segunda-feira, 1 de julho de 2019

AKI SHIMAZAKI

 
 
Aki Shimazaki
Aki Shimazaki (1954-) nasceu no Japão e, com cerca de trinta anos, emigrou para o Canadá, tendo obtido a nacionalidade canadiana. Uma década depois, fixa-se em Montreal, aprende francês e começa a escrever romances muito concisos e breves, todos contextualizados no Japão. Em 1999, publica o primeiro e, desde essa altura até hoje, já apareceram quinze obras. Muito discreta e reservada, raramente aparece em eventos sociais e poucas entrevistas concede.
Os títulos de cada um destes romances são constituídos por uma única palavra em japonês que designa flores, frutos ou pequenos animais. Esta opção não pretende ter um simples e gratuito efeito estético: são símbolos que procuram caracterizar as personagens principais ou os narradores e as situações nucleares narradas. Têm, por isso, um papel efectivo na narrativa, aparecendo recorrentemente, ao mesmo tempo que pretendem reflectir a “fragilidade” da matéria narrada e a forma como é tratada.
Um aspecto original da obra de Aki Shimazaki é que é construída para ter uma dupla leitura: os romances não só são arquitectadas para terem uma leitura inteiramente autónoma, como integram um ciclo de cinco obras, onde as personagens e os acontecimentos narrados se encaixam, produzindo novos sentidos e gerando outros “mistérios”. De facto, não existe nenhuma sequência temporal entre os romances e todos têm narradores/personagens principais distintos; mas todos estes acontecimentos e personagens aparecem e têm o seu papel, central ou colateral, nos restantes romances do ciclo.
Assim, Ali Shimazaki construiu três pentalogias a que ela própria deu títulos: “Le poids des secrets”, “Au coeur du Yamato” e “L’ombre du chardon”. O resultado é um amplo fresco do Japão contemporâneo que vai desde o período entre as duas guerras mundiais e a actualidade. Mas este “retrato” dos marcantes acontecimentos históricos porque este país passou é sempre focado a partir dos seus efeitos sobre os indivíduos e as famílias, procurando dar uma visão “intimista” do Japão.
O primeiro ciclo (“Le poids des secrets”) é temporalizado no período antes e durante a II Guerra Mundial, havendo, no entanto, situações que têm repercussões para períodos posteriores. No essencial, a obra é constituída pela(s) narrativa(s) de vários membros de uma família, que “sofreram” os efeitos de diversos acontecimentos históricos (um tremor de terra nos anos vinte, a bomba atómica em Nagasáqui, etc.), que deu origem a “segredos” que lhes irão condicionar a sua existência assim como a dos seus descendentes.
A estratégia narrativa destes romances é, no seu conjunto, muito simples: a personagem principal/narrador, no final da vida (ou após a sua morte, como sucede no primeiro romance, “Tsubaki”, onde a narrativa é constituída por uma carta deixada pela narradora, Yukiko, à sua filha), desvenda (ou lhe desvendam…) um “segredo” que determinou a sua existência. Em todos estas narrativas há, portanto, uma situação, exterior à vontade das personagens, que lhes “impôs” o seu modo de estar, em termos pessoais e sociais, e que, perante a qual, nada puderam fazer. Torna-se então clara a ilação destas narrativas: a vida é algo de demasiado frágil e sujeita a imponderáveis intempéries ou, por outras palavras, condicionada por um destino (o “innen”) que foi estabelecido por um acontecimento funesto a que as pessoas são alheias.
Por outro lado, parece que esse “segredo”, e principalmente a sua ocultação (através da “lei do silêncio”, uma espécie de norma social marcante na vida cultural japonesa, pois é ela que define as regras das relações interpessoais), se torna um elemento consolidante de uma família e contribui para definir a sua identidade.
O segundo ciclo, “Au coeur de Yamato”, é contextualizado no período do pós-guerra e espelha a importância de uma das unidades sociais mais relevantes do Japão actual: a empresa, no caso deste ciclo, comercial, e a forma como condiciona a vida dos seus empregados e se (des)articula com a família.
Neste ciclo, volta a reflectir-se o peso da história sobre a vida pessoal, dando-se particular enfâse ao processo de reconstrução económica porque o Japão passou a partir da II Guerra Mundial. Mas, ao contrário do anterior, as teias entre as personagens partem das relações que estabelecem dentro da empresa e nos efeitos que esta projecta para dentro das famílias, gerando tragédias que envolvem a vida das personagens e dando-lhes uma auréola de mistério que condiciona a sua vida e a sua visão do mundo.
O terceiro ciclo, “L’ombre du chardon”, centra-se num nível ainda mais intímo e pessoal das personagens: agora, a tragédia/mistério está no modo como as pulsões sexuais e o desejo conflituam ou transbordam para as relações amorosas instituídas e para os afectos que criam. De facto, todas elas vivem uma “malaise” decorrente dos seus anseios mais profundos embaterem em teias sociais, estabelecidas na família, que condicionam a sua realização e a sua felicidade. O dilema determinante de todos estes narradores/personagens é saber como lidar com este conflito: procurar conciliar estes contrários e resignar-se a uma existência serena, e de um possível bem-estar (estas personagens amam a sua família e não pretendem quebrar os laços que se instituíram), encarando estas manifestações passionais como “causas perdidas”, ou assumi-las, gerando uma vaga de sofrimento em seu redor?
No fundamental, reforça-se a ideia, que já aparecia nos anteriores ciclos, de que a necessidade de uma reserva íntima gera situações de incomunicabilidade e de que esta é uma das razões decisivas para grassar um ininterrupto mal-estar nas famílias e na sociedade.
No entanto, esta caracterização da problemática central destes romances não destaca aquilo que todos os comentadores e analistas são unânimes em realçar na obra de Aki Shimazaki: as suas qualidades estilísticas.
De facto, o estilo desta autora é muito peculiar e extremamente adequado à sua problemática: de frases curtas, com uma intensa musicalidade, dando a ideia que são construídas palavra a palavra, abandonando todo o supérfluo. Por isso mesmo, há quem refira que Aki Shimazaki elabora as suas frases, trabalhando-as como um “haiku”, e que é essa musicalidade, associado a um timbre melancólico e/ou nostálgico, que dá um cariz muito poético à sua prosa. Mas, reforçando esta imagem, pode também afirmar-se que os próprios romances são pensados como um “haiku”: não só pela sua contenção, mas porque a progressão da narrativa se efetua por breves anotações, num jogo de alusões e de reservas, que, como já foi referido, ao desvendarem “segredos”, geram outros mistérios que pairam como auréolas enigmáticas em redor das personagens e das situações. As próprias descrições são, no essencial, impressionistas, abandonando-se, mesmo na apresentação das situações mais cruéis e dramáticas, qualquer propensão realista.
Um outro aspecto interessante na obra de Ali Shimazaki, e que a própria destacou nas poucas entrevistas que deu, é que os seus romances são “pensados” em francês e nunca em japonês; aliás, considera que eram obras completamente distintas, se elas fossem escrita em japonês e que, por isso mesmo, nunca pensou em traduzi-las. Ora, este facto é muito relevante para a compreensão da génese da obra literária e questiona a problemática do bilinguismo de certos autores e a forma como pode ser entendida a sua obra no quadro da história da literatura.
Lisboa, junho de 2019

 

 




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