segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

PEDRO ROSA MENDES



Pedro Rosa Mendes: “O Horror, esse lugar que ninguém queria admitir.”


Acabei agora de ler “Baia dos Tigres”.

A “arte combinatória”, que orienta as minhas leituras, fez com que lesse o conjunto da obra de Pedro Rosa Mendes ao contrário; isto é, do fim para o princípio, começando pelo seu último livro e acabando no primeiro. Mas não foi intencional, note-se; apenas sucedeu.

“Baía dos Tigres” é de facto a melhor obra de Pedro Rosa Mendes. Até aqui nada de novo, pois uma boa parte dos leitores e analistas portugueses também assim pensa; basta recordar as recensões elogiosas que teve, os prémios que obteve, e os números das vendas que conseguiu. E, porque não?, também as traduções e edições que teve no estrangeiro. É certo que alguns leitores dividem-se e também consideram o seu último livro, “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, de forma muito positiva, pois teve um muito bom acolhimento crítico e também foi premiado. Mas sinceramente não considero este romance tão conseguido como a sua primeira obra.

As razões desta minha preferência são fáceis de enunciar. A primeira, é porque considero este livro como um dos melhores sobre o tenebroso inferno em que se transformou a vida no interior de Angola e de Moçambique (mas principalmente da primeira), em consequência da guerra colonial e da guerra civil porque estes países passaram. E o valor deste testemunho não está apenas na narração das situações que estas guerras geraram, mas muito mais no poder expressivo com que essas situações são narradas em “Baía dos Tigres”. O trabalho sobre a língua de Pedro Rosa Mendes dá uma notável intensidade trágica a esta matéria, fazendo realçar a dimensão épica de um povo anónimo e sem voz. Realmente, desconheço na literatura portuguesa páginas que retratem de forma tão brutal e eloquente as dimensões mais inadmissíveis e intoleráveis da existência em que viveu (e ainda vive) grande parte da população angolana. Ao ponto de ser natural interrogarmo-nos sobre a dimensão que existe neste livro de reportagem e aquela que reporta já para a ficção e para o romance (“O Horror, esse lugar que ninguém queria admitir.”).

De facto, a capacidade expressiva de “Baía dos Tigres” consegue, para além de tudo, contagiar-nos com o medo e o cansaço do narrador-viajante, a sua compaixão e revolta pelas “desgraçadas” vítimas da fome e da guerra com que se cruza, a imundice e a destruição que o rodeia por todo o lado. Porque as inquestionáveis competências do autor como repórter permitem-lhe atingir diversos registos, alternando o tom, entre o humor amargurado e a mágoa, em que as situações são narradas, dando uma objectiva vivacidade que estimula o leitor a seguir aquele rosário de personagens, muitas vezes tingidas de um absurdo burlesco.

A segunda, é que, quando esta obra apareceu nos finais da década de noventa, não era muito comum, na literatura portuguesa contemporânea, pelo menos em forma de livro, a existência de obras de literatura de viagens/reportagens com esta qualidade literária. Ora, “Baía dos Tigres” permitiu chamar a atenção para esta lacuna e, a partir desta obra, começaram a aparecer muitos mais livros de viagens redigidos pelos nossos autores. Não quero dar a entender que haja uma mecânica causalidade entre o aparecimento deste livro e esta alteração do panorama literário português, mas este facto parece-me de ponderar.

Creio que estes elementos bastariam para transformar “Baía dos Tigres” num marco importante na recente literatura do nosso país. A única objecção que lhe coloco, e que é comum às restantes obras de Pedro Rosa Mendes, é que não é ininteligível a estrutura que encaminha a narrativa, dando nexo às diferentes situações descritas. Essa “falha”, na minha opinião, também é notória em “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”; só que, neste caso, que é um romance, tem um peso muito maior do que numa obra de literatura de viagens. Aliás, diga-se de passagem, esta aparente inexistência de uma arquitectura é bem comum a muitos livros de viagens, dando a ideia de que os autores consideram que o “roteiro”, que motivou a obra, lhes basta; sucede, no entanto, que, em “Baía dos Tigres”, o autor optou, na minha opinião de forma correcta, por não seguir narrativamente a sequência dos locais da viagem; mas, por outro lado, também não é claro o que em alternativa fundamentou a presente ordenação das narrativas.  

Por último, gostava de assinalar mais duas reflexões que a leitura desta obra me suscitaram.

Não interessa as circunstâncias, mas tomei conhecimento de “Baía dos Tigres” ainda em forma de projecto. E já na altura considerei, nessa condição, como muito, mas mesmo muito, interessante. Saliente-se que o livro, como resultado desse projecto, falhou. Mas ainda bem, porque a obra publicada revela-se muito melhor do que a que poderia gerar a enunciação do projecto. O que permite chegar a uma curiosa conclusão: é que um bom projecto tem quase sempre em germe um bom livro, mesmo que resulte em moldes muito diferentes daquilo que foi previsto.

A última obra publicada de Pedro Rosa Mendes, o já referido “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, foi em 2010. A partir daí, o autor não publicou mais nenhum livro. É evidente que desconheço as razões pessoais que originam esta situação. De facto, não tenho a honra nem o gosto de me considerar amigo de Pedro Rosa Mendes, pois, ao longo dos anos, só nos cumprimentámos, e trocamos algumas palavras, uma meia dúzia de vezes. Mas recordo uma entrevista que o autor deu, quando recebeu, com este seu último livro, o Premio PEN de Narrativa, em que afirmava esperar que, tal como a crítica tinha gostado do romance, o público também gostasse e que isso se reflectisse em livros vendidos. Não sei quais foram as vendas de “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”; mas talvez seja significativo (pelo menos, no nosso país, onde as tiragens baixas, permitem realizar mais do que uma edição) que a obra tenha tido uma única edição.

Por outro lado, recordo que Pedro Rosa Mendes, para além de escritor, foi um brilhante jornalista e que efectuou algumas reportagens particularmente importantes na nossa comunicação social. A clareza com que expunha a matéria jornalística e a coragem com que afrontava as situações e os poderes estabelecidos, tornaram-no num dos nossos jornalistas mais respeitados. Nos últimos anos, no seguimento de outros trabalhos jornalísticos, Pedro Rosa Mendes informou e deu notícia, de forma quase obsessiva, sobre a situação angolana (o que não admira, depois de ter “vivido” e escrito um livro como “Baía dos Tigres”), denunciando a incompetência e a corrupção dos poderes políticos e económicos daquele país. No momento em que os poderes políticos e económicos tratavam com complacência, para não falar de cumplicidade, a situação angolana, argumentando com absurdas razões tácticas, Pedro Rosa Mendes era das poucas vozes públicas em Portugal que afrontava essa situação e a denunciava, expondo-se a processos judiciais (que sempre ganhou) e a ameaças de toda a ordem. O resultado, recordo, foi o que se sabe: nos inícios de 2012, cancelaram o programa na Antena 1, onde mantinha uma crónica, segundo notícias públicas, por criticar frontalmente a realização de um programa da RTP 1 a partir de Angola, e depois de, já em 2011, a agência Lusa ter encerrado o seu lugar de correspondente em Paris (de acordo com informações da altura, porque era muito dispendioso). Em resumo, conseguiu-se silenciar Pedro Rosa Mendes, deixando-o sem trabalho e sem acesso ao seu público.

Hoje, depois do “Luanda Leaks”, em que se tornou admissível, de bom-tom, e até louvável, acusar Isabel dos Santos e a sua família (que, durante quarenta anos, assinale-se, “imperou” em Angola) de corrupção, de enriquecimento obscuro e de dar cobertura a outros “clãs” que obscenamente enriqueceram com a exploração das riquezas do seu povo, deixando-o na mais brutal miséria, é de toda a justiça recordar o trabalho e a figura de Pedro Rosa Mendes.

Quanto ao autor, nada sei dele. Segundo parece, desistiu do jornalismo, da literatura e possivelmente do país. Ou estarei enganado? Se for o caso, e perante os trabalhos que realizou, como é o caso de “Baía dos Tigres”, tem que se reconhecer que é profundamente lamentável e uma grande perda.     

Fevereiro de 2020.

Desconheço a autoria do foto do escritor.



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