IV
Os Lugares-comuns – 1
Creio que é determinante, para
compreender a actual situação da literatura, perceber alguns lugares-comuns com
que a sociedade a encara.
Um dos lugares-comuns que rodeia a
literatura é a ideia, já acima referida, de que é inevitável a sua dependência
em relação ao mercado e que este facto é até aceitável e… benéfico. E a
fundamentação é simples: se o leitor é o agente que dá sentido à obra
literária, é natural que o reconhecimento social da mesma (confundindo-o muitas
vezes, de forma intencional e profundamente errónea, com mérito literário) seja
reflexo deste interesse e, por conseguinte, a remuneração do escritor seja
proporcional ao número de leitores que a obra obtém.
Convém, no entanto, ter presente que
a única inevitabilidade da literatura é a necessidade da sua publicação. Pode
suceder que passem décadas ou séculos entre o momento da criação de uma obra e
o da sua publicação, mas o seu estatuto literário só nasce de facto no momento
em que encontra um leitor.
Um dos motivos que origina o equívoco
deste lugar-comum é a confusão, como já se assinalou, entre o Leitor, como
figura abstracta (e destinatário necessário de qualquer obra), e a entidade
concreta e circunstanciada que abre e lê uma obra literária. Ora, este equívoco
está a esquecer que toda a obra literária é acolhida por todo um conjunto de
entidades, com valências diferentes na sua recepção (a que chamei anteriormente “sistema literário”), e do qual o mercado é apenas uma componente (e
provavelmente nem a mais importante), e que integra a crítica (ou a leitura
especializada), a comunicação social, a academia, as redes de bibliotecas, e
uma plêiade de figuras e personalidades com papel mais ou menos relevante no
conhecimento e divulgação social de uma obra literária. Todas essas entidades
efectuam juízos críticos (estéticos, éticos, ideológicos), mais ou menos
explícitos, na recepção de uma obra e têm um papel significativo para a
existência de um maior ou menor consenso em relação à sua relevância criativa.
Mas mesmo este “sistema literário”, note-se, não pode ser identificado com o
Leitor, como figura necessária para a existência de uma obra, porque também ele
está confinado no espaço e no tempo.
Por isso mesmo, é de todo erróneo (e
até criminoso) confundir o papel do mercado com o do Leitor. Todo o sentido da
obra literária passa por fugir ao universo da circunstância (mesmo que o assuma
esteticamente) e isso é tão valido na esfera do autor como na do leitor.
Há também quem fundamente, em defesa
da inevitabilidade da dependência da literatura em relação ao mercado, com a
história da literatura (“sempre assim foi”). Mas esta argumentação assenta
também em equívocos e em erros.
É importante lembrar que os criadores
literários sempre conseguiram obter outras formas de subsistência, em
particular com o apoio de mecenas públicos e privados, e que estas não foram
apenas fruto da comercialização das suas obras.
Mas principalmente não se tem em consideração que a
dependência da criação literária em relação ao mercado só começou a
estabelecer-se, de forma gradativa, a partir dos finais do séc. XVIII e que a
existência de um mercado livreiro fortemente constituído e universal só ocorreu
já no séc. XX.
Aliás, em relação a este aspecto, talvez seja
esclarecedor observar, com um pouco mais de detalhe (sem saturar com extrema
erudição), como apareceu a figura do editor e principalmente como se constituiu
a relação entre o autor e o editor.
É evidente que a figura do “editor”
remonta ao nascimento do livro impresso. No entanto, só depois de uma evolução
de vários séculos, em que os agentes do livro se foram especializando, conforme
o mercado livreiro se estabelecia, dando origem ao aparecimento do impressor,
impressor/livreiro e do livreiro propriamente dito, é que surgiu de facto o
editor, pelo menos com o perfil que tem nos tempos modernos. Em resumo, a
figura do editor (de livros, note-se), tal como hoje é entendida, remonta às
primeiras décadas do séc. XIX.
As relações entre o autor e o editor,
principalmente o processo de cedência dos direitos do autor de uma obra para
fins comerciais, também foi evoluindo ao ritmo da expansão e consolidação do
mercado livreiro. Assim, depois de uma fase inicial, em que o editor adquiria
estes direitos como qualquer outra prestação de serviços (isto é, “comprava a
obra”, ficando com plenos direitos quanto à forma como a imprimia e a
comercializava), passou-se, quando o comércio livreiro já estava
suficientemente implementado, para o actual modelo contratual, em que o autor
recebe uma remuneração resultante de uma percentagem do preço de capa de venda
ao público, ficando assim o seu montante dependente do número de obras
vendidas. Como é evidente, esta solução tornou inevitável um gradual maior
empenho do autor no processo de comercialização da obra (foi assim que nasceram
as já clássicas “sessões de lançamento” e mais tarde as “tournées”), visto que
obtinha benefícios directos com esse facto.
Saliente-se que esta solução não só
foi do pleno agrado dos intervenientes nesta relação contratual, como gerou uma
nova dinâmica em todo o sistema literário: do editor, pois que, com este
envolvimento do autor, corria menos riscos comerciais; do livreiro, porque
obtinha melhores resultados em termos de vendas; do leitor, porque assim tinha
mais possibilidades de conhecer pessoalmente o ser humano, que muitas vezes
considerava uma figura de excepção, que se encontrava por detrás da obra que o
fascinara e/ou cativara, crente que deste modo obtinha alguma “intimidade” com
ele; das entidades promotoras da leitura e da definição valorativa do
património literário, que assim achavam que seria mais fácil atingir os seus
objectivos; e finalmente do autor, que deste modo rompia com a sua solidão,
passando a conhecer melhor os destinatários das suas obras.
Este envolvimento do autor, que
começou a generalizar-se a partir da II Guerra Mundial, originou uma
reconfiguração da sua existência, levando-o a assumir gradualmente que o seu
trabalho tinha duas fases: o tempo da criação literária propriamente dita e o
tempo da promoção da sua obra, passando a viver a dois ritmos distintos e
antagónicos (de um modo, digamos em abono da verdade, um pouco esquizofrénico).
Assim, o autor passou a ter um duplo papel: não só o de criador, mas também a
de ser uma peça importante, para não dizer determinante, no processo de
marketing da obra que tinha realizado.
Repare-se como, a partir desta fase, o autor está
longe da imagem do criador literário que escreve, de forma soberana e livre,
tal como a definiu Georges Bataille; pelo contrário, o autor passou a estar
activamente empenhado na sua comercialização da sua obra e, consequentemente,
em obter os melhores frutos do seu trabalho no mercado livreiro.
Como é evidente (e natural) todos os
autores, seja qual for a forma como se situam no sistema literário, foram,
gradualmente, considerando este percurso, de maior participação no processo de
conhecimento e divulgação da sua obra, de bom grado. Mas também é evidente,
dados os custos envolvidos e os potenciais benefícios materiais desta sua
participação, que esta tornou-se mais vital para os autores que estão
directamente empenhados numa profissionalização da sua actividade do que para
aqueles que, tendo outras profissões, se dedicam à literatura por “devoção”
(como diria o poeta Manuel António Pina) e em que estes benefícios materiais
não são assim tão determinantes. Em resumo: também aqui se mantiveram os dois
campos em que os escritores se situam em termos literários (veja-se o já
referido) e a sua forma distinta de entender a literatura.
De qualquer modo, hoje é indiscutível
que este modelo de venda de direitos de uma obra, e o consequente empenho
directo do escritor na sua comercialização, foi mais benéfico do que nefasto.
Mas também é inquestionável que retirou tempo e disponibilidade para que o
autor prosseguisse a sua obra literária. Além disso, obrigou o autor a possuir
valências no domínio do performativo (saber falar em público, presença de
palco, carisma, etc.), até aqui não fundamentais nem determinantes no seu
ofício. Mais: levou muitas vezes os seus potenciais leitores a seduzirem-se
mais por esse virtuosismo performativo do que propriamente pela leitura da sua
obra.
Creio, contudo, que fica
compreensível, com esta sintética exposição, que a dependência da literatura em
relação ao mercado não é uma inevitabilidade, mas resultante de um processo
histórico que a maioria dos agentes do livro e da leitura aceitou e considerou
como muito positiva. Por isso mesmo, mais do que um coro de lamentos, contraditório
com um percurso que todos acataram como benéfico, talvez seja mais útil tentar
perspectivar quais os caminhos possíveis para a literatura para não ficar tão
dependente desta relação.
Desconheço a autoria da foto.

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