V
A Insustentável Distância Da Linha Do
Horizonte
Creio que a desmontagem destes
lugares-comuns permite perceber qual é a preocupação fundamental de qualquer
criador literário e, consequentemente, qual o maior custo da sua actividade:
tempo. Condicionado com a necessidade de ter outras profissões, pressionado
pelos editores que lhe solicitam mais obras e um papel mais activo na fase da
sua comercialização, com o receio de perder leitores ou de ser esquecido, no
meio das contrariedades da sua vida pessoal, o escritor vive na permanente
neurose (bem antiga, aliás) de arranjar condições e serenidade para prosseguir
aquilo que o motiva e que assume ser a coluna dorsal da sua existência. Sem a
expectativa de obter resultados financeiros que lhe facilitem a continuidade do
seu trabalho, sentindo que um pálido reconhecimento público é cada vez mais
difícil de alcançar, o seu vital desejo (e a sua ambição), de levar por diante
a construção de uma obra, embate constantemente numa vaga turva de incertezas,
de resistências e de incompreensões, obrigando-o, na maior das solidões, a uma
disciplina férrea para manter o seu paciente labor.
Ora, é forçoso reconhecer que a
evolução da situação editorial, com a presente redução de tiragens, não tem
favorecido uma melhoria das condições de trabalho dos escritores e, pelo contrário,
tem contribuído para fomentar a errónea imagem social de que a literatura é
apenas o resultado de um bando de fanáticos empedernidos que continua, à
revelia do andamento dos tempos, a procurar descobrir a beleza cristalina das
palavras para contar histórias e redigir poemas. Mais: esquece-se que a palavra
continua a ser o húmus onde irrompe toda a realidade e que a literatura escrita
(deixe-se de parte a oral, porque essa sempre existiu), em particular a que
teve origem no cânone ocidental, está cada vez mais florescente e que irradiou
para todo o mundo, transformada pela cultura e pelas tradições literárias
locais: mesmo os mais desatentos perceberão que este é um dado indiscutível, ao
ponto de ter feito esboroar completamente qualquer construção eurocêntrica (ou
ocidental) do universo literário.
Perante esta situação, a contragosto,
não consigo perspectivar nenhuma outra alternativa para atenuar os riscos da
transformação do acto literário num bem social, libertando-o, pelo menos
parcialmente, dos condicionalismos de um mercado cada vez mais global e
melhorando assim as condições de trabalho dos escritores, que não seja com o
reforço do papel do Estado em apoio da criação literária.
Mas seja-se claro: é evidente que
aquilo que, de mais positivo, o Estado pode realizar, em defesa da literatura,
é criar condições para a promoção das literacias e, consequentemente, reforçar
os hábitos de leitura, democratizando-a e tornando-a, cada vez mais, uma
prática quotidiana e essencial da comunidade.
As razões desta posição parecem-me
óbvias. Mas também é evidente que, mesmo tendo reflexos na sustentabilidade do
circuito literário, os objectivos da promoção das literacias ultrapassam em
muito o universo da literatura, pois procuram fundamentalmente aumentar os níveis
de formação e o desenvolvimento de competências na sociedade e, por isso mesmo,
estão na sequência do papel do Estado no alargamento da escolaridade e da
alfabetização.
Assim, como é facilmente constatável, não é
forçoso que o alargamento social da literacia e o aumento dos hábitos de
leitura tenham um reflexo proporcional no aumento do consumo de livros e,
principalmente, numa maior proximidade da população ao universo literário.
É fundamental ter em consideração
esta distinção para perceber que a promoção das literacias, e o desenvolvimento
consequente do sentido crítico e, em particular, da sensibilidade e do gosto
estético, é apenas condição sine qua non
para uma efectiva sustentabilidade da actividade literária, mas não é, por si
só, razão suficiente para que o papel social da literatura se acentue e
participe, como elemento determinante, no quadro dos tempos livres da maioria
da população: hoje, esta maioria, como é facilmente constatável, orienta as
competências de leitura adquiridas para outros canais de comunicação e não
tanto para o consumo de livros.
Talvez assim se compreenda por que razões certas personalidades, com relevância para a formação da opinião pública, cheguem ao
ponto de considerar que a promoção das literacias, numa perspectiva
estritamente literária, é irrelevante e até inútil. No entanto, mesmo
considerando que estas posições são de um descabido elitismo, não tendo em
consideração as funções fundamentais do Estado, é forçoso reconhecer que a
batalha interminável das promoções das literacias apenas tem reflexos sociais a
médio e longo prazo, e que a sustentabilidade da actividade literária e a
dignificação do trabalho dos escritores não pode ficar dependente de resultados
que ainda se encontram no campo do plausível.
Desconheço a autoria da foto

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