quinta-feira, 23 de novembro de 2023

ALFACE

 


O PORTUGUÊS DO ALFACE

 

Para além de alguns leitores indefectíveis, creio que Alface está um pouco esquecido. A prova disso – se, para isso, é necessário prova – é que os seus livros estão todos esgotados e só se encontram em alguns alfarrabistas.

Provavelmente, tal sucede, porque o seu humor e a sua brejeirice são hoje considerados “ideologicamente incorrectos”. Mas é pena, porque Alface é, quase sempre, um admirável estilista e consegue dar um “tratamento” à nossa língua muito pessoal.

Acabei de ler um livro de histórias (contos?), intitulado “O Fim das Bichas” (e com o subtítulo, bem característico do seu humor, “é o princípio das filas”), numa edição muito cuidada e bonita da “Fenda”.

Lá encontrei algumas “pérolas” que aconselho a quem gosta de ler um português bem “burilado” e, ao mesmo tempo, capaz de seduzir e divertir.

Mas há uma para a qual gostaria de chamar a atenção. Chama-se “Por Baixo” e trata (?) de uma realidade que só apenas a minha geração, e aquelas que a antecederam, conheceu: a recruta no período em que o serviço militar era obrigatório. E, em particular, o serviço de recruta “para alferes” na Tapada de Mafra (não é que eu tenha lá “batido com os costados”, mas ouvi e sei tantas histórias de quem por nela andou, e “gravaram-se” de tal forma na minha memória, que parece que as “visualizo” como se por lá tivesse passado).

É magnífica a prosa com que descreve o cerco de humilhações e de sevícias, as torpes bravatas dos medíocres “superiores”, os truques quase infantis com que se procurava “escapar” aos maus tratos e às inevitáveis equimoses emocionais com que de lá se saía, já “formado” e “adulto”. Procurem ler e decerto que irão constatar, como eu, que o português do Alface é modelar na forma como “espelha” o carácter abominável daquele universo de mesquinhez castrense.

A obra apresenta uma “ficha de autor” que, após descrever, na terceira pessoa do singular, de forma absolutamente convencional, alguns dados biográficos, termina com uma frase que procura caracterizar o modo de estar do escritor: “Vive com facilidade.”

Segundo rezam as crónicas, Alface faleceu precocemente, e de um modo súbito, numa sessão pública de leitura e análise dos seus textos. Espera-se, e digo-o com macabra ironia, que se tenha finado com a mesma “facilidade” com que viveu.

Porque desconfio que ele não gostaria, não publico uma foto do seu rosto. Mas da capa do livro que li.   

 

Julho de 2018

 

Nota: Já depois de ter publicado este texto, vim a saber que a Teresa Carvalho publicou um livro sobre o autor, intitulado “Alface. Levantar As Saias Ao Diabo” (Maldoror, 2017) e que a mesma editora reeditou a colectânea de contos “Cuidado Com Os Rapazes”. Mas, no essencial, a fundamentação deste texto mantem-se.


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