A Literatura e o Mal
Lembrei-me, quando escrevia o texto
anterior sobre transgressão e arte, da obra de um intelectual (não aprecio esta
classificação, dado o seu carácter difuso e genérico, mas neste caso parece-me
acertado) que, quando a li, ainda jovem adulto, me atingiu como um raio
fulminante. Estou-me a referir a Georges Bataille e, em particular à sua visão,
ao mesmo tempo materialista e transcendente, do erotismo, colocando-o no cerne
do comportamento humano.
Ainda, se os coros celestiais o
permitirem e o desejarem, hei-de escrever sobre ele. Mas agora vou apenas
referir-me a “A Literatura e o Mal”, um ensaio que foi publicado pela primeira
vez no nosso país em 1968 (o original é de 1957), pela extinta Ed. Ulisseia,
traduzido (que intrigante!) por António Borges Coelho.
Neste ensaio, debruçando-se sobre a
obra de vários autores, entre eles alguns que já referi, mas também sobre as de
Brontë, Michelet, Blake, Proust e Kafka, Georges Bataille analisa o seu poder
transgressivo e a sua aproximação daquilo que ele classifica como o “Mal”.
Georges Bataille começa por afirmar
que o sentido da literatura é o absoluto, e, por isso, não pode repudiar o Mal,
que ele define como o campo dos “actos puros e gratuitos” de destruição, isto
é, não sujeitos a nenhum programa e/ou interesse.
É evidente que Georges Bataille,
obstinado em superar o pensamento binário com uma dialéctica muito pessoal,
entende que a literatura reclama uma “supermoral” ou “hipermoral” (que ele não
define; mas que se percebe, ao longo da obra, que assenta na eliminação dos
contraditórios só possível pela síncrese do
acto literário) e não sujeita aos valores comuns da ética e da moral, isto é,
às convenções sociais.
De certo modo, entende a literatura
como um acto de liberdade absoluta (a tal “liberté libre” de que falava Rimbaud para caracterizar a poesia e que António Ramos Rosa utiliza como epígrafe no seu fundamental livro "Poesia, Liberdade Livre"), como puro acto de criação. Daí
que a aproxime dos jogos infantis, considerando-a, tal como estes, que não está
sujeita às convenções sociais. Neste sentido, da mesma forma que o chamado
“sadismo infantil” é fruto de um universo ainda não sujeito às convenções
sociais, a literatura nasce, pela sua própria natureza, num universo “exterior”
à moral convencional, podendo aproximar-se do que socialmente é considerado
como o Mal.
O importante é assinalar que
Georges Bataille entende o acto artístico, e em concreto a literatura, como um
acto de pura liberdade e soberania, com os seus códigos próprios estéticos e
éticos, e que, por isso mesmo, não pode ser julgado pelo seu afrontamento ou
não às convenções sociais, devendo ser analisado, em todas as suas implicações,
como uma totalidade orgânica, e, em
última instância, pela sua criatividade estética.
Desconheço a autoria da foto de Georges Bataille

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