VI
Reforçar Os Pilares Da Ponte - 1
Veja-se o caso do nosso país.
O Estado democrático conseguiu
aumentar significativamente a escolaridade obrigatória e confinar o
analfabetismo para níveis irrelevantes, criou duas redes de bibliotecas
públicas (as municipais e as escolares), constituiu e colocou no terreno, há já
algum tempo, um Plano Nacional de Leitura, fomentou a criação de um tecido de
promotores e animadores da leitura para acompanhar o trabalho diário e
incessante dos bibliotecários e organizar um conjunto diversificado de acções
de proximidade; em resumo, incrementou e implantou os meios necessários para
alargar e desenvolver os hábitos de leitura. No entanto, segundo todos os
indicadores conhecidos e a opinião generalizada dos agentes do sector do livro,
os resultados são pouco mais do que sofríveis.
Poder-se-á afirmar, e é constatável,
que a administração central tem diminuído de forma significativa o
financiamento necessário, principalmente depois da implantação das redes
referidas, para que esses meios possam concluir com eficácia os seus
objectivos; mas também é forçoso reconhecer que se tem compensado, pelo menos
parcialmente, essa falta com o reforço do investimento da administração local.
É evidente que existem outros
condicionalismos que afastam a população da leitura literária e que não basta a
implantação de meios que favoreçam as literacias (mesmo que excelentes,
sofisticados e actualizados) para resolver esta questão. Antes do mais, obviamente,
o fraco orçamento familiar da maioria da população para a actividade cultural
que, perante a diversidade da oferta, se inclina naturalmente para um consumo
mais barato e acessível, como é a oferta audiovisual, em particular a
televisão, e a web: é, de facto,
nesses meios que a maior parte do povo português despende os seus tempos livres
e é deles que retira a sua necessidade de informação e alguma fruição estética
(mesmo que esta seja de fraca qualidade). Esta orientação na ocupação dos
tempos livres já tem várias décadas e não é fácil reconverter hábitos há muito
enraizados.
Há também quem aluda à frágil
formação cultural da população portuguesa (contrariando a propaganda pública
que considera as “últimas gerações como as melhor formadas de sempre”) para
fundamentar o débil consumo de “bens culturais” e, por conseguinte, também
literários. Creio, no entanto, que este argumento, mesmo que potencialmente
correcto, está, pelo menos, mal formulado, pois não compreende que,
presentemente, esta situação é, antes do mais, uma consequência do referido
modelo de ocupação dos tempos livres.
Como é possível contrariar esta
“cultura do espectáculo” (no sentido pejorativo deste termo), quando, além do
mais, a leitura literária, em contraponto, tem uma imagem social de tarefa difícil,
démodée e sem glamour?
Creio que não há outra alternativa
que, numa estratégia de promoção das literacias e da literatura, se tente cativar
os potenciais leitores onde eles se encontram: na televisão e na web. Sem facilitismos, mas procurando
revelar a dimensão mais criativa e inovadora da literatura e, por conseguinte,
o seu papel único e insubstituível, em conjugação com as restantes actividades
culturais. Além disso, parece-me ser este o caminho necessário para criar uma
ambiência social mais atreita à produção literária e dessa forma criar o
“clima” que facilite e favoreça o esforço e o trabalho perseverante, e muito
meritório, que os professores, bibliotecários e promotores da leitura realizam
nas suas acções de proximidade.
Porque não haja dúvida sobre esta
situação: a produção literária perdeu, e esperemos que não seja de forma
definitiva, a batalha por uma maior presença da sua criatividade na comunicação
social escrita e audiovisual.
Repare-se na situação da comunicação
social escrita.
Naturalmente, com a transição do
nosso país para um regime democrático, a oferta artística e cultural foi mais
intensa e diversificada, e, principalmente, pôde manifestar-se de forma mais
expressiva e significativa. Por isso, os “suplementos literários”, que existiam
nos antigos jornais generalistas, transformaram-se em “suplementos culturais” e
a literatura passou, entre as restantes manifestações artísticas e culturais, a
ocupar um espaço lateral e não central, como até aí tinha sucedido. O debate
estético e ideológico começou a processar-se mais em torno das outras
actividades artísticas, que conseguiam expressar melhor, e mais publicamente, a
sua criatividade, e não quase em exclusivo através da literatura, como anteriormente
sucedia.
Esta redução de espaço levou a que a
crítica literária, tanto nos jornais diários como hebdomadários, entre outros
motivos, se limitasse a comentar as obras que, por razões literárias ou
sociais, se justificasse ou se considerasse, em termos redactoriais, como
meritórias, quase sempre com breves recensões laudatórias. O resultado é que
esmoreceu o debate estético e ideológico em torno da criatividade literária,
perdendo vivacidade pública, já que, segundo parece, o juízo crítico ficou
implícito na própria selecção que o crítico ou o jornal efectuou antes de
publicar a recensão.
Com esta situação, o papel
orientador, que a crítica anteriormente tinha para o comum leitor,
desvaneceu-se significativamente, e este passou a encará-la como mais uma das
formas promocionais das obras que se iam publicando. Repare-se como hoje, a
título de exemplo, já quase perdeu qualquer sentido, ou possibilidade de ser
concretizada, num jornal generalista, a publicação de polémicas literárias,
como anteriormente sucedia, remetendo-as inevitavelmente para as revistas
especializadas.
Simplesmente, as revistas ou jornais
especializados em papel quase desapareceram por falta de mercado. Os poucos
casos (e muito louváveis), que ainda subsistem, foram obrigados a restringir-se
ao reduzido mercado literário existente, com enormes dificuldades de gestão e
operacionalização, ou são suportados por fundações e instituições congéneres
sem fins lucrativos, encarando as receitas obtidas no seu potencial mercado
como meros fundos remanescentes.
Para além destas excepções, a
reflexão ideológica e estética, em torno da actividade literária, ficou assim
quase limitada às revistas académicas. Mas estas, cumprindo o seu papel, têm
uma circulação muito restrita, pois foram concebidas e orientadas para a
comunicação “inter pares”, apresentando textos e artigos com um natural aparato
científico e técnico de difícil decifração para o comum leitor.
É possível que, com a passagem dos
jornais e revistas para o formato digital, como está a suceder nos últimos
anos, esta tendência de diminuição da presença da literatura se atenue. Mas,
como o critério da dimensão da receptividade continua a ser determinante e,
dadas as características minoritárias da actividade literária, esta tendência
irá possivelmente manter-se.
Desconheço a autoria da foto.

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