segunda-feira, 22 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 

VI

Reforçar Os Pilares Da Ponte - 1

Veja-se o caso do nosso país.

O Estado democrático conseguiu aumentar significativamente a escolaridade obrigatória e confinar o analfabetismo para níveis irrelevantes, criou duas redes de bibliotecas públicas (as municipais e as escolares), constituiu e colocou no terreno, há já algum tempo, um Plano Nacional de Leitura, fomentou a criação de um tecido de promotores e animadores da leitura para acompanhar o trabalho diário e incessante dos bibliotecários e organizar um conjunto diversificado de acções de proximidade; em resumo, incrementou e implantou os meios necessários para alargar e desenvolver os hábitos de leitura. No entanto, segundo todos os indicadores conhecidos e a opinião generalizada dos agentes do sector do livro, os resultados são pouco mais do que sofríveis.

Poder-se-á afirmar, e é constatável, que a administração central tem diminuído de forma significativa o financiamento necessário, principalmente depois da implantação das redes referidas, para que esses meios possam concluir com eficácia os seus objectivos; mas também é forçoso reconhecer que se tem compensado, pelo menos parcialmente, essa falta com o reforço do investimento da administração local.

É evidente que existem outros condicionalismos que afastam a população da leitura literária e que não basta a implantação de meios que favoreçam as literacias (mesmo que excelentes, sofisticados e actualizados) para resolver esta questão. Antes do mais, obviamente, o fraco orçamento familiar da maioria da população para a actividade cultural que, perante a diversidade da oferta, se inclina naturalmente para um consumo mais barato e acessível, como é a oferta audiovisual, em particular a televisão, e a web: é, de facto, nesses meios que a maior parte do povo português despende os seus tempos livres e é deles que retira a sua necessidade de informação e alguma fruição estética (mesmo que esta seja de fraca qualidade). Esta orientação na ocupação dos tempos livres já tem várias décadas e não é fácil reconverter hábitos há muito enraizados.

Há também quem aluda à frágil formação cultural da população portuguesa (contrariando a propaganda pública que considera as “últimas gerações como as melhor formadas de sempre”) para fundamentar o débil consumo de “bens culturais” e, por conseguinte, também literários. Creio, no entanto, que este argumento, mesmo que potencialmente correcto, está, pelo menos, mal formulado, pois não compreende que, presentemente, esta situação é, antes do mais, uma consequência do referido modelo de ocupação dos tempos livres.

Como é possível contrariar esta “cultura do espectáculo” (no sentido pejorativo deste termo), quando, além do mais, a leitura literária, em contraponto, tem uma imagem social de tarefa difícil, démodée e sem glamour?

Creio que não há outra alternativa que, numa estratégia de promoção das literacias e da literatura, se tente cativar os potenciais leitores onde eles se encontram: na televisão e na web. Sem facilitismos, mas procurando revelar a dimensão mais criativa e inovadora da literatura e, por conseguinte, o seu papel único e insubstituível, em conjugação com as restantes actividades culturais. Além disso, parece-me ser este o caminho necessário para criar uma ambiência social mais atreita à produção literária e dessa forma criar o “clima” que facilite e favoreça o esforço e o trabalho perseverante, e muito meritório, que os professores, bibliotecários e promotores da leitura realizam nas suas acções de proximidade.

Porque não haja dúvida sobre esta situação: a produção literária perdeu, e esperemos que não seja de forma definitiva, a batalha por uma maior presença da sua criatividade na comunicação social escrita e audiovisual.

Repare-se na situação da comunicação social escrita.

Naturalmente, com a transição do nosso país para um regime democrático, a oferta artística e cultural foi mais intensa e diversificada, e, principalmente, pôde manifestar-se de forma mais expressiva e significativa. Por isso, os “suplementos literários”, que existiam nos antigos jornais generalistas, transformaram-se em “suplementos culturais” e a literatura passou, entre as restantes manifestações artísticas e culturais, a ocupar um espaço lateral e não central, como até aí tinha sucedido. O debate estético e ideológico começou a processar-se mais em torno das outras actividades artísticas, que conseguiam expressar melhor, e mais publicamente, a sua criatividade, e não quase em exclusivo através da literatura, como anteriormente sucedia.

Esta redução de espaço levou a que a crítica literária, tanto nos jornais diários como hebdomadários, entre outros motivos, se limitasse a comentar as obras que, por razões literárias ou sociais, se justificasse ou se considerasse, em termos redactoriais, como meritórias, quase sempre com breves recensões laudatórias. O resultado é que esmoreceu o debate estético e ideológico em torno da criatividade literária, perdendo vivacidade pública, já que, segundo parece, o juízo crítico ficou implícito na própria selecção que o crítico ou o jornal efectuou antes de publicar a recensão.

Com esta situação, o papel orientador, que a crítica anteriormente tinha para o comum leitor, desvaneceu-se significativamente, e este passou a encará-la como mais uma das formas promocionais das obras que se iam publicando. Repare-se como hoje, a título de exemplo, já quase perdeu qualquer sentido, ou possibilidade de ser concretizada, num jornal generalista, a publicação de polémicas literárias, como anteriormente sucedia, remetendo-as inevitavelmente para as revistas especializadas.

Simplesmente, as revistas ou jornais especializados em papel quase desapareceram por falta de mercado. Os poucos casos (e muito louváveis), que ainda subsistem, foram obrigados a restringir-se ao reduzido mercado literário existente, com enormes dificuldades de gestão e operacionalização, ou são suportados por fundações e instituições congéneres sem fins lucrativos, encarando as receitas obtidas no seu potencial mercado como meros fundos remanescentes.

Para além destas excepções, a reflexão ideológica e estética, em torno da actividade literária, ficou assim quase limitada às revistas académicas. Mas estas, cumprindo o seu papel, têm uma circulação muito restrita, pois foram concebidas e orientadas para a comunicação “inter pares”, apresentando textos e artigos com um natural aparato científico e técnico de difícil decifração para o comum leitor. 

É possível que, com a passagem dos jornais e revistas para o formato digital, como está a suceder nos últimos anos, esta tendência de diminuição da presença da literatura se atenue. Mas, como o critério da dimensão da receptividade continua a ser determinante e, dadas as características minoritárias da actividade literária, esta tendência irá possivelmente manter-se.

Desconheço a autoria da foto.


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