Os Lugares-comuns - 3
Um outro lugar-comum associado à
criação literária, ainda muito enraizado na sociedade (com excepção,
provavelmente, das elites intelectuais), está associado à ideia estereotipada
de que para esta são necessárias competências técnicas menos complexas do que
para qualquer outra criação artística.
De facto, há bastante tempo que se
reconhece que as restantes expressões artísticas necessitam de competências que
exigem uma aprendizagem prolongada (as escolas de “beaux-arts” e os
conservatórios já têm cerca de três seculos), enquanto, em relação à
literatura, sempre se considerou que o determinante era a sensibilidade do
criador (como se para as outras manifestações artísticas isso também não fosse
determinante) e apenas saber escrever.
Ora, qualquer pessoa que se tenha
colocado perante uma folha branca com o fito de escrever uma obra literária
sabe que esta ideia, ainda bem generalizada e enraizada socialmente, sofre de
um tremendo equivoco e revela uma enorme ignorância.
Aliás, esta questão faz-me sempre
recordar uma história que me sucedeu e que me parece tão exemplar que não resisto
a tentar recordá-la.
Numa viagem que efectuei aos Estados
Unidos, já há alguns anos, numa conversa com o escritor Frank Conroy
(1936-2006), na altura director do Iowa Writer’s Workshop da respectiva
Universidade (para quem não saiba, recordo que é a mais antiga – fundada em
1936 – e prestigiada escola de escrita criativa do país)*, nunca me esqueci, quando lhe
perguntei, com a frontalidade, que era apenas fruto da arrogância gerada
pela ignorância, se achava que a sua escola criava escritores, fossem eles
narradores ou poetas, a resposta que me deu, com um semblante cansado, entre o
irónico e o triste, provavelmente resultante de lhe terem feito dezenas de
vezes a mesma pergunta: “Olhe, não, não faz escritores. Esta escola apenas
serve para que não suceda aos alunos o que sucedeu a mim. Durante dez anos,
procurei amargamente publicar um original, correndo de editor em editor, até
que desisti e o lancei para um caixote do lixo numa rua de Nova Iorque. Só
nessa altura tomei consciência que ele estava repleto de insuficiências
narrativas resultantes de falhas técnicas. Desisti dele e comecei a escrever
“Stop-Time” [o seu primeiro livro], que rapidamente encontrou editor e foi
nomeado para o National Book Award. Uma escola destas ter-me-ia poupado esses
dez anos de vida.”
Quando, de seguida, lhe perguntei se
não achava que os alunos ficariam na escola muito “presos” aos modelos
convencionais de escrita, respondeu-me: “Não, não creio. Mesmo para
desconstruir esses modelos mais convencionais e clássicos, é fundamental que o
aluno os conheça bem. Nesta escola, aquilo que se faz, é apenas transformar os
alunos de leitores, que todos nós somos, em leitores que escrevem e que lêem o
património literário, seu ou dos outros, com a pergunta constante: como é que
eu resolveria em termos narrativos ou poéticos este texto? Está perfeito ou
seriam possíveis outras soluções? Sabe, sobre qualquer património literário é
admissível perspectivar diferentes soluções criativas. E este “olhar” é
fundamental para que se tornem cada vez mais exigentes para com a sua própria
produção.”
Presentemente, um pouco por todo o
lado, já existem cursos similares de escrita criativa (ou literária, como
muitos, em alternativa, gostam de chamar), tendo-se transformado num factor
relevante da produção literária a partir da segunda metade do século XX. Mesmo
no nosso país, depois de várias décadas de cepticismo e de descrença, os
cursos, livres ou não, e os workshops de escrita criativa foram proliferando em
diversas escolas, públicas e privadas, demonstrando bem que o lugar-comum acima
referido está a desaparecer, principalmente em certas elites intelectuais e nos
meios sociais mais dedicados à leitura e à literatura.
Hoje é também bem clara a motivação
que levou ao seu aparecimento: antes do mais, porque se compreendeu, por fim,
que estes cursos tinham uma especificidade bem distinta dos estritos estudos de
línguas e literaturas; em segundo lugar, porque muitos escritores perceberam
que a docência destes cursos era uma fonte de rendimento, mais ou menos segura,
que complementava o que recebiam pela sua produção criativa; mas principalmente
porque foram aparecendo segmentos da população, com alguma dimensão, que sentem
necessidade de os frequentar e que estão, por isso, dispostos a despender neles
tempo e dinheiro.
Naturalmente, é muito diversa a motivação
que leva à frequência desses cursos; mas é habitual, não sei se por (falsa)
modéstia ou por outro motivo qualquer, ler e ouvir depoimentos de alunos destes
cursos onde se afirma que não pretendem ser escritores (pressupõe-se com
características profissionais), mas apenas ter um maior domínio técnico sobre a
sua escrita. Porém, parece-me bem indiscutível que uma boa parte dos alunos,
que investem tempo e dinheiro nesta formação, ambiciona atingir esse patamar e
que deseja, de forma legítima e natural, dedicar-se no futuro a esta actividade
artística.
É evidente, como se costuma dizer,
que “o saber não ocupa lugar” e que não vem mal nenhum ao mundo em obter este
tipo de formação (à parte, segundo me parece, muito destes alunos estarem
equivocados, devendo antes frequentar os cursos de estudos literários, onde
obtinham uma formação mais adequada aos objectivos que efectivamente pretendem
alcançar). Mas também é importante salientar, para encarar os factos com uma
mínima honestidade, que, no actual estádio da actividade literária, a maioria
destes alunos nunca conseguirá ser escritor profissional nem terá condições
sequer para ver a sua produção literária (chamemos-lhe assim para facilitar)
editada.
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· Actualmente tem, como “professor emeritus”, Marilynne Robinson, e no seu corpo docente, na área da narrativa, autores como Ethan Canin, Tom Drury ou Carmen Maria Machado, ou, na área da poesia, Mark Levine e Elizabeth Willis, e que, por lá passaram, como professores, narradores como Robert Penn Warren, John Cheever, Philip Roth, Michael Cunningham, Allan Gurganus e Andrew Sean Greer, e poetas, como Robert Lowell, Donald Justice, Rita Dove e Louise Glück.
Foto das instalações do Iowa Writer’s Workshop da respectiva Universidade.

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