” da família.

Quando era miúdo, impressionava-me o ritual de todas as férias: o meu pai, com tesoura e navalha, cortava, à porta de casa, a barba e o cabelo de vários meses ao meu tio. Ele sentava-se muito direito à espera que o meu pai terminasse e, quando este lhe chegava o espelho ao rosto, depois de um momento de espanto, explodia numa enorme gargalhada, ao reconhecer a sua cabeça escanhoada e de cabelo curto.

As duas irmãs eram tão semelhantes como duas lágrimas. Pequenas, pareciam duas colunas de ossos e pele, secas e muito direitas. E um rosto miúdo, com uma mortalha de rugas, coroado por uma película de cabelo negro, preso em carrapito.

Viviam com a serena e afetuosa cumplicidade das necessidades de sobrevivência. Ao ponto de aceitarem partilhar na cama o mesmo homem durante décadas.

Da relação entre o meu avô e a minha tia, nasceu um rapaz, meio-irmão mais novo da minha mãe.

Foi, portanto, com a angústia da resignação que, quando o marido morreu, a minha avó pediu a uma irmã do meu avô que não vivia na aldeia que criasse a minha mãe. Só lá ficou o seu meio-irmão, pois ainda era criança de berço. E foi assim que ela saiu da aldeia, onde só voltou depois de casada.

Esse meio-irmão da minha mãe também não teve grande sorte. Enquanto esteve na aldeia, passou a infância e a adolescência a pastorar na montanha o rebanho do povo e a lavrar a terra. Com dezasseis anos, fugiu para a Lisboa, onde um parente lhe arranjou trabalho como marçano. Aos vinte anos, já na década de cinquenta, quando foi chamado para a tropa, voltou à aldeia para se despedir da família. Na festa que fez, ao lançar um foguete, esfacelou uma mão e, passadas pouco mais de vinte e quatro horas, morreu de tétano: na aldeia não havia médico nem maneira de o levar a um hospital. Ninguém conseguiu acudir-lhe e morreu dessa forma, delirando de febre e suplicando ajuda.

Nos inícios da década de sessenta, os irmãos da minha avó morreram um a seguir ao outro, ficando ela sozinha a residir na casa. Recusava-se a abandoná-la.

Certo dia, ligaram da aldeia para Lisboa, a alertar os meus pais de que a minha avó tinha tresloucado. Parece que não se alimentava nem já sabia como fazer comida. Fomos de imediato buscá-la e, quando chegámos, constatámos que a minha avó dançava em casa, vestida apenas por uma saia negra, ao som de nenhuma música.

Lavámo-la e vestimo-la, preparando-a para a trazer. Mas, mal chegou à porta, gritou de pânico, agarrando-se a tudo o que podia com as poucas forças que tinha e correndo, em desvario, pela casa toda.

Depois, exausta, num choro mudo, agarrou-se à minha mãe a implorar que a deixasse ficar.

Viveu os seus últimos tempos na casa dos meus pais, em Lisboa, e nunca mais voltou à aldeia. Eu, com a perfídia típica dos miúdos, divertia-me a judiar a sua senilidade mental. Recordo-me como a consegui perturbar, dizendo-lhe para olhar para a Lua à noite, pois andavam lá homens. Sentada, abanando o tronco para a frente e para trás, começou a rezar o terço com um fervor mais nervoso e, encarando-me de forma inquisitiva, parou a sua ladainha e disse-me, com uma voz cava, que era muito mau e que procurava torturá-la com conversas doidas, pois ela bem sabia que era impossível haver homens na Lua.

Passado algum tempo, deixou de reconhecer as pessoas e desaprendeu de saber comer. Uma noite, enquanto dormia, morreu.

Os meus pais, poucos anos depois, venderam tudo o que tinham na aldeia. Incluindo a casa. E assim terminou a ligação física da minha família com aquele lugar.

Recordo-me que foi perante o olhar branco do meu avô na foto da gaveta, que compreendi que, participar na referida cerimónia, era apenas um breve sinal de “reconhecimento” da miséria, resignação e sofrimento indescritível que aquela gente passara e que o rio do tempo estava rapidamente a levar para a foz do esquecimento.

Era só uma pequena lápide contra o tempo. Mas hoje reconheço que fui bastante ingénuo.

Há uns quatro ou cinco anos, resolvi regressar a aldeia. Gostava que a minha mulher e os meus filhos conhecessem onde nascera a minha falecida mãe, que eles não chegaram a conhecer. Já que não existia mais nenhum elo material, ao menos que ficasse registado na sua memória o lugar onde nascera a sua avó. Para que esta não fosse apenas algumas fotos no fundo de uma gaveta.

Fui sabendo notícias da aldeia e, por isso, a minha expectativa não era grande.

Quando descemos do carro, na estrada que termina ao cimo da aldeia, reparei logo no abandono. A maioria das casas tinha ruído, e o mato e as silvas deixaram só um estreito carreiro no caminho principal. As lajes de xisto, que o formavam, estavam quebradas e soltas e tornava-se arriscado, para não dizer perigoso, descer pelo que restava da rua. Reparei na casa do avô, que se mantinha de pé e com as janelas de madeira nos caixilhos. A não ser um ou outro vidro partido e as grandes silvas que amarinhavam pela parede frontal, onde estava ainda a lápide, não se via nenhuma alteração em relação à casa que conhecera. Mas, ao aproximar-me do pátio interior que, numa parede lateral, dava acesso à porta principal, percebi que era impossível lá chegar, dado o tufo, mais alto do que um homem, de mato e silvas que aí se encontrava. Era impossível entrar ou sequer bater à porta.

Não se via viva alma na aldeia nem se ouvia nenhum ruído, a não ser o silvo da brisa, batendo nas folhas das árvores, daquela tarde quente de Verão. Por isso, começámos a descer com cuidado a rua, gritando para um lado e para o outro: “Está aqui alguém? Está aqui alguém?”.

O abandono e o isolamento do local assustavam os miúdos e, por isso, caminhávamos, pé ante pé, receosos do que iriamos encontrar. Porém, alguns pequenos chãos cultivados na margem da ribeira, que corria no fundo do vale, e que se viam da encosta que descíamos, davam-nos a certeza de que alguém deveria estar por ali.

Já estávamos dispostos a desistir, quando ouvimos responder ao nosso alarido. Encaminhámo-nos para o lado donde tinha vindo o “oi” de resposta e parámos junto a uma larga entrada que se abria para um amplo pátio interior. Não se via ninguém. Perguntámos se podíamos entrar e começámos a avançar.

Mas parámos logo, especados. Principalmente os meus filhos que ficaram lívidos com o que todos víamos.

A um canto do pátio, numa banheira de metal, rodeada de ervas e trevos floridos, encontrava-se umas duas dezenas de gatos mortos, alguns ainda sagrando e outros meio putrefactos.

Nem conseguíamos mexer-nos com aquela descoberta sinistra. Ainda nos encontrávamos na mesma posição, quando apareceu um velhote de mãos encardidas e gretadas de trabalhar no campo.

Comecei a conversa como se aquele achado não estivesse ali mesmo ao lado. Contou-me então que era o único habitante da aldeia e que lá vivia com a mulher e o filho. Que as outras casas, que se mantinham de pé, eram de gente que vivia em Lisboa ou tinha emigrado para as Franças e Araganças. Perguntei-lhe pela sua graça e disse-me o seu nome; mas, de imediato, acrescentou que era conhecido por “o Americano”, pois fora o único na região que emigrara para a América, onde ainda tinha vivido uns anos. Perguntou-me se era filho de alguém da terra e disse-lhe que sim, e logo voltou a interrogar-me se ainda lá tinha casas ou terras. Respondi-lhe que não e tentei explicar quem era a minha família. O gesto de abandono da mão e o comentário ao meu esclarecimento (“Ah, pois, “esses” já cá não têm nada…”) foram bem claros sobre qual o interesse de o Americano.

Mas tentou ser educado. Pediu-me desculpa pelo seu empenho e contou-me que tinha comprado tudo o que podia de casas e propriedades ali na aldeia. Inquiri-lhe para quê e disse-me de imediato que não sabia, mas, depois, acrescentou: “As propriedades valem sempre alguma coisa…”. De seguida, coçando a cabeça, foi-me dizendo que ia lavrando as que era capaz e restaurando as casas conforme arranjava dinheiro. Voltei a perguntar-lhe para quê e respondeu-me que “pode ser que apareça alguém que queira regressar à aldeia e queira uma casa”. E que, além disso, as conseguia comprar por tuta e meia.

Continuámos a conversa com trivialidades, até que, quando íamos já a abandonar o local, lhe perguntei sobre o que faziam ali aqueles gatos mortos. Disse-me que as pessoas, quando morreram ou saíram da aldeia, deixaram muitos gatos ao abandono e que eles fugiram para o mato, procurando sobreviver, e que lá se criaram e reproduziram. E que se tinham tornado uma verdadeira praga, pilhando as capoeiras e comendo a criação, entrando em casa e roubando a comida, até quando a mulher a estava a fazer. Por isso, fora obrigado a rodear a aldeia com armadilhas de caça. E que, quando por lá passava, e via algum preso e morto, os trazia para ali. Depois, quando a banheira estava cheia, fazia uma cova funda e enterrava-os.

Quando já estávamos nas despedidas, deu-me o seu número de telefone, esclarecendo que era o único que funcionava na aldeia, para a eventualidade de conhecer alguém da terra que quisesse vender o que lá tinha. Disse-lhe que ficasse descansado, que assim faria. Mas nunca lhe telefonei e rapidamente perdi o papel onde ele tinha assente o número.

Quando chegámos ao cimo da aldeia, olhei para a encosta em frente e recordei-me de um terror noturno, que tinha em miúdo, quando cá dormia.

O vale é muito fundo e as encostas da serra muito abruptas. Principalmente a que fica em frente da aldeia. De noite, com a lamparina apagada, e sozinho no quarto, que na altura me parecia enorme, via, através do vão da janela, uma enorme parede de urze, mato e pinheiros, iluminada pelo luar. Nem se vislumbrava uma nesga de céu. E, numa alucinação, parecia que aquela parede avançava lentamente de encontro à encosta da aldeia, até que as plantas, as árvores e a terra entravam pela janela, enterrando-me no fundo dos escombros da casa.

Ali de cima, olhando para as casas em ruínas e os caminhos da aldeia, serpenteando pela encosta abaixo, percebi que aquele pesadelo se tinha cumprido: as plantas silvestres e o mato da ladeira em frente estavam gradualmente, estação após estação, a absorver a encosta habitada, atabafando tudo o que deste lado existe.

Este ano, a caminho da sede de freguesia, passei pelo cruzamento que desce para a aldeia. Reparei que ainda existia uma tosca tabuleta pintada à mão a indicar a direção. Mas não me senti com coragem de lá ir.

Na sede da freguesia, encontrei o presidente da junta na tasca local e perguntei-lhe se ainda habitava alguém na aldeia.

Disse-me que sim. O Americano tinha morrido, mas ainda lá ficaram a viúva e o filho. E que, todos os anos, no mês de Julho, os que saíram para Lisboa ou emigraram para o exterior, realizavam um almoço no pequeno largo em frente à casa que fora do meu avô, trazendo mesas, cadeiras, toalhas e vitualhas para a rua. Era a forma que tinham arranjado de fazer renascer, num ritual, a aldeia…

Ao regressar, paro novamente na encruzilhada, no alto da serra, a observar mais uma vez aquela tabuleta. E lembro-me das conversas que lá longe, a centenas de quilómetros, tenho com os meus amigos de Lisboa sobre o envelhecimento da população e a desertificação do interior.

De súbito, sob o brilho ofuscante do sol de Verão, pareceu-me ver, refletido na tabuleta, o olhar a preto e branco que a foto do meu avô registou. E avassala-me uma sombria resignação.

Provavelmente tudo isto será inevitável, penso. Uma inevitabilidade apocalíptica.

Depois fecho os olhos, para apagar a hipnose do olhar do meu avô. E reconsidero, menos tenso, que, mais uma vez, estou a confundir a inevitabilidade da minha própria morte com a do mundo.

Arranco com o carro e sigo pela estrada. Para trás deixo um mundo que morre comigo e cujos valores me esforcei, talvez sem sentido, por transmitir aos meus filhos.

 

 

Lisboa, Setembro de 2016.

 

José Manuel Cortês



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

MIRIAM TOEWS

 

Foto de Adam Rankin


Miriam Toews

 

Miriam Toews (1964-) nasceu em Manitoba, um dos Estados canadianos da chamada zona das Grandes Planícies, numa família menonita. Mesmo que se procure fugir aos excessos de biografismo, estes dois factos vão revelar-se determinantes na obra narrativa desta autora, que é composta, até hoje, por sete romances e um livro com componentes biográficas (sobre o destino e a morte do seu pai).

Manitoba é um Estado com uma baixa densidade demográfica, em particular na sua região Norte, e um clima bastante agreste, bem semelhante ao de Saskatchewan, repleto de lagos e de florestas coníferas. Simplesmente, o facto de ter uma costa aberta para a baía de Hudson, ocasiona que, sendo tão frio como o de Saskatchewan, atingindo habitualmente no Inverno temperaturas de 20 graus negativos, seja mais húmido; mas, por outro lado, em consequência de ser uma gigantesca planície, também sofre influências, através dos Estados Unidos, das correntes do Golfo do México, atingindo no Verão temperaturas superiores a 30 graus, em particular na região sul deste Estado, onde faz fronteira com o Dakota do Norte e o Minnesota. Aliás, esta região, não só é a mais densamente povoada como é a mais rica em termos agrícolas, sendo, neste aspecto, uma das mais produtivas de todo o Canadá. Ora, foi aqui que, em meados do séc. XIX, se estabeleceu uma comunidade de emigrantes menonitas, oriundos da Ucrânia, de que Miriam Toews descende.

Mesmo considerando que este não é o local mais adequado para expor detalhadamente a doutrina religiosa dos menonitas, sempre se recorda que é resultante de uma dissidência no seio do anabaptismo, e que foi criada no séc. XVI, na Frísia, por Menno Simons. Esta dissidência, brutalmente perseguida, tanto pelas restantes seitas anabaptistas, como pelos luteranos, levou os menonitas a dispersar-se por várias regiões do Leste europeu nos sécs. XVII e XVIII. Sempre em busca de uma liberdade de culto que lhes era difícil de obter, algumas destas comunidades, já no séc. XIX, resolveram deslocar-se para o Canadá e para os Estados Unidos, onde se estabeleceram e prosperam, em particular, através da actividade agrícola e da criação de gado. Sendo menos resilientes ao progresso técnico e social do que os amish (que são, por sua vez, uma dissidência dos menonitas), são, contudo, um grupo bastante conservador e patriarcal, com rigorosas regras comportamentais, muito opressivo em relação às mulheres, e, por isso, tem tendência a isolar-se e a fechar-se, em defesa dos seus costumes, excomungando todos aqueles que afrontem as regras comportamentais estabelecidas. Por último, é importante referir que algumas destas comunidades menonitas viram-se obrigadas, por dificuldades de reconhecimento de direitos pretendidos de autonomia por parte do Estado para a sua prática religiosa e para a suas especificidades socio-culturais (por exemplo, recusam-se a enviar os filhos para as escolas públicas e a cumprir o serviço militar), a emigrar de novo para a América Latina, existindo colónias em quase todos os países desta zona do mundo, devendo-se destacar, para compreender a obra desta autora, as do México e da Bolívia.

Um outro aspecto muito relevante para compreender estas comunidades, e, consequentemente a obra de Miriam Toews, é que nas suas colónias apenas se fala plautdietsch, uma língua não escrita que é uma variante do baixo alemão oriental com influências neerlandesas, fixada no séc. XVII, sendo, nas mais conservadoras e ortodoxas, interdito, sob pena de excomunhão, que alguém ensine a ler e a escrever outra língua, em particular às mulheres.

Para concluir, apenas salientar que existem hoje cerca de um milhão e meio de menonitas em todo o mundo, espalhados por perto de uma centena de países.

Ora estas informações são fundamentais para compreender e situar a obra de Miriam Toews, pois a maioria dos seus romances (com excepção dos dois primeiros, “Summer of My Amazing Luck” e “A Boy of Good Breeding”, e, mais recentemente, de “The Flying Troutmans”) estão explicitamente relacionados com a experiência vivida pela autora como membro desta comunidade. Aliás, toda a sua obra, pois os restantes livros também se situam em contextos sociais muito similares ao das comunidades menonitas. A própria Miriam Toews, em diversas entrevistas, tem salientado que ainda hoje se considera uma “menonita secular”, o que revela a ambiguidade do seu relacionamento com a sua comunidade originária, e que deriva em grande parte por entender que existem aspectos positivos na sua ética, mas também por considerar, provavelmente, que é impossível “libertar-se” da formação que esta comunidade lhe incutiu durante a infância e adolescência.

Na obra desta autora há algumas constantes que são fáceis de destacar: o contexto social dos protagonistas dos seus romances é sempre o de pequenas comunidades rurais, extremamente conservadoras, mesmo fechadas e imperialmente patriarcais; os protagonistas, quase sempre mulheres, sentem-se, por motivos óbvios, profundamente desadequados ao meio social envolvente e à sua extrema solidão (ou isolamento). Perante esta situação, essas mulheres ou anseiam e sonham por uma outra vida, muitas vezes com desejos fúteis e irrealistas (sabendo, contudo, que, se “fugirem”, serão excomungadas e perderão qualquer possibilidade de contacto ou apoio da comunidade de onde saíram), ou se conformam mais ou menos às regras sociais impostas, arrastando, ao longo da vida, “traumas” destrutivos que afectará a sua vida emocional e a sua estabilidade psicológica.

Mas esta situação, objectivamente trágica, é sempre encarada pela autora com um imenso humor, como se o jogo da vida não passasse de uma colossal farsa. A maior parte destas protagonistas são adolescentes ou jovens adultos presos entre duas teias, a das convenções da sua comunidade, que abominam, e a incapacidade de se entender e se ajustar aos comportamentos da sociedade “exterior”, o que os leva a muitos momentos absurdos, irrisórios, mas também hilariantes. Por isso, pode dizer-se que os romances de Miriam Toews são, antes do mais, romances de personagens (passe o pleonasmo desta expressão). Quer isto dizer que, todas as situações descritas procuram, antes do mais, explicitar as peculiaridades dos seus comportamentos, a forma como entendem e reagem às solicitações externas, revelando por essa via a sua personalidade, isto é, as suas fragilidades e dependências, mas também a força optimista, quase jubilosa, como reagem às adversidades e à sua falta de competências para viver. Por isso mesmo, pode afirmar-se que há um constante “olhar” afectuoso da autora sobre essas mesmas personagens que permite, em descritos contextos de enorme adversidade, manter com elas uma constante cumplicidade. Vários comentadores e analistas da obra de Miriam Toews destacam a importância deste olhar para “suportar” a leitura dos seus romances, pois consegue, pela ironia e pelo humor, quebrar possíveis excessos melodramáticos.

Outro aspecto constante dos romances de Miriam Toews é que partem sempre, como a autora assinalou em diversas entrevistas, de uma “ideia” que, quase por si só, suporta a trama e o fluir da narrativa. Por outras palavras, não se pressente nas suas obras, a existência de uma estrutura ou de uma arquitectura prévia, sendo o próprio desenvolvimento narrativo da referida “ideia” que vai gerando o romance, os seus constantes “flashbacks” e o “zizaguear” das peripécias descritas.

Este ambiente das comunidades rurais canadianas espelha-se logo na primeira obra de Miriam Toews, intitulada “Summer of My Amazing Luck”, e cuja “ideia”, segundo declarações da autora, deriva de uma reportagem jornalística que realizou. As personagens principais deste romance são duas “welfare mothers” (expressão que designa mães solteiras que criam os seus filhos com apoios assistenciais do Estado) que vivem obcecadas em descobrir quem são os pais dos seus filhos e para onde foram. O romance é principalmente constituído pelo “retrato” destas personagens, da motivação que as levou a esta situação de mães de filhos sem pai e do que ambicionavam nos homens que procuraram, em suma, pelos seus sonhos e devaneios, pelas grotescas dificuldades financeiras porque passam, que lhes condiciona a existência e as empurra para uma viagem alucinada em busca de um possível pai das suas crianças que elas desconhecem o paradeiro. Porém, logo neste primeiro romance, o que se destaca é o humor da narrativa e a forma afectuosa, sem juízos éticos, com que encara o modo de viver destas jovens mulheres e o seu quotidiano medíocre.

O segundo romance, “A Boy of Good Breeding”, parte de uma “ideia” já de si suficientemente pícara: o “mayor” de uma aldeia “ficcionada”, chamada Algren, no Manitoba, no seu desejo de conhecer pessoalmente o primeiro-ministro (que prometeu, como sinal de apoio ao desenvolvimento rural, ir visitar a “cidade mais pequena” do Canadá no Dia nacional), esforça-se até ao absurdo por manter Algren com a mesma população (1500 pessoas, o mínimo necessário para manter o estatuto de cidade), pois, para garantir esta visita, não pode ter nem mais nem menos algum habitante. Compreende-se facilmente que o romance narra todo um conjunto de peripécias necessárias para o “mayor” conseguir este desiderato, sempre em tom de sátira, colocando inúmeras questões sobre o papel dos poderes públicos em controlar a vida privada dos cidadãos, incluindo os básicos actos de nascer, de morrer ou ainda de amar. Mas, mesmo neste contexto, e perante a ambição caricata do mayor, ou as diversas, e aparentemente “disfuncionais”, personagens que vão aparecendo na trama, a autora abandona esse “olhar” humorado e enternecido, que se torna uma das suas principais características estilísticas.

Só no terceiro romance, intitulado “A Complicated Kindness” (que já fui publicado no nosso país com o título “Estranha Ternura”, traduzido por Vítor Guerreiro e editado pela Ed. Palavra), Miriam Toews se decide a abordar explicitamente a problemática das comunidades menonitas. Aqui, tanta a protagonista como as principais personagens coadjuvantes (com excepção do pai da protagonista, que é um homem, mesmo amando a sua família, “aprisionado” às convenções estabelecidas pela sua igreja) são mulheres inconformadas com as regras, por vezes absurdas, impostas pelo autoritarismo dogmático com que se condiciona os comportamentos pessoais. Não admira, por isso, que o desejo de todas elas, seja, antes do mais, “fugir” e procurar os lugares onde os seus sonhos, mesmo fúteis, têm possibilidades de se concretizar. Mais uma vez, para além do já referido humor, é de realçar a forma como a autora se aproxima das personagens, aceitando as suas fragilidades, quer de quem condiciona a existência das pessoas, quer de quem não aceita as regras impostas.

O quarto romance, intitulado “The Flying Troutmans”, que segue a tradição do Big Road Trip, não refere explicitamente a comunidade menonita, mas, tal como os dois primeiros, percebe-se que a ambiência peculiar desta comunidade está presente. No essencial, narra o regresso de uma jovem tia à sua terra natal, chamada em “salvação” de dois sobrinhos adolescentes (um rapaz e uma rapariga), quando a sua irmã, que tinha sido abandonada pelo marido e pai das crianças, é internada com uma depressão profunda. Como não quer ficar a cuidar dos sobrinhos, decidi fazer uma viagem com os dois miúdos pelo interior dos Estados Unidos em busca do pai que está (mais uma vez) em parte incerta. Esta trama básica serve para elaborar um retrato destes jovens problemáticos (e da própria tia), numa linguagem bem coloquial, procurando perceber não só o seu passado, perante uma mãe disfuncional, histérica e violenta, mas principalmente o seu comportamento e a forma como reagem às intempéries da vida.

Com “Irma Voth” (que também foi publicado no nosso país, com um título homónimo ao do original, e que foi traduzido por Lucília Filipe e editado pela Quetzal), o quinto romance, retoma-se a ambiência menonita, mas com uma ligeira inflexão temática na obra desta autora. Segundo declarações de Miriam Toews, a “ideia” deste romance nasceu do convite do realizador mexicano Carlos Reygadas que, depois de ler “A Complicated Kindness” e de ter visto a sua foto na contracapa do romance, decidiu convidá-la para actriz de um filme que pretendia realizar sobre uma colónia menonita do seu país. O filme, realizado em 2007, intitulou-se “Silent Light”, e obteve o reconhecimento da crítica, pois ganhou o Prémio do Júri do Festival de Cannes, representou o México nas candidaturas os Óscares, e a própria autora, que nunca tinha sido actriz, obteve uma nomeação para melhor actriz nos Ariel Awards da Academia Mexicana de Cinema.   

O romance narra a história de uma jovem menonita, Irma Voth, que, após ter “fugido” para casar com um mexicano não-menonita, é “expulsa” da sua colónia e vive na sua periferia, numa pequena quinta, em Chihuahua, no México. Quando o seu marido a abandona, fica numa situação desesperada, pois a sua comunidade mantem a recusa de a aceitar e ela encontra-se completamente impreparada para se integrar no mundo exterior. É neste quadro de impasse que, entretanto, aparece uma equipa de cinema mexicana que pretende realizar um filme sobre a colónia de onde ela é originária e que a resolve contratar para funcionar como intérprete (recorde-se que estas comunidades falam apenas plautdietsch) e para simples trabalhos domésticos. Esta situação vai permitir contextualizar esta personagem no conflito com uma realidade “exterior” com comportamentos socioculturais radicalmente distintos e perceber como se irá processar a sua adaptação a essa realidade.

“All My Puny Sorrows”, o seu sexto romance, segundo declarações da autora, foi motivado pelo suicídio da sua irmã em 2010. A narradora, filha de uma família menonita, vai descrevendo a sua relação com uma irmã mais velha, uma pianista talentosa e reconhecida, casada, possuindo tudo para ser feliz, mas que deseja morrer; pelo contrário, a narradora apresenta-se como uma escritora falhada, com várias relações fiascadas e criando vários filhos de pais ausentes. A sua relação sempre foi conflituosa, mas, quando recebe a notícia de que a sua irmã passou por uma mais tentativa de suicídio, decide tudo fazer para que a ela volte a ter gosto em viver. “All My Puny Sorrows” é uma obra profundamente trágica, mas que a autora, mais uma vez, procura esquivar-se a um sentimentalismo fácil, através do humor e de uma manifesta afirmação da alegria de viver.

Por último, “Women Talking”. Este romance é, segundo a autora, uma “resposta ficcional” a um facto real: em Manitoba, na Bolívia, numa colonia menonita, entre os anos de 2005 a 2009, mais de uma centena de mulheres foi violada sistematicamente, com idades compreendidas entre os 3 anos e os 65. No dia seguinte à noite da violação, as mulheres encontravam-se todas na mesma situação: acordavam de manhã, confusas, sem se lembrar nada do que se passara, mas com vestígios de esperma, doridas e com diversas equimoses. Quando se queixavam, a resposta da sociedade patriarcal, dada pelos sacerdotes e orientadores espirituais, era sempre mais ou menos semelhante: tinham sido possuídas por “demónios” ou o que narravam era resultante de mentes perturbadas, histéricas, que, em consequência do seu desejo em pecar, tinham inventado os factos que descreviam. Só que, acidentalmente, foram descobertos dois homens que, de um modo furtivo, tentavam entrar numa casa alheia. E eles próprios confessaram que integravam um bando de homens que, por sistema, perpetrava as referidas violações, usando um spray anestésico que entorpecia as vítimas. Em tribunal, já em 2011, foi comprovado que oito homens da referida comunidade menonita tinham repetidamente estuprado 130 mulheres e foram condenados. Depois, tudo regressou ao seu dia a dia habitual e  continuou como dantes.

O romance de Miriam Toews inicia-se a partir destes factos, isto é, centra-se no “depois” dos acontecimentos acima descritos. E então “encena” uma situação em que oito mulheres, vitimas das referidas violações, resolvem reunir-se secretamente, durante uma semana, para discutir o que fazer, aproveitando-se do facto de os homens da comunidade se terem deslocado a uma cidade do exterior, procurando obter meios financeiros para caucionar e libertar os acusados. Como não sabem ler nem escrever (recordo que o plautdietsch é uma língua não escrita), pedem a um homem da comunidade (que será o narrador do romance), com um estatuto peculiar, pois já tinha sido excomungado, e posteriormente perdoado, tendo, entretanto, aprendido a escrever, que seja ele a registar os depoimentos e as decisões que as mulheres irão tomar. Só que, como se pode calcular, dada a situação particularmente condicionante destas mulheres, as decisões não vão ser fáceis nem lineares. O romance é, por conseguinte, constituído por estes depoimentos, a forma como cada uma vai reagir ao abuso que foi alvo e como, a partir de agora, se irá posicionar na comunidade, em particular perante os homens, sabendo que alguns deles são seus maridos e filhos.

Para concluir, creio que se torna bem claro que existe, na obra de Miriam Toews, uma componente catártica, sem nunca a autora ceder à facilidade da autoficção. Pelo contrário, há em todos os romances um elevado nível ficcional; por isso mesmo, destacam-se pelo fascínio que criam as personagens construídas por Miriam Toews (tendo, contudo, uma objectiva similitude de romance para romance), a forma como estas são integradas e “respondem” às distintas situações de quotidiano que, sendo banais e comuns, podem revelar-se também pícaras, e principalmente um estilo que consegue conciliar humor, fluidez narrativa e uma atitude cúmplice com as fragilidades da condição humana.

 

Lisboa, Agosto de 2019