O PORTUGUÊS DO ALFACE
Para além de alguns leitores indefectíveis, creio que Alface
está um pouco esquecido. A prova disso – se, para isso, é necessário prova – é
que os seus livros estão todos esgotados e só se encontram em alguns alfarrabistas.
Provavelmente, tal sucede, porque o seu humor e a sua
brejeirice são hoje considerados “ideologicamente incorrectos”. Mas é pena,
porque Alface é, quase sempre, um admirável estilista e consegue dar um
“tratamento” à nossa língua muito pessoal.
Acabei de ler um livro de histórias (contos?), intitulado “O
Fim das Bichas” (e com o subtítulo, bem característico do seu humor, “é o
princípio das filas”), numa edição muito cuidada e bonita da “Fenda”.
Lá encontrei algumas “pérolas” que aconselho a quem gosta de
ler um português bem “burilado” e, ao mesmo tempo, capaz de seduzir e divertir.
Mas há uma para a qual gostaria de chamar a atenção.
Chama-se “Por Baixo” e trata (?) de uma realidade que só apenas a minha geração,
e aquelas que a antecederam, conheceu: a recruta no período em que o serviço
militar era obrigatório. E, em particular, o serviço de recruta “para alferes”
na Tapada de Mafra (não é que eu tenha lá “batido com os costados”, mas ouvi e
sei tantas histórias de quem por nela andou, e “gravaram-se” de tal forma na
minha memória, que parece que as
“visualizo” como se por lá tivesse passado).
É magnífica a prosa com que descreve o cerco de humilhações
e de sevícias, as torpes bravatas dos medíocres “superiores”, os truques quase
infantis com que se procurava “escapar” aos maus tratos e às inevitáveis
equimoses emocionais com que de lá se saía, já “formado” e “adulto”. Procurem
ler e decerto que irão constatar, como eu, que o português do Alface é modelar
na forma como “espelha” o carácter abominável daquele universo de mesquinhez
castrense.
A obra apresenta uma “ficha de autor” que, após descrever,
na terceira pessoa do singular, de forma absolutamente convencional, alguns
dados biográficos, termina com uma frase que procura caracterizar o modo de
estar do escritor: “Vive com facilidade.”
Segundo rezam as crónicas, Alface faleceu precocemente, e de
um modo súbito, numa sessão pública de leitura e análise dos seus textos. Espera-se,
e digo-o com macabra ironia, que se tenha finado com a mesma “facilidade” com
que viveu.
Porque desconfio que ele não gostaria, não publico uma foto
do seu rosto. Mas da capa do livro que li.
Julho de 2018
Nota: Já depois de ter publicado este texto, vim a saber que
a Teresa Carvalho publicou um livro sobre o autor, intitulado “Alface. Levantar
As Saias Ao Diabo” (Maldoror, 2017) e que a mesma editora reeditou a colectânea
de contos “Cuidado Com Os Rapazes”. Mas, no essencial, a fundamentação deste
texto mantem-se.

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