terça-feira, 16 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


IV

Os Lugares-comuns – 1

Creio que é determinante, para compreender a actual situação da literatura, perceber alguns lugares-comuns com que a sociedade a encara.

Um dos lugares-comuns que rodeia a literatura é a ideia, já acima referida, de que é inevitável a sua dependência em relação ao mercado e que este facto é até aceitável e… benéfico. E a fundamentação é simples: se o leitor é o agente que dá sentido à obra literária, é natural que o reconhecimento social da mesma (confundindo-o muitas vezes, de forma intencional e profundamente errónea, com mérito literário) seja reflexo deste interesse e, por conseguinte, a remuneração do escritor seja proporcional ao número de leitores que a obra obtém.

Convém, no entanto, ter presente que a única inevitabilidade da literatura é a necessidade da sua publicação. Pode suceder que passem décadas ou séculos entre o momento da criação de uma obra e o da sua publicação, mas o seu estatuto literário só nasce de facto no momento em que encontra um leitor.

Um dos motivos que origina o equívoco deste lugar-comum é a confusão, como já se assinalou, entre o Leitor, como figura abstracta (e destinatário necessário de qualquer obra), e a entidade concreta e circunstanciada que abre e lê uma obra literária. Ora, este equívoco está a esquecer que toda a obra literária é acolhida por todo um conjunto de entidades, com valências diferentes na sua recepção (a que chamei anteriormente “sistema literário”), e do qual o mercado é apenas uma componente (e provavelmente nem a mais importante), e que integra a crítica (ou a leitura especializada), a comunicação social, a academia, as redes de bibliotecas, e uma plêiade de figuras e personalidades com papel mais ou menos relevante no conhecimento e divulgação social de uma obra literária. Todas essas entidades efectuam juízos críticos (estéticos, éticos, ideológicos), mais ou menos explícitos, na recepção de uma obra e têm um papel significativo para a existência de um maior ou menor consenso em relação à sua relevância criativa. Mas mesmo este “sistema literário”, note-se, não pode ser identificado com o Leitor, como figura necessária para a existência de uma obra, porque também ele está confinado no espaço e no tempo.

Por isso mesmo, é de todo erróneo (e até criminoso) confundir o papel do mercado com o do Leitor. Todo o sentido da obra literária passa por fugir ao universo da circunstância (mesmo que o assuma esteticamente) e isso é tão valido na esfera do autor como na do leitor.

Há também quem fundamente, em defesa da inevitabilidade da dependência da literatura em relação ao mercado, com a história da literatura (“sempre assim foi”). Mas esta argumentação assenta também em equívocos e em erros.

É importante lembrar que os criadores literários sempre conseguiram obter outras formas de subsistência, em particular com o apoio de mecenas públicos e privados, e que estas não foram apenas fruto da comercialização das suas obras.

Mas principalmente não se tem em consideração que a dependência da criação literária em relação ao mercado só começou a estabelecer-se, de forma gradativa, a partir dos finais do séc. XVIII e que a existência de um mercado livreiro fortemente constituído e universal só ocorreu já no séc. XX.

 Aliás, em relação a este aspecto, talvez seja esclarecedor observar, com um pouco mais de detalhe (sem saturar com extrema erudição), como apareceu a figura do editor e principalmente como se constituiu a relação entre o autor e o editor.

É evidente que a figura do “editor” remonta ao nascimento do livro impresso. No entanto, só depois de uma evolução de vários séculos, em que os agentes do livro se foram especializando, conforme o mercado livreiro se estabelecia, dando origem ao aparecimento do impressor, impressor/livreiro e do livreiro propriamente dito, é que surgiu de facto o editor, pelo menos com o perfil que tem nos tempos modernos. Em resumo, a figura do editor (de livros, note-se), tal como hoje é entendida, remonta às primeiras décadas do séc. XIX.

As relações entre o autor e o editor, principalmente o processo de cedência dos direitos do autor de uma obra para fins comerciais, também foi evoluindo ao ritmo da expansão e consolidação do mercado livreiro. Assim, depois de uma fase inicial, em que o editor adquiria estes direitos como qualquer outra prestação de serviços (isto é, “comprava a obra”, ficando com plenos direitos quanto à forma como a imprimia e a comercializava), passou-se, quando o comércio livreiro já estava suficientemente implementado, para o actual modelo contratual, em que o autor recebe uma remuneração resultante de uma percentagem do preço de capa de venda ao público, ficando assim o seu montante dependente do número de obras vendidas. Como é evidente, esta solução tornou inevitável um gradual maior empenho do autor no processo de comercialização da obra (foi assim que nasceram as já clássicas “sessões de lançamento” e mais tarde as “tournées”), visto que obtinha benefícios directos com esse facto.

Saliente-se que esta solução não só foi do pleno agrado dos intervenientes nesta relação contratual, como gerou uma nova dinâmica em todo o sistema literário: do editor, pois que, com este envolvimento do autor, corria menos riscos comerciais; do livreiro, porque obtinha melhores resultados em termos de vendas; do leitor, porque assim tinha mais possibilidades de conhecer pessoalmente o ser humano, que muitas vezes considerava uma figura de excepção, que se encontrava por detrás da obra que o fascinara e/ou cativara, crente que deste modo obtinha alguma “intimidade” com ele; das entidades promotoras da leitura e da definição valorativa do património literário, que assim achavam que seria mais fácil atingir os seus objectivos; e finalmente do autor, que deste modo rompia com a sua solidão, passando a conhecer melhor os destinatários das suas obras.

Este envolvimento do autor, que começou a generalizar-se a partir da II Guerra Mundial, originou uma reconfiguração da sua existência, levando-o a assumir gradualmente que o seu trabalho tinha duas fases: o tempo da criação literária propriamente dita e o tempo da promoção da sua obra, passando a viver a dois ritmos distintos e antagónicos (de um modo, digamos em abono da verdade, um pouco esquizofrénico). Assim, o autor passou a ter um duplo papel: não só o de criador, mas também a de ser uma peça importante, para não dizer determinante, no processo de marketing da obra que tinha realizado.

 Repare-se como, a partir desta fase, o autor está longe da imagem do criador literário que escreve, de forma soberana e livre, tal como a definiu Georges Bataille; pelo contrário, o autor passou a estar activamente empenhado na sua comercialização da sua obra e, consequentemente, em obter os melhores frutos do seu trabalho no mercado livreiro.

Como é evidente (e natural) todos os autores, seja qual for a forma como se situam no sistema literário, foram, gradualmente, considerando este percurso, de maior participação no processo de conhecimento e divulgação da sua obra, de bom grado. Mas também é evidente, dados os custos envolvidos e os potenciais benefícios materiais desta sua participação, que esta tornou-se mais vital para os autores que estão directamente empenhados numa profissionalização da sua actividade do que para aqueles que, tendo outras profissões, se dedicam à literatura por “devoção” (como diria o poeta Manuel António Pina) e em que estes benefícios materiais não são assim tão determinantes. Em resumo: também aqui se mantiveram os dois campos em que os escritores se situam em termos literários (veja-se o já referido) e a sua forma distinta de entender a literatura.  

De qualquer modo, hoje é indiscutível que este modelo de venda de direitos de uma obra, e o consequente empenho directo do escritor na sua comercialização, foi mais benéfico do que nefasto. Mas também é inquestionável que retirou tempo e disponibilidade para que o autor prosseguisse a sua obra literária. Além disso, obrigou o autor a possuir valências no domínio do performativo (saber falar em público, presença de palco, carisma, etc.), até aqui não fundamentais nem determinantes no seu ofício. Mais: levou muitas vezes os seus potenciais leitores a seduzirem-se mais por esse virtuosismo performativo do que propriamente pela leitura da sua obra.

Creio, contudo, que fica compreensível, com esta sintética exposição, que a dependência da literatura em relação ao mercado não é uma inevitabilidade, mas resultante de um processo histórico que a maioria dos agentes do livro e da leitura aceitou e considerou como muito positiva. Por isso mesmo, mais do que um coro de lamentos, contraditório com um percurso que todos acataram como benéfico, talvez seja mais útil tentar perspectivar quais os caminhos possíveis para a literatura para não ficar tão dependente desta relação.


Desconheço a autoria da foto.

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