segunda-feira, 22 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”


 

V

A Insustentável Distância Da Linha Do Horizonte

Creio que a desmontagem destes lugares-comuns permite perceber qual é a preocupação fundamental de qualquer criador literário e, consequentemente, qual o maior custo da sua actividade: tempo. Condicionado com a necessidade de ter outras profissões, pressionado pelos editores que lhe solicitam mais obras e um papel mais activo na fase da sua comercialização, com o receio de perder leitores ou de ser esquecido, no meio das contrariedades da sua vida pessoal, o escritor vive na permanente neurose (bem antiga, aliás) de arranjar condições e serenidade para prosseguir aquilo que o motiva e que assume ser a coluna dorsal da sua existência. Sem a expectativa de obter resultados financeiros que lhe facilitem a continuidade do seu trabalho, sentindo que um pálido reconhecimento público é cada vez mais difícil de alcançar, o seu vital desejo (e a sua ambição), de levar por diante a construção de uma obra, embate constantemente numa vaga turva de incertezas, de resistências e de incompreensões, obrigando-o, na maior das solidões, a uma disciplina férrea para manter o seu paciente labor.

Ora, é forçoso reconhecer que a evolução da situação editorial, com a presente redução de tiragens, não tem favorecido uma melhoria das condições de trabalho dos escritores e, pelo contrário, tem contribuído para fomentar a errónea imagem social de que a literatura é apenas o resultado de um bando de fanáticos empedernidos que continua, à revelia do andamento dos tempos, a procurar descobrir a beleza cristalina das palavras para contar histórias e redigir poemas. Mais: esquece-se que a palavra continua a ser o húmus onde irrompe toda a realidade e que a literatura escrita (deixe-se de parte a oral, porque essa sempre existiu), em particular a que teve origem no cânone ocidental, está cada vez mais florescente e que irradiou para todo o mundo, transformada pela cultura e pelas tradições literárias locais: mesmo os mais desatentos perceberão que este é um dado indiscutível, ao ponto de ter feito esboroar completamente qualquer construção eurocêntrica (ou ocidental) do universo literário.

Perante esta situação, a contragosto, não consigo perspectivar nenhuma outra alternativa para atenuar os riscos da transformação do acto literário num bem social, libertando-o, pelo menos parcialmente, dos condicionalismos de um mercado cada vez mais global e melhorando assim as condições de trabalho dos escritores, que não seja com o reforço do papel do Estado em apoio da criação literária.

Mas seja-se claro: é evidente que aquilo que, de mais positivo, o Estado pode realizar, em defesa da literatura, é criar condições para a promoção das literacias e, consequentemente, reforçar os hábitos de leitura, democratizando-a e tornando-a, cada vez mais, uma prática quotidiana e essencial da comunidade.

As razões desta posição parecem-me óbvias. Mas também é evidente que, mesmo tendo reflexos na sustentabilidade do circuito literário, os objectivos da promoção das literacias ultrapassam em muito o universo da literatura, pois procuram fundamentalmente aumentar os níveis de formação e o desenvolvimento de competências na sociedade e, por isso mesmo, estão na sequência do papel do Estado no alargamento da escolaridade e da alfabetização.

 Assim, como é facilmente constatável, não é forçoso que o alargamento social da literacia e o aumento dos hábitos de leitura tenham um reflexo proporcional no aumento do consumo de livros e, principalmente, numa maior proximidade da população ao universo literário.

É fundamental ter em consideração esta distinção para perceber que a promoção das literacias, e o desenvolvimento consequente do sentido crítico e, em particular, da sensibilidade e do gosto estético, é apenas condição sine qua non para uma efectiva sustentabilidade da actividade literária, mas não é, por si só, razão suficiente para que o papel social da literatura se acentue e participe, como elemento determinante, no quadro dos tempos livres da maioria da população: hoje, esta maioria, como é facilmente constatável, orienta as competências de leitura adquiridas para outros canais de comunicação e não tanto para o consumo de livros.

Talvez assim se compreenda por que razões certas personalidades, com relevância para a formação da opinião pública, cheguem ao ponto de considerar que a promoção das literacias, numa perspectiva estritamente literária, é irrelevante e até inútil. No entanto, mesmo considerando que estas posições são de um descabido elitismo, não tendo em consideração as funções fundamentais do Estado, é forçoso reconhecer que a batalha interminável das promoções das literacias apenas tem reflexos sociais a médio e longo prazo, e que a sustentabilidade da actividade literária e a dignificação do trabalho dos escritores não pode ficar dependente de resultados que ainda se encontram no campo do plausível.


Desconheço a autoria da foto

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