I
Uma Escola de Virtudes
A leitura da obra de certos autores
leva-nos a reflectir sobre o sentido e o valor da transgressão na literatura.
Ou melhor, na criação artística.
Habitualmente, quando se fala em
transgressão na criação artística, está a contextualizar-se uma obra em quadros
éticos e, eventualmente, estéticos.
Só que, na minha perspectiva, no
contexto estético, é mais correcto falar em superação do que em transgressão,
pois que, a partir do romantismo, e de uma forma mais vincada a partir do(s)
modernismo(s), a orientação dominante foi a da superação dos cânones e modelos
estéticos vigentes. Por isso mesmo, creio que o termo transgressão tem mais
sentido no registo ético.
Esta distinção parece ainda mais
evidente quando se tem em consideração que, ao contrário da orientação
programática de superação dos cânones e dos modelos estéticos vigentes, a
transgressão ao nível ético não tem sentido como programa.
Ora, a transgressão ao nível ético é
antes uma resultante da afirmação compulsiva de desejos e pulsões do criador
que, aproveitando a liberdade concedida e determinada pela orientação estética
da criação artística, resolve manifestá-los através da sua obra. É esta liberdade
que permite ao criador artístico colocar a sua obra fora dos campos da moral
dominante, ou até, para utilizar uma terminologia mais actual, para afrontar o
“politicamente correcto”. Se regressarmos ao universo literário, foi essa
determinação do referencial estético que deu liberdade a escritores, como, por
exemplo, Sade, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Joyce, Lawrence, Céline, Genet
ou Nabokov, de se colocarem num paradigma de valoração ética exterior ao da
moral dominante, garantindo, de qualquer modo, que as suas obras fossem
reconhecidas pelo seu poder criativo. E, por isso mesmo, transmitam a imagem de
ser únicas e soberanas.
Por outras palavras: a arte (e, em
concreto, a literatura) não transgride; ela é, pela sua própria natureza,
transgressiva. No entanto, este estatuto da criação artística não determina que
uma obra tenha uma explícita dimensão transgressora, visto que é a sua própria
orientação estética que a situa nesses parâmetros.
No entanto, não se pode afirmar que a
arte, como acto criativo (e comunicacional) dos indivíduos, não tenha, inerente
a cada obra, um estatuto moral; mas antes que este se manifesta, como nos
restantes actos individuais, numa relação tensa com a moral social.
A criação artística, como qualquer
outra manifestação humana individual, arquitectando o seu próprio código moral,
estará sempre em permanente tensão (para não dizer conflito) com a sociedade, entendendo-se esta como uma unidade
orgânica e estruturada por uma rede consistente de normas que, numa determinada
conjuntura histórica, reflectem as convenções sociais dominantes.
Entende-se assim porque é que a
criação artística em geral não é, nem pode ser, consensual. Para utilizar uma
terminologia na moda, a arte sempre será mais ou menos fracturante, no sentido
mais profundo do termo, isto é, estará sempre em confronto com as convenções
sociais, tanto em termos estéticos como éticos.
Por isso mesmo, é que a arte, e em
particular a literatura, nunca foi, nem pretendeu ser, uma escola de virtudes.
Pelo contrário. E compreende-se por que, de uma forma ou de outra, sempre deu
origem ao seu rol de vítimas. Antes do mais, entre os próprios artistas.
É evidente que qualquer obra
artística se apresenta como um todo, numa aglutinação de diversas componentes
que, mesmo que orientadas pela componente estética, podem e devem ser avaliadas
e analisadas. Por isso, é absolutamente legítimo que sejam confrontadas em
termos ideológicos. A sociedade procurará sempre defender-se de qualquer
“ataque”, inclusive os da produção artística, que considere que afecte o seu
percurso ou o seu modelo de organização. Mas essa defesa deverá ser sempre ao
nível do debate e não de qualquer acto censório ou condicionante da afirmação
estética da criação artística, porque, para isso, não tem legitimidade e deve
ser denunciado por quem defende a soberania e a autonomia do acto criativo.
No caso concreto da literatura, que
se distingue no universo artístico pela sua forte tónica na narratividade e na
argumentação, compreende-se que seja mais chamada ao confronto ideológico. Mas
deve ter-se em consideração nesse confronto que a matriz essencial do acto
literário está no domínio estético (ou poético), sendo este o referencial determinante na análise do todo que é uma obra.
Foto de Gean Genet de "Die Sonne des Bösen - Kultur - Tagesspiegel"

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