terça-feira, 16 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 

 Os Lugares-comuns - 2

Um outro lugar-comum socialmente aceite é o que entende a criação literária como uma expressão artística de baixos custos, principalmente tendo em consideração as outras expressões artísticas. Pensa-se que, para aquela, basta apenas uns cadernos e umas canetas (ou um bom computador), enquanto, para as outras, os meios necessários são bem mais diversificados, com competências técnicas mais complexas, e, por conseguinte, de custos mais elevados.

Creio que o principal equívoco deste lugar-comum resulta de se confundir os custos de criação propriamente ditos com os custos de produção. Esta confusão deriva de se esquecer a especificidade de cada manifestação artística na sua integração social e se recorrer ao modelo das manifestações artísticas performativas, onde, de facto, a produção está estreitamente imbricada com a criação.

Convém ter em consideração que o encenador (assim como o dramaturgo), o coreógrafo, o realizador de cinema (e o guionista) ou o músico estão integrados como peças nucleares em estruturas de produção, e que são estas que procuram viabilizar a sua criatividade através da procura de públicos e/ou de apoios públicos ou privados que a garantam. Hoje, a dependência destes criadores artísticos em relação a estas estruturas de produção, muito incipientes que sejam, é tão vital que se torna quase impossível pensar subsistir fora delas.

Poder-se-á pensar que o escritor tem um estatuto mais próximo do dos criadores nos domínios das artes visuais; mas, mesmo neste caso, convém assinalar, com todos os riscos de estar a meter-me por seara alheia, o papel decisivo dos galeristas e como estes, através do seu trabalho promocional e da busca de coleccionadores/investidores em arte, se aproximam cada vez mais do papel das estruturas de produção das actividades performativas. 

Ora, o criador literário, teoricamente, não está integrado em nenhuma estrutura de produção. Teoricamente, porque, cada vez mais, neste aspecto, têm um papel decisivo as editoras. O princípio ou a ideia de um autor que não esteja vinculado a uma editora tornou-se quase insustentável ou, pelo menos, muito problemático. Pelo contrário, qualquer escritor pretende estar associado a uma editora e, se possível, que esse vínculo seja o mais perene e que abarque toda a sua criação, tanto passada como futura. E esta posição é comum tanto aos autores que pretendem ter um estatuto profissionalizado, como por parte daqueles para quem este objectivo não é fundamental. Por isso, pode-se entender que as editoras têm, para os escritores, um papel similar ao das estruturas de produção nas actividades artísticas performativas e aos galeristas para os artistas plásticos e visuais.

Por isso mesmo, na minha perspectiva, a hipótese de um autor se dedicar ou não, de forma contínua, ao desenvolvimento e consolidação da sua obra, está dependente, cada vez mais, do reconhecimento da sua valia por parte desse “primeiro leitor” que é o editor.

Aliás, na minha opinião, nunca se analisou exaustivamente o papel determinante que as editoras têm tido, nestes últimos dois séculos, com a sua aliança sempre tensa com os autores, na definição dos parâmetros e orientações estéticas da literatura contemporânea.

De facto, ao contrário do que se pensava no princípio deste século, creio (arriscando-me a fazer futurologia, coisa que dá sempre origem a aparatosos erros) que o editor irá ter cada vez mais, nos nossos tempos, uma função nuclear, ganhando, se possível, uma maior relevância no universo literário. 

É certo que se tinha receio, por um lado, do estatuto cada vez mais relevante dos gestores de empresas nas editoras, colocando os editores na sua dependência, e, por outro, em consequência do desenvolvimento dos meios tecnológicos e da diminuição dos custos de produção, do papel da auto-edição, que se previa que iria reforçar-se, gerando o esvaziamento do papel do editor e levando gradualmente ao seu desaparecimento.

Mas é indiscutível que a demarcação das funções de gestão empresarial das do editor propriamente dito segue a linha da especialização de tarefas que decorre desde sempre no mundo da edição literária; e os próprios empresários/investidores, depois de um momento de titubeamento e de hesitação, em que, naturalmente, enfatizaram a informação obtida pelos seus departamentos comerciais, perceberam gradualmente a importância dos editores literários (chamamos-lhe assim para entender as suas funções) na caracterização dos contornos das chancelas de que são responsáveis, compreendendo a sua dimensão criativa na definição do seu catálogo e como esta é decisiva para a fidelização de um público leitor.

Por outro lado, o desenvolvimento dos meios tecnológicos levou não tanto à expansão da auto-edição (que rapidamente foi desconsiderada pelo leitor, já que a falta de uma criteriosa selecção e de um acompanhamento editorial, levou esta a encher os escaparates de uma massa de material impresso de uma asfixiante mediocridade), mas principalmente ao aparecimento e desenvolvimento de micro e pequenas empresas editoriais, com condicionalismos de gestão menos acentuados, o que permitiu ao editor efectuar tiragens mais reduzidas e mais adequadas ao(s) público(s)-alvo, com baixos custos de investimento e com uma distribuição mais leve e menos dispendiosa. Esta solução facilitou que o editor reforçasse a já referida componente criativa na definição do seu catálogo, enfatizando a orientação literária do material que produzia, de acordo com os seus critérios estéticos e ideológicos. Por isso mesmo, o editor literário passou a ter, nestas micro e pequenas empresas, ainda mais margem para seleccionar os autores e as obras de acordo com as suas orientações literárias, levando a que os escritores volitem como um enxame em redor da abelha-mestra (o editor), dando origem a um fenómeno literário mais ou menos tribal, que é, esse sim, não só novo no universo da literatura, como tem caracterizado a sua recente estruturação.

As contradições e os limites desta solução editorial parecem-me evidentes; já as consequências, a curto e a médio prazo, para a criação literária e para a literacia se apresentam de forma mais nebulosa e indefinida. (Mas não resisto à tentação de arriscar uma hipótese: o reforço gradual da vinculação do leitor ao editor, considerando-o como um referente determinante em termos estéticos e literários, atenuando-se mais a relação comum e habitual entre o leitor e o autor - como contraponto à já referida relação mais ou menos tribal entre escritor e editor).

Já parece-me de todo evidente, porque já não tem futurologia nenhuma, que este modelo editorial não permite, como é inevitável, uma remuneração do autor que seja satisfatória. Os valores resultantes deste modelo editorial, dadas as diminutas tiragens e a frágil comercialização, são irrisórios para não dizer nulos. Muitas vezes revestem apenas uma remuneração “em género”, isto é, em alguns exemplares da tiragem que, por sua vez, o escritor pode directamente vender e colocar no mercado. No essencial, a satisfação do autor deriva apenas do facto de tornar pública a sua obra (aproximando-se assim dos objectivos obtidos com a auto-edição, com a diferença de que aqui a publicação da obra é acompanhada por um reconhecimento criterioso do editor, de um “tratamento” editorial mais profissionalizado e da sua canalização para o circuito comercial e para a comunicação social através das relações instituídas e mais constantes do editor). Parece-me indiscutível que este modelo editorial irá criar, a curto e a médio prazo, uma situação de impasse por falta de remuneração condigna do autor e irá enfatizar a ilusória e errónea ideia, já generalizada socialmente, de que a literatura é uma arte ultrapassada e sem futuro, desviando os jovens criadores (principalmente estes), para outras manifestações artísticas mais compensatórias em termos de remuneração e de projecção pública do seu trabalho.



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