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terça-feira, 11 de junho de 2024

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 


UMA REVISITAÇÃO A ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Sempre associei a prosa de António Lobo Antunes, desde os seus primeiros livros, a uma enxurrada. Sei que a imagem não é atraente, mas tenho que confessar que foi sempre essa a que tive. Uma torrente que leva tudo à frente: destroços, cadáveres, formas indefinidas, quase imperceptíveis, objectos heteróclitos, amores e ódios, todos arrancados à sua vida comum, mas que só reconhecemos o seu sentido e relevância porque foram assim levados no turbilhão daquelas águas.

Pessoalmente, nunca achei que os seus livros/romances se destacassem pela significação das suas tramas ou porque integrem personagens inesquecíveis (talvez aqui esteja a ser um pouco injusto, principalmente quando me lembro de “O Manual dos Inquisidores”). Mas, segundo creio, nada disso é muito relevante para o autor.

O que distingue António Lobo Antunes é a riqueza (e complexidade) do seu estilo. É aí que reside a sua invulgar “marca-d’água”. É esta enfática dimensão estilística da sua prosa, que foi crescendo de obra para obra, que dá, pelo menos entre as que eu conheço, a “Que Farei Quando Tudo Arde?” uma importância muito particular no conjunto da sua extensa produção narrativa.

Neste estilo, antes do mais, destaca-se o sentido de observação, fruto de uma sensibilidade “treinada” (hoje, definitivamente, não tenho mão para as imagens) a retirar significado de todas as coisas, objectos ou gestos, em particular os mais ínfimos; depois, o tratamento da língua, reutilizando formas verbais com fortes potencialidades polissémicas, forçando-as até ao absurdo, o que lhe permite construir imagens de uma beleza, por vezes, fulgurante; por último, um excepcional sentido do ritmo frásico, principalmente da sua dramaticidade e/ou emotividade, aproveitando todas as figuras de estilo, em particular as anáforas e aliterações, para criar intensidades várias, de forma a arrastar o leitor numa prosódia encantatória. 

Ao concluir a leitura de “Que Farei Quando Tudo Arde?”, na pausa em que nos afundamos, fica-se de garganta apertada, ao percebermos que os destroços, que aquela enxurrada leva, são os de um país (ou de um povo) a que pertencemos. Ou ainda, procurando perscrutar mais fundo naquelas águas turvas, que são destroços da condição humana, que parece irremediavelmente perdida e sem solução. Até que, por fim, temos a iluminação definitiva: naquela enxurrada, vamos também nós, leitores de António Lobo Antunes durante décadas e décadas.

Dizem-me que as suas últimas obras têm cada vez menos leitores, que já ninguém as lê. Não me admira, não me admira, porque a sua leitura há-de ser sempre incómoda. Mas isso não lhes retira importância no quadro da literatura portuguesa (e não só).

A terminar, um pormenor. Intencionalmente, “Que Farei Quando Tudo Arde?” não tem referência de género, tanto podendo ser encarada como um romance ou um poema, na linha desta tendência da literatura contemporânea para a diluição dos géneros. Mas para mim, como leitor, é claramente um romance: tem várias personagens, a maioria delas também narradoras, diversas situações em diferentes contextos temporais e espaciais, inúmeros capítulos (mesmo que não enumerados, dando a entender que a sequência da sua leitura é arbitrária), tudo amalgamado por um estilo que, como já referi, tudo leva na frente. Dir-me-ão que todos esses ingredientes também podem estar na poesia; mas sucede que nesta não são estruturantes, enquanto neste romance o são. Por vezes, desconfio destas indefinições, pois parecem-me sempre resultantes da menorização do romance como género. Será?

 

Foto do escritor retirada de “New In Almada”, sem indicação de autoria, mas que, segundo creio, é de Pedro Loureiro.


quinta-feira, 23 de novembro de 2023

ALFACE

 


O PORTUGUÊS DO ALFACE

 

Para além de alguns leitores indefectíveis, creio que Alface está um pouco esquecido. A prova disso – se, para isso, é necessário prova – é que os seus livros estão todos esgotados e só se encontram em alguns alfarrabistas.

Provavelmente, tal sucede, porque o seu humor e a sua brejeirice são hoje considerados “ideologicamente incorrectos”. Mas é pena, porque Alface é, quase sempre, um admirável estilista e consegue dar um “tratamento” à nossa língua muito pessoal.

Acabei de ler um livro de histórias (contos?), intitulado “O Fim das Bichas” (e com o subtítulo, bem característico do seu humor, “é o princípio das filas”), numa edição muito cuidada e bonita da “Fenda”.

Lá encontrei algumas “pérolas” que aconselho a quem gosta de ler um português bem “burilado” e, ao mesmo tempo, capaz de seduzir e divertir.

Mas há uma para a qual gostaria de chamar a atenção. Chama-se “Por Baixo” e trata (?) de uma realidade que só apenas a minha geração, e aquelas que a antecederam, conheceu: a recruta no período em que o serviço militar era obrigatório. E, em particular, o serviço de recruta “para alferes” na Tapada de Mafra (não é que eu tenha lá “batido com os costados”, mas ouvi e sei tantas histórias de quem por nela andou, e “gravaram-se” de tal forma na minha memória, que parece que as “visualizo” como se por lá tivesse passado).

É magnífica a prosa com que descreve o cerco de humilhações e de sevícias, as torpes bravatas dos medíocres “superiores”, os truques quase infantis com que se procurava “escapar” aos maus tratos e às inevitáveis equimoses emocionais com que de lá se saía, já “formado” e “adulto”. Procurem ler e decerto que irão constatar, como eu, que o português do Alface é modelar na forma como “espelha” o carácter abominável daquele universo de mesquinhez castrense.

A obra apresenta uma “ficha de autor” que, após descrever, na terceira pessoa do singular, de forma absolutamente convencional, alguns dados biográficos, termina com uma frase que procura caracterizar o modo de estar do escritor: “Vive com facilidade.”

Segundo rezam as crónicas, Alface faleceu precocemente, e de um modo súbito, numa sessão pública de leitura e análise dos seus textos. Espera-se, e digo-o com macabra ironia, que se tenha finado com a mesma “facilidade” com que viveu.

Porque desconfio que ele não gostaria, não publico uma foto do seu rosto. Mas da capa do livro que li.   

 

Julho de 2018

 

Nota: Já depois de ter publicado este texto, vim a saber que a Teresa Carvalho publicou um livro sobre o autor, intitulado “Alface. Levantar As Saias Ao Diabo” (Maldoror, 2017) e que a mesma editora reeditou a colectânea de contos “Cuidado Com Os Rapazes”. Mas, no essencial, a fundamentação deste texto mantem-se.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

PEDRO ROSA MENDES



Pedro Rosa Mendes: “O Horror, esse lugar que ninguém queria admitir.”


Acabei agora de ler “Baia dos Tigres”.

A “arte combinatória”, que orienta as minhas leituras, fez com que lesse o conjunto da obra de Pedro Rosa Mendes ao contrário; isto é, do fim para o princípio, começando pelo seu último livro e acabando no primeiro. Mas não foi intencional, note-se; apenas sucedeu.

“Baía dos Tigres” é de facto a melhor obra de Pedro Rosa Mendes. Até aqui nada de novo, pois uma boa parte dos leitores e analistas portugueses também assim pensa; basta recordar as recensões elogiosas que teve, os prémios que obteve, e os números das vendas que conseguiu. E, porque não?, também as traduções e edições que teve no estrangeiro. É certo que alguns leitores dividem-se e também consideram o seu último livro, “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, de forma muito positiva, pois teve um muito bom acolhimento crítico e também foi premiado. Mas sinceramente não considero este romance tão conseguido como a sua primeira obra.

As razões desta minha preferência são fáceis de enunciar. A primeira, é porque considero este livro como um dos melhores sobre o tenebroso inferno em que se transformou a vida no interior de Angola e de Moçambique (mas principalmente da primeira), em consequência da guerra colonial e da guerra civil porque estes países passaram. E o valor deste testemunho não está apenas na narração das situações que estas guerras geraram, mas muito mais no poder expressivo com que essas situações são narradas em “Baía dos Tigres”. O trabalho sobre a língua de Pedro Rosa Mendes dá uma notável intensidade trágica a esta matéria, fazendo realçar a dimensão épica de um povo anónimo e sem voz. Realmente, desconheço na literatura portuguesa páginas que retratem de forma tão brutal e eloquente as dimensões mais inadmissíveis e intoleráveis da existência em que viveu (e ainda vive) grande parte da população angolana. Ao ponto de ser natural interrogarmo-nos sobre a dimensão que existe neste livro de reportagem e aquela que reporta já para a ficção e para o romance (“O Horror, esse lugar que ninguém queria admitir.”).

De facto, a capacidade expressiva de “Baía dos Tigres” consegue, para além de tudo, contagiar-nos com o medo e o cansaço do narrador-viajante, a sua compaixão e revolta pelas “desgraçadas” vítimas da fome e da guerra com que se cruza, a imundice e a destruição que o rodeia por todo o lado. Porque as inquestionáveis competências do autor como repórter permitem-lhe atingir diversos registos, alternando o tom, entre o humor amargurado e a mágoa, em que as situações são narradas, dando uma objectiva vivacidade que estimula o leitor a seguir aquele rosário de personagens, muitas vezes tingidas de um absurdo burlesco.

A segunda, é que, quando esta obra apareceu nos finais da década de noventa, não era muito comum, na literatura portuguesa contemporânea, pelo menos em forma de livro, a existência de obras de literatura de viagens/reportagens com esta qualidade literária. Ora, “Baía dos Tigres” permitiu chamar a atenção para esta lacuna e, a partir desta obra, começaram a aparecer muitos mais livros de viagens redigidos pelos nossos autores. Não quero dar a entender que haja uma mecânica causalidade entre o aparecimento deste livro e esta alteração do panorama literário português, mas este facto parece-me de ponderar.

Creio que estes elementos bastariam para transformar “Baía dos Tigres” num marco importante na recente literatura do nosso país. A única objecção que lhe coloco, e que é comum às restantes obras de Pedro Rosa Mendes, é que não é ininteligível a estrutura que encaminha a narrativa, dando nexo às diferentes situações descritas. Essa “falha”, na minha opinião, também é notória em “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”; só que, neste caso, que é um romance, tem um peso muito maior do que numa obra de literatura de viagens. Aliás, diga-se de passagem, esta aparente inexistência de uma arquitectura é bem comum a muitos livros de viagens, dando a ideia de que os autores consideram que o “roteiro”, que motivou a obra, lhes basta; sucede, no entanto, que, em “Baía dos Tigres”, o autor optou, na minha opinião de forma correcta, por não seguir narrativamente a sequência dos locais da viagem; mas, por outro lado, também não é claro o que em alternativa fundamentou a presente ordenação das narrativas.  

Por último, gostava de assinalar mais duas reflexões que a leitura desta obra me suscitaram.

Não interessa as circunstâncias, mas tomei conhecimento de “Baía dos Tigres” ainda em forma de projecto. E já na altura considerei, nessa condição, como muito, mas mesmo muito, interessante. Saliente-se que o livro, como resultado desse projecto, falhou. Mas ainda bem, porque a obra publicada revela-se muito melhor do que a que poderia gerar a enunciação do projecto. O que permite chegar a uma curiosa conclusão: é que um bom projecto tem quase sempre em germe um bom livro, mesmo que resulte em moldes muito diferentes daquilo que foi previsto.

A última obra publicada de Pedro Rosa Mendes, o já referido “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, foi em 2010. A partir daí, o autor não publicou mais nenhum livro. É evidente que desconheço as razões pessoais que originam esta situação. De facto, não tenho a honra nem o gosto de me considerar amigo de Pedro Rosa Mendes, pois, ao longo dos anos, só nos cumprimentámos, e trocamos algumas palavras, uma meia dúzia de vezes. Mas recordo uma entrevista que o autor deu, quando recebeu, com este seu último livro, o Premio PEN de Narrativa, em que afirmava esperar que, tal como a crítica tinha gostado do romance, o público também gostasse e que isso se reflectisse em livros vendidos. Não sei quais foram as vendas de “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”; mas talvez seja significativo (pelo menos, no nosso país, onde as tiragens baixas, permitem realizar mais do que uma edição) que a obra tenha tido uma única edição.

Por outro lado, recordo que Pedro Rosa Mendes, para além de escritor, foi um brilhante jornalista e que efectuou algumas reportagens particularmente importantes na nossa comunicação social. A clareza com que expunha a matéria jornalística e a coragem com que afrontava as situações e os poderes estabelecidos, tornaram-no num dos nossos jornalistas mais respeitados. Nos últimos anos, no seguimento de outros trabalhos jornalísticos, Pedro Rosa Mendes informou e deu notícia, de forma quase obsessiva, sobre a situação angolana (o que não admira, depois de ter “vivido” e escrito um livro como “Baía dos Tigres”), denunciando a incompetência e a corrupção dos poderes políticos e económicos daquele país. No momento em que os poderes políticos e económicos tratavam com complacência, para não falar de cumplicidade, a situação angolana, argumentando com absurdas razões tácticas, Pedro Rosa Mendes era das poucas vozes públicas em Portugal que afrontava essa situação e a denunciava, expondo-se a processos judiciais (que sempre ganhou) e a ameaças de toda a ordem. O resultado, recordo, foi o que se sabe: nos inícios de 2012, cancelaram o programa na Antena 1, onde mantinha uma crónica, segundo notícias públicas, por criticar frontalmente a realização de um programa da RTP 1 a partir de Angola, e depois de, já em 2011, a agência Lusa ter encerrado o seu lugar de correspondente em Paris (de acordo com informações da altura, porque era muito dispendioso). Em resumo, conseguiu-se silenciar Pedro Rosa Mendes, deixando-o sem trabalho e sem acesso ao seu público.

Hoje, depois do “Luanda Leaks”, em que se tornou admissível, de bom-tom, e até louvável, acusar Isabel dos Santos e a sua família (que, durante quarenta anos, assinale-se, “imperou” em Angola) de corrupção, de enriquecimento obscuro e de dar cobertura a outros “clãs” que obscenamente enriqueceram com a exploração das riquezas do seu povo, deixando-o na mais brutal miséria, é de toda a justiça recordar o trabalho e a figura de Pedro Rosa Mendes.

Quanto ao autor, nada sei dele. Segundo parece, desistiu do jornalismo, da literatura e possivelmente do país. Ou estarei enganado? Se for o caso, e perante os trabalhos que realizou, como é o caso de “Baía dos Tigres”, tem que se reconhecer que é profundamente lamentável e uma grande perda.     

Fevereiro de 2020.

Desconheço a autoria do foto do escritor.



segunda-feira, 22 de junho de 2015

ASCÊNCIO DE FREITAS


 
 
 
 
Por circunstâncias que não são para aqui chamadas, raramente tenho escrito sobre obras e autores portugueses.
 
Mas, como não há regra sem excepção, hoje escrevo sobre Ascêncio de Freitas.
 
Existem algumas biografias dele na web. Mas gostava de referir alguns, poucos, dados.
 
Nasceu há perto de noventa anos. Na Gafanha da Nazaré. Com pouco mais de vinte anos, em 1948, partiu para Moçambique e durante mais de trinta anos lá viveu. Fez de tudo (literalmente de tudo) nesta sua terra de vida. Colaborou nalguns jornais e em 1959 publica o seu primeiro livro de contos: Cães da Mesma Ninhada. Depois esteve cerca de vinte anos sem publicar. Quando regressou a Portugal, em 1978, publicou o seu segundo livro (Ontem Era a Madrugada) e, de seguida, várias colectâneas de contos e romances, alguns deles premiados (é o caso de O Canto da Sangardata, com o Prémio PEN Clube Português).
 
Como é natural, grande parte da sua narrativa tem, como ambiência, Moçambique. No essencial, Ascêncio de Freitas é um narrador português que escreve sobre a realidade moçambicana.
 
Confesso que não li a maior parte dos seus livros. Mas a ideia que tenho, acreditando em quem leu, é que a sua obra é empenhada, estilisticamente cuidada, com personagens bem construídas e que procuram personificar várias dimensões da existência. A comprová-lo, estão não só os Prémios que recebeu, mas algumas recensões (recordo um prefácio de Eugénio Lisboa, por exemplo), com elogiosas referências ao seu estilo e à complexa arquitectura das suas obras.
 
Acabei de ler o seu romance A Paz Enfurecida. A primeira nota que gostava de apresentar é que é um livro arriscado. Arriscado, porque coloca como narrador um moçambicano que utiliza o “seu” português, assente numa transcrição da sua própria oralidade. Para um leitor de Portugal torna-se uma leitura árdua, mesmo difícil, pelo menos até adquirir-se alguma habituação. Mas percebe-se que existe, em Ascêncio de Freitas, uma intenção respeitável: o romance é escrito para o leitor médio moçambicano, talvez mesmo para o “povo”, e, por isso, escreve na sua língua, utilizando não só a sua morfologia e sintaxe peculiares, mas também os seus termos e o seu “calão”. É evidente que esta ambição é um pouco irrealista, pelo menos a médio prazo; por isso, pressente-se que há uma disposição em deixar um testemunho que não se confina aos nossos dias.
 
A trama decorre ao longo de trinta anos da história recente de Moçambique. A personagem principal é um português que assume lutar ao lado da Frelimo contra o colonialismo. É então que conhece o seu melhor amigo, um comandante guerrilheiro, que aparece como uma homem íntegro e obcecadamente empenhado nos objectivos da independência. Quando esta é conquistada, os dois, de forma fraterna mas distinta, iniciam o seu processo de desencanto. De facto, aos poucos e poucos, vão percebendo que o novo governo, muitas vezes fruto da sua inexperiência e da sua impreparação técnica (mas também de maus conselhos), cai no inferno da autocracia, brutalizando a população e os seus necessários aliados, com uma repressão em geral arbitrária, e provocando o afastamento gradual do povo que diz servir. E – o que é mais grave – propiciando o aparecimento da Renamo (em parte, também instigado pelos vizinhos rodesianos e sul-africanos) e da guerra civil. Com ela, agrava-se a situação de miséria e de fome que, como um mancha de óleo alastrando na estrada, se espalha por todo o Moçambique, mas, muito em particular, nos campos e na floresta, onde o Estado não consegue chegar. A população camponesa, principal bastião da Frelimo, que por ela sacrificou vidas e bens, foi, assim, entregue à sua sorte: fome e mais fome, associada a brutalidade de quem, nas cidades, procura só saciar a sua avidez de poder e dinheiro.
 
O retrato que A Paz Enfurecida transmite do poder resultante da independência é devastador: a clique, que domina em Maputo, é constituída por incompetentes, corruptos e assassinos que vai deixar Moçambique numa situação ainda mais desgraçada do que o colonialismo. Mesmo a liberdade, tão sonhada, parece morrer às mãos de algozes que violentam a população por tudo e por nada, que perseguem quem se manifesta contra os poderes instituídos, prendendo-a e encarcerando-a em “campos de reeducação”.
 
E não se julgue que o romance transmite da Renamo uma imagem melhor. Pelo contrário, sofre dos mesmos vícios e males e, por isso, aparece como o outro lado do torno que esmaga o povo, deixando-o como uma massa informe e ensanguentada.
 
 Pressente-se, por isso, em A Paz Enfurecida, uma espécie de ajuste de contas. Não tanto com a Frelimo, nem com Moçambique, mas com os próprios ideais do autor, pois que percebe, no final da vida, que desbaratou a maior parte dela na convicção de princípios que só geraram miséria e fome e que os valores da liberdade, que sempre o orientaram, foram rapidamente esquecidos pelos seus parceiros de luta, mal tomaram conta do poder. No fundo, o romance revela a imensa amargura de quem acreditou que estava no lado certo da vida até que os factos e os homens comprovarem o enorme logro em que caiu.
 
Sei que pratico crime de lesa-majestade crítica ao identificar personagem e autor. A Paz Enfurecida não é autobiografia nem auto-ficção. Mas é inevitável pressentir, nos percursos finais da personagem principal e do seu amigo, uma correlação simbólica com o destino de Ascêncio de Freitas (mesmo sabendo, segundo dados que recolhi, mas não confirmados, que regressou a Portugal, a pedido de Samora Machel, para trabalhar na contra-informação, em nome do Estado moçambicano, e antes de alguns acontecimentos narrados no romance).
 
A Paz Enfurecida é, na minha opinião, um romance irregular. Uso este adjetivo com rigor: com aspetos conseguidos e outros menos. Os mais conseguidos relacionam-se com a forma como caracteriza a realidade da guerrilha e o papel da guerra na formação caracterial dos seus intervenientes e como retrata, em pinceladas amplas, o ambiente social pré e pós-independência. Porém, o romance necessita(va) de um significativo trabalho de edição (que retirasse vários trechos repetitivos) e de soluções narrativas que substituíssem diversos diálogos sentenciosos, com largas tiradas ideológicas e filosóficas, e seguramente com dúbia plausibilidade.
 
Conheci, há mais de dez anos, Ascêncio de Freitas e conversei com ele duas ou três vezes. Fiquei com a ideia de que era um homem mergulhado em constringentes dificuldades materiais, mas que procurava usar as forças que lhe restavam para levar com dignidade férrea as últimas etapas da sua vida. Assinalo apenas o facto, sem o considerar relevante para o presente comentário.
 
Confesso, no entanto, que, quando comecei a ler A Paz Enfurecida, julguei que Ascêncio de Freitas já tivesse morrido. Descobri então que vive em Setúbal, afastado dos meios literários. Intrigou-me, por isso, a estranha poeira de silêncio que cobriu o autor e a sua obra. São poucas (e desactualizadas) as referências que se descobrem na web à sua vida. E, em relação a sua obra, há já muito tempo que não aparece (pelo menos, que eu tenha conhecimento) alguma recensão na comunicação social. Porque será? Será que se considera que não merece atenção dos críticos e especialistas? Ou será que a sua obra é vítima do destino singular de Ascêncio de Freitas e que os motivos que originam este sepulcro de silêncio têm uma raíz política e não literária? Como devem calcular, creio que, tendo em conta o ambiente que nos rodeia, existem razões para estas dúvidas.
 
Por tudo isto, uma última nota que me parece ser de toda a justiça.
 
A única edição existente de A Paz Enfurecida foi realizada pela Editorial Caminho. São conhecidas as acusações que se fazem a esta editora de que a sua linha editorial está demasiado próxima (para não dizer dependente) dos princípios ideológicos do Partido Comunista Português. É inquestionável que muitos exemplos podem ser dados a confirmar esta proximidade. Mas sempre entendi que o seu principal responsável, o editor Zeferino Coelho, era um homem de grande solidez intelectual e que, ao contrário do que se dizia à boca pequena pelos corredores da capital, sempre procurou não sacrificar os valores culturais e literários, que uma editora empenhada deve ter, aos dogmatismos ideológicos dos seus compagnons de route. E a edição deste romance é uma prova mais evidente deste facto, pois desconheço outra, de âmbito literário, que seja tão frontal na acusação aos governos da Frelimo, logo após a independência de Moçambique (num período em que procuravam aplicar cegamente a cartilha marxista-leninista), das terríveis calamidades humanitárias que originaram.