Aki Shimazaki
Aki Shimazaki (1954-) nasceu no Japão
e, com cerca de trinta anos, emigrou para o Canadá, tendo obtido a
nacionalidade canadiana. Uma década depois, fixa-se em Montreal, aprende
francês e começa a escrever romances muito concisos e breves, todos
contextualizados no Japão. Em 1999, publica o primeiro e, desde essa altura até
hoje, já apareceram quinze obras. Muito discreta e reservada, raramente aparece
em eventos sociais e poucas entrevistas concede.
Os títulos de cada um destes romances
são constituídos por uma única palavra em japonês que designa flores, frutos ou
pequenos animais. Esta opção não pretende ter um simples e gratuito efeito
estético: são símbolos que procuram caracterizar as personagens principais ou
os narradores e as situações nucleares narradas. Têm, por isso, um papel
efectivo na narrativa, aparecendo recorrentemente, ao mesmo tempo que pretendem
reflectir a “fragilidade” da matéria narrada e a forma como é tratada.
Um aspecto original da obra de Aki
Shimazaki é que é construída para ter uma dupla leitura: os romances não só são
arquitectadas para terem uma leitura inteiramente autónoma, como integram um
ciclo de cinco obras, onde as personagens e os acontecimentos narrados se
encaixam, produzindo novos sentidos e gerando outros “mistérios”. De facto, não
existe nenhuma sequência temporal entre os romances e todos têm
narradores/personagens principais distintos; mas todos estes acontecimentos e
personagens aparecem e têm o seu papel, central ou colateral, nos restantes
romances do ciclo.
Assim, Ali Shimazaki construiu três
pentalogias a que ela própria deu títulos: “Le poids des secrets”, “Au coeur du
Yamato” e “L’ombre du chardon”. O resultado é um amplo fresco do Japão
contemporâneo que vai desde o período entre as duas guerras mundiais e a
actualidade. Mas este “retrato” dos marcantes acontecimentos históricos porque
este país passou é sempre focado a partir dos seus efeitos sobre os indivíduos
e as famílias, procurando dar uma visão “intimista” do Japão.
O primeiro ciclo (“Le poids des
secrets”) é temporalizado no período antes e durante a II Guerra Mundial,
havendo, no entanto, situações que têm repercussões para períodos posteriores.
No essencial, a obra é constituída pela(s) narrativa(s) de vários membros de
uma família, que “sofreram” os efeitos de diversos acontecimentos históricos
(um tremor de terra nos anos vinte, a bomba atómica em Nagasáqui, etc.), que deu
origem a “segredos” que lhes irão condicionar a sua existência assim como a dos
seus descendentes.
A estratégia narrativa destes
romances é, no seu conjunto, muito simples: a personagem principal/narrador, no
final da vida (ou após a sua morte, como sucede no primeiro romance, “Tsubaki”,
onde a narrativa é constituída por uma carta deixada pela narradora, Yukiko, à
sua filha), desvenda (ou lhe desvendam…) um “segredo” que determinou a sua
existência. Em todos estas narrativas há, portanto, uma situação, exterior à
vontade das personagens, que lhes “impôs” o seu modo de estar, em termos
pessoais e sociais, e que, perante a qual, nada puderam fazer. Torna-se então
clara a ilação destas narrativas: a vida é algo de demasiado frágil e sujeita a
imponderáveis intempéries ou, por outras palavras, condicionada por um destino
(o “innen”) que foi estabelecido por
um acontecimento funesto a que as pessoas são alheias.
Por outro lado, parece que esse
“segredo”, e principalmente a sua ocultação (através da “lei do silêncio”, uma
espécie de norma social marcante na vida cultural japonesa, pois é ela que
define as regras das relações interpessoais), se torna um elemento consolidante
de uma família e contribui para definir a sua identidade.
O segundo ciclo, “Au coeur de
Yamato”, é contextualizado no período do pós-guerra e espelha a importância de
uma das unidades sociais mais relevantes do Japão actual: a empresa, no caso deste
ciclo, comercial, e a forma como condiciona a vida dos seus empregados e se
(des)articula com a família.
Neste ciclo, volta a reflectir-se o
peso da história sobre a vida pessoal, dando-se particular enfâse ao processo
de reconstrução económica porque o Japão passou a partir da II Guerra Mundial.
Mas, ao contrário do anterior, as teias entre as personagens partem das
relações que estabelecem dentro da empresa e nos efeitos que esta projecta para
dentro das famílias, gerando tragédias que envolvem a vida das personagens e
dando-lhes uma auréola de mistério que condiciona a sua vida e a sua visão do
mundo.
O terceiro ciclo, “L’ombre du
chardon”, centra-se num nível ainda mais intímo e pessoal das personagens:
agora, a tragédia/mistério está no
modo como as pulsões sexuais e o desejo conflituam ou transbordam para as
relações amorosas instituídas e para os afectos que criam. De facto, todas elas
vivem uma “malaise” decorrente dos seus anseios mais profundos embaterem em
teias sociais, estabelecidas na família, que condicionam a sua realização e a
sua felicidade. O dilema determinante de todos estes narradores/personagens é
saber como lidar com este conflito: procurar conciliar estes contrários e
resignar-se a uma existência serena, e de um possível bem-estar (estas
personagens amam a sua família e não pretendem quebrar os laços que se
instituíram), encarando estas manifestações passionais como “causas perdidas”,
ou assumi-las, gerando uma vaga de sofrimento em seu redor?
No fundamental, reforça-se a ideia,
que já aparecia nos anteriores ciclos, de que a necessidade de uma reserva íntima
gera situações de incomunicabilidade e de que esta é uma das razões decisivas
para grassar um ininterrupto mal-estar nas famílias e na sociedade.
No entanto, esta caracterização da
problemática central destes romances não destaca aquilo que todos os
comentadores e analistas são unânimes em realçar na obra de Aki Shimazaki: as
suas qualidades estilísticas.
De facto, o estilo desta autora é
muito peculiar e extremamente adequado à sua problemática: de frases curtas, com
uma intensa musicalidade, dando a ideia que são construídas palavra a palavra,
abandonando todo o supérfluo. Por isso mesmo, há quem refira que Aki Shimazaki elabora
as suas frases, trabalhando-as como um “haiku”, e que é essa musicalidade,
associado a um timbre melancólico e/ou nostálgico, que dá um cariz muito
poético à sua prosa. Mas, reforçando esta imagem, pode também afirmar-se que os
próprios romances são pensados como um “haiku”: não só pela sua contenção, mas
porque a progressão da narrativa se efetua por breves anotações, num jogo de
alusões e de reservas, que, como já foi referido, ao desvendarem “segredos”,
geram outros mistérios que pairam como auréolas enigmáticas em redor das
personagens e das situações. As próprias descrições são, no essencial,
impressionistas, abandonando-se, mesmo na apresentação das situações mais
cruéis e dramáticas, qualquer propensão realista.
Um outro aspecto interessante na obra
de Ali Shimazaki, e que a própria destacou nas poucas entrevistas que deu, é
que os seus romances são “pensados” em francês e nunca em japonês; aliás,
considera que eram obras completamente distintas, se elas fossem escrita em
japonês e que, por isso mesmo, nunca pensou em traduzi-las. Ora, este facto é
muito relevante para a compreensão da génese da obra literária e questiona a
problemática do bilinguismo de certos autores e a forma como pode ser entendida
a sua obra no quadro da história da literatura.
Lisboa, junho de 2019




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