terça-feira, 9 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


A Literatura Como Mercadoria

 

Quando se fala da obra literária como um “bem”, entra-se evidentemente no universo da economia. Ou, por outras palavras, quando se fala da necessidade da multiplicação dos leitores, está-se a falar de mercado, de investimento e do seu retorno, da obra como um valor acrescentado, com possibilidade ou não de obter mais-valias desse investimento, e também da remuneração do seu criador.

Ora, dado o modelo como funciona o canal da edição e da comercialização, em que o criador literário recebe uma percentagem desse mesmo retorno, a questão da remuneração do autor torna-se uma matéria inquestionavelmente relevante e que pode pesar e condicionar na liberdade e na soberania do acto individual de criação.

Porque se se entende o acto literário, como qualquer outro acto artístico, como transgressivo, não consensual, e, por conseguinte, minoritário, esta concepção do acto literário torna-o contraditório com o objectivo da multiplicação dos seus receptores. E se esta dependência da obra em relação ao mercado pode ser um estímulo para o criador, também pode ser (e não são poucas as vezes em que isto sucede) um condicionalismo suficiente para amordaçar o carácter transgressivo da sua obra e levá-lo a procurar consensos que desfiguram o seu acto criador.  

É sabido que as motivações principais de um escritor, ao elaborar a sua obra, não são a remuneração que pode auferir com ela. (Aliás, compreender o quadro de motivações, que impulsiona alguém a dedicar-se à criação literária, poderá ser, se se fugir aos slogans e aos estereótipos, extremamente importante para entender qual o sentido e o significado da literatura). Mas é indiscutível que o criador literário deve receber a sua remuneração na sua qualidade de produtor de um bem. Já, contudo, poderá ser discutível, por tudo o que já referi, que a sua remuneração seja apenas, sublinho o apenas, resultante da multiplicação dos leitores, tal como presentemente sucede.

Da mesma forma, é compreensível que a necessidade de escrever e o princípio de que a última obra nunca será a definitiva levem o escritor a perspectivar a sua profissionalização, isto é, a dedicação exclusiva à actividade que o define. Contudo, já a noção de carreira, associada à criação literária, é desajustada (e contraproducente), uma vez que nesta nada existe de similar a outras actividades profissionais, tais como, por exemplo, a de um médico ou a de um professor, pois não há, de facto, uma progressão. Aliás, no actual modelo em que funciona o mercado, assente fundamentalmente na novidade editorial, nem o número de obras, já escritas e publicadas, dá garantias ao escritor de que a sua última obra não seja encarada como se a fosse a primeira (mesmo que já tenha adquirido algum reconhecimento social). O facto, que comprova esta situação, é que são poucos os casos dos escritores que, com a publicação de uma segunda ou terceira obra, obtêm uma percentagem maior de direitos com estas obras. 

Mas seja-se claro. É evidente que a principal remuneração de um autor deve ser o que consegue auferir com a venda do seu trabalho. Assim é… ou assim deveria ser. Mas também se considera que é importante, em defesa da criatividade literária e da sua soberania, que o autor não esteja totalmente dependente do mercado.

Aliás, na presente conjuntura e até num previsível futuro, essa dependência da remuneração do autor, em relação ao mercado e ao número de exemplares vendidos, irá revelar-se, com o passar dos tempos, irrealista, pois, como se sabe, as tiragens cada vez são mais reduzidas (o desenvolvimento dos meios tecnológicos e a diversidade de suportes tornam cada vez mais irrelevante a dimensão das tiragens*) e o número de leitores tem tendência, há vários anos, a manter-se estável ou até a diminuir. De facto, o aumento da alfabetização e dos níveis culturais da população, e a sua consequente literacia, não se têm reflectido no aumento do número de leitores nem no consumo de livros, já que a oferta cultural é cada vez mais diversificada e os modelos, socialmente estimulados, de ocupação dos tempos livres cada vez mais afastam os consumidores de cultura da leitura. Ora, na nossa perspectiva, estes factos não só penalizam inevitavelmente os escritores, como levarão a fragilizar ainda mais o já de si frágil poder criativo da literatura, com, sem alarmismos, as consequências facilmente profetizáveis para o presente modelo civilizacional.

 

·       *Presentemente, a dimensão da tiragem só tem alguma relevância por motivos de exposição comercial; ou, nos casos de obras com custos elevados de concepção e produção, por necessidade de diluição destes custos numa tiragem maior: é por isso que, por exemplo, e para não sair do universo literário, se torna quase impossível, no actual modelo de edição e comercialização, traduzir e editar obras escritas em línguas não inglesas sem apoios públicos.


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