terça-feira, 9 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


II

Em Busca do Leitor

 

É evidente que Georges Bataille, quando assinala, em “A Literatura e o Mal”, o acto artístico como um acto individual soberano e livre, está a enfatizar a sua componente criativa em relação à sua função comunicacional.

Mas um acto artístico é também comunicacional e, por isso, como já foi exaustivamente dito e redito, só ganha sentido com um receptor e, no caso concreto da literatura, com um leitor. A literatura só existe, de facto, com a presença de um leitor e este torna-se determinante (e estruturante) para a sua existência.

Ora, esta determinação, ao transformar inevitavelmente a criação artística num acto social, transforma também o objecto artístico num “bem” que, como forma de atingir o seu receptor, tem a possibilidade de ser transaccionável. O mesmo sucede, obviamente, com a literatura.

Percebe-se assim por que é que a criação artística vive objectivamente, tal como um junco, no meio da intempérie. Pois se, por um lado, o facto de ser um acto individual soberano e livre o aproxima de qualquer homem, dando-lhe uma enorme resiliência, por outro, o facto de ser um acto social minoritário (não vale a pena escamoteá-lo), tendo em conta a sua dimensão transgressiva, dá-lhe um carácter de uma grande fragilidade.

Também se percebe assim melhor como a sociedade encara o acto artístico. Pois se, em termos genéricos, a sociedade considera o acto artístico, e em particular a literatura, como um dos seus patrimónios mais relevantes (é costume assinalar o seu papel civilizacional e, ao nível das nações, em conjunto com a língua, o seu papel identitário), não esquece também que o seu peso social será sempre minoritário, retirando assim as consequências políticas desse estatuto ambivalente. Por isso, se, por um lado, defende, e bem, a promoção das literacias e destaca a importância da arte como via do conhecimento do Outro e de redefinição, até em termos emocionais, do lugar de cada sujeito, por outro, tende a encarar a criação artística como irrelevante (por vezes, até como não-produtiva), e principalmente os seus criadores como figuras marginais, desintegradas, com fraca relevância pública.

Regressemos agora a literatura.

Como já referi, o acto social da criação literária, decorrente da sua necessidade de encontrar um leitor, faz com que perca toda a sua “pureza” original, como acto criativo individual, livre e soberano, e se introduza como um “bem” num sistema complexo (a que tenho chamado sistema literário), onde sobressaem a edição e a comercialização.

É evidente que todos os agentes que intervêm neste processo visam o mesmo fim: dar a conhecer uma obra ao seu destinatário. Mas também é indiscutível que esse objectivo comum não determina que os seus motivos sejam em tudo semelhantes aos que movem o criador literário. Os agentes que intervêm no percurso entre a obra e o leitor, em particular, o editor e o livreiro, têm, naturalmente, outros interesses que podem ou não coadunar-se com a motivação do autor. 

Por outras palavras: a “pureza” Inicial do acto literário, como matriz primordial da criação artística, torna-se, no confronto com a sociedade, um quadro utópico. Porque se é verdade que a literatura só efectivamente existe quando encontra o leitor, a presença deste receptor obriga o acto literário a transformar-se num bem que o levará a correr riscos e condicionalismos.

Assim, se é compreensível que o acto literário, como acto criativo, soberano e livre, não deva ir à procura do receptor que o legitime, também se entende que é obrigatório que se “abra” à sua existência e, para isso, tem de “incorporar” os meios necessários para que seja reconhecido (a edição, a comercialização, a análise crítica e a recepção institucional, etc.), isto é, tem de inevitavelmente confrontar-se com a sociedade, porque é esta, para além de o determinar e o condicionar, que o legitima como acto social, dando-lhe o sentido final.

Um dos potenciais riscos por que passa a obra literária, no processo de transformação de um acto criativo num bem social, é o de procurar a multiplicação dos seus receptores, mesmo que esta não seja uma preocupação prioritária para o criador. É legítimo e inevitável que o editor, ao efectuar um determinado investimento na publicação de uma obra, procure ter, se possível, o máximo retorno desse investimento. E, mesmo que essa não seja a principal preocupação do criador literário, terá que se sujeitar a esta vontade, desde que pretenda que a sua obra se abra à existência do leitor.


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