quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

PETER NÁDAS


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

7ª Vinheta



PETER NÁDAS

Peter Nádas (1942-) é um escritor húngaro, de origem judia, considerado actualmente como um dos mais importantes autores europeus, que se tem dedicado à produção narrativa, ensaística e dramatúrgica, além de ser um grande apaixonado pela fotografia. Foi galardoado com vários prémios húngaros e europeus (recordo, entre muitos, o Österreichischer Staatspreis für Europäische Literatur/Austrian State Prize for European Literature, o Prix du Meilleur Livre Étranger e o Franz Kafka Prize) e foi nomeado por diversas vezes para o Prémio Nobel de Literatura.

Integrando uma das mais robustas literaturas europeias contemporâneas (recordo, para situar, os nomes de Tibor Déry, Sándor Márai, Péter Esterházy, György Konrád, Imre Kertész ou de László Krasznahorkai, para apenas referir os mais conhecidos no exterior da Hungria), Peter Nádas tem uma vasta obra, difícil de caracterizar, pois passou por diversas fases e centros de interesse. No entanto, pode afirmar-se que ela se caracteriza por uma reflexão muito peculiar sobre o fluir do tempo e da História e na sua acção sobre os destinos individuais e nas opções mais intimas e pessoais e ainda por uma constante desconfiança em relação ao papel dos podres públicos sobre a vida das pessoas - sendo esta posição de Peter Nádas resultante de ter vivido boa parte da sua existência sob o regime comunista húngaro. Por último, convém salientar que toda a sua obra reflete um registo de exigência moral para com a vida (a sua e a dos outros) de que resulta a necessidade de uma posição clara e inequívoca em termos políticos.

Há, no conjunto da sua obra narrativa, principalmente composta por novelas, curtos romances e textos de carácter mais autobiográfico, quatro romances que se destacam nitidamente (os títulos aqui apresentados são da sua versão inglesa): “The End of a Family Story” (edição original de 1977), “A Lovely Tale of Photography” (1999) e os monumentais “A Book of Memories” (1986) e “Parallel Stories” (2005), este último uma trilogia a que o autor dedicou cerca de dezoito anos.

“A Book of Memories”, como o título pretende assinalar, é um romance sobre o peso da memória no quotidiano e o seu estatuto no devir do eu como entidade unívoca. Sempre escrito na primeira pessoa, “A Book of Memories” é um conjunto de três narrativas encadeadas: a primeira, de uma personagem anónima, narra a infância e a adolescência de um jovem sob o regime estalinista húngaro e da sua incapacidade em atingir a plenitude intelectual e afectiva nesse contexto; depois, ainda na mesma narrativa, salta-se para a Berlim dos anos oitenta, onde o mesmo jovem, agora adulto, entre relações amorosas tempestuosas e intensas, procura escrever uma biografia de um escritor alemão, dos finais do séc. XIX e inícios do séc. XX, chamado Thomas; a segunda narrativa tem esta personagem como protagonista e narra a sua vivência quotidiana, feita de boémia e experimentação sensorial, característica dos meios modernistas, na passagem do século na Europa Central; a terceira narrativa tem como protagonista um amigo/amante do primeiro narrador, que herdou o manuscrito da biografia, e que regressa à tentativa de compreender, numa diferente perspectiva, a experiência de viver sob o regime comunista. Convém, por último, salientar que os críticos, resultante da sua complexidade filosófica, da densidade da análise psicológica e pelo seu sentido de observação, consideram esta obra muito devedora da narrativa proustiana e que, pela ambição de transmitir uma visão global do homem e da sociedade, está na linha das obras de Robert Musil e de Hermann Broch. É justificável assinalar ainda que Susan Sontag considerou “A Book of Memories” como “o mais importante romance escrito no nosso tempo (está a referir-se aos anos oitenta) e um dos maiores do séc. XX”.

 “Parallel Stories” é uma obra gigantesca que retrata o percurso de centenas de personagens durante o séc. XX na Europa Central, a partir de três protagonistas, amigos na década de sessenta, mas cujo passado, e mesmo o seu futuro, pouca relação têm entre si (o romance, em termos de arco temporal, vai desde os anos vinte aos anos oitenta), mas cuja existência reflete bem as mutações de mentalidade e de comportamento social e político que se processaram no séc. XX, tanto na Alemanha como na Hungria (mas o livro estabelece conexões com outras regiões da Europa Central e Oriental). Segundo o próprio autor afirmou, sentia necessidade de escrever este romance porque “A Book of Memories” tinha sido escrito sob o regime comunista, e com este, elaborado em maior liberdade, poderia clarificar as suas posições e explicitar certas situações que tinha omitido (como a perseguição dos judeus, os campos de concentração, e a própria II Grande Guerra) ou atenuado o seu relevo no anterior livro.

Neste sentido, talvez seja de assinalar que Peter Nádas dá muita importância à observação e ao pormenor, principalmente sensorial, que se tornam mais determinantes na obra do que a própria sucessão interminável (e que parece poder continuar indefinidamente) de situações que constituem a trama de elevada complexidade de “Parallel Stories”. Daí o enfâse na componente física, corpórea, das personagens (o autor costuma assinalar nas suas entrevistas que considera o corpo o centro de tudo), e o sentido que tem a descrição das emoções eróticas, que o autor analisa com uma minúcia quase clínica, para compreender as motivações e opções sociais das suas personagens.

As suas obras têm sido amplamente traduzidas em inglês, francês e alemão e também em espanhol e italiano.


Fevereiro de 2020

Foto do autor de Gábor Valuska





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