Reforçar Os Pilares Da Ponte – 4
É neste registo de criar maior
visibilidade à criação literária que deve ser também entendida a importância
dos festivais literários e das feiras do livro (que são habitualmente
acompanhadas por realizações, mais ou menos conseguidas, de promoção da
leitura). Mesmo tendo em consideração que remetem ou posicionam o escritor num
papel que não é o seu, condicionando à sua capacidade performativa o
reconhecimento da sua obra, os festivais literários têm o mérito, não só de
concretizarem a alvejada (e reconhecida como gratificante) proximidade entre o
autor e o leitor, mas também de contribuírem, em consequência da sua
visibilidade mediática, para a referida “ambiência social” propícia à leitura e
à literatura.
Em Portugal, nos últimos anos e de
uma forma quase súbita, apareceram inúmeros festivais literários, todos eles
concebidos e concretizados por parte do poder local. Estas iniciativas visam
claramente dois objectivos: por um lado, promover a literacia e o gosto pela
literatura entre os seus munícipes (e não só); por outro, dar visibilidade ao
seu concelho, através de uma iniciativa cultural que atraísse a comunicação
social e o destacasse no conjunto dos restantes municípios. O problema foi que
esta súbita proliferação de festivais quebrou esta visibilidade e a capacidade
de captação da comunicação social. E esta situação levou a que muitos
concelhos, principalmente naqueles em que o segundo objectivo se sobrepunha
distintamente em relação ao primeiro, se desmotivassem, quebrando o
investimento necessário para que ele se realizasse de forma condigna ou até que
os levasse a desistir desta iniciativa. Daí que este “interesse” pelos
festivais literários por parte do poder local tenha dado a imagem de ser um
fenómeno de moda e não tanto de ser uma genuína forma de promover a literacia e
de paixão pela actividade literária.
Por tudo isto, a constituição de uma
rede de festivais literários, bem definida pela sua estruturação e de significativa
consistência, deveria ser ponderada e apoiada, com critérios precisos, como
sucede um pouco por toda a Europa, por parte dos organismos da administração
central que têm responsabilidades estratégicas nas políticas públicas de
promoção das literacias e da literatura, não deixando esse ónus apenas para o
poder local. Esta opção poderia reforçar a qualidade e a relevância da
programação destes festivais, principalmente pela garantia de uma remuneração
mais aceitável para todos os agentes que neles participam, dando-lhe uma escala
nacional e até internacional e não apenas local.
Porque não
se tenha dúvidas: mesmo que se preconize, ou se considere inevitável, um
posicionamento mais “elitista” para a actividade literária, consentâneo com o
seu caracter minoritário, a sustentabilidade social desta actividade continua a
ser determinante para que continue a estimular o aparecimento de autores e
obras que consigam responder com criatividade às problemáticas dos novos tempos
e às actuais formas de sentir, pensar e estar. Não é admissível considerar que
a pujança e relevância de uma literatura sejam apenas resultantes do mérito das
obras que se vão publicando, pois, pensar deste modo, é condenar a actividade
literária a um definhamento social gradual que, como já referi, não levará ao
seu desaparecimento, mas a um constante e duradoiro confinamento, perdendo cada
vez mais significado o seu papel no equilíbrio harmonioso do mundo, como espaço
e forma de afirmação ontológica, de recriação e representação do Lugar, de
aproximação ao Outro.

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