A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
24. Rachid
O. (1970-)
É o
pseudónimo de um escritor marroquino de língua francesa, radicado em França
desde os vinte anos, e que até hoje publicou quatro livros de narrativas, onde
assume abertamente a sua homossexualidade e utiliza a sua experiência pessoal como
matéria-prima.
Os
narradores dos livros de Rachid O., num contínuo monólogo, vão reflectindo, num
estilo límpido e lírico, na esquiva felicidade que se corporiza em fugazes
encontros e relações amorosas, no fascínio pela cultura e pelo conforto (o
“Chocolat chaud” do título de uma das suas narrativas) do modo de vida
ocidental, mas também na inevitável nostalgia da beleza e da tepidez da sua
terra de origem; e ainda no estigma violento com que a moral e a religião
muçulmana os marca por causa do seu estatuto sexual e que se reflecte no
repúdio familiar (tanto mais doloroso quanto sentem uma enorme paixão pela
figura paterna, pela sua integridade e pelo seu sentido de dádiva).
“Analphabetes”,
2013, o seu último “romance”, mantendo as características dos livros anteriores,
tem, provavelmente, um interesse maior, visto que, seguindo o mesmo registo pessoal,
abre-se, inequivocamente, a uma maior dimensão política (sem ser, no entanto,
uma obra abertamente militante), já que descreve diversas formas e situações de
analfabetismo. Analfabetos, segundo o autor/narrador, somos todos nós um pouco,
principalmente quando não conseguimos compreender o Outro, e o rejeitamos, ou
não somos capazes expressar o que se sente e pensa (como sucedeu
confessadamente com o autor durante os dez anos que antecederam este livro).
Assim, ao longo da obra, vão aparecendo várias personagens (e situações) que
exemplificam esta visão do mundo: o seu pai, recentemente falecido, que era
literalmente analfabeto, mas com uma serena compreensão do mundo, o irmão
“bem-intencionado” que exige do narrador o abandono do celibato em nome da
moral, a jovem mulher que, sob o jugo patriarcal, é humilhada a comprovar a sua
virgindade, o prostituto permanentemente difamado, o colono que, incapaz de
perceber a prepotência sexual e amorosa do seu estatuto, é vítima do seu
amante, etc., etc..
Junho de
2022.
Desconheço a
autoria da foto do escritor.


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