segunda-feira, 22 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


 Reforçar Os Pilares Da Ponte – 4

 

É neste registo de criar maior visibilidade à criação literária que deve ser também entendida a importância dos festivais literários e das feiras do livro (que são habitualmente acompanhadas por realizações, mais ou menos conseguidas, de promoção da leitura). Mesmo tendo em consideração que remetem ou posicionam o escritor num papel que não é o seu, condicionando à sua capacidade performativa o reconhecimento da sua obra, os festivais literários têm o mérito, não só de concretizarem a alvejada (e reconhecida como gratificante) proximidade entre o autor e o leitor, mas também de contribuírem, em consequência da sua visibilidade mediática, para a referida “ambiência social” propícia à leitura e à literatura.

Em Portugal, nos últimos anos e de uma forma quase súbita, apareceram inúmeros festivais literários, todos eles concebidos e concretizados por parte do poder local. Estas iniciativas visam claramente dois objectivos: por um lado, promover a literacia e o gosto pela literatura entre os seus munícipes (e não só); por outro, dar visibilidade ao seu concelho, através de uma iniciativa cultural que atraísse a comunicação social e o destacasse no conjunto dos restantes municípios. O problema foi que esta súbita proliferação de festivais quebrou esta visibilidade e a capacidade de captação da comunicação social. E esta situação levou a que muitos concelhos, principalmente naqueles em que o segundo objectivo se sobrepunha distintamente em relação ao primeiro, se desmotivassem, quebrando o investimento necessário para que ele se realizasse de forma condigna ou até que os levasse a desistir desta iniciativa. Daí que este “interesse” pelos festivais literários por parte do poder local tenha dado a imagem de ser um fenómeno de moda e não tanto de ser uma genuína forma de promover a literacia e de paixão pela actividade literária.    

Por tudo isto, a constituição de uma rede de festivais literários, bem definida pela sua estruturação e de significativa consistência, deveria ser ponderada e apoiada, com critérios precisos, como sucede um pouco por toda a Europa, por parte dos organismos da administração central que têm responsabilidades estratégicas nas políticas públicas de promoção das literacias e da literatura, não deixando esse ónus apenas para o poder local. Esta opção poderia reforçar a qualidade e a relevância da programação destes festivais, principalmente pela garantia de uma remuneração mais aceitável para todos os agentes que neles participam, dando-lhe uma escala nacional e até internacional e não apenas local.   

Porque não se tenha dúvidas: mesmo que se preconize, ou se considere inevitável, um posicionamento mais “elitista” para a actividade literária, consentâneo com o seu caracter minoritário, a sustentabilidade social desta actividade continua a ser determinante para que continue a estimular o aparecimento de autores e obras que consigam responder com criatividade às problemáticas dos novos tempos e às actuais formas de sentir, pensar e estar. Não é admissível considerar que a pujança e relevância de uma literatura sejam apenas resultantes do mérito das obras que se vão publicando, pois, pensar deste modo, é condenar a actividade literária a um definhamento social gradual que, como já referi, não levará ao seu desaparecimento, mas a um constante e duradoiro confinamento, perdendo cada vez mais significado o seu papel no equilíbrio harmonioso do mundo, como espaço e forma de afirmação ontológica, de recriação e representação do Lugar, de aproximação ao Outro.

Desconheço a autoria da foto.

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