OUTRAS
LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
4ª Vinheta
SONALLAH IBRAHIM
Sonallah Ibrahim
(1937-) é um escritor egípcio, que integrou a denominada “geração de sessenta”
(composta, entre outros, para apenas referir os mais presentes nos circuitos
internacionais da edição, pelos escritores Baha Taher e Gamal Ghitany), e que é
conhecido pelas suas claras posições de esquerda, anti-imperialistas e de
repúdio de todos os governos que até hoje lideraram o seu país. Foi um activo
militante comunista, o que levou a que o regime de Nasser, no final dos anos
cinquenta, o prendesse, julgasse por traição e o condenasse a sete anos de
prisão, dos quais cumpriu cinco.
Foi nessa altura
que começou a escrever, redigindo o seu primeiro livro (ainda hoje um dos mais
prestigiados do autor), cujo título em inglês é “That Smell”, e que de imediato
lhe granjeou um significativo reconhecimento nacional e internacional.
Depois de sair
da prisão, decidiu dedicar-se em exclusivo à sua futura obra, tendo publicado,
até hoje, mais de uma dezena de romances e um diário de prisão. Foi-lhe
concedido alguns prémios literários nacionais (que o autor sistematicamente
rejeitou por considerar que são concedidos por “governos indignos”) e
internacionais.
Toda a sua obra
narrativa reflecte a suas posições políticas e a sua atitude crítica em relação
à sociedade egípcia. Mas esta sua atitude alarga-se a todo o mundo árabe, pois redigiu
também romances sobre a situação sociopolítica do Líbano ou sobre os conflitos
no Iémen e em Omã.
Hoje, Sonallah
Ibrahim é considerado um dos mais importantes escritores egípcios, não só pelas
suas inovações formais, mas também pela introdução de novos modelos narrativos
na literatura do seu país, e ainda por se ter debruçado sobre temas, como a
política e a vida sexual, em moldes que até aí não tinham aparecido. Além
disso, a sua obra é uma ininterrupta e exaustiva reflexão sobre as relações
entre o Ocidente (incluindo a Rússia soviética, sobre quem lança um olhar
crítico no seu último romance, intitulado “Ice”, na versão inglesa) e o Egipto.
No quadro de uma
obra bem variada, em termos de técnicas e estilos narrativos, centrada na
contemporaneidade (não se deve omitir, no entanto, a sua “intromissão” no
romance histórico, com o seu recente romance “Turbans et chapeaux”, na versão
francesa), pode realçar-se, a título de exemplo, o já referido “That Smell” e ainda
“The Committee”.
“That Smell”, o
primeiro romance de Sonallah Ibrahim, é, desde a sua edição em 1966,
considerado um clássico e, ao mesmo tempo, uma obra que revolucionou a
narrativa egípcia. O romance descreve os primeiros tempos de um homem que,
depois de ter estado preso, regressa à sua cidade e à sua vida “normal” e, por
conseguinte, como se vai adaptando aos novos ritmos, às pequenas sensações e
emoções que a liberdade lhe dá, a gerir a sua pulsão sexual e até ao reatamento
(ou não) das suas anteriores relações de amizade. Mas, como já se referiu, o
que é mais relevante neste romance é a perspectiva com que o narrador encara o
mundo que se lhe abre com a sua libertação e o estilo narrativo com que
descreve esse “embate”.
É comum
considerar (todas os analistas o fazem) “The Committee” como uma obra de cariz
kafkiano… De facto, este romance é uma alegoria, em que um narrador anónimo, ao
ser recebido por um Comité, de quem espera indeterminadas possibilidades de
futuro, percebe, pela forma ambígua, humilhante e misteriosa como é inquirido e
pela missão que é coagido a efectuar, que o seu destino se encaminha para fins paradoxais
e perversamente perigosos. No fundo, esta obra pretende ser uma sátira subtil ao
regime autoritário egípcio dos anos setenta (o regime de Sadat) e à sua
“abertura” aos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. De
facto, o narrador, por indicação do Comité, vai acabar por se ver envolvido
numa teia criada por personagens sinistras e misteriosas, manipuladas pelo
“Doutor”, uma entidade difusa e fugidia que está na “sombra” de inúmeros
“grandes negócios” obscuros.
A obra de Sonallah
Ibrahim tem sido amplamente traduzida para francês e inglês, assim como existem
títulos seus em espanhol, italiano e alemão.
Foto do autor de Frederic Reglain
Fevereiro de
2020



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