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segunda-feira, 20 de junho de 2022

RABEE JABER

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

23. Rabee Jaber (1972-)

É um escritor libanês, de expressão árabe, que escreveu dezanove romances em pouco mais de vinte anos. Esta produção literária ininterrupta transformou o autor (um homem com uma vida reclusa e pouco dado a vir a público e a participar em actos mundanos) numa das figuras mais proeminentes da literatura libanesa. A confirmar este estatuto, estão os factos de os seus últimos romances terem sido seleccionados para o International Prize for Arabic Fiction (o mais importante galardão para narrativas em árabe), tendo o seu penúltimo, intitulado (em tradução literal para inglês) “The Druze of Belgrade”, ganho este galardão (rezam as crónicas, que o autor, quando percebeu quais eram as cerimónias públicas em que era necessário estar presente, decorrentes desta outorga, pura e simplesmente, “fugiu” de Abu Dhabi, cidade onde está sitiado o prémio) e de ter sido seleccionado como um dos autores mais importantes de língua árabe com menos de quarenta anos na antologia Beirut39, organizada pelo festival literário internacional “Hay Festival”, em 2007, na altura em que Beirute foi Capital Mundial do Livro. Por último, convém assinalar que Rabee Jaber foi jornalista cultural no “Al-Hayat”, um dos mais importantes jornais árabes (entretanto encerrado), e que a partir de 2014, segundo se pode saber (dadas as dificuldades em conhecer no Ocidente a produção literária árabe, há que efectuar sempre esta ressalva), não publicou mais nenhum livro.

Seja qual for o quadro temporal das obras do autor (Rabee Jaber escreveu alguns romances históricos, como é o caso do já referido), percebe-se que o seu tema nuclear são as guerras religiosas, o que não admira, tendo em conta o percurso histórico do seu país. No entanto, não são tanto os conflitos em si que interessam o autor (à parte, eles estarem sempre presentes como “pano de fundo”, com o seu cortejo brutal de chacinas e de massacres), mas as consequências e os traumas que deixaram. E não só psicológicos (medo, ódio, consciência constante da fragilidade da vida, etc.), mas também de desfiguração de valores e princípios e até de perca de identidade.

Os romances mais referenciados de Rabee Jaber são, para além do já acima citado, “America”, 2010, situado no princípio do séc. XX e centrando-se na emigração como forma de procurar a salvação e a subsistência num mundo destituído de referências culturais comuns, “The Birds of the Holiday Inn”, 2012, contextualizado na guerra civil de 1975-76 e sobre como sobreviver e organizar o quotidiano no seio de uma semelhante situação, “The Mehlis Report”, 2006, sobre os constantes sequestros e atentados a diversas personalidades no seu país, e em torno do relatório da ONU sobre o assassínio do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, e “Byretus, Undeground City”, 2005, com uma componente fantástica acentuada, sobre uma cidade subterrânea de Beirute, onde os seus mortos subsistem e procuram reconstruir a existência que a cidade da superfície lhes roubou.

Mas o romance que suscita mais interesse é “Confessions” de 2008. Não se julgue, pelo título, que este romance tenha algum aspecto de autobiográfico, mesmo recorrendo, em termos de referência, às “Confissões” de Santo Agostinho, pois também aqui a memória é entendida como um “palácio labiríntico com imensos quartos”.

A obra, de uma assustadora violência, tem, como narrador, um homem que viveu toda a infância e adolescência sob a guerra civil libanesa e que soube, pelo pai moribundo, quando lhe contou que tinha decidido escrever a sua história, que tinha sido retirado de um carro, ferido e ensanguentado, com quatro ou cinco anos, onde a sua família original fora toda dizimada num ataque perpetrado por ele e pelo irmão mais velho, no campo de refugiados de Shatila (prática a que se dedicavam frequentemente), e que fora trazido para “substituir” um outro filho dele também sequestrado e assassinado.

Percebe-se que o romance, para além dos temas do ódio, da morte e das sequelas longas do terror, é uma sinuosa indagação sobre a identidade e a memória. Numa linguagem crua, mas ao mesmo tempo poética, o narrador vai questionar-se sobre o valor e o sentido dos referentes com que construiu a sua memória, uma vez que todos os seus registos “arderam”, não sabendo qual é a sua religião nem a sua cultura, e principalmente que “inimigo” vive dentro dele.

Não há, no entanto, nestas “memórias” de um homem sobre a sua infância nem nenhum gosto do macabro (à parte, existirem, obviamente, muitas situações e descrições verdadeiramente brutais), nem nostalgia. Com a serenidade daquilo que é uma necessidade vital, o narrador vai percorrendo, fragmentariamente, a espiral do seu terror mais íntimo, percebendo que, no final, apenas encontrará um buraco negro.

Alguns romances de Rabee Jaber foram traduzidos para inglês, francês, alemão e italiano.

Junho de 2022

Desconheço a autoria da foto do escritor.



sexta-feira, 3 de junho de 2022

LING XI

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

19. Ling Xi (1972-)

É uma autora chinesa que decidiu expressar-se literariamente em língua francesa, após ter emigrado para França em 1998 e aí se ter formado. Começou a publicar em 2006 e tem até hoje duas colectâneas de novelas e dois romances editados. Duas dessas obras foram publicadas por Maurice Nadeau (o director do jornal “La Quinzaine Littéraire” e, provavelmente, desde os anos sessenta, um dos mais notáveis leitores de literatura do séc. XX), o que, por si só, é um garante da qualidade literária da obra da autora.

Como é natural, boa parte das suas narrativas situam-se na China e procuram reflectir as mutações culturais, sociais e económicas da sua população rural e urbana, com a correspondente desadequação e o consequente processo migratório. Mas, como a autora referiu numa entrevista, não pretende realizar um retrato folclórico nem efectuar nenhuma autobiografia (a única excepção, e redigida a pedido de Maurice Nadeau, é uma das novelas de  “L’Épaule du cavalier”, 2016, a que precisamente dá origem ao título da colectânea).

De facto, os romances da autora (“La Trosième moitié”, 2010, e “Gorge des Tambours”, 2022), espelhando um grande arco temporal, e envolvendo várias gerações, não pretendem propriamente “representar” o processo histórico. As personagens apenas reflectem a referida desadequação e a correspondente estranheza social e cultural, expressas numa escrita lírica e, de certo modo, simbólica. Talvez assim se compreenda por que motivo aparece, tanto nos romances como nas novelas, como tema recorrente, diversas formas de androgenia e de metamorfose. A androgenia não é apenas fruto de imposições, sentidas como absurdas, do Estado chinês, mas também de um paradigma cultural que dilui as fronteiras sexuais e o binarismo, e, de certo modo, corporiza o sentimento de desenraizamento cultural e de não-pertença a um lugar.

Por tudo isto, o livro que ainda parece mais fascinante de Ling Xi seja o primeiro, a colectânea de novelas intitulada “Été strident” de 2006. Essas três novelas têm, como personagens nucleares, seres desadequados e em permanente metamorfose: é o velho (em 2070) que recorda quando o seu pai o abandonou, com o sonho de ser poeta em Paris, e que viveu, fragilmente, sempre em contramão aos valores sociais dominantes e que se resigna a ser criador de baratas; o jovem operário, de uma beleza excepcional, que vive o sonho de ser um cantor lírico, que todas as noites se veste de mulher, com quimono de seda, para ir cantar a um salão de chá e que ninguém conhece objectivamente a sua identidade; ou o emigrante em Paris que, incapaz de aceitar o comportamento das suas colegas de escritório, vive num mutismo total, aterrorizado com a ideia de regressar à China, onde foi obrigado a viver a sua infância disfarçado de menina.

Por último, uma pequena nota que poderá ter a sua relevância: não é provavelmente por acaso que as personagens centrais das suas novelas sejam figuras masculinas.

Junho de 2022.

A autoria da foto da escritora é de Catherine Fruchon-Toussaint.

  


  


sábado, 30 de abril de 2022

HOMEIRA QADERI

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

9. Homeira Qaderi (1980-)

É uma escritora afegã que já publicou três romances e uma colectânea de contos. Em complemento, decorrente do seu papel de activista dos direitos humanos e, principalmente, em prol da melhoria da situação das mulheres no seu país, e de especialista em literatura persa e afegã, tem publicado outras obras, de carácter mais indefinido, entre o biográfico e o ensaístico.

Aliás, como seria inevitável, a situação social e política, que o seu país tem vivido nas últimas décadas, teve e tem um papel determinante nas opções literárias da escritora. Nascida sob o domínio soviético, impossibilitada de estudar durante o regime talibã, Homeira Qaderi viu-se obrigada a exilar-se com a família, ainda em criança, no Irão, onde se formou em literatura persa e afegã, tendo-se doutorado na Universidade Jawaharlal Nehru, na India. Ainda no exílio, começou a intervir em diversas conferências e organismos internacionais com o fito de denunciar a situação social das mulheres islâmicas, e em particular no Afeganistão, procurando sensibilizar a opinião pública internacional para a sua degradante condição. Em 2011, já depois da queda do regime talibã, regressou ao seu país e começou a dar aulas na Universidade de Cabul, continuando a manter uma forte intervenção pública em defesa das mulheres. Em 2021, aquando da “reconquista” de Cabul pelos talibãs, viu-se de novo obrigada a exilar-se, agora para os Estados Unidos.

A ficção de Homeira Qaderi, escrita em persa afegão (ou dari, como quiserem), é quase inacessível e pouca informação, lamentavelmente, existe sobre ela: reconhece-se, no entanto, que o seu romance “Noqra, a Girl from Kabul River” (numa tradução literal do título para inglês), 2009, é, com as narrativas de Maryam Mahboob e de Spôjmai Zariâb, uma das mais importantes obras de narrativa literária contemporânea escrita por uma mulher afegã.

Por isso, o nosso interesse vê-se assim quase confinado a uma obra de não-ficção, intitulada na edição inglesa por “Dancing in the Mosque”, 2019. O livro, conforme indica o subtítulo, apresenta-se como uma “carta ao filho” (“An Afghan Mother’s Letter to her Son”) e nele a autora narra a sua experiência pessoal, desde a infância sob o poder soviético, os seus esforços (e riscos) para ensinar outras meninas afegãs na fase do jugo talibã, o casamento com dezassete anos no Irão com um marido islâmico e formatado por uma cultura patriarcal e misógina, a dolorosa epopeia que foi o nascimento do seu filho num hospital público em Cabul, a obstinada decisão em estudar literatura e dedicar-se à criação literária, a irrevogável e dramática opção de se divorciar, quando o seu marido, após doze anos de casamento, a informou de que se queria casar com uma segunda mulher, sabendo que essa resolução lhe iria fazer perder qualquer direito, de acordo com a “sharia” e o direito civil do seu país, de cuidar do filho e até de o contactar.

Mas esta obra não se limita a ser um libelo acusatório contra a humilhante situação das mulheres islâmicas no Afeganistão. Dado o seu carácter não-linear, fragmentário e o seu estilo com matizes que vão desde o lírico (principalmente nas descrições das suas relações com a sua avó, na infância, ou com as suas amigas na mesquita) até um realismo cru, mas expressivo, no retrato que efectua do quotidiano asfixiante e perigoso de Cabul, “Dancing in the Mosque” tem um interesse literário que supera bastante o simples registo de um testemunho.

A autoria da foto da escritora é de Tim Schoon.

Abril de 2022.



segunda-feira, 25 de maio de 2020

EMILE HABIBI


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

15ª Vinheta

EMILE HABIBI



Emile Habibi (1922-1996) é um escritor palestiniano, de nacionalidade israelita. E neste simples enunciado está grande parte do destino deste militante e escritor.

Logo após a Declaração de Independência de Israel e a guerra israelo-árabe que lhe sucedeu, Emile Habibi, já como dirigente do Partido Comunista da Palestina, decidiu permanecer em Israel, obter a sua nacionalidade e, a partir do interior, defender a causa palestiniana. Como figura pública, defendeu o Plano da ONU para a existência de dois Estados (Palestina e Israel), posição que lhe gerou hostilidades de ambos os lados, tanto árabe como israelita. Mais tarde, protagonizou a luta para que o Estado de Israel se tornasse um estado laico, democrático e multiétnico e foi com esta posição que contribuiu para a criação do Partido Comunista de Israel (que, durante muitos anos, foi o único partido que integrava, como militantes, palestinianos e israelitas) e que foi eleito como deputado para o Knesset (o órgão legislativo de Israel), onde se manteve mais de vinte anos.

Emile Habibi começou a publicar romances e novelas já tardiamente (a edição da sua primeira obra data de 1968), mas rapidamente se tornou, com Mahmoud Darwich na poesia, um dos autores mais relevantes da literatura palestiniana. De facto, mesmo tendo escrito alguns contos, a prioridade deste escritor foi, no contexto histórico que vivia o seu povo, a actividade política e jornalística, centrando-se só no final da sua vida na produção literária. O conjunto da sua obra é constituído, fundamentalmente, por cerca de meia dúzia de romances e uma peça de teatro, e foi premiado não só pela OLP como pelo Estado de Israel: recebeu o Israel Prize, tendo sido até hoje a única vez que foi outorgado a um palestiniano. Aliás, o facto de lhe ter sido concedido este prémio, e de o autor o ter aceite, foi fortemente criticado tanto por palestinianos como por israelitas (na altura, Emile Habibi argumentou, em defesa da sua posição, que a concessão deste prémio poderia ser uma forma de aproximar os dois povos e, em resposta a estas críticas, resolveu oferecer a verba pecuniária a instituições que apoiavam as crianças vitimas da Intifada).

A conjuntura social e política que vivia o seu povo, levou-o a considerar que era inevitável, para a sua sobrevivência, a luta política e, por isso não admira que a sua obra literária se centre na defesa da sua causa.

A sua obra caracteriza-se pela utilização sistemática da sátira e da ironia. Segundo os especialistas, este humor negro desabrochou no autor em consequência da Guerra dos Seis Dias, e da aparatosa (e humilhante) derrota árabe, e tornou-se uma forma de afrontar e procurar dar algum sentido ao desespero palestiniano. De facto, a sua obra debruça-se sobre o quotidiano contraditório e absurdo da população palestiniana, tanto a que permaneceu no território israelita como a que se refugiou nos países limítrofes. Mas, para além deste aspecto, vai também procurar realçar, através da literatura, a identidade cultural palestiniana, para que este povo, numa fase particularmente esgarçada e destroçada da sua história, reforce a sua autonomia como nação (recorde-se que alguns dirigentes israelitas, marcadamente sionistas, defendiam que os palestinianos não tinham identidade, pois não tinham uma cultura nem uma literatura própria, e que a Guerra do Seis Dias era uma definitiva derrota da sua causa como nação, pois que eliminara a hipótese de eles construírem um património identitário).  

Os livros de Emile Habibi que é habitual destacar (apresenta-se os títulos em inglês) são a colectânea de contos “The Sextet of Six Days” e os romances “The Strange Circumstances Surrouding the Disappearance of Sa’id Abu’l-Nahs, the Pessoptimist”, “Shame” e “Daughter of the Ghoul” (que em França foi intitulado “Soraya, fille de l’ogre”).

Mas, nem que seja pelo sucesso mundial que obteve, a obra que é a maior referência, no conjunto da produção literária deste autor, é “The Strange Circumstances Surrouding the Disappearance of Sa’id Abu’l-Nahs, the Pessoptimist”. E esse sucesso foi tal que, como sucede muitas vezes, obliterou os restantes títulos, ao ponto de, para o comum dos leitores, parecer que Emile Habibi é o autor de um único livro.

“The Pessoptimist”, como é habitualmente referenciado, é um romance epistolar de um palestiniano que escreve a um professor israelita, e onde se vai aludindo, através da história reinventada, com um humor sardónico e surrealizante, do próprio narrador, a história recente do seu povo, e como, ao longo do tempo, este vai variando entre os sentimentos de não existir (de desaparecer), que procura impor quem o oprime, e o de ser maior e superior ao opressor, porque, apesar das perseguições e do repúdio, consegue sobreviver e amar (as três partes em que se divide a obra têm o nome de diferentes mulheres por quem o narrador se apaixona e que, de certo modo, corporizam o desejo de reconhecimento e felicidade que o povo palestiniano procura).

Existem obras de Emile Habibi traduzidas para inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. Em Portugal, “The Pessoptimist” foi traduzido (provavelmente a partir do francês) por António Belmiro Guimarães, e publicado pela Ed. Caminho, com o título “As Estranhas Circunstâncias do Desaparecimento de Saíd Abu Nahs, o Optissimista”.  

Maio de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


sábado, 18 de abril de 2020

DONG XI

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

13ª Vinheta


DONG XI


Dong Xi (1966-) é um escritor chinês que, desde os finais dos anos oitenta, tem publicado uma significativa obra narrativa, principalmente nos domínios da novela (onde se tem mais destacado), do conto e do romance. No entanto, foi apenas quando o seu trabalho narrativo foi adaptado ao cinema e à televisão (em que o próprio escritor participou) é que passou a ser reconhecido a nível nacional. Saliente-se que, desde a década de noventa, Dong Xi é escritor profissional e, como tal, membro da Associação de Escritores da China, tendo ganho, ainda nessa década, com uma novela (“Life Whitout Language”, na versão inglesa e “Une vie de silence”, na versão francesa), o prestigiado Lu Xun Literary Prize.

A crítica literária tem acentuado que uma das tónicas essenciais da obra de Dong Xi é o princípio de que nada é partilhável, porque a comunicação é sempre imperfeita. Além disso, que cada homem transporta consigo um passado que inevitavelmente é sombrio e que condiciona qualquer relação. Há quem considere que este espírito resulta do autor ter nascido numa família rural pobre, oriunda de uma província chinesa (Guangxi) distante dos grandes centros urbanos e de ter passado fome na sua infância durante os períodos do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural.

Por isso, é uma componente constante, na caracterização das personagens das suas novelas e romances, o peso do passado e a necessidade de o entender, como forma de sobrevivência no presente. E a superação da mágoa desse passado processa-se sempre através da ironia, mesmo que ela se torne, por vezes, negra e cínica, e por uma atitude de refluxo em relação ao universo em redor, temendo sempre que dele venha o pior.

Compreende-se assim que, em termos estilísticos, as obras de Dong Xi agreguem diversos elementos aparentemente em conflito: por um lado, a utilização do non-sense como instrumento de humor, como se a própria realidade (em particular, a realidade política e o seu efeito nefasto no quotidiano individual) só pudesse ser entendida no registo de absurdo; por outro, um registo realista, mas minimalista e elíptico, repleto de evasivas e silêncios, com que se procura retratar a vida banal no seio de famílias comuns. Daí que a crítica assinale que os autores que mais “influenciaram” a obra de Dong Xi sejam Franz Kafka e Raymond Carver.

“Life Whitout Language” (1996), uma das suas primeiras novelas, é, ainda hoje, considerada como a mais relevante e significativa de Dong Xi. A história desenrola-se no seio de uma família, vivendo numa aldeia rural da China recôndita, constituído por um pai cego e um filho surdo, aos quais se junta, uma jovem, muda, que naturalmente a integra, quando chega à aldeia, passando a viver com o filho. No momento em que nasce uma criança normal nesta estranha e marginalizada família, gera-se um momento de júbilo entre todos, crentes que vão superar, através dela, todas as dificuldades de comunicação com os vizinhos e serão aceites e integrados; só que, conforme cresce, esta criança vai sentir sobre si, o estigma que a aldeia tinha lançado sobre a família, repudiando-a, perseguindo-a e ostracizando-a: a sua salvação, ou pelo menos, a sua sobrevivência obriga-a a repudiar o mundo, voltando a confinar a sua existência ao núcleo familiar, aceitando a sua comunicação fragmentada e o seu silêncio.

Há, como é evidente, nesta parábola, uma significação aberta que permite que represente de certo modo várias realidades possíveis (e os comentadores referem as relações entre os cidadãos e o Estado, as relações entre o mundo rural, repleto de seres sem voz, e a afirmação crescente da vida urbana, etc.). Porém, a interpretação mais consensual assenta de que esta obra é uma forma de revelar as dificuldades de comunicação entre os homens, cujo relacionamento é essencialmente feito de esparsos sinais que apenas exprimem de forma desajeitada e lateral o âmago da necessidade de afecto e de partilha que todos procuram.

Existem obras de Dong Xi traduzidas e editadas em inglês e francês. Em inglês, estão traduzidas a novela “Life Whitout Language” (publicado na “Chinese Literature Today”, vol. 6) e o romance “Record of Regret”. Em francês, estão publicados o romance “Sauver une vie”, a colectânea de novelas “Tu ne sais pas combien elle est belle” (que inclui a novela “Une vie de silence”, acima referida) e a colectânea de contos “Accrocher les coins de la bouche au bord des oreilles”.

Lisboa, Abril de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.



segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

LAXMAN GAIKWAD


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

3ª Vinheta



LAXMAN GAIKWAD

 
Laxman Gaikwad (1956-) é um escritor indiano, de língua marata (uma língua que é falada por mais de oitenta milhões de pessoas, incluindo uma boa parte da população goesa), com mais de meia dúzia de romances publicados, e que integra o movimento da “Literatura Dalit” (para quem não está familiarizado com os termos indianos, recordo que “dalit” (ou “sudras”) designa a casta mais baixa, de acordo com o modelo social instituído pelo hinduísmo, e que é conhecida no Ocidente pelo termo pejorativo de “intocáveis”).

Este autor, para além de ser “dalit”, pertence à tribo nómada “uchalya”, que é tradicionalmente considerada como uma tribo de ladrões (pois vivia de pequenos furtos) e que os britânicos, desde o séc. XIX, condicionaram a possibilidade de trabalhar e de se deslocar livremente, forçando-a a perenizar em modelos de subsistência de raíz criminal que a ostracizaram e a levaram a um constante confronto com as autoridades.

É esta situação que Laxman Gaikwad expõe na sua primeira obra, “Uchalaya”, uma autobiografia em que revela como o seu pai, com riscos de ser banido da tribo, decidiu dar-lhe uma educação escolar, retirando-o dos esquemas de formação instituídos dentro da tribo, que apenas ensinam a roubar.

Mas o que faz deste livro uma reconhecida obra-prima é a forma sensível e emotiva como o autor articula o seu destino individual, feito de uma constante luta contra a fome, a miséria e a imundície, com o destino colectivo da sua comunidade.     

Hoje, Laxman Gaikwad é considerado um autor clássico na sua literatura, e obteve, com “Uchalaya”, os maiores galardões e prémios literários da India (incluindo o Sahitya Akademi Award), aquando da sua publicação em 1988.

“Uchalaya” é a única obra deste autor acessível numa língua ocidental, pois foi traduzida para inglês com o título “The Branded”.

Desconheço a autoria da foto do escritor.

Janeiro de 2020
 

domingo, 1 de setembro de 2019

JAKUCHŌ SETŌCHI

 
 

 
Jakuchō Setōchi ou a sinceridade como força de libertação
 
Há já muitos anos, um escritor, intelectual com forte intervenção cívica na vida portuguesa, respeitado por todos os quadrantes políticos e conhecido pelo seu espírito de abertura e tolerância, encontrou-me na rua e, depois de uma saudação, retirou-me o livro que levava debaixo do braço, folheou-o, e, com um abanar melancólico de ombros, disse: “Ah, estes já ficam muito longe…”
O livro era uma novela de Yasunari Kawabata.
Eu, que até lhe tinha uma grande estima, achei, na minha presunção de juventude, que aquela atitude do meu amigo revelava pouca curiosidade e um excessivo desinteresse por um povo e uma literatura que eu considerava relevantes para a história da humanidade. Como era possível que um homem generoso, culto e inteligente, se recusasse a compreender uma civilização milenar e a desinteressar-se pela sua criação literária?
De facto, só mais tarde, depois de ler mais alguns autores japoneses, percebi que a satisfação daquela minha genuína curiosidade não era tão fácil de concretizar como aqueles meus verdes anos poderiam antever: é evidente que o povo japonês tem (tinha?) uma diversificada simbólica, ritos e comportamentos bem distantes dos da minha cultura e que uma plena compreensão da sua literatura exige mais enquadramento informativo do que em relação a qualquer obra de um autor ocidental, tornando a leitura mais árdua e difícil; mas também é verdade que a descoberta de um universo bem diverso do nosso pode dar origem a um fascínio redobrado à leitura de uma obra literária japonesa. É por isso, e porque acredito que aquilo que aproxima a humanidade é muito mais do que o que a distancia, que continuo a ler obras desta literatura e a encontrar prazer e encantamento em textos que inalam um “perfume” aparentemente exótico, mas que, com o convívio, se percebe que é muito próximo e comum.  
A título de exemplo, assinalo que, ainda recentemente, li uma obra de um autor japonês, não muito distante de nós em termos temporais e que conhecia relativamente bem a cultura ocidental (vivera algum tempo nos Estados Unidos e em França), Nagai Kafū (1879-1959), e da estranheza que senti pela sua quase mitificação do universo da prostituição e a dificuldade em compreender, na sua fundamentação mais profunda, as razões que o levam a ter um “olhar” enternecido (até à comoção) pelas protagonistas desse universo, encarando-as como entidades com um papel acolhedor e materno perante a fragilidade e a impotência existencial dos seus clientes.
Recordei-me daquele incidente com o intelectual português, por causa da escritora Harumi Setōchi (1922-). De facto, provavelmente, não existe ninguém mais distante do meu universo do que esta autora: mulher, japonesa e monge budista (aliás, saliente-se, mudou o seu nome, como é canónico, para Jakuchō Setōchi, depois de tomar votos em 1973). Mas é essa distância, sem dúvida, um dos factores que gera em mim um grande fascínio pela sua obra.
Antes de avançar com alguma informação sobre o que conheço desta obra, creio que se justifica, como forma de enquadramento, salientar certos aspectos do universo editorial e literário contemporâneo japonês.
O primeiro aspecto relaciona-se com a enorme relevância dos “magazines literários” neste universo editorial e literário. Estas revistas, na generalidade de carácter mensal, procuram cativar diversos segmentos de leitores e, por isso mesmo, exigem uma produção literária com características muito peculiares, isto é, em que o autor é obrigado a condicionar a criatividade literária à acessibilidade e à temática, e, no caso da ficção, a uma trama potencialmente sedutora do grande público. Como eram uma fonte de rendimento regular, foram inúmeros os autores, ao longo do séc. XX, que se dedicaram a este tipo de produção narrativa, de cariz mais popular, em complemento de uma actividade literária com uma componente mais exigente em termos de criatividade.
 Por conseguinte, torna-se compreensível a importância que estes “magazines literários” tiveram (e têm) no desenvolvimento das formas narrativas da literatura japonesa (recorde-se, por exemplo, que provavelmente o prémio literário com mais prestigio do Japão, o Akutagawa, concedido semestralmente, é organizado há várias décadas por um destes magazines, o Bungeishunjū). Esta relevância reflecte-se duplamente: primeiro, na importância que têm as peças de pequena dimensão, como o conto e a crónica (ou, em complemento, o folhetim), na evolução das formas narrativas; segundo, a importância de modelos narrativos concebidos para cativar amplos segmentos de população na obra dos mais significativos autores da literatura japonesa contemporânea.
Ora, Harumi Setōchi, escreveu, ao longo da sua vida, sempre para estes “magazines literários” e, por isso mesmo, essa produção narrativa tem uma enorme relevância no conjunto da sua obra.
Um segundo aspecto que gostaria de referir sobre a vida literária japonesa, relaciona-se com a substancial codificação dos modelos narrativos nesta literatura. Neste contexto, destaco, dada a relevância que tem para caracterizar a obra de Harumi Setōchi, aquele que os analistas têm nomeado como “I-Novel” (Watakushi shōsetsu). Este modelo narrativo, que se difundiu somente no período Meiji e com a introdução da estética naturalista no Japão, tem um carácter claramente confessional, onde o autor procura descrever algum evento ou situação, muito pessoal e íntimo, em princípio socialmente negativo e oculto. Percebe-se, por isso, que há alguma similitude entre este modelo narrativo e aquele que, recentemente, alguns teóricos e analistas do fenómeno literário classificam de autoficção no quadro da narrativa ocidental. No entanto, convirá dar alguns esclarecimentos complementares: primeiro, não é obrigatório que exista uma relação directa entre o sujeito narrador e o autor (isto é, o “I-Novel” pode ter um sujeito narrador na terceira pessoa do singular, ou ter um personagem-narrador identificado e distinto do autor ou ainda vários narradores; o que é fundamental é que o leitor tenha capacidade de reconhecer que a trama da obra se relaciona com qualquer acontecimento (ou acontecimentos) que sucederam ao autor. Percebe-se, neste quadro, que um dos parâmetros de valoração destas obras é a sinceridade (parâmetro, na minha opinião, inevitavelmente ambíguo no domínio da produção artística) ou, por outras palavras, como é que a técnica narrativa consegue exprimir em profundidade e tornar explicita essa dimensão pessoal e íntima da vida do autor que a trama descreve. Por último, percebe-se também que a “I-Novel” tem uma dimensão de “roman à clef”, pois é fundamental que o leitor tenha a capacidade de reconhecer na trama narrada um acontecimento da vivência do autor. Como pormenor, só referir que Osamu Dazai é reconhecido como o autor mais prestigiado que se dedicou à produção de “I-Novels”.
Convém este esclarecimento para compreender um pouco a obra de Harumi Setōchi, pois esta autora publicou vários títulos que podem ser classificados como “I-Novel”, mesmo reconhecendo que alguns deles procuram fugir ao modelo canónico.
Ainda antes de avançar para as referências à sua obra, creio que é fundamental (e na perpectiva do “I-Novel”) fazer referência a uma circunstância biográfica da autora, pois ela tornou-se decisiva na formação do seu pensamento e crucial para a compreensão da sua obra.
Harumi Setōchi casou-se, com pouco mais de vinte anos, com um professor de música mais velho do que ela e que foi colocado, no quadro do serviço diplomático, em Pequim. Passado pouco tempo, no entanto, e já depois de ter tido uma filha, apaixonou-se por um aluno do marido e, durante um certo período, viveu um trio amoroso, até que a situação se tornou insustentável, obrigando-a a abandonar marido e filha, a regressar ao Japão, e, mais tarde, a divorciar-se.
Esta experiência amorosa teve um papel determinante na orientação da sua obra futura. Não só a autora se refere a ela, expondo-a de forma corajosa na sua autobiografia, como, de forma directa ou indirecta, está presente, em termos temáticos, em toda a produção narrativa que escreveu e publicou.
Seguindo uma “vocação” que se lhe manifestou desde muito nova (ainda antes de se casar já se tinha formado em Literatura Japonesa), Harumi Setōchi decidiu, depois do divórcio, dedicar-se em exclusivo à literatura.
Começou então a escrever para os referidos “magazines literários”, em particular, histórias orientadas para jovens adolescentes. Foi uma destas histórias, intitulada “Qu Ailing, a girl student” (tradução inglesa do título em japonês), que chamou a atenção para o seu trabalho narrativo, uma vez que obteve um prémio para jovens autores. Mas é uma outra narrativa (“The Pistil”), de cariz diverso, a que obtém maior notoriedade, mas uma notoriedade traumática: esta história de uma jovem mulher, que abandona uma conjugalidade estável e próspera, por uma vida de prostituta de luxo, em consequência da sua forte obsessão sexual, foi considerada obscena e pornográfica, principalmente devido à utilização constante do calão a referenciar os órgãos genitais femininos e um excessivo realismo na descrição do prazer orgástico da mulher. Essa reacção, fortemente crítica, fechou-lhe as portas dos editores e, por isso, durante alguns anos, Harumi Setōchi não conseguiu publicar a sua produção literária.
Viu-se, por isso, obrigada a efectuar uma inflexão na sua carreira literária: começou a escrever biografias romanceadas de figuras femininas marcantes da era Meiji (1867-1912). É o caso de “Tamura Toshiko” (1961), com que obteve um novo prémio literário, e que é a primeira de uma série de várias obras similares (escreveu nesta fase cerca de oito biografias), todas elas com as mesmas características: são todas centradas em mulheres que, em consequência de um comportamento passional intenso e da necessidade de serem manifestamente sinceras consigo próprias, entram em confronto com os padrões normalizados que a sociedade impõe ao comportamento feminino, conseguindo, no entanto, por vezes com sacrifício da sua própria vida, romper com essa teia social asfixiante, garantindo uma liberdade de comportamento às mulheres que, até aí, não existia.
Paralelamente, começou de novo a escrever narrativas (contos e romances), organizadas em duas séries, conforme o nome das personagens centrais femininas (Tomoko e Makiko) e inspiradas notoriamente nas experiências pessoais da autora (“I-Novel”), sobre mulheres vivendo triângulos amorosos (ou objectivamente adúlteras), em que um dos “lados” é quase sempre um homem casado, e sobre os dilemas emocionais, morais e até psicológicos que vivem nessas circunstâncias. A crítica reconhece nessas obras que Harumi Setōchi tem uma assinalável capacidade de análise psicológica; mas, ao mesmo tempo, vai continuando a acusá-la de excesso de erotismo e que as personagens femininas centrais destas narrativas manifestam um  sensualismo demasiado exarcebado. É deste período um dos contos mais famosos da autora, “The End of the Summer”, premiado e traduzido para várias línguas, e que lhe granjeou, em definitivo, o estatuto de escritora importante no quadro da literatura japonesa da segunda metade do séc. XX.
Nos primeiros anos da década de setenta, Harumi Setōchi resolve começar a trabalhar no diário “The Confessions of Lady Nijō” (1306), escrito por uma cortesã do séc. XIV com uma vida amorosa muito atribulada, recriando a sua biografia e efectuando uma versão para japonês moderno deste clássico. Segundo testemunho da própria autora, quando fez cinquenta anos, por influência desta obra, resolveu cortar o cabelo, passando a viver de cabeça rapada, e a entrar para um convento budista como monja, mudando o seu nome para Jakuchō Setōchi. 
Inicia-se então um dos períodos, na perspectiva dos críticos, mais profícuos da autora. De facto, ela própria reconhece, com alguma ambiguidade, que o seu estatuto de monja budista, originando uma certa austeridade de vida, lhe serviu para a afastar da turbulência amorosa em que vivia e, dessa forma, conseguir a serenidade necessária pra se dedicar de um modo mais criativo à sua produção literária. Seja como for, é deste período algumas das obras mais elogiadas de Jakuchō Setōchi, como é o caso de “Mt. Hiei”, considerado hoje como uma das obras-primas no modelo “I-Novel” ou a biografia “Ask The Blossoms”, sobre o poeta Saigyo (a única biografia da autora tendo como personagem central um homem), que ganhou o Tanizaki Prize, ou o segundo volume da sua autobiografia, intitulado “Places”, que obteve o Noma Prize.
Durante a década de noventa, dedicou grande parte do seu tempo à produção de uma versão em japonês contemporâneo do “Genji Monogatari”, que foi publicada com um enorme sucesso de vendas e que lhe deu, em definitivo, o estatuto de “respeitável escritora”, ao ponto de receber, das mãos do Imperador, em 2006, a condecoração da “Ordem da Cultura”. Longe ia o tempo em que era acusada de escritora pornográfica e de feminista radical, provocando a degradação moral das jovens gerações e a destruição da sociedade japonesa tradicional.
Não se julgue, contudo, que Jakuchō Setōchi, hoje, com quase cem anos, repudiou as posições anteriormente defendidas. Sucede apenas que os tempos mudaram e a sociedade japonesa passou a considerar que, nos livros e nas entrevistas que a autora continua a realizar, há uma sabedoria mitigada pela idade que lhe dá uma outra capacidade de entender o caminho andado pela sociedade japonesa e, em particular, pela mulher.
Pode afirmar-se, porém. que as componentes mais relevantes da sua obra estão concluídas, permitindo que a crítica possa já destacar alguns traços fundamentais.
O primeiro aspecto a destacar, é que a autora notoriamente considera que a dimensão erótica e a sensualidade da mulher têm contribuído decisivamente para a sua libertação das cadeias que a sociedade patriarcal lhe tem colocado, contribuindo dessa forma para uma significativa abertura dos costumes e da moral. Neste contexto, a mulher encontra-se muitas vezes no dilema entre responder afirmativamente aos seus impulsos emocionais e afectivos ou acatar os comportamentos convencionais (de esposa e mãe) que habitualmente a sociedade lhe exige. Mas, na perspectiva de Jakuchō Setōchi , este é um falso dilema, pois a mulher, se for “sincera” com as suas emoções, tenderá a segui-las, sob pena, se o não fizer, de se autodestruir; mas, por outro lado, a autora também tem consciência que a correspondência positiva ao que determina a sexualidade e o desejo femininos podem dar origem a significativos condicionamentos individuais, uma vez que a paixão, que a carência sexual em parte provoca, leva a mulher a uma sujeição e, por vezes, a um sofrimento emocional que pode ser muito destrutivo.
É para compreender a ambivalência deste comportamento emocional determinado pela sexualidade que a situação de triângulo amoroso, ou até mesmo do adultério, é importante para Jakuchō Setōchi, pois permite-lhe efectuar, pela evidência das tensões e dos condicionalismos, uma exaustiva análise dos efeitos psicológicos, éticos e filosóficos da sexualidade e do comportamento amoroso feminino.
Segundo os analistas, é no quadro desta capacidade afirmativa e/ou destrutiva das relações amorosas que aparece na obra de Jakuchō Setōchi o espectro da Morte. De facto, essa presença fantasmagórica revela-se também de forma ambivalente: por vezes, parece o final desejado pelo paroxismo da paixão amorosa; por outras, manifesta-se como a sombra destruidora dos amantes que sentem o esgarçar do envolvimento amoroso, mas, paralelamente, são incapazes de por fim ao relacionamento, por comodismo, excesso de sofrimento ou obsessão sexual.
Hoje, há quem considere a obra de Jakuchō Setōchi como uma peça importante para pensar a sexualidade e o desejo femininos e os seus efeitos pessoais e sociais, e, por consequência, uma referência no pensamento feminista mundial. Não sei se a autora se reconhece nessa classificação; mas não há dúvida nenhuma que a sua obra poderá ser importante para perceber a diversidade das implicações na mulher dos seus envolvimentos amorosos.
Por último, referir que os críticos conseguem distinguir duas componentes bem distintas na sua obra e ambas, por razões diversas, entendidas como muito significativas: por um lado, a sua produção narrativa com maiores inovações estéticas e literárias, e que integra as suas narrativas concebidas ou próximas do modelo do “I-Novel” e as suas autobiografias; por outro, na perspectiva relacionada com os efeitos sociais de uma obra literária, a que realizou com objectivos mais populares, em particular as suas biografias de figuras femininas do período Meiji, que se tornaram exemplares pela clareza expositiva e pelo rigor da fundamentação histórica (sendo, por isso, importantes para compreender aquele período), mas principalmente pela adequação estratégica da narrativa em defesa dos valores e dos comportamentos das figuras retratadas.
Termino a assinalar que algumas obras (não muitas) de Jakuchō Setōchi estão traduzidas para inglês, francês e italiano.   
 



segunda-feira, 1 de julho de 2019

AKI SHIMAZAKI

 
 
Aki Shimazaki
Aki Shimazaki (1954-) nasceu no Japão e, com cerca de trinta anos, emigrou para o Canadá, tendo obtido a nacionalidade canadiana. Uma década depois, fixa-se em Montreal, aprende francês e começa a escrever romances muito concisos e breves, todos contextualizados no Japão. Em 1999, publica o primeiro e, desde essa altura até hoje, já apareceram quinze obras. Muito discreta e reservada, raramente aparece em eventos sociais e poucas entrevistas concede.
Os títulos de cada um destes romances são constituídos por uma única palavra em japonês que designa flores, frutos ou pequenos animais. Esta opção não pretende ter um simples e gratuito efeito estético: são símbolos que procuram caracterizar as personagens principais ou os narradores e as situações nucleares narradas. Têm, por isso, um papel efectivo na narrativa, aparecendo recorrentemente, ao mesmo tempo que pretendem reflectir a “fragilidade” da matéria narrada e a forma como é tratada.
Um aspecto original da obra de Aki Shimazaki é que é construída para ter uma dupla leitura: os romances não só são arquitectadas para terem uma leitura inteiramente autónoma, como integram um ciclo de cinco obras, onde as personagens e os acontecimentos narrados se encaixam, produzindo novos sentidos e gerando outros “mistérios”. De facto, não existe nenhuma sequência temporal entre os romances e todos têm narradores/personagens principais distintos; mas todos estes acontecimentos e personagens aparecem e têm o seu papel, central ou colateral, nos restantes romances do ciclo.
Assim, Ali Shimazaki construiu três pentalogias a que ela própria deu títulos: “Le poids des secrets”, “Au coeur du Yamato” e “L’ombre du chardon”. O resultado é um amplo fresco do Japão contemporâneo que vai desde o período entre as duas guerras mundiais e a actualidade. Mas este “retrato” dos marcantes acontecimentos históricos porque este país passou é sempre focado a partir dos seus efeitos sobre os indivíduos e as famílias, procurando dar uma visão “intimista” do Japão.
O primeiro ciclo (“Le poids des secrets”) é temporalizado no período antes e durante a II Guerra Mundial, havendo, no entanto, situações que têm repercussões para períodos posteriores. No essencial, a obra é constituída pela(s) narrativa(s) de vários membros de uma família, que “sofreram” os efeitos de diversos acontecimentos históricos (um tremor de terra nos anos vinte, a bomba atómica em Nagasáqui, etc.), que deu origem a “segredos” que lhes irão condicionar a sua existência assim como a dos seus descendentes.
A estratégia narrativa destes romances é, no seu conjunto, muito simples: a personagem principal/narrador, no final da vida (ou após a sua morte, como sucede no primeiro romance, “Tsubaki”, onde a narrativa é constituída por uma carta deixada pela narradora, Yukiko, à sua filha), desvenda (ou lhe desvendam…) um “segredo” que determinou a sua existência. Em todos estas narrativas há, portanto, uma situação, exterior à vontade das personagens, que lhes “impôs” o seu modo de estar, em termos pessoais e sociais, e que, perante a qual, nada puderam fazer. Torna-se então clara a ilação destas narrativas: a vida é algo de demasiado frágil e sujeita a imponderáveis intempéries ou, por outras palavras, condicionada por um destino (o “innen”) que foi estabelecido por um acontecimento funesto a que as pessoas são alheias.
Por outro lado, parece que esse “segredo”, e principalmente a sua ocultação (através da “lei do silêncio”, uma espécie de norma social marcante na vida cultural japonesa, pois é ela que define as regras das relações interpessoais), se torna um elemento consolidante de uma família e contribui para definir a sua identidade.
O segundo ciclo, “Au coeur de Yamato”, é contextualizado no período do pós-guerra e espelha a importância de uma das unidades sociais mais relevantes do Japão actual: a empresa, no caso deste ciclo, comercial, e a forma como condiciona a vida dos seus empregados e se (des)articula com a família.
Neste ciclo, volta a reflectir-se o peso da história sobre a vida pessoal, dando-se particular enfâse ao processo de reconstrução económica porque o Japão passou a partir da II Guerra Mundial. Mas, ao contrário do anterior, as teias entre as personagens partem das relações que estabelecem dentro da empresa e nos efeitos que esta projecta para dentro das famílias, gerando tragédias que envolvem a vida das personagens e dando-lhes uma auréola de mistério que condiciona a sua vida e a sua visão do mundo.
O terceiro ciclo, “L’ombre du chardon”, centra-se num nível ainda mais intímo e pessoal das personagens: agora, a tragédia/mistério está no modo como as pulsões sexuais e o desejo conflituam ou transbordam para as relações amorosas instituídas e para os afectos que criam. De facto, todas elas vivem uma “malaise” decorrente dos seus anseios mais profundos embaterem em teias sociais, estabelecidas na família, que condicionam a sua realização e a sua felicidade. O dilema determinante de todos estes narradores/personagens é saber como lidar com este conflito: procurar conciliar estes contrários e resignar-se a uma existência serena, e de um possível bem-estar (estas personagens amam a sua família e não pretendem quebrar os laços que se instituíram), encarando estas manifestações passionais como “causas perdidas”, ou assumi-las, gerando uma vaga de sofrimento em seu redor?
No fundamental, reforça-se a ideia, que já aparecia nos anteriores ciclos, de que a necessidade de uma reserva íntima gera situações de incomunicabilidade e de que esta é uma das razões decisivas para grassar um ininterrupto mal-estar nas famílias e na sociedade.
No entanto, esta caracterização da problemática central destes romances não destaca aquilo que todos os comentadores e analistas são unânimes em realçar na obra de Aki Shimazaki: as suas qualidades estilísticas.
De facto, o estilo desta autora é muito peculiar e extremamente adequado à sua problemática: de frases curtas, com uma intensa musicalidade, dando a ideia que são construídas palavra a palavra, abandonando todo o supérfluo. Por isso mesmo, há quem refira que Aki Shimazaki elabora as suas frases, trabalhando-as como um “haiku”, e que é essa musicalidade, associado a um timbre melancólico e/ou nostálgico, que dá um cariz muito poético à sua prosa. Mas, reforçando esta imagem, pode também afirmar-se que os próprios romances são pensados como um “haiku”: não só pela sua contenção, mas porque a progressão da narrativa se efetua por breves anotações, num jogo de alusões e de reservas, que, como já foi referido, ao desvendarem “segredos”, geram outros mistérios que pairam como auréolas enigmáticas em redor das personagens e das situações. As próprias descrições são, no essencial, impressionistas, abandonando-se, mesmo na apresentação das situações mais cruéis e dramáticas, qualquer propensão realista.
Um outro aspecto interessante na obra de Ali Shimazaki, e que a própria destacou nas poucas entrevistas que deu, é que os seus romances são “pensados” em francês e nunca em japonês; aliás, considera que eram obras completamente distintas, se elas fossem escrita em japonês e que, por isso mesmo, nunca pensou em traduzi-las. Ora, este facto é muito relevante para a compreensão da génese da obra literária e questiona a problemática do bilinguismo de certos autores e a forma como pode ser entendida a sua obra no quadro da história da literatura.
Lisboa, junho de 2019

 

 




terça-feira, 10 de janeiro de 2017

HANNAH BAT-SHAHAR

 
 
 
 
 
DESEJO DE LER (5): HANNAH BAT-SHAHAR
 
Correndo o risco de me chamarem retrógrado, gostaria de afirmar que sempre senti algum fascínio pelas comunidades que, por motivos religiosos e ideológicos, procuram resistir à passagem do tempo. Em particular, aquelas que repudiam qualquer tecnologia ou qualquer tipo de instituição democrática com o objectivo de afastar do seu horizonte os sinais da modernidade.
 Este meu fascínio não está relacionado com os parâmetros religiosos ou ideológicos que cimentam estas comunidades, mas muito mais com os comportamentos e o quotidiano de gentes com padrões éticos muito austeros e ao modo como gerem no dia-a-dia o repúdio das solicitações “sedutoras” que os novos tempos trazem. Ou por outras palavras: o que me fascina é a dimensão inglória dessa luta contra o tempo e o tremendo sacrifício inútil para que arrasta gerações e gerações…
É o caso da comunidade haredi, nas suas diversas vertentes e grupos. Saliente-se que o termo haredi (os “tementes de Deus”, em hebreu) é aquele em que ela própria se reconhece, porque do exterior é conhecida por comunidade judaica ultra-ortodoxa (definição que, obviamente, não aceita).
Os haredi estão principalmente sediados em Israel; mas existem também grupos nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Bélgica e em França. Hoje, em todo o mundo, devem ser cerca de um milhão de almas, residindo, mais de metade, em Israel.
Não vou estar aqui a rememorar os seus principais princípios. Mas gostaria de recordar que os haredi têm enormes reticências ao sionismo e ao Estado de Israel (porque este só deveria ser criado após a chegada do Messias e, por conseguinte, a sua criação pelos homens é um terrível pecado, pois contraria a vontade divina que determinou a diáspora judaica) e que esse é um dos motivos do seu afastamento da comunidade ortodoxa. E que, por diversas razões, desejam viver em “guetos”, ou melhor, em bairros e povoações separados dos judeus ortodoxos, dos judeus laicos e dos gentios. Aliás, note-se, por vezes são mais hostis e violentos com os restantes judeus do que até com os gentios (incluindo os árabes; alguns dos seus rabinos mais radicais, no exterior, são aliados dos Palestinianos e do Irão contra o Estado de Israel).
Com tanto isolamento, é natural, portanto, que a literatura israelita não se tenha debruçado sobre esta realidade. Nem a geração dos patronos (Shmuel Yossef Agnon), nem a dos escritores que publicaram a partir dos anos sessenta – isto é, já nascidos em Israel ou que lá viveram a maior parte da sua vida – como Abraham B. Yehoshua, David Shahar, Amos Oz, David Grossman e Aharon Appelfeld, para só referir os mais conhecidos (a maioria dos seus romances e contos estão contextualizados em ambientes de judeus laicos). E o mesmo sucede, como é natural, com a maioria das narradoras israelitas, como é o caso, por exemplo, de Orly Castel-Bloom, Mira Mágen, Amalia Kahana-Carmon e Ruth Almog (segundo me informei, só Mira Mágen aborda as práticas sociais e o comportamento da comunidade ortodoxa, em particular no seu condicionamento de género).
A referência aqui à narrativa de origem feminina não vem por acaso: é sabido que os haredi, na longínqua tradição judaica e semita, organizam-se num modelo de enorme severidade patriarcal, empurrando as mulheres para um estatuto particularmente asfixiante, subjugando a sua sexualidade (e até a sua sociabilidade) a um padrão familiar tirânico. Aliás, basta dizer que o saber lhes está vedado (o estudo da Palavra e a sua interpretação é privilégio dos homens) e que, por isso, devem dedicar-se, no essencial, a cumprir a orientação bíblica da multiplicação (os casais têm, em media, sete a dez filhos).   
 Num contexto tão rarefeito de referências literárias actuais (só vi alusões de que o escritor Haim Be’er se tenha debruçado por esta realidade), percebe-se, por isso, o meu particular interesse em conhecer a obra de Hannah Bat-Shahar.
Esta escritora, nascida em 1944, originária da comunidade ultra-ortodoxa, começou a publicar, a partir da década de oitenta, já com mais de quarenta anos, colectâneas de contos e, já neste século, alguns romances. Os títulos mais relevantes da sua obra, numa tradução literal para inglês, são “ Calling the Bats”, “Look, the Fishing Boats” e “Shadows in the Mirror”.
Segundo sei, a sua obra centra-se no estatuto da mulher entre os haredi, em particular na falência dos seus afectos e no confronto entre as suas difusas fantasias amorosas e eróticas e os condicionalismos desta sociedade patriarcal, que as leva a construir universos “compensatórios” das frustrações que a vida lhes provoca. Assim, as suas personagens femininas revelam-se como seres complexos, procurando apenas a satisfação física, a que a manifestação da sua feminilidade fica sujeita, mas subjugadas por um sentimento de culpabilidade resultante de uma obsessão edipiana, fruto, por sua vez, da sua necessidade de afecto.
Hoje, em Israel, Hannah Bat-Shahar é reconhecida como uma das principais escritoras da sua geração.
Infelizmente, não existe nenhuma obra sua publicada em língua que eu possa ler…

 


domingo, 11 de dezembro de 2016

HALIM BARAKAT

 
 
DESEJO DE LER(4): HALIM BARAKAT
Quem já contactou com a academia norte-americana sabe que está repleta de intelectuais de todos os cantos do mundo que ela seduziu para o seu sistema. É o que sucede, por exemplo, no domínio das humanidades e das ciências sociais: não deve haver país nenhum do mundo que não tenha um intelectual a ensinar ou a investigar nas universidades americanas. No caso português, são bem conhecidos os casos de escritores e outros intelectuais que, ao longo do séc. XX, foram acolhidos, por temporadas variáveis, pela academia norte-americana e ali desenvolveram competências, saberes e criatividade.
Os motivos, que levam a que tal suceda, são inúmeros e é inútil aqui referenciar.
Mas há um caso que sempre me intrigou e que é o dos intelectuais árabes. Porque é importante lembrar: o confronto de civilizações e a diabolização dos Estados Unidos ou do Mundo Árabe não são de hoje e estes intelectuais sempre viveram planando por cima de um universo de incompreensão e hostilidade que seguramente lhes provocou (e provoca) um tremendo mal-estar.
É o caso do contista, romancista e ensaísta Halim Barakat (cuidado: não confundir com Salim Barakat, um escritor sírio mais novo, actualmente também exilado na Suécia, e que é considerado como um dos mais importantes narradores em língua árabe em plena actividade), que nasceu na Síria, numa família cristã ortodoxa, mas cresceu no Líbano e formou-se na Universidade Americana de Beirute.
Talvez a sua origem e formação expliquem a sua “transferência” para as universidades americanas, onde ensinou toda a vida, em particular na Universidade de Georgetown.
Mesmo radicado nos Estados Unidos, Halim Barakat sempre escreveu em árabe. Hoje já tem oitenta anos, e o seu primeiro livro, uma colectânea de contos, foi publicada em meados da década de cinquenta, tinha ele vinte. Depois foi publicando vários romances e livros de contos, em redor do conflito Israelo-árabe e sobre a particular complexidade da sociedade libanesa. Os mais importantes, provavelmente, são Six Days (1961) (um romance profético…), Days of Dust (1967), cuja tradução inglesa veio acompanhada de um prefácio do seu amigo Edward Said, e The Crane (1988).
Creio que são homens, como Halim Barakat, que, pelo seu estatuto de árabes não-islâmicos e pelo seu trabalho, poderão “minar” as colossais muralhas que os dois lados civilizacionais se obstinam em cimentar.
Talvez, por isso, não seja de estranhar que a obra mais conhecida deste autor nos Estados Unidos seja um ensaio com um título programático: The Arab World: Society, Culture and State.