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sexta-feira, 24 de junho de 2022

RACHID O.

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

24. Rachid O. (1970-)

É o pseudónimo de um escritor marroquino de língua francesa, radicado em França desde os vinte anos, e que até hoje publicou quatro livros de narrativas, onde assume abertamente a sua homossexualidade e utiliza a sua experiência pessoal como matéria-prima.

Os narradores dos livros de Rachid O., num contínuo monólogo, vão reflectindo, num estilo límpido e lírico, na esquiva felicidade que se corporiza em fugazes encontros e relações amorosas, no fascínio pela cultura e pelo conforto (o “Chocolat chaud” do título de uma das suas narrativas) do modo de vida ocidental, mas também na inevitável nostalgia da beleza e da tepidez da sua terra de origem; e ainda no estigma violento com que a moral e a religião muçulmana os marca por causa do seu estatuto sexual e que se reflecte no repúdio familiar (tanto mais doloroso quanto sentem uma enorme paixão pela figura paterna, pela sua integridade e pelo seu sentido de dádiva).

“Analphabetes”, 2013, o seu último “romance”, mantendo as características dos livros anteriores, tem, provavelmente, um interesse maior, visto que, seguindo o mesmo registo pessoal, abre-se, inequivocamente, a uma maior dimensão política (sem ser, no entanto, uma obra abertamente militante), já que descreve diversas formas e situações de analfabetismo. Analfabetos, segundo o autor/narrador, somos todos nós um pouco, principalmente quando não conseguimos compreender o Outro, e o rejeitamos, ou não somos capazes expressar o que se sente e pensa (como sucedeu confessadamente com o autor durante os dez anos que antecederam este livro). Assim, ao longo da obra, vão aparecendo várias personagens (e situações) que exemplificam esta visão do mundo: o seu pai, recentemente falecido, que era literalmente analfabeto, mas com uma serena compreensão do mundo, o irmão “bem-intencionado” que exige do narrador o abandono do celibato em nome da moral, a jovem mulher que, sob o jugo patriarcal, é humilhada a comprovar a sua virgindade, o prostituto permanentemente difamado, o colono que, incapaz de perceber a prepotência sexual e amorosa do seu estatuto, é vítima do seu amante, etc., etc..

Junho de 2022.

Desconheço a autoria da foto do escritor.



sexta-feira, 13 de maio de 2022

ADRIENNE YABOUZA


 

A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

 

13. Adrienne Yabouza (1965-)

 

É uma escritora da República Centro-Africana, de expressão francesa, que já escreveu vários livros para a infância e juventude e oito romances e colectâneas de contos (os primeiros escritos em colaboração com o escritor francês Yves Pinguilly). Sem estudos nem formação académica (boa parte da sua vida teve que criar sozinha os seus cinco filhos), passou por diversos trabalhos e ofícios, até que, por fim, “montou” um salão de cabeleireiro na capital, que lhe serviu para ouvir as histórias de vida das suas vizinhas. Devido às guerras civis que recentemente assolaram o seu país, foi obrigada a exilar-se por duas vezes: primeiro, em 2004, para a República do Congo, depois, de novo, em 2013, tendo pedido asilo político em França.

Os romances de Adrienne Yabouza centram-se fundamentalmente na situação social e familiar das mulheres africanas, em particular as do seu país, e inspiram-se nas histórias que foi ouvindo às suas clientes e vizinhas. As tramas são, na generalidade, lineares; mas este facto não obsta a que, para além do testemunho sobre as situações vividas pelas mulheres africanas, os seus romances não tenham qualidades estilísticas, com um aproveitamento significativo do humor no tratamento sarcástico de situações bem desumanas, em especial de abuso sexual, e na utilização de africanismos, oriundos das diversas línguas nativas, e que procuram exprimir a ambiência local. Essas tramas percorrem todas as fases da vida destas mulheres, desde a infância e a adolescência (“Le Bleu du ciel biani biani”, 2010) até à viuvez (“La Maltraite des veuves”, 2013, e “Co-épouses et co-veuves”, 2015) e à velhice. Por outro lado, reflectem também o sofrimento próprio das mulheres em contextos de guerra civil, demonstrando como são constantemente utilizadas como despojos (e troféus), e como aquela é sempre gerada por situações de corrupção e de ânsia de partilha, por parte de grupos com interesses específicos e antagónicos, das riquezas públicas (“La Défaite des mères”, 2008, e “La Pluie lave le ciel”, 2019).    

O romance mais interessante parece-nos ser “Co-épouses et co-veuves”, em particular porque se debruça sobre um tema pouco tratado em termos literários: a situação da mulher num quadro social poligâmico (é justo lembrar aqui o carácter percursor da obra da moçambicana Paulina Chiziane, que também se tem debruçado sobre este tema no contexto do seu país e da África Austral).

As personagens centrais de “Co-épouses et co-veuves” integram uma unidade familiar em Bangui, constituída por Lidou e as suas duas esposas, Ndongo Passy e Grekpoubou, e cinco filhos (respectivamente, um da primeira e quatro da segunda), onde não há conflitos nem ciúmes, e, pelo contrário, parece a existir uma certa harmonia erótica e afectiva. À morte súbita do marido, as duas mulheres vêem-se obrigadas a lutar pela sua sobrevivência e pelo seu património, como se fossem irmãs, confrontando-se com a guerra civil, a corrupção institucionalizada, assim como com as trafulhices geradas por uma sociedade marcadamente patriarcal. Saliente-se, por fim, que, mesmo numa ambiência social e política sinistra, existe uma clara jovialidade, composta por um tratamento afectuoso, humorado e optimista, no retrato esboçado das personagens e das situações que estas se vêem obrigadas a atravessar.

Este romance está traduzido para inglês.

Maio de 2022

Desconheço a autoria da foto da escritora.



sexta-feira, 22 de abril de 2022

HAJI JABER

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

7. Haji Jaber (1976-)

Ou Haji Jabir (conforme a transcrição), é um escritor eritreu, de expressão árabe, que, desde 2012, já publicou cinco romances, tendo sido nomeados os dois últimos para o International Prize for Arabic Fiction, o mais importante galardão para narrativa em língua árabe. Refugiado de guerra, vive actualmente, após um longo exílio, no Qatar, trabalhando como jornalista no canal televisivo Al Jazeera.

Como sucede com grande parte dos narradores árabes contemporâneos, as obras de Haji Jaber só estão escassamente traduzidas para línguas ocidentais (segundo creio, só foi traduzido para italiano o seu segundo romance, que recebeu o título “Fuga dalla piccola Roma”, e cujo título original, em tradução literal para inglês, é “Fatima’s Port”, 2013). Esta circunstância, mesmo considerando que a crítica árabe refere a sua dimensão polifónica, a não linearidade narrativa, e a sua ancoragem documental, torna muito difícil ponderar as suas características estilísticas.

No entanto, os seus dois últimos romances chamam a atenção pela sua temática: tratam-se de “Black Foam”, 2018, e de “The Abyssinian Rimbaud”, 2021 (numa tradução literal para inglês).

O primeiro centra-se numa comunidade etíope judia, os “Falash Mura”, que, por falta de condições de subsistência, emigra para Israel e aí se confronta com tremendas situações de segregação racial. O romance tem como narrador um eritreu, não judeu,  que vai mudando de identidade e de nome, conforme o contexto social e/ou religioso onde se encontra, e que decide acompanhar esta comunidade como forma de se exilar.

O segundo, conforme o título indica, gira em torno da(s)  estadia(s) do poeta na Etiópia, em Harar, narrado na perspectiva da sua mulher, Mariam, uma etíope cristã (a única mulher, que se conhece, com que Rimbaud se relacionou), e que, poucos anos depois, irá abandonar, “pagando-lhe” com algumas moedas, quando decide dedicar-se ao tráfico de armas.   

Abril de 2022

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.



quinta-feira, 22 de outubro de 2020

VÉRONIQUE TADJO

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

23ª Vinheta


VÉRONIQUE TADJO

 

Véronique Tadjo (1955-) é uma importante escritora da Costa do Marfim, que, desde os finais da década de oitenta, escreveu e publicou vários livros de poesia, romances e obras para a infância e juventude. Formada na Sorbonne, com uma tese sobre cultura americana, viveu em diversos países europeus e africanos. Já venceu, entre outros, o Grand Prix littéraire d’Afrique noire, com o romance “Reine Pokou”, em 2005. No domínio dos livros para a infância e juventude, área a que Véronique Tadjo tem dedicado intensamente a sua capacidade criativa como escritora e ilustradora, as suas obras têm obtido um significativo sucesso, pois foram traduzidas para diversas línguas e estão editadas em vários países europeus e africanos.

Para além de três livros de poesia e dos já referidos livros para a infância e juventude, Véronique Tadjo publicou seis romances, todos centrados em temáticas muito distintas e recorrendo, quase sempre, à mitologia e à tradição cultural africana. A recriação destas fontes, através de uma linguagem com fortes conotações líricas, é principalmente notório nos seus primeiros romances, em particular, no conjunto de narrativas fragmentárias de “À vol d’oiseau”, 1992, do “apocalíptico” “Le Royaume aveugle”, 1991, e em “Reine Pokou, concerto pour un sacrífice”, 2005, onde recorre a uma lenda para perceber não só a origem do seu país, mas também a violência que o domina na actualidade. Depois, mudando de registo, os seus romances seguintes orientam-se para as relações familiares, em “Loin de mon père”, 2010, e para a incomunicabilidade amorosa, em “Champ de bataille et d’amour”, 2006. Por fim, há ainda os seus romances que se debruçam sobre algumas das tragédias que recentemente assolaram o continente africano, como o genocídio dos tutsi no Ruanda, em “L’Ombre d’Imana”, 2001, ou a epidemia do Ébola, em “En compagnie des hommes”, 2017.

Por fim, deve assinalar-se que uma das características da obra da autora é que as suas narrativas decorrem sempre à partir de um “olhar” interior que vai reflectindo sobre as situações descritas, procurando retirar delas uma certa forma de sabedoria que consiga conciliar a vida mesmo com os factos mais terríveis. Quer isto dizer, que os seus romances diluem os contextos situacionais a breves anotações, sem muitos pormenores, centrando-se, no essencial, nos “efeitos” que produziram nos narradores ou personagens principais. Daí que a sua obra tenho um forte registo poético e monológico, em que os mitos e as lendas tradicionais africanas aparecem como “background” dos narradores e personagens.

Não há dúvida, porém, que, no conjunto da obra de Véronique Tadjo, se destaca o romance “L’Ombre d’Imana”. Com o objectivo de melhor compreender o genocídio no Ruanda, a autora aceitou participar numa residência literária neste país, e, em parte para redimir pela criação e pela afirmação da vida a presença avassaladora da morte, decidiu escrever este romance. Nele, tenta entender como é que a “sombra de Deus” (os Ruandeses acreditam que a “sombra de Deus", a que chamam Imana, “cobre” o seu país) desapareceu durante (e após) o genocídio, deixando os homens à mercê dos seus impulsos mais brutais e criminosos, o que provocou não só um rastro de morte como deixou marcas indeléveis na memória dos sobreviventes e até na própria realidade concreta que os rodeia (recordo que uma das “chagas” vivas destes acontecimentos foram os “filhos de guerra”, isto é crianças geradas com as violações que ocorreram durante o genocídio). Recorrendo a três personagens femininas, à sua própria experiência e ao confronto com a experiência dos outros, no seu estilo já característico, em que concilia géneros com os modelos narrativos assentes na fragmentação e na elipse, Véronique Tadjo vai dar voz neste romance às vítimas e aos carrascos, recolhendo depoimentos e testemunhos presenciais, procurando entender como conseguiram superar aquele colossal trauma, em particular quando aqueles papéis muitas vezes se inverteram. De facto, a autora parte do pressuposto que aqueles acontecimentos imanam da própria condição humana, capaz, conforme as circunstâncias, tanto do Bem como do Mal. Por isso, não procura efectivamente exorcizar o impossível, mas, em particular, compreender como a sobrevivência e a necessidade de reconstruir a vida se foi sobrepondo à referida presença da morte num penoso caminho em que a memória procura libertar-se, possibilitando a continuidade da vida e apaziguando o ódio, dos sinais que, em seu redor, registam uma violência abjecta.

Os romances de Véronique Tadjo estão traduzidos para inglês, alguns para espanhol e italiano, e foram editados em vários países europeus e africanos, o mesmo sucedendo, ainda com maior destaque, com as suas obras para a infância e juventude.

Apenas tenho conhecimento da edição de um título de uma obra sua para a infância e juventude no nosso país. No entanto, recolhi a informação de que “L’Ombre d’Imana” foi traduzida para português por Francisco Guesdes, e editada em Angola, com o título “A Sombra de Imana”. Não conheço esta edição.

Outubro de 2020.

Direitos da foto da autora pertencentes à RAMA




terça-feira, 28 de julho de 2020

KATEB YACINE

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


18ª Vinheta


KATEB YACINE

 

À Teresa Meneses

Kateb Yacine (1929-1989) é um escritor argelino que integra a geração que começou a publicar na década de cinquenta e que é coeva (e, de certo modo, vítima) da guerra de independência da Argélia (esta geração, toda ela francófona, tem, como principais autores, as figuras de Mohammed Dib, Mouloud Feraoun, Mouloud Mammeri, Malek Haddad e Assia Djebar). Romancista, poeta e dramaturgo, é considerado por unanimidade um dos “fundadores” da literatura argelina, em particular devido ao papel determinante que teve para esta literatura o romance “Nedjma”, publicado pela primeira vez em 1956.

Pertencendo a uma tribo berbere, o autor, ainda no liceu, participa nas primeiras manifestações anti-colonialistas de Sétif (cidade onde estudava) de 1945 que deram origem a um brutal repressão que massacrou milhares de argelinos, na sua maioria camponeses. Expulso do liceu, preso durante alguns meses, Kateb Yacine assumiu, em resultado destes acontecimentos, a causa nacionalista e anti-colonial. Depois da prisão, publica o seu primeiro livro de poemas e começa a trabalhar num romance (depois de se ter apaixonado por uma prima, já casada, que o irá inspirar para a personagem central da obra que está a conceber), faz as primeiras viagens a Paris, onde dá algumas conferências sobre temas nacionalistas e se inscreve no Partido Comunista Argelino, e, no regresso, começa a trabalhar como repórter num jornal argelino.

Após a morte do pai, resolve regressar a Paris, onde reside durante a década de cinquenta, vivendo com grandes dificuldades e de trabalhos ocasionais. Mas é nesta época que conclui e publica o seu primeiro romance (o já referido “Nedjma”) e se aproxima daquela que será a sua maior paixão artística (para além da poesia e da narrativa) e a que se dedicará grande parte da sua vida: o teatro.

Logo após a independência, Kateb Yacine decide regressar a Argélia. Mas, desiludido com a evolução política do seu país, abandona-o, estabelecendo-se em diversos países europeus até 1970, ano em que regressa em definitivo e toma duas decisões importantes para o seu futuro artístico: abandonar o francês como veículo de criação literária e dedicar-se em exclusivo ao teatro e a encenar, com um grupo teatral, o Théâtre de la Mer, que o acompanha, as peças que redige em árabe argelino, acessível às populações, e que monta, por vezes com poucos adereços cénicos, em fábricas e nas aldeias. Paralelamente, as suas posições políticas e culturais, expressas em entrevistas, artigos e ensaios, cada vez mais afrontam os poderes estabelecidos: defende um estado laico, combate a total islamização da vida social, tanto ao nível da língua (ele rejeita o árabe vulgar como língua oficial e preconiza o reconhecimento dos árabes dialectais e da língua berbere) como dos costumes, apoia a igualdade de género e a libertação da mulher do seu estatuto de subserviência, repudia o excesso de burocratização do Estado em favor de uma maior autonomia das diversas comunidades, etc, etc. E, por isso, ao mesmo tempo que é mitificado como criador literário, começa a ser repudiado por uma significativa parte da classe dominante que considera Kateb Yacine uma figura incómoda e excessivamente contestaria (ao ponto de, aquando da sua morte por doença, demasiado precoce, no estrangeiro, existirem figuras influentes argelinas que recusam publicamente a ideia de que ele seja sepultado no seu país…). E compreende-se assim melhor porque, em vida, Kateb Yacine tenha recebido maiores reconhecimentos por parte do país colonizador do que da sua terra natal…

Para trás, ficaram, antes da sua dedicação em exclusivo ao teatro, uma colectânea de poemas e dois romances (“Nedjma” e “Le Polygone étoilé”), pois desde que Kateb Yacine decidiu apenas escrever em árabe argelino, desistiu deste género literário.

Indiscutivelmente, “Nedjma” é o mais marcante contributo literário de Kateb Yacine no domínio do romance. À primeira leitura, a trama é muito simples: quatro jovens argelinos, apaixonados e seduzidos por uma mulher, Nedjma, filha de uma argelina e de um francês, percebem que a sua paixão é impossível, pois ela é casada, e, por isso mesmo, “silenciada” e inacessível, confinando os seus sentimentos à contemplação do “esplendor” dessa figura feminina. Em complemento, constata-se, pelo deambular destas personagens, e pelas distintas situações em que são confrontados, como se sentem profundamente desenraizados, perdidos entre uma existência urbana sem futuro, sufocada pela violência colonial e pela exploração económica, e o modo de vida das suas famílias e tribos, ancorada numa tradição cultural e religiosa centenária, que já não consegue corresponder aos seus anseios e necessidades.

A relevância desta obra deriva, por isso, não só do sentido simbólico de todas as personagens e situações representadas, mas também do caracter inovador e experimental da sua estrutura formal (a narrativa é sempre fragmentária, diluindo-se os nexos temporais e espaciais), pela forma peculiar como trata a língua francesa, adaptando-a a realidade sociocultural argelina e subvertendo o seu estatuto de língua de país colonizador e, por último, pela dimensão lírica, resultante de uma visão apaixonada e empenhada em entender a humanidade e o seu necessário futuro, que contamina todo o discurso.

“Nedjma” foi traduzido para português, na década de oitenta, por Teresa Meneses (recentemente falecida) e António Gonçalves, e publicado pela ed. Tricontinetal (editora que desconheço e de que nada sei sobre a sua origem e destino). Não consegui ler esta tradução. Mas posso, no entanto, assegurar que os tradutores (que considero ainda meus amigos, mesmo que não nos tenhamos encontrado desde há muitos e longos anos) são pessoas de elevada competência e idoneidade.

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 

Julho de 2020



sábado, 1 de fevereiro de 2020

SONALLAH IBRAHIM


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

4ª Vinheta


SONALLAH IBRAHIM

 
Sonallah Ibrahim (1937-) é um escritor egípcio, que integrou a denominada “geração de sessenta” (composta, entre outros, para apenas referir os mais presentes nos circuitos internacionais da edição, pelos escritores Baha Taher e Gamal Ghitany), e que é conhecido pelas suas claras posições de esquerda, anti-imperialistas e de repúdio de todos os governos que até hoje lideraram o seu país. Foi um activo militante comunista, o que levou a que o regime de Nasser, no final dos anos cinquenta, o prendesse, julgasse por traição e o condenasse a sete anos de prisão, dos quais cumpriu cinco.

 
Foi nessa altura que começou a escrever, redigindo o seu primeiro livro (ainda hoje um dos mais prestigiados do autor), cujo título em inglês é “That Smell”, e que de imediato lhe granjeou um significativo reconhecimento nacional e internacional.

 
Depois de sair da prisão, decidiu dedicar-se em exclusivo à sua futura obra, tendo publicado, até hoje, mais de uma dezena de romances e um diário de prisão. Foi-lhe concedido alguns prémios literários nacionais (que o autor sistematicamente rejeitou por considerar que são concedidos por “governos indignos”) e internacionais.

 
Toda a sua obra narrativa reflecte a suas posições políticas e a sua atitude crítica em relação à sociedade egípcia. Mas esta sua atitude alarga-se a todo o mundo árabe, pois redigiu também romances sobre a situação sociopolítica do Líbano ou sobre os conflitos no Iémen e em Omã.

 
Hoje, Sonallah Ibrahim é considerado um dos mais importantes escritores egípcios, não só pelas suas inovações formais, mas também pela introdução de novos modelos narrativos na literatura do seu país, e ainda por se ter debruçado sobre temas, como a política e a vida sexual, em moldes que até aí não tinham aparecido. Além disso, a sua obra é uma ininterrupta e exaustiva reflexão sobre as relações entre o Ocidente (incluindo a Rússia soviética, sobre quem lança um olhar crítico no seu último romance, intitulado “Ice”, na versão inglesa) e o Egipto.

 
No quadro de uma obra bem variada, em termos de técnicas e estilos narrativos, centrada na contemporaneidade (não se deve omitir, no entanto, a sua “intromissão” no romance histórico, com o seu recente romance “Turbans et chapeaux”, na versão francesa), pode realçar-se, a título de exemplo, o já referido “That Smell” e ainda “The Committee”.

 
“That Smell”, o primeiro romance de Sonallah Ibrahim, é, desde a sua edição em 1966, considerado um clássico e, ao mesmo tempo, uma obra que revolucionou a narrativa egípcia. O romance descreve os primeiros tempos de um homem que, depois de ter estado preso, regressa à sua cidade e à sua vida “normal” e, por conseguinte, como se vai adaptando aos novos ritmos, às pequenas sensações e emoções que a liberdade lhe dá, a gerir a sua pulsão sexual e até ao reatamento (ou não) das suas anteriores relações de amizade. Mas, como já se referiu, o que é mais relevante neste romance é a perspectiva com que o narrador encara o mundo que se lhe abre com a sua libertação e o estilo narrativo com que descreve esse “embate”. 

 
É comum considerar (todas os analistas o fazem) “The Committee” como uma obra de cariz kafkiano… De facto, este romance é uma alegoria, em que um narrador anónimo, ao ser recebido por um Comité, de quem espera indeterminadas possibilidades de futuro, percebe, pela forma ambígua, humilhante e misteriosa como é inquirido e pela missão que é coagido a efectuar, que o seu destino se encaminha para fins paradoxais e perversamente perigosos. No fundo, esta obra pretende ser uma sátira subtil ao regime autoritário egípcio dos anos setenta (o regime de Sadat) e à sua “abertura” aos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. De facto, o narrador, por indicação do Comité, vai acabar por se ver envolvido numa teia criada por personagens sinistras e misteriosas, manipuladas pelo “Doutor”, uma entidade difusa e fugidia que está na “sombra” de inúmeros “grandes negócios” obscuros.

 
A obra de Sonallah Ibrahim tem sido amplamente traduzida para francês e inglês, assim como existem títulos seus em espanhol, italiano e alemão.

 
Foto do autor de Frederic Reglain

 
 


 
 
 

Fevereiro de 2020

quarta-feira, 26 de junho de 2019

M. G. VASSANJI



Foto do autor de Aaron Vincent Elkaim

 
 

M. G. Vassanji

 

M. G. Vassanji (1950-), de origem indiana, nasceu no Quénia, mas a sua família, ainda quando era criança de tenra idade, deslocou-se para a vizinha Tanzânia, onde ele passou o resto da infância e da adolescência. Na década de setenta, vai estudar para os Estados Unidos, onde se forma em física nuclear no M.I.T. e na Universidade da Pensilvânia.

Mas no final dessa década, estabelece-se no Canadá, obtém a nacionalidade canadiana e começa a dedicar-se em exclusivo à literatura e a editar a sua obra. Desde 1989, quando saiu o seu primeiro romance, até hoje, publicou oito romances e duas colectâneas de contos, para além de uma biografia (sobre o autor Mordecai Richler), de um livro de memórias e uma obra sobre as suas impressões de uma viagem que fez à India. No conjunto dos seus romances - sem sombra de dúvida, a componente da sua obra mais relevante - torna-se difícil destacar um título, dado o seu nível global. No entanto, os analistas assinalam, em particular, “The Gunny Sack”, o seu primeiro romance, “The Book of Secrets”, “The In-Between World of Vikram Lall”, “The Assassin’s Song”, “The Magic of Saida” e “Nostalgia”.

Quase toda a sua obra narrativa tem como contexto a comunidade indiana emigrada para a África Oriental, em particular para a Tanzânia. Mas a maior parte das personagens principais e/ou narradores das obras de M. G. Vassanji pertencem a uma segunda geração de migrantes e já se deslocaram para um segundo país, na maioria dos casos, para a um país de língua inglesa e, em particular, para a Inglaterra, o Canadá ou os Estados Unidos. Compreende-se, por isso, porque é que a maioria destes romances percorrem a vida de várias gerações de antepassados da família da personagem principal, na medida em que procuram perceber as motivações destes processos migratórios.

Pode considerar-se que a problemática nuclear da obra deste autor é a de compreender o “peso” que o passado, através da memória individual e colectiva, tem no presente (e no futuro) das pessoas e como é um elemento determinante nas suas opções, seja como factor de atracção, seja como factor que as empurra para uma "fuga” desse passado. A India, o seu modelo social, os seus valores e a sua cultura, está sempre presente nestas personagens como referente a que é impossível escapar.

Mas, para além disso, a obra de M. G. Vassanji efectua uma densa reflexão, através da arquitectura complexa das suas tramas, sobre a forma como o fenómeno migratório (?), no quadro da globalização, actua sobre a vida das pessoas. Nesse sentido, dá um forte realce ao papel da História e, por conseguinte, aos processos socio-políticos do colonialismo e da independência da África Oriental, e de como esses processos condicionaram a própria existência das personagens, uma vez que esta comunidade de origem indiana se encontrava “comprimida” entre a estrutura administrativa do colonizador (que tinha incentivado, por razões de desenvolvimento da exploração colonial, a deslocação desta comunidade para a África Oriental) e a população indígena.

Na própria trama do romance transparece constantemente a ambivalência difícil e complexa, entre o afecto e a tensão, que existe entre esta comunidade indiana, na generalidade com alguma prosperidade económica, e a população africana e de como ela determina a sua existência. Aliás, é essa uma das motivações que a leva a recorrer ao seu passado e às suas raízes culturais como um processo identitário. De facto, essa consciência de qual é o seu lugar no mundo é sentida como uma necessidade quase orgânica para a sua sobrevivência.

Outra problemática que a obra de M. G. Vassanji espelha está relacionada com as dificuldades de integração destas pessoas no país que escolheram (ou para os quais foram, de certo modo, “empurradas”) para viver, dado o enfâse tentacular do seu passado, tanto cultural como familiar. De facto, estas personagens, mesmo quando obtém alguma prosperidade económica e social, continuam a ter dificuldades de diversa ordem nessa integração, uma vez que a visão do mundo que herdaram as leva a “cair” em situações desagregadoras da sua vida pessoal e afectiva nos novos contextos sociais e culturais.

Torna-se bem evidente, por esta síntese, que toda a obra de M. G. Vassanji parte da sua própria experiência pessoal e familiar para a elaboração de amplas e complexas recriações ficcionais.

Também é bem evidente que todas as suas personagens e/ou narradores se encontram “deslocalizados” e num “in-between” (para utilizar um termo que aparece no título de um dos romances de M. G. Vassanji). Mas, mesmo tendo em consideração este seu estatuto, pode-se procurar enquadrar num modelo classificativo a obra deste autor, com base no “pólo” mais determinante na trama do romance. Assim, consegue-se, com facilidade, definir quatro grupos: um primeiro, contextualizado na África Oriental (“The Gunny Sack”, “The Book of Secrets”, “The In-Between World of Vikram Lall”, “The Magic of Saida”); outro, contextualizado nos países para onde foi efectuada a segunda migração, em particular a América (“No New Land”, “Amriika”); um terceiro, situado na própria India (“The Assassin’s Song”); e, por último, exterior a este modelo, o caso de “Nostalgia”.

“Nostalgia”, o seu último romance, é uma distopia passada num futuro indeterminado e numa indefinida urbe de um Estado do hemisfério norte (a Aliança do Atlântico Norte, com fronteiras bem estanques e vigiadas que o separam do resto do Mundo, que nos é apresentado como uma amálgama de subdesenvolvimento e caos), onde os homens conseguiram tornar-se imortais através de meios bio-regenerativos. Simplesmente, a imortalidade entra em conflito com a capacidade de armazenamento (de memória) de um cérebro. Para resolver este conflito, tornou-se possível “comprar” um corpo jovem com uma memória “nova”, donde sejam eliminadas todas as interferências excessivas. Sucede, no entanto, que estes meios bio-regenerativos ainda não estão inteiramente “afinados” e, por vezes, aparecem alguns casos em que os “pacientes” apresentam “fissuras” por onde transparece reminiscências de memórias passadas: essa doença, que se chama Nostalgia, tem que ser tratada de forma a manter esses homens funcionais e felizes, sem questionarem a sua identidade. É esse o trabalho da personagem principal, um médico neuro-fisiologista que é especialista no tratamento desta doença, processando-se toda a trama do romance em redor das relações que estabelece com os doentes e de como estas interferem na sua vida pessoal e na sua mente.

Como se percebe por este básico enquadramento, “Nostalgia” procura fazer uma síntese de alguns tópicos da problemática de M. G. Vassanji: passado, memória e identidade, na sua relação com o quotidiano individual e colectivo, no contexto de um universo onde são cada vez mais acentuadas as discrepâncias entre um primeiro mundo “desenvolvido” e o resto do globo.

 Mesmo utilizando algumas estratégias aparentemente simples (é o caso de “The Gunny Sack” e de “The Book of Secrets”, onde aparece um objecto, vindo do passado, que é necessário decifrar e entender, e a partir do qual se desenrolam todos os acontecimentos), a estrutura narrativa destes romances é complexa (vários presentes narrativos, diferentes narradores, inúmeras personagens secundárias), com constantes “flashbacks” e saltos temporais, gerando uma aparente fragmentação discursiva. No entanto, a clareza da sua prosa, um estilo com uma elevada carga poética, a urdidura das situações narradas e a contextualização histórica bem ajustada dão às obras de M. G. Vassanji um elevado poder de sedução e revelam uma inquestionável capacidade de envolver o leitor.

Por último, apenas assinalar, como forma de transmitir algumas referências e pistas, que existem evidentes “proximidades”, temáticas e de contexto, entre a obra de M. G. Vassanji e a de V. S. Naipaul. Por outro lado, que esta obra vem na linha da de narradores de “questionamento ético” como é o caso de Dostoievski, Conrad, Graham Greene e Philip Roth (autores, aliás, que o próprio M. G. Vassanji reconheceu publicamente a importância para a sua produção literária). Há ainda analistas que consideram que o seu estilo tem similitudes com o de Lawrence Durrell e que, pela complexidade dos enredos destes romances, há também uma difusa influência da obra de W. Somerset Maugham.

 
Lisboa, Junho de 2019.