segunda-feira, 8 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”


 

I

Uma Escola de Virtudes

 

A leitura da obra de certos autores leva-nos a reflectir sobre o sentido e o valor da transgressão na literatura. Ou melhor, na criação artística.

Habitualmente, quando se fala em transgressão na criação artística, está a contextualizar-se uma obra em quadros éticos e, eventualmente, estéticos.

Só que, na minha perspectiva, no contexto estético, é mais correcto falar em superação do que em transgressão, pois que, a partir do romantismo, e de uma forma mais vincada a partir do(s) modernismo(s), a orientação dominante foi a da superação dos cânones e modelos estéticos vigentes. Por isso mesmo, creio que o termo transgressão tem mais sentido no registo ético.

Esta distinção parece ainda mais evidente quando se tem em consideração que, ao contrário da orientação programática de superação dos cânones e dos modelos estéticos vigentes, a transgressão ao nível ético não tem sentido como programa.

Ora, a transgressão ao nível ético é antes uma resultante da afirmação compulsiva de desejos e pulsões do criador que, aproveitando a liberdade concedida e determinada pela orientação estética da criação artística, resolve manifestá-los através da sua obra. É esta liberdade que permite ao criador artístico colocar a sua obra fora dos campos da moral dominante, ou até, para utilizar uma terminologia mais actual, para afrontar o “politicamente correcto”. Se regressarmos ao universo literário, foi essa determinação do referencial estético que deu liberdade a escritores, como, por exemplo, Sade, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Joyce, Lawrence, Céline, Genet ou Nabokov, de se colocarem num paradigma de valoração ética exterior ao da moral dominante, garantindo, de qualquer modo, que as suas obras fossem reconhecidas pelo seu poder criativo. E, por isso mesmo, transmitam a imagem de ser únicas e soberanas.

Por outras palavras: a arte (e, em concreto, a literatura) não transgride; ela é, pela sua própria natureza, transgressiva. No entanto, este estatuto da criação artística não determina que uma obra tenha uma explícita dimensão transgressora, visto que é a sua própria orientação estética que a situa nesses parâmetros.

No entanto, não se pode afirmar que a arte, como acto criativo (e comunicacional) dos indivíduos, não tenha, inerente a cada obra, um estatuto moral; mas antes que este se manifesta, como nos restantes actos individuais, numa relação tensa com a moral social.

A criação artística, como qualquer outra manifestação humana individual, arquitectando o seu próprio código moral, estará sempre em permanente tensão (para não dizer conflito) com a sociedade, entendendo-se esta como uma unidade orgânica e estruturada por uma rede consistente de normas que, numa determinada conjuntura histórica, reflectem as convenções sociais dominantes.

Entende-se assim porque é que a criação artística em geral não é, nem pode ser, consensual. Para utilizar uma terminologia na moda, a arte sempre será mais ou menos fracturante, no sentido mais profundo do termo, isto é, estará sempre em confronto com as convenções sociais, tanto em termos estéticos como éticos.

Por isso mesmo, é que a arte, e em particular a literatura, nunca foi, nem pretendeu ser, uma escola de virtudes. Pelo contrário. E compreende-se por que, de uma forma ou de outra, sempre deu origem ao seu rol de vítimas. Antes do mais, entre os próprios artistas.

É evidente que qualquer obra artística se apresenta como um todo, numa aglutinação de diversas componentes que, mesmo que orientadas pela componente estética, podem e devem ser avaliadas e analisadas. Por isso, é absolutamente legítimo que sejam confrontadas em termos ideológicos. A sociedade procurará sempre defender-se de qualquer “ataque”, inclusive os da produção artística, que considere que afecte o seu percurso ou o seu modelo de organização. Mas essa defesa deverá ser sempre ao nível do debate e não de qualquer acto censório ou condicionante da afirmação estética da criação artística, porque, para isso, não tem legitimidade e deve ser denunciado por quem defende a soberania e a autonomia do acto criativo.

No caso concreto da literatura, que se distingue no universo artístico pela sua forte tónica na narratividade e na argumentação, compreende-se que seja mais chamada ao confronto ideológico. Mas deve ter-se em consideração nesse confronto que a matriz essencial do acto literário está no domínio estético (ou poético), sendo este o referencial determinante na análise do todo que é uma obra.


Foto de Gean Genet de "Die Sonne des Bösen - Kultur - Tagesspiegel"

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