Os Lugares-comuns - 2
Um outro lugar-comum socialmente
aceite é o que entende a criação literária como uma expressão artística de
baixos custos, principalmente tendo em consideração as outras expressões
artísticas. Pensa-se que, para aquela, basta apenas uns cadernos e umas canetas
(ou um bom computador), enquanto, para as outras, os meios necessários são bem
mais diversificados, com competências técnicas mais complexas, e, por
conseguinte, de custos mais elevados.
Creio que o principal equívoco deste
lugar-comum resulta de se confundir os custos de criação propriamente ditos com
os custos de produção. Esta confusão deriva de se esquecer a especificidade de
cada manifestação artística na sua integração social e se recorrer ao modelo
das manifestações artísticas performativas, onde, de facto, a produção está
estreitamente imbricada com a criação.
Convém ter em consideração que o
encenador (assim como o dramaturgo), o coreógrafo, o realizador de cinema (e o
guionista) ou o músico estão integrados como peças nucleares em estruturas de
produção, e que são estas que procuram viabilizar a sua criatividade através da
procura de públicos e/ou de apoios públicos ou privados que a garantam. Hoje, a
dependência destes criadores artísticos em relação a estas estruturas de
produção, muito incipientes que sejam, é tão vital que se torna quase
impossível pensar subsistir fora delas.
Poder-se-á pensar que o escritor tem
um estatuto mais próximo do dos criadores nos domínios das artes visuais; mas,
mesmo neste caso, convém assinalar, com todos os riscos de estar a meter-me por
seara alheia, o papel decisivo dos galeristas e como estes, através do seu
trabalho promocional e da busca de coleccionadores/investidores em arte, se
aproximam cada vez mais do papel das estruturas de produção das actividades
performativas.
Ora, o criador literário,
teoricamente, não está integrado em nenhuma estrutura de produção.
Teoricamente, porque, cada vez mais, neste aspecto, têm um papel decisivo as
editoras. O princípio ou a ideia de um autor que não esteja vinculado a uma
editora tornou-se quase insustentável ou, pelo menos, muito problemático. Pelo
contrário, qualquer escritor pretende estar associado a uma editora e, se
possível, que esse vínculo seja o mais perene e que abarque toda a sua criação,
tanto passada como futura. E esta posição é comum tanto aos autores que
pretendem ter um estatuto profissionalizado, como por parte daqueles para quem
este objectivo não é fundamental. Por isso, pode-se entender que as editoras
têm, para os escritores, um papel similar ao das estruturas de produção nas
actividades artísticas performativas e aos galeristas para os artistas
plásticos e visuais.
Por isso mesmo, na minha perspectiva,
a hipótese de um autor se dedicar ou não, de forma contínua, ao desenvolvimento
e consolidação da sua obra, está dependente, cada vez mais, do reconhecimento
da sua valia por parte desse “primeiro leitor” que é o editor.
Aliás, na minha opinião, nunca se
analisou exaustivamente o papel determinante que as editoras têm tido, nestes
últimos dois séculos, com a sua aliança sempre tensa com os autores, na
definição dos parâmetros e orientações estéticas da literatura contemporânea.
De facto, ao contrário do que se
pensava no princípio deste século, creio (arriscando-me a fazer futurologia,
coisa que dá sempre origem a aparatosos erros) que o editor irá ter cada vez
mais, nos nossos tempos, uma função nuclear, ganhando, se possível, uma maior
relevância no universo literário.
É certo que se tinha receio, por um
lado, do estatuto cada vez mais relevante dos gestores de empresas nas
editoras, colocando os editores na sua dependência, e, por outro, em
consequência do desenvolvimento dos meios tecnológicos e da diminuição dos
custos de produção, do papel da auto-edição, que se previa que iria
reforçar-se, gerando o esvaziamento do papel do editor e levando gradualmente
ao seu desaparecimento.
Mas é indiscutível que a demarcação
das funções de gestão empresarial das do editor propriamente dito segue a linha
da especialização de tarefas que decorre desde sempre no mundo da edição
literária; e os próprios empresários/investidores, depois de um momento de
titubeamento e de hesitação, em que, naturalmente, enfatizaram a informação
obtida pelos seus departamentos comerciais, perceberam gradualmente a
importância dos editores literários (chamamos-lhe assim para entender as suas
funções) na caracterização dos contornos das chancelas de que são responsáveis,
compreendendo a sua dimensão criativa na definição do seu catálogo e como esta
é decisiva para a fidelização de um público leitor.
Por outro lado, o desenvolvimento dos
meios tecnológicos levou não tanto à expansão da auto-edição (que rapidamente
foi desconsiderada pelo leitor, já que a falta de uma criteriosa selecção e de
um acompanhamento editorial, levou esta a encher os escaparates de uma massa de
material impresso de uma asfixiante mediocridade), mas principalmente ao
aparecimento e desenvolvimento de micro e pequenas empresas editoriais, com
condicionalismos de gestão menos acentuados, o que permitiu ao editor efectuar
tiragens mais reduzidas e mais adequadas ao(s) público(s)-alvo, com baixos
custos de investimento e com uma distribuição mais leve e menos dispendiosa.
Esta solução facilitou que o editor reforçasse a já referida componente
criativa na definição do seu catálogo, enfatizando a orientação literária do
material que produzia, de acordo com os seus critérios estéticos e ideológicos.
Por isso mesmo, o editor literário passou a ter, nestas micro e pequenas
empresas, ainda mais margem para seleccionar os autores e as obras de acordo
com as suas orientações literárias, levando a que os escritores volitem como um
enxame em redor da abelha-mestra (o editor), dando origem a um fenómeno
literário mais ou menos tribal, que é, esse sim, não só novo no universo da
literatura, como tem caracterizado a sua recente estruturação.
As contradições e os limites desta
solução editorial parecem-me evidentes; já as consequências, a curto e a médio
prazo, para a criação literária e para a literacia se apresentam de forma mais
nebulosa e indefinida. (Mas não resisto à tentação de arriscar uma hipótese: o
reforço gradual da vinculação do leitor ao editor, considerando-o como um
referente determinante em termos estéticos e literários, atenuando-se mais a
relação comum e habitual entre o leitor e o autor - como contraponto à já
referida relação mais ou menos tribal entre escritor e editor).
Já parece-me de todo evidente, porque
já não tem futurologia nenhuma, que este modelo editorial não permite, como é
inevitável, uma remuneração do autor que seja satisfatória. Os valores
resultantes deste modelo editorial, dadas as diminutas tiragens e a frágil
comercialização, são irrisórios para não dizer nulos. Muitas vezes revestem
apenas uma remuneração “em género”, isto é, em alguns exemplares da tiragem
que, por sua vez, o escritor pode directamente vender e colocar no mercado. No
essencial, a satisfação do autor deriva apenas do facto de tornar pública a sua
obra (aproximando-se assim dos objectivos obtidos com a auto-edição, com a
diferença de que aqui a publicação da obra é acompanhada por um reconhecimento
criterioso do editor, de um “tratamento” editorial mais profissionalizado e da
sua canalização para o circuito comercial e para a comunicação social através
das relações instituídas e mais constantes do editor). Parece-me indiscutível
que este modelo editorial irá criar, a curto e a médio prazo, uma situação de
impasse por falta de remuneração condigna do autor e irá enfatizar a ilusória e
errónea ideia, já generalizada socialmente, de que a literatura é uma arte
ultrapassada e sem futuro, desviando os jovens criadores (principalmente
estes), para outras manifestações artísticas mais compensatórias em termos de
remuneração e de projecção pública do seu trabalho.

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