A Literatura Como Mercadoria
Quando se fala da obra literária como
um “bem”, entra-se evidentemente no universo da economia. Ou, por outras
palavras, quando se fala da necessidade da multiplicação dos leitores, está-se
a falar de mercado, de investimento e do seu retorno, da obra como um valor
acrescentado, com possibilidade ou não de obter mais-valias desse investimento,
e também da remuneração do seu criador.
Ora, dado o modelo como funciona o
canal da edição e da comercialização, em que o criador literário recebe uma
percentagem desse mesmo retorno, a questão da remuneração do autor torna-se uma
matéria inquestionavelmente relevante e que pode pesar e condicionar na
liberdade e na soberania do acto individual de criação.
Porque se se entende o acto
literário, como qualquer outro acto artístico, como transgressivo, não
consensual, e, por conseguinte, minoritário, esta concepção do acto literário
torna-o contraditório com o objectivo da multiplicação dos seus receptores. E
se esta dependência da obra em relação ao mercado pode ser um estímulo para o
criador, também pode ser (e não são poucas as vezes em que isto sucede) um
condicionalismo suficiente para amordaçar o carácter transgressivo da sua obra
e levá-lo a procurar consensos que desfiguram o seu acto criador.
É sabido que as motivações principais
de um escritor, ao elaborar a sua obra, não são a remuneração que pode auferir
com ela. (Aliás, compreender o quadro de motivações, que impulsiona alguém a
dedicar-se à criação literária, poderá ser, se se fugir aos slogans e aos
estereótipos, extremamente importante para entender qual o sentido e o
significado da literatura). Mas é indiscutível que o criador literário deve
receber a sua remuneração na sua qualidade de produtor de um bem. Já, contudo,
poderá ser discutível, por tudo o que já referi, que a sua remuneração seja
apenas, sublinho o apenas, resultante da multiplicação dos leitores, tal como
presentemente sucede.
Da mesma forma, é compreensível que a
necessidade de escrever e o princípio de que a última obra nunca será a
definitiva levem o escritor a perspectivar a sua profissionalização, isto é, a
dedicação exclusiva à actividade que o define. Contudo, já a noção de carreira,
associada à criação literária, é desajustada (e contraproducente), uma vez que
nesta nada existe de similar a outras actividades profissionais, tais como, por
exemplo, a de um médico ou a de um professor, pois não há, de facto, uma progressão. Aliás, no actual modelo em que
funciona o mercado, assente fundamentalmente na novidade editorial, nem o
número de obras, já escritas e publicadas, dá garantias ao escritor de que a sua
última obra não seja encarada como se a fosse a primeira (mesmo que já tenha adquirido
algum reconhecimento social). O facto, que comprova esta situação, é que são
poucos os casos dos escritores que, com a publicação de uma segunda ou terceira
obra, obtêm uma percentagem maior de direitos com estas obras.
Mas seja-se claro. É evidente que a
principal remuneração de um autor deve ser o que consegue auferir com a venda
do seu trabalho. Assim é… ou assim deveria ser. Mas também se considera que é
importante, em defesa da criatividade literária e da sua soberania, que o autor
não esteja totalmente dependente do mercado.
Aliás, na presente conjuntura e até
num previsível futuro, essa dependência da remuneração do autor, em relação ao
mercado e ao número de exemplares vendidos, irá revelar-se, com o passar dos tempos,
irrealista, pois, como se sabe, as tiragens cada vez são mais reduzidas (o
desenvolvimento dos meios tecnológicos e a diversidade de suportes tornam cada
vez mais irrelevante a dimensão das tiragens*) e o número de leitores tem
tendência, há vários anos, a manter-se estável ou até a diminuir. De facto, o
aumento da alfabetização e dos níveis culturais da população, e a sua
consequente literacia, não se têm reflectido no aumento do número de leitores
nem no consumo de livros, já que a oferta cultural é cada vez mais diversificada
e os modelos, socialmente estimulados, de ocupação dos tempos livres cada vez
mais afastam os consumidores de cultura da leitura. Ora, na nossa perspectiva, estes factos não só penalizam inevitavelmente
os escritores, como levarão a fragilizar ainda mais o já de si frágil poder
criativo da literatura, com, sem alarmismos, as consequências facilmente
profetizáveis para o presente modelo civilizacional.
· *Presentemente, a dimensão da tiragem
só tem alguma relevância por motivos de exposição comercial; ou, nos casos de
obras com custos elevados de concepção e produção, por necessidade de diluição
destes custos numa tiragem maior: é por isso que, por exemplo, e para não sair
do universo literário, se torna quase impossível, no actual modelo de edição e comercialização,
traduzir e editar obras escritas em línguas não inglesas sem apoios públicos.

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