segunda-feira, 22 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


Reforçar Os Pilares Da Ponte - 3

Tornam-se, assim, compreensíveis os motivos que levaram uma boa parte da actividade literária a “emigrar” para a web. De facto, é para lá que os cultores (leitores e autores) de literatura deslocaram a necessidade de partilha da sua paixão, até mesmo a afirmação da sua criatividade, através de uma panóplia de formas (livros e revistas digitais, sites, blogs, podcasts, redes sociais, etc.) onde, não só se publica (e experimenta) todos os géneros de criação literária, mas, e enfatizo este aspecto, também recensões críticas e algum debate ideológico e estético sobre obras e autores. É certo que esta proliferação juntou o bom e o péssimo numa amálgama caótica, pois a inexistência, na maior parte dos casos, de qualquer filtro qualificado, facilita a publicação de textos (e de opiniões) sem competências nem formação específica, criando crispações e ressentimentos, por excesso de emotividade e falta de fundamentação, e provocando dificuldades de orientação para o leitor/consumidor. Mas, de qualquer forma, é na web que a literatura ainda aparece com uma assinalável vitalidade, e onde é possível manifestar-se algum debate estético, ideológico e literário que, mesmo que não tenha outro mérito, permite perceber qual é o “pulsar” literário da comunidade.

Com esta “absorção” gradual da literatura pelo domínio digital, volta de novo a colocar-se, de forma muito intensa, o problema da transformação do acto literário em bem social (e a consequente remuneração do autor) ou, por outras palavras, a questão da aquisição de um texto, como acto que precede a leitura. De facto, algumas formas de criação literária (em particular, certa narrativa, mas não só, com formas mais estruturadas e desenvolvidas) só aparecem em e-book ou em formato digital codificado e, consequentemente, pago. E, como resultado, estabeleceu-se uma nova hierarquia no universo literário com uma pretensa (e ambígua) diferenciação qualitativa: as obras “boas” são as que se compram, seja no formato analógico ou digital, e as que aparecem gratuitamente na web são meras formas de divulgação ou de relativo interesse literário. Esta hierarquia é, obviamente, errada, porque não corresponde à realidade, mas reflecte bem a ambivalência e a importância da remuneração do autor como critério de valoração. E essa demarcação ainda se torna mais acentuada (mesmo que, nos últimos tempos, e cada vez mais, se venha a esvanecer, conforme vai diminuindo a resistência do leitor de literatura ao formato digital) entre a obra literária publicada em papel e a que se encontra limitada (?) ao espaço virtual.

Ora, esta absorção parcial da actividade literária pelo digital quase nenhuns reflexos teve nas estratégias de promoção das literacias e da literatura no nosso país. Ou, para ser mais claro: é certo que os organismos com responsabilidades estratégicas na promoção das literacias criaram os seus sites e “alimentam-nos” com iniciativas que à distância promovem as literacias e que apoiam os promotores da leitura; mas, para além disso, que eu tenha conhecimento, nenhum programa foi constituído que incentive ou apoie as iniciativas particulares mais relevantes que apareceram na web, principalmente que ajude o consumidor digital a orientar-se na “floresta de informação” em que este meio tecnológico se tornou.

Parece, por isso, evidente (e justificado) que qualquer estratégia pública de promoção das literacias no nosso país deve passar por um maior investimento nos registos do audiovisual e da web. Sem efectuar esta aposta, estou em crer que todo o colossal esforço dos seus promotores, empenhados em conceber e executar inúmeras acções de proximidade, estará condenado a resultados limitados (ou a um relativo fiasco), por não estar escudado e envolto numa ambiência social onde a produção cultural (incluindo, obviamente, a literária) esteja mais presente e revele a sua dimensão mais estimulante de confronto com os convencionalismos estéticos e ideológicos.

Desconheço a autoria da foto.

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