VII
Como Tentar Dissipar a Noite e o Nevoeiro
Note-se, no entanto, que nenhum
destes mecanismos (já antes referidos) de apoio à literacia e à literatura, por
parte do Estado, são, porém, apoios directos à criação.
Ora, a dificuldade primordial dos
escritores é, como vimos, falta de tempo para se dedicar às suas tarefas, uma
vez que são obrigados, por razões de subsistência, a dispersar-se por outros
trabalhos. Este sempre foi a sua preocupação fundamental; mas, presentemente,
dada a forma como tem evoluído (?) o sistema editorial e literário, a situação
tem tendência a agravar-se, como já amplamente referimos acima.
Não admira, por isso, que os
escritores venham cada vez mais a reclamar um papel mais preponderante do
Estado em apoio da criação literária: existe a consciência generalizada de que
se está a esgarçar a continuidade de um património que consensualmente a
sociedade considera fundamental e que o próprio Estado instrumentaliza como
bandeira nacional. É compreensível, portanto, a reivindicação dos autores para
que o Estado apoie directamente a criação literária, tal como já o faz com
outras manifestações artísticas. E que esta pretensão vá obtendo cada vez mais
eco social.
A perspectiva deste reforço do papel
no Estado no apoio directo à criação literária já não é nova. Creio que, nos
tempos modernos, e de uma forma estruturada e sistemática, se colocou, pela
primeira vez, em meados da década de sessenta, num país que não tem fama de um
grande intervencionismo, os Estados Unidos da América, com o programa, que
ainda hoje existe, depois de inúmeras vicissitudes (as últimas no consulado de
Donald Trump), do “National Endowments for the Arts”. A partir daqui, este
modelo de apoio alastrou para a Europa e hoje já está presente em diversos
países de todo o mundo, variando de consistência e dimensão, a par dos
restantes programas de apoio directo às outras criações artísticas.
No nosso país, as primeiras
tentativas de conceder apoios directos à criação literária remontam aos finais
do século passado e, depois de mais de uma década de interrupção, foram
retomados presentemente com o ultimo Governo: é o chamado Programa de Bolsas de
Criação Literária.
Simplesmente, esses apoios directos
são muito limitados (e não só em número) e bastante constrangedores, por razões
técnicas, em relação aos criadores literários.
Na minha opinião, as razões dessas
limitações técnicas resultam, antes do mais, porque seguem modelos não
adequados à realidade nacional, pois, por um lado, derivam do modelo das bolsas
do já referido “National Endowments for the Arts” e, por outro, do das bolsas
da área científica concedidas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Ora,
estes modelos orientam-se segundo o princípio da dedicação exclusiva, na
perspectiva, pelo menos implícita na sua concepção, de criar condições para a
total profissionalização dos bolseiros numa fase posterior da sua actividade.
E, como já se percebeu, no nosso país, as hipóteses de os autores se dedicarem
exclusivamente à criação literária, e de ser esta a sua única via de
remuneração, são muito difíceis e arriscadas, entre outras razões, dada a
exiguidade do mercado e ao baixo número de consumidores de livros.
É evidente que os princípios que
orientam estas bolsas são genericamente correctos (disponibilização de tempo e
concessão com base na avaliação de projectos); mas deveria existir uma maior
maleabilidade na avaliação das situações e uma diversidade de apoios que não se
confinasse estritamente a um único modelo de bolsas.
Como já se constatou, o modo e o
estatuto com que os escritores se posicionam no universo literário são muito
distintos e este facto deveria ser considerado para que os apoios públicos à
criação literária fossem adequados e correctos (ia a escrever justos, mas
parece-me ser um termo objectivamente impróprio). Partir do pressuposto
igualitarista, de que a situação socioprofissional dos autores é idêntica ou
que ambicionam ter no futuro uma situação similar, não corresponde à realidade
e só gera dificuldades insuperáveis e condicionalismos aos possíveis candidatos
e limita as possibilidades de um efectivo apoio à actividade literária. Como se
sabe, muitos deles não têm condições para efectuar um “interregno” nas suas
actividades profissionais, nem ambicionam dedicar-se em exclusivo à literatura
num futuro próximo e, estes factos, inibem, como é evidente, que concorram a
este modelo de apoios.
Por tudo isto, dever-se-ia partir do
pressuposto (e do desejo) de pretender apoiar à criação literária de outras
formas que não exigissem a dedicação exclusiva. Certos projectos, alguns deles
com enorme valia literária, podem ser produzidos por quem não tem condições
para uma dedicação exclusiva e é possível ponderar modelos de apoio que
garantam uma dedicação a meio tempo ou que sejam apenas uma forma de
reconhecimento da sua pertinência. Por exemplo (mas este é apenas uma hipótese,
note-se), e tendo em consideração a actual situação editorial e o mercado
existente, para autores com obra já publicada (mas não só), poderia
considerar-se uma solução que, através de um protocolo tripartido entre o
Estado, o autor e o seu editor, se garantisse e/ou reforçasse a percentagem a
que o autor irá receber pela venda dos direitos comerciais da obra futura
(concedido na forma de “adiantamento”) para uma determinada tiragem ou de
acordo com o modelo em que se processe a edição digital, estabelecendo-se
previamente o período da sua realização.
Creio que seria também de toda a
justiça que houvesse concursos distintos para candidatos com obra publicada e
sem obra publicada. É evidente, e é natural que assim seja, que os júris destes
concursos têm possibilidades de uma mais fácil avaliação nos casos de autores
com obra publicada que se apresentem com novos projectos do que daqueles se
candidatam com um projecto de uma primeira obra (mesmo que os dossiers das
candidaturas sejam acompanhados de originais já concluídos): é indiscutível que
um autor com obra publicada dá, por esse simples facto, uma segurança acrescida
ao júri de avaliação e que essa situação é, por isso, determinante.
Por outro lado, em particular para
certos géneros literários (como é o caso, por exemplo, da poesia), a apresentação
de um projecto torna-se mais num artifício, mais ou menos retórico ou de pura
elucubração intelectual, do que um efectivo programa de escrita. Nestes casos,
justificava-se que a avaliação se centrasse mais no corpo de textos já
concluídos do candidato, publicados ou não publicados, e sobre a sua valia e
pertinência estética.
Além disso, poderia ponderar-se uma
maior adequação do período temporal do apoio e/ou da bolsa à especificidade e
complexidade do projecto, não se ficando apenas condicionado às actuais
periodicidades (seis meses e um ano), perspectivando-se também, como já se
referiu, a possibilidade de uma dedicação a meio tempo, alargando-se assim até
dois anos.
Neste sentido, creio que ainda se
poderia criar uma modalidade para autores já consagrados (definição que
exigiria uma fundamentação com critérios rigorosos e objectivos), com carácter
plurianual (três a cinco anos) e com a possibilidade de apresentar mais do que
um projecto, que permitisse aos candidatos concluírem a sua obra sem estar tão
dependente dos meandros sempre árduos do mercado e do mundo editorial. Nestes
casos, já existe sinais suficientes de motivação e de resultados públicos que
permitem, com toda a justiça e valia
literária, perspectivar esta hipótese.
Por último, e no caso do famigerado
Estatuto do Trabalhador Cultural não enquadrar estas situações, como parece, complementar
as apoios e bolsas acima referidos, com apoios de carácter assistencial, para
autores que, no final da sua vida literária, por razões de saúde ou de idade,
têm dificuldades de subsistências com os rendimentos oriundos da venda de
direitos das suas obras ou da Segurança Social. São, felizmente, poucos casos a
que isto sucede, mas é de toda a justiça social que sejam assim recompensados,
pois não é admissível que um autor que dedicou toda a sua existência a dar
corpo ao património literário nacional, se encontre, no final da sua vida ou
por incapacidade, mergulhado em situações de miséria, como já sucedeu e foi de
conhecimento público.
Não se julgue que o que aqui se
avança como propostas exigiriam um financiamento com valores irrealistas e
impossíveis de atingir. Não vou, na presente circunstância, adiantar valores ou
previsões orçamentais, mas gostaria de que os meus presumíveis leitores
tivessem a certeza, sem sombra de dúvidas, daquilo que afirmo.
Simplesmente, era fundamental que a
literatura deixasse de ser encarada como uma “arte pobre”, que não necessita de
apoios, no quadro dos investimentos públicos: a literatura sempre, repito,
sempre obteve, no nosso país, apoios bem abaixo dos concedidos a quaisquer
outras actividades sociais e económicas, incluindo, obviamente, as que integram
o quadro das actividades artísticas e culturais. E este conjunto de propostas,
que aqui se apresenta, não chega para alterar esta situação, tal é a menoridade
dos actuais orçamentos orientados em apoio das actividades em redor da
literatura (principalmente, se excluirmos os concedidos, em circunstâncias
precisas e excepcionais, à sua internacionalização). Por isso, o problema,
note-se, não é, nem nunca foi, resultante de qualquer défice financeiro, mas de
vontade política, pois que, na sua génese, está uma visão que menoriza a
literatura (mesmo que na retórica pública se afirme o contrário) e a coloca com
um estatuto irrelevante, sem compreender a sua importância social e até
económica (basta constatar a empregabilidade e a facturação do sector do livro,
para não referir o seu contributo, através da internacionalização da nossa
literatura, para a imagem internacional do país e as suas repercussões globais
para a nossa actividade económica).

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