sábado, 1 de fevereiro de 2020

SONALLAH IBRAHIM


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

4ª Vinheta


SONALLAH IBRAHIM

 
Sonallah Ibrahim (1937-) é um escritor egípcio, que integrou a denominada “geração de sessenta” (composta, entre outros, para apenas referir os mais presentes nos circuitos internacionais da edição, pelos escritores Baha Taher e Gamal Ghitany), e que é conhecido pelas suas claras posições de esquerda, anti-imperialistas e de repúdio de todos os governos que até hoje lideraram o seu país. Foi um activo militante comunista, o que levou a que o regime de Nasser, no final dos anos cinquenta, o prendesse, julgasse por traição e o condenasse a sete anos de prisão, dos quais cumpriu cinco.

 
Foi nessa altura que começou a escrever, redigindo o seu primeiro livro (ainda hoje um dos mais prestigiados do autor), cujo título em inglês é “That Smell”, e que de imediato lhe granjeou um significativo reconhecimento nacional e internacional.

 
Depois de sair da prisão, decidiu dedicar-se em exclusivo à sua futura obra, tendo publicado, até hoje, mais de uma dezena de romances e um diário de prisão. Foi-lhe concedido alguns prémios literários nacionais (que o autor sistematicamente rejeitou por considerar que são concedidos por “governos indignos”) e internacionais.

 
Toda a sua obra narrativa reflecte a suas posições políticas e a sua atitude crítica em relação à sociedade egípcia. Mas esta sua atitude alarga-se a todo o mundo árabe, pois redigiu também romances sobre a situação sociopolítica do Líbano ou sobre os conflitos no Iémen e em Omã.

 
Hoje, Sonallah Ibrahim é considerado um dos mais importantes escritores egípcios, não só pelas suas inovações formais, mas também pela introdução de novos modelos narrativos na literatura do seu país, e ainda por se ter debruçado sobre temas, como a política e a vida sexual, em moldes que até aí não tinham aparecido. Além disso, a sua obra é uma ininterrupta e exaustiva reflexão sobre as relações entre o Ocidente (incluindo a Rússia soviética, sobre quem lança um olhar crítico no seu último romance, intitulado “Ice”, na versão inglesa) e o Egipto.

 
No quadro de uma obra bem variada, em termos de técnicas e estilos narrativos, centrada na contemporaneidade (não se deve omitir, no entanto, a sua “intromissão” no romance histórico, com o seu recente romance “Turbans et chapeaux”, na versão francesa), pode realçar-se, a título de exemplo, o já referido “That Smell” e ainda “The Committee”.

 
“That Smell”, o primeiro romance de Sonallah Ibrahim, é, desde a sua edição em 1966, considerado um clássico e, ao mesmo tempo, uma obra que revolucionou a narrativa egípcia. O romance descreve os primeiros tempos de um homem que, depois de ter estado preso, regressa à sua cidade e à sua vida “normal” e, por conseguinte, como se vai adaptando aos novos ritmos, às pequenas sensações e emoções que a liberdade lhe dá, a gerir a sua pulsão sexual e até ao reatamento (ou não) das suas anteriores relações de amizade. Mas, como já se referiu, o que é mais relevante neste romance é a perspectiva com que o narrador encara o mundo que se lhe abre com a sua libertação e o estilo narrativo com que descreve esse “embate”. 

 
É comum considerar (todas os analistas o fazem) “The Committee” como uma obra de cariz kafkiano… De facto, este romance é uma alegoria, em que um narrador anónimo, ao ser recebido por um Comité, de quem espera indeterminadas possibilidades de futuro, percebe, pela forma ambígua, humilhante e misteriosa como é inquirido e pela missão que é coagido a efectuar, que o seu destino se encaminha para fins paradoxais e perversamente perigosos. No fundo, esta obra pretende ser uma sátira subtil ao regime autoritário egípcio dos anos setenta (o regime de Sadat) e à sua “abertura” aos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. De facto, o narrador, por indicação do Comité, vai acabar por se ver envolvido numa teia criada por personagens sinistras e misteriosas, manipuladas pelo “Doutor”, uma entidade difusa e fugidia que está na “sombra” de inúmeros “grandes negócios” obscuros.

 
A obra de Sonallah Ibrahim tem sido amplamente traduzida para francês e inglês, assim como existem títulos seus em espanhol, italiano e alemão.

 
Foto do autor de Frederic Reglain

 
 


 
 
 

Fevereiro de 2020

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