Reforçar Os Pilares Da Ponte - 3
Tornam-se, assim, compreensíveis os
motivos que levaram uma boa parte da actividade literária a “emigrar” para a web. De facto, é para lá que os cultores
(leitores e autores) de literatura deslocaram a necessidade de partilha da sua
paixão, até mesmo a afirmação da sua criatividade, através de uma panóplia de
formas (livros e revistas digitais, sites,
blogs, podcasts, redes sociais, etc.) onde, não só se publica (e
experimenta) todos os géneros de criação literária, mas, e enfatizo este
aspecto, também recensões críticas e algum debate ideológico e estético sobre
obras e autores. É certo que esta proliferação juntou o bom e o péssimo numa
amálgama caótica, pois a inexistência, na maior parte dos casos, de qualquer
filtro qualificado, facilita a publicação de textos (e de opiniões) sem
competências nem formação específica, criando crispações e ressentimentos, por
excesso de emotividade e falta de fundamentação, e provocando dificuldades de
orientação para o leitor/consumidor. Mas, de qualquer forma, é na web que a
literatura ainda aparece com uma assinalável vitalidade, e onde é possível
manifestar-se algum debate estético, ideológico e literário que, mesmo que não
tenha outro mérito, permite perceber qual é o “pulsar” literário da comunidade.
Com esta “absorção” gradual da
literatura pelo domínio digital, volta de novo a colocar-se, de forma muito
intensa, o problema da transformação do acto literário em bem social (e a
consequente remuneração do autor) ou, por outras palavras, a questão da
aquisição de um texto, como acto que precede a leitura. De facto, algumas
formas de criação literária (em particular, certa narrativa, mas não só, com
formas mais estruturadas e desenvolvidas) só aparecem em e-book ou em formato
digital codificado e, consequentemente, pago. E, como resultado, estabeleceu-se
uma nova hierarquia no universo literário com uma pretensa (e ambígua)
diferenciação qualitativa: as obras “boas” são as que se compram, seja no
formato analógico ou digital, e as que aparecem gratuitamente na web são meras
formas de divulgação ou de relativo interesse literário. Esta hierarquia é,
obviamente, errada, porque não corresponde à realidade, mas reflecte bem a
ambivalência e a importância da remuneração do autor como critério de
valoração. E essa demarcação ainda se torna mais acentuada (mesmo que, nos
últimos tempos, e cada vez mais, se venha a esvanecer, conforme vai diminuindo
a resistência do leitor de literatura ao formato digital) entre a obra
literária publicada em papel e a que se encontra limitada (?) ao espaço
virtual.
Ora, esta absorção parcial da
actividade literária pelo digital quase nenhuns reflexos teve nas estratégias
de promoção das literacias e da literatura no nosso país. Ou, para ser mais
claro: é certo que os organismos com responsabilidades estratégicas na promoção
das literacias criaram os seus sites e
“alimentam-nos” com iniciativas que à distância promovem as literacias e que
apoiam os promotores da leitura; mas, para além disso, que eu tenha
conhecimento, nenhum programa foi constituído que incentive ou apoie as
iniciativas particulares mais relevantes que apareceram na web, principalmente que ajude o consumidor digital a orientar-se na
“floresta de informação” em que este meio tecnológico se tornou.
Parece, por isso, evidente (e
justificado) que qualquer estratégia pública de promoção das literacias no
nosso país deve passar por um maior investimento nos registos do audiovisual e
da web. Sem efectuar esta aposta, estou em crer que todo o colossal esforço dos
seus promotores, empenhados em conceber e executar inúmeras acções de
proximidade, estará condenado a resultados limitados (ou a um relativo fiasco),
por não estar escudado e envolto numa ambiência social onde a produção cultural
(incluindo, obviamente, a literária) esteja mais presente e revele a sua
dimensão mais estimulante de confronto com os convencionalismos estéticos e
ideológicos.

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