II
Em Busca do Leitor
É evidente que Georges Bataille,
quando assinala, em “A Literatura e o Mal”, o acto artístico como um acto
individual soberano e livre, está a enfatizar a sua componente criativa em
relação à sua função comunicacional.
Mas um acto artístico é também
comunicacional e, por isso, como já foi exaustivamente dito e redito, só ganha
sentido com um receptor e, no caso concreto da literatura, com um leitor. A
literatura só existe, de facto, com a presença de um leitor e este torna-se
determinante (e estruturante) para a sua existência.
Ora, esta determinação, ao
transformar inevitavelmente a criação artística num acto social, transforma
também o objecto artístico num “bem” que, como forma de atingir o seu receptor,
tem a possibilidade de ser transaccionável. O mesmo sucede, obviamente, com a
literatura.
Percebe-se assim por que é que a
criação artística vive objectivamente, tal como um junco, no meio da
intempérie. Pois se, por um lado, o facto de ser um acto individual soberano e
livre o aproxima de qualquer homem, dando-lhe uma enorme resiliência, por
outro, o facto de ser um acto social minoritário (não vale a pena
escamoteá-lo), tendo em conta a sua dimensão transgressiva, dá-lhe um carácter
de uma grande fragilidade.
Também se percebe assim melhor como a
sociedade encara o acto artístico. Pois se, em termos genéricos, a sociedade considera
o acto artístico, e em particular a literatura, como um dos seus patrimónios
mais relevantes (é costume assinalar o seu papel civilizacional e, ao nível das
nações, em conjunto com a língua, o seu papel identitário), não esquece também
que o seu peso social será sempre minoritário, retirando assim as consequências
políticas desse estatuto ambivalente. Por isso, se, por um lado, defende, e
bem, a promoção das literacias e destaca a importância da arte como via do
conhecimento do Outro e de redefinição, até em termos emocionais, do lugar de
cada sujeito, por outro, tende a encarar a criação artística como irrelevante
(por vezes, até como não-produtiva), e principalmente os seus criadores como
figuras marginais, desintegradas, com fraca relevância pública.
Regressemos agora a literatura.
Como já referi, o acto social da
criação literária, decorrente da sua necessidade de encontrar um leitor, faz
com que perca toda a sua “pureza” original, como acto criativo individual,
livre e soberano, e se introduza como um “bem” num sistema complexo (a que
tenho chamado sistema literário), onde sobressaem a edição e a
comercialização.
É evidente que todos os agentes que
intervêm neste processo visam o mesmo fim: dar a conhecer uma obra ao seu
destinatário. Mas também é indiscutível que esse objectivo comum não determina
que os seus motivos sejam em tudo semelhantes aos que movem o criador
literário. Os agentes que intervêm no percurso entre a obra e o leitor, em
particular, o editor e o livreiro, têm, naturalmente, outros interesses que
podem ou não coadunar-se com a motivação do autor.
Por outras palavras: a “pureza”
Inicial do acto literário, como matriz primordial da criação artística,
torna-se, no confronto com a sociedade, um quadro utópico. Porque se é verdade
que a literatura só efectivamente existe quando encontra o leitor, a presença
deste receptor obriga o acto literário a transformar-se num bem que o levará a
correr riscos e condicionalismos.
Assim, se é compreensível que o acto
literário, como acto criativo, soberano e livre, não deva ir à procura do
receptor que o legitime, também se entende que é obrigatório que se “abra” à
sua existência e, para isso, tem de “incorporar” os meios necessários para que
seja reconhecido (a edição, a comercialização, a análise crítica e a recepção institucional,
etc.), isto é, tem de inevitavelmente confrontar-se com a sociedade, porque é
esta, para além de o determinar e o condicionar, que o legitima como acto
social, dando-lhe o sentido final.
Um dos potenciais riscos por que
passa a obra literária, no processo de transformação de um acto criativo num
bem social, é o de procurar a multiplicação dos seus receptores, mesmo que esta
não seja uma preocupação prioritária para o criador. É legítimo e inevitável que
o editor, ao efectuar um determinado investimento na publicação de uma obra,
procure ter, se possível, o máximo retorno desse investimento. E, mesmo que
essa não seja a principal preocupação do criador literário, terá que se
sujeitar a esta vontade, desde que pretenda que a sua obra se abra à existência
do leitor.

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