ANDRÉ DE RICHAUD
Muitas vezes, para não dizer sempre,
pouco fica de uma vida na memória das pessoas, mesmo entre amigos e familiares:
talvez um gesto, da mesma forma que dizemos que, de um poema, se fixou um
verso, ou um estilo de andar, como diz a belíssima canção de Leo Ferré. E,
contudo, esta constatação resulta de uma pergunta decisiva (“o que fica de uma
vida?”) que, por sistema, recalcamos, temendo a resposta dolorosamente
incómoda, e que fica a pairar no meio de muitas outras fantasmagorias que
criamos. Sim, pergunta decisiva, mas também retórica, pois a resposta é de
todos conhecida.
Talvez seja por isso que sinto um
enorme fascínio pelas curtas biografias de escritores que aparecem nas badanas
de um livro ou no seu início, principalmente nas edições concluídas depois da
morte do seu autor: exala delas uma brisa perfumada que paira como o rasto de
um percurso e muitas vezes de uma obra.
Estas considerações são um pouco
fruto de ter agora acabado de ler “La Douleur”, uma novela de 1930 de André de
Richaud (1907-1968), um autor (poeta, dramaturgo e narrador) que está bastante
esquecido (mesmo, segundo creio, no seu próprio país, a França), e que, no
entanto, escreveu (de acordo com informações que recolhi, pois este foi o
primeiro livro que dele li) algumas obras memoráveis, principalmente durante a década
de trinta.
Muito precoce, “La Douleur” foi o segundo
romance de André de Richaud, escrito quando tinha pouco mais de vinte anos. Sem
ser nenhuma obra-prima, pois tem algumas fragilidades claramente resultantes da
juventude do autor, é, no entanto, uma bela obra sobre a carência sexual e os
seus devastadores efeitos emocionais e ainda sobre o paroxismo mórbido a que
podem chegar as relações entre mãe e filho. Além disso, a narrativa é
estilisticamente brilhante, em particular na forma como articula um realismo
cru, dir-se-ia orgânico, com um lirismo de grande intensidade simbólica.
A edição que eu li (da Grasset,
colecção “Les Cahiers Rouges”) tem uma introdução a apresentar o autor e a
obra. Não vem subscrita (provavelmente redigida por algum editor da Grasset ou
pelo próprio Bernard Grasset, que foi amigo próximo do autor). Mas é, na sua
singeleza, tão fascinante e tão característica que me motivou a arrojar-me a
traduzi-la. Aqui vai:
“André de Richaud nasceu a 6 de Abril
de 1909 [?], em Perpignan onde o seu pai é professor. Em 1914, este é
mobilizado; não regressará da guerra. O filho e a sua mãe refugiam-se em casa
dos seus avôs maternos, em Althen-des-Paluds, nessa região de Vaucluse [ou,
aportuguesando, Valclusa] onde André de Richaud irá situar a acção da maior
parte dos seus romances.
Mme. de Richaud morre em 1923; o seu
filho entra como aluno interno no liceu de Carpentras. A partir de 1926,
prossegue os seus estudos na Universidade de Aix, onde frequenta os cursos de
Direito e de Filosofia. Recebe a sua agregação e obtém um posto de ensino no
liceu de Meaux.
Em 1930, publica na editora de
Bernard Grasset o seu primeiro romance [?]: “ la Douleur”. O livro chama a
atenção de um júri [de um prémio] literário que conta, entre os seus membros,
com Mauriac, Bernanos e Julien Green. Mas o seu tema, audacioso para a época,
impede que ele seja galardoado. Joseph Delteil, que reconheceu as qualidades
excepcionais do jovem romancista, assume então, apaixonadamente, a sua defesa e
enceta uma polémica cujo efeito sensacionalista compensa largamente o do prémio
perdido. Em 1932, André de Richaud publica o seu segundo [?] romance, “la
Fontaine des lunatiques”, e Charles Dullin encena sucessivamente as suas duas
peças de teatro: “le Village” (1932) e “le Château des papes” (1933).
Richaud abandona o ensino para se
consagrar inteiramente a uma carreira literária que se anuncia sob os melhores
auspícios. Mais tarde, evocando perante um jornalista a época dos seus
brilhantes começos, André de Richaud resumi-la-á assim: “Eu era jovem, rico,
célebre e invejado…” Mas, apesar dos sufrágios de escritores tão diferentes
como Cocteau, Camus ou Joseph Delteil, apesar dos sucessos estimáveis que lhe
valem “l’Amour fraternel” (1936) e sobretudo “la Barette rouge” (1938), André
de Richaud não encontra o lugar que merece. Isso deve-se à originalidade
desconcertante do seu talento, que não se associa a nenhuma corrente, e à
ambiência tenebrosa dos seus romances, cheios de uma surda violência. Um crítico
de “la Barette rouge” viu em André de Richaud um “Dostoiévski provençal”. No
entanto, com o passar dos tempos, é muito mais com a escola do romance gótico
americano que a comparação se impõe: Richaud está mais próximo do Faulkner de
“Luz em Agosto” do que do Dostoiévski de “Os Possessos”. Em 1945 e 1947, André
de Richaud publica, com “le Mauvais” e “la Rose de Noël”, os dois primeiros
volumes de uma saga que nunca terminará.
Alcoólico, esquecido, miserável, ele
vive doravante de expedientes e ajudas, como este prémio de poesia, criado para
permitir que um autor em dificuldades possa partir de férias, e que ele obtém
graças à protecção de Cocteau. Ele aloja-se num hotel da rue des Canettes, cuja
patroa é, nem mais nem menos, do que a famosa Céleste Albaret que foi a
governanta de Proust. Para arranjar algum dinheiro, caligrafa “canções” que
vende por intermédio de um farmacêutico do bairro. Contudo, em 1956, publica,
na editora Grasset, “l’Etrange Visiteur”, espantoso pequeno romance que combina
o género policial e a veia fantástica.
Retira-se depois para Vallauris. Aldrabando na
idade (ele não tem sequer cinquenta anos), consegue ser admitido num asilo de
velhos. É aqui que escreve o seu último livro: “Je ne suis pas mort”, [1965]
narrativa autobiográfica onde a complacência desesperada ergue-se até ao
trágico pelo seu próprio excesso e o rancor e a raiva assumem acentos líricos.
O livro perturba todos os que ainda se recordam de André de Richaud, e Marcel
Aymé, numa carta aberta, apela a André Malraux, então Ministro da Cultura. Mas,
para Richaud, é demasiado tarde; ele morre em 29 de Setembro de 1968.
O escândalo que causa “la Douleur”,
por alturas do seu aparecimento, faz lembrar o que provocara “Com o Diabo no
Corpo” (1), dez anos antes. O primeiro romance de Richaud e o de Radiguet têm
aliás um ponto em comum: em “la Douleur” trata-se também de um caso de
adultério no qual as circunstâncias de guerra dão a gravidade de uma traição.
Mme. Delombre, viúva de um capitão morto na frente de batalha e que leva, com o
seu jovem filho, uma existência aparentemente irrepreensível, apaixona-se por
um prisioneiro alemão. Estas ligações, que afrontam ao mesmo tempo a moral e o
sentido cívico, são geralmente condenadas a um fim infeliz, e ainda mais quando
se desenrolam no quadro de uma aldeola perdida onde a malevolência e a inveja
tomam por empréstimo a máscara da indignação patriótica. Os amores furtivos de
Mme. Delombre e do soldado Otto conformam-se a esta regra. Perseguida,
humilhada e além disso abandonada pelo seu amante, Mme. Delombre encontrará
finalmente no seu próprio filho, uma criança de dez anos, o mais implacável dos
juízes.
A intriga anedótica perdeu hoje o
poder de choque que tinha sobre os leitores de 1930. Contudo, o livro guarda
toda a sua força de fascínio. É que o tema do lamentável adultério é apenas um
pretexto utilizado pelo autor para abordar um outro que não deixou de todo de
ser tabu: uma vergonhosa obsessão da carne que fala mais alto que os
sentimentos sobre os quais ela tenta dissimular-se, perverte as relações das
personagens e até contamina as suas percepções mais inocentes. O título do
romance toma então um outro sentido à medida que se revela este mundo de
pulsões secretas e de fantasmas recalcados; a dor que aqui se trata não é uma
dor moral.”
(1)Das traduções e edições portuguesas
desta obra, a mais recente é da Relógio d’Água, 2009, trad. de Renata Botelho.







