domingo, 30 de novembro de 2025

ANDRÉ DE RICHAUD

 


ANDRÉ DE RICHAUD

Muitas vezes, para não dizer sempre, pouco fica de uma vida na memória das pessoas, mesmo entre amigos e familiares: talvez um gesto, da mesma forma que dizemos que, de um poema, se fixou um verso, ou um estilo de andar, como diz a belíssima canção de Leo Ferré. E, contudo, esta constatação resulta de uma pergunta decisiva (“o que fica de uma vida?”) que, por sistema, recalcamos, temendo a resposta dolorosamente incómoda, e que fica a pairar no meio de muitas outras fantasmagorias que criamos. Sim, pergunta decisiva, mas também retórica, pois a resposta é de todos conhecida.

Talvez seja por isso que sinto um enorme fascínio pelas curtas biografias de escritores que aparecem nas badanas de um livro ou no seu início, principalmente nas edições concluídas depois da morte do seu autor: exala delas uma brisa perfumada que paira como o rasto de um percurso e muitas vezes de uma obra.

Estas considerações são um pouco fruto de ter agora acabado de ler “La Douleur”, uma novela de 1930 de André de Richaud (1907-1968), um autor (poeta, dramaturgo e narrador) que está bastante esquecido (mesmo, segundo creio, no seu próprio país, a França), e que, no entanto, escreveu (de acordo com informações que recolhi, pois este foi o primeiro livro que dele li) algumas obras memoráveis, principalmente durante a década de trinta.

Muito precoce, “La Douleur” foi o segundo romance de André de Richaud, escrito quando tinha pouco mais de vinte anos. Sem ser nenhuma obra-prima, pois tem algumas fragilidades claramente resultantes da juventude do autor, é, no entanto, uma bela obra sobre a carência sexual e os seus devastadores efeitos emocionais e ainda sobre o paroxismo mórbido a que podem chegar as relações entre mãe e filho. Além disso, a narrativa é estilisticamente brilhante, em particular na forma como articula um realismo cru, dir-se-ia orgânico, com um lirismo de grande intensidade simbólica.

A edição que eu li (da Grasset, colecção “Les Cahiers Rouges”) tem uma introdução a apresentar o autor e a obra. Não vem subscrita (provavelmente redigida por algum editor da Grasset ou pelo próprio Bernard Grasset, que foi amigo próximo do autor). Mas é, na sua singeleza, tão fascinante e tão característica que me motivou a arrojar-me a traduzi-la. Aqui vai:

“André de Richaud nasceu a 6 de Abril de 1909 [?], em Perpignan onde o seu pai é professor. Em 1914, este é mobilizado; não regressará da guerra. O filho e a sua mãe refugiam-se em casa dos seus avôs maternos, em Althen-des-Paluds, nessa região de Vaucluse [ou, aportuguesando, Valclusa] onde André de Richaud irá situar a acção da maior parte dos seus romances.

Mme. de Richaud morre em 1923; o seu filho entra como aluno interno no liceu de Carpentras. A partir de 1926, prossegue os seus estudos na Universidade de Aix, onde frequenta os cursos de Direito e de Filosofia. Recebe a sua agregação e obtém um posto de ensino no liceu de Meaux.

Em 1930, publica na editora de Bernard Grasset o seu primeiro romance [?]: “ la Douleur”. O livro chama a atenção de um júri [de um prémio] literário que conta, entre os seus membros, com Mauriac, Bernanos e Julien Green. Mas o seu tema, audacioso para a época, impede que ele seja galardoado. Joseph Delteil, que reconheceu as qualidades excepcionais do jovem romancista, assume então, apaixonadamente, a sua defesa e enceta uma polémica cujo efeito sensacionalista compensa largamente o do prémio perdido. Em 1932, André de Richaud publica o seu segundo [?] romance, “la Fontaine des lunatiques”, e Charles Dullin encena sucessivamente as suas duas peças de teatro: “le Village” (1932) e “le Château des papes” (1933).

Richaud abandona o ensino para se consagrar inteiramente a uma carreira literária que se anuncia sob os melhores auspícios. Mais tarde, evocando perante um jornalista a época dos seus brilhantes começos, André de Richaud resumi-la-á assim: “Eu era jovem, rico, célebre e invejado…” Mas, apesar dos sufrágios de escritores tão diferentes como Cocteau, Camus ou Joseph Delteil, apesar dos sucessos estimáveis que lhe valem “l’Amour fraternel” (1936) e sobretudo “la Barette rouge” (1938), André de Richaud não encontra o lugar que merece. Isso deve-se à originalidade desconcertante do seu talento, que não se associa a nenhuma corrente, e à ambiência tenebrosa dos seus romances, cheios de uma surda violência. Um crítico de “la Barette rouge” viu em André de Richaud um “Dostoiévski provençal”. No entanto, com o passar dos tempos, é muito mais com a escola do romance gótico americano que a comparação se impõe: Richaud está mais próximo do Faulkner de “Luz em Agosto” do que do Dostoiévski de “Os Possessos”. Em 1945 e 1947, André de Richaud publica, com “le Mauvais” e “la Rose de Noël”, os dois primeiros volumes de uma saga que nunca terminará.

Alcoólico, esquecido, miserável, ele vive doravante de expedientes e ajudas, como este prémio de poesia, criado para permitir que um autor em dificuldades possa partir de férias, e que ele obtém graças à protecção de Cocteau. Ele aloja-se num hotel da rue des Canettes, cuja patroa é, nem mais nem menos, do que a famosa Céleste Albaret que foi a governanta de Proust. Para arranjar algum dinheiro, caligrafa “canções” que vende por intermédio de um farmacêutico do bairro. Contudo, em 1956, publica, na editora Grasset, “l’Etrange Visiteur”, espantoso pequeno romance que combina o género policial e a veia fantástica.     

 Retira-se depois para Vallauris. Aldrabando na idade (ele não tem sequer cinquenta anos), consegue ser admitido num asilo de velhos. É aqui que escreve o seu último livro: “Je ne suis pas mort”, [1965] narrativa autobiográfica onde a complacência desesperada ergue-se até ao trágico pelo seu próprio excesso e o rancor e a raiva assumem acentos líricos. O livro perturba todos os que ainda se recordam de André de Richaud, e Marcel Aymé, numa carta aberta, apela a André Malraux, então Ministro da Cultura. Mas, para Richaud, é demasiado tarde; ele morre em 29 de Setembro de 1968.

O escândalo que causa “la Douleur”, por alturas do seu aparecimento, faz lembrar o que provocara “Com o Diabo no Corpo” (1), dez anos antes. O primeiro romance de Richaud e o de Radiguet têm aliás um ponto em comum: em “la Douleur” trata-se também de um caso de adultério no qual as circunstâncias de guerra dão a gravidade de uma traição. Mme. Delombre, viúva de um capitão morto na frente de batalha e que leva, com o seu jovem filho, uma existência aparentemente irrepreensível, apaixona-se por um prisioneiro alemão. Estas ligações, que afrontam ao mesmo tempo a moral e o sentido cívico, são geralmente condenadas a um fim infeliz, e ainda mais quando se desenrolam no quadro de uma aldeola perdida onde a malevolência e a inveja tomam por empréstimo a máscara da indignação patriótica. Os amores furtivos de Mme. Delombre e do soldado Otto conformam-se a esta regra. Perseguida, humilhada e além disso abandonada pelo seu amante, Mme. Delombre encontrará finalmente no seu próprio filho, uma criança de dez anos, o mais implacável dos juízes.

A intriga anedótica perdeu hoje o poder de choque que tinha sobre os leitores de 1930. Contudo, o livro guarda toda a sua força de fascínio. É que o tema do lamentável adultério é apenas um pretexto utilizado pelo autor para abordar um outro que não deixou de todo de ser tabu: uma vergonhosa obsessão da carne que fala mais alto que os sentimentos sobre os quais ela tenta dissimular-se, perverte as relações das personagens e até contamina as suas percepções mais inocentes. O título do romance toma então um outro sentido à medida que se revela este mundo de pulsões secretas e de fantasmas recalcados; a dor que aqui se trata não é uma dor moral.”

 

(1)Das traduções e edições portuguesas desta obra, a mais recente é da Relógio d’Água, 2009, trad. de Renata Botelho.



terça-feira, 9 de julho de 2024

CADERNO DE CAPA NEGRA


 

OS POEMAS

 

Entrou, dias há, peçonha

clara pelos nossos portos […]

uns dormentes, outros mortos,

alguém pelas ruas sonha.

Sá de Miranda

 

Encontro-me na margem de uma cidade sitiada

pelos reformadores: decepam as cabeças daqueles santos

que eu sempre venerei,

como aquela nossa senhora do ó de abobada celeste

soprada no ventre, a palma da mão no crânio do feto.

 

Deixo-me sentar sobre a árvore da desolação e afago as chaves

da minha solitária idade, comprimindo os dentes até

o sangue das gengivas me molhar os lábios. E

 

João Kniff, que me pressente sob um carvalho, pergunta-me

pela besta divina com os olhos irradiando chamas.

 

Calo-me. Sei que as armas acabaram, que os dias me reservam

só a espera do último assalto sobre a cidade, o saque

dos vermes sobre o corpo.

 

José Manuel Cortês

Junho de 1973 

terça-feira, 18 de junho de 2024

CADERNO DE CAPA NEGRA


 

SOBRE O TEMA DA MAÇA

 

Percorro. Agora penso que me percorro, me assinalo como viagem

carregado pelo possível das outras todas. Não sou um autoclismo puxado – garanto.

Lugares são a minha diferença. No momento, uma cama me distingue,

um olhar poisado sobre uma cadeira, e um quarto com um corpo

que amarguradamente come tempo e maças.

 

Cresço, como pensei primeiro percorro. Mas engano-me. Pois é um tempo,

um tempo marítimo e urbano que enche o copo, tempo de larva de maça.


J.M.C, dezembro de 1972

 

Reprodução da pintura “Jovem Com Uma Maça” de Rafael.  

domingo, 16 de junho de 2024

CADERNO DE CAPA NEGRA

 


SOBRE O RIO DO ESQUECIMENTO

(De 25 de Julho a 18 de Novembro de 1938)

 

Um rio, de afluentes e foz, de bronze líquido atravessando o tempo,

de limite nas margens como qualquer rio. Na memória,

um rio e um tempo com uma passagem

paisagem.

Um rio, exagero no tempo salino, demasiado na memória

para que não nos pareça tampa de túmulo,

rio imóvel (- mas só em mim e onde assinalo

o prenúncio deste sangue fluvial, porque mordem os cães

na memória colectiva com os dentes iluminados na névoa

ou naquilo que nem chegou a se):

 

- Sinaliza aqui o poema a margem como passagem para a imobilidade.

Morrem setenta mil homens e o tempo, sinal de um limite esperando

o corno do touro. O poema só pode dizer que são demasiados homens

e tempo para sedimentos de um rio,

e que ninguém peneira, ninguém lavra esses campos

corporais;

nem aristóteles pode vir clamar tragédias. Porque

 

não há barca de caronte nesta imobilidade. Só os olhos como berlindes

saltando podem assinalar a presença do estertor e do veio sanguíneo

de uma morte líquida, solta por uma margem.

 

 A palavra não o suporta, mas nomeia o nascer do mito, como o nascer da águia, etc..

Alguém piará, mas a palavra não pode sustentar setenta mil homens

gritando, com o seu olho claramente vítreo, com a sua consciência da morte e do

      [ebro.   

J. M. C., janeiro de 73

 

Foto de Robert Capa de um soldado da Quinta del Biberón.


terça-feira, 11 de junho de 2024

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 


UMA REVISITAÇÃO A ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Sempre associei a prosa de António Lobo Antunes, desde os seus primeiros livros, a uma enxurrada. Sei que a imagem não é atraente, mas tenho que confessar que foi sempre essa a que tive. Uma torrente que leva tudo à frente: destroços, cadáveres, formas indefinidas, quase imperceptíveis, objectos heteróclitos, amores e ódios, todos arrancados à sua vida comum, mas que só reconhecemos o seu sentido e relevância porque foram assim levados no turbilhão daquelas águas.

Pessoalmente, nunca achei que os seus livros/romances se destacassem pela significação das suas tramas ou porque integrem personagens inesquecíveis (talvez aqui esteja a ser um pouco injusto, principalmente quando me lembro de “O Manual dos Inquisidores”). Mas, segundo creio, nada disso é muito relevante para o autor.

O que distingue António Lobo Antunes é a riqueza (e complexidade) do seu estilo. É aí que reside a sua invulgar “marca-d’água”. É esta enfática dimensão estilística da sua prosa, que foi crescendo de obra para obra, que dá, pelo menos entre as que eu conheço, a “Que Farei Quando Tudo Arde?” uma importância muito particular no conjunto da sua extensa produção narrativa.

Neste estilo, antes do mais, destaca-se o sentido de observação, fruto de uma sensibilidade “treinada” (hoje, definitivamente, não tenho mão para as imagens) a retirar significado de todas as coisas, objectos ou gestos, em particular os mais ínfimos; depois, o tratamento da língua, reutilizando formas verbais com fortes potencialidades polissémicas, forçando-as até ao absurdo, o que lhe permite construir imagens de uma beleza, por vezes, fulgurante; por último, um excepcional sentido do ritmo frásico, principalmente da sua dramaticidade e/ou emotividade, aproveitando todas as figuras de estilo, em particular as anáforas e aliterações, para criar intensidades várias, de forma a arrastar o leitor numa prosódia encantatória. 

Ao concluir a leitura de “Que Farei Quando Tudo Arde?”, na pausa em que nos afundamos, fica-se de garganta apertada, ao percebermos que os destroços, que aquela enxurrada leva, são os de um país (ou de um povo) a que pertencemos. Ou ainda, procurando perscrutar mais fundo naquelas águas turvas, que são destroços da condição humana, que parece irremediavelmente perdida e sem solução. Até que, por fim, temos a iluminação definitiva: naquela enxurrada, vamos também nós, leitores de António Lobo Antunes durante décadas e décadas.

Dizem-me que as suas últimas obras têm cada vez menos leitores, que já ninguém as lê. Não me admira, não me admira, porque a sua leitura há-de ser sempre incómoda. Mas isso não lhes retira importância no quadro da literatura portuguesa (e não só).

A terminar, um pormenor. Intencionalmente, “Que Farei Quando Tudo Arde?” não tem referência de género, tanto podendo ser encarada como um romance ou um poema, na linha desta tendência da literatura contemporânea para a diluição dos géneros. Mas para mim, como leitor, é claramente um romance: tem várias personagens, a maioria delas também narradoras, diversas situações em diferentes contextos temporais e espaciais, inúmeros capítulos (mesmo que não enumerados, dando a entender que a sequência da sua leitura é arbitrária), tudo amalgamado por um estilo que, como já referi, tudo leva na frente. Dir-me-ão que todos esses ingredientes também podem estar na poesia; mas sucede que nesta não são estruturantes, enquanto neste romance o são. Por vezes, desconfio destas indefinições, pois parecem-me sempre resultantes da menorização do romance como género. Será?

 

Foto do escritor retirada de “New In Almada”, sem indicação de autoria, mas que, segundo creio, é de Pedro Loureiro.


domingo, 9 de junho de 2024

OS POEMAS

 


OS POEMAS

“PULMÃO”

Em 1970, pertencia a um grupo de amigos, na casa dos dezanove/vinte anos, proveniente de várias zonas da Grande Lisboa, que passava o tempo a deambular pelos cafés da cidade. Todos tinham em comum apenas duas coisas: uma obsessiva necessidade de se exprimir por palavras (alguns deles já tinham textos publicados e premiados no suplemento “Juvenil” do Diário de Lisboa) e a consciência de que estavam num momento crucial das suas vidas: ou conseguiam entrar no Ensino Superior (adiando a incorporação militar e afastando assim a inevitável situação de irem “bater com os costados” numa guerra colonial que não entendiam nem desejavam) ou “fugiam” clandestinos para o estrangeiro, iniciando um exílio que na altura parecia definitivo.

Sentiam todos que viviam mergulhados no pântano de um quotidiano asfixiante, cercados por perigosos olhares pidescos, a sonhar com amores que uma moral censória e beata parecia transformar em inalcançáveis. Mas o júbilo da juventude e, principalmente, a convicção absoluta de que a literatura, e a criação artística em geral, lhes iria redimir o futuro, fosse ele qual fosse, fazia-os esquecer por momentos a dramaticidade da situação.

Alguns deles eram oriundos da Outra Banda e, já não sei por que vias, conseguiram convencer a direcção do Jornal de Almada a publicar um suplemento literário. Recordo é que todos nos mobilizámos para atingir esse objectivo e que, assim, conseguimos fazer sair, durante alguns tempos, quatro folhas magrinhas, a que intitulámos (não é por acaso) “Pulmão”. Nele (tudo isto parece espantoso visto aos dias de hoje) começámos a publicar textos, desenhos e fotografias, por nós produzidos, mas também por outras gentes, alguns até de gerações mais velhas (recordo, por exemplo, que o António Barahona enviou alguns poemas e que o Mário Botas alguns desenhos, que lá foram publicados, com enorme entusiasmo nosso).

Vem-me à memória isto tudo, porque, nessa altura, a Fiama Hasse Pais Brandão e o Egito Gonçalves publicavam anualmente, na Editorial Inova (numa edição muito cuidada, com desenhos do Ângelo de Lima e orientação gráfica do Armando Alves), umas antologias de poesia, onde recolhiam o melhor da produção poética portuguesa do ano anterior editada em livro ou em revistas e jornais. Na “Poesia 71”, recolheram do “Pulmão” um poema meu, coisa que me deu uma alegria indiscritível, pois era o meu primeiro texto publicado em livro.

Agora, aos meus olhos, parece-me muito fraquinho (confesso que não me revejo nesta opção estética de uma exasperante repetição de vocábulos), mesmo em comparação com outros poemas que na altura escrevi. Mas, para registo, aqui fica a sua transcrição.

 

A PELE, ENTRE AS PALAVRAS, PAISAGEM

caminho para todas as coisas que faço: árvores são.

lentamente, as coisas me devoram e se sentam sobre o seu repasto.

 tatuado pelas coisas, elas são animais numa caverna.

grandes cavaleiros lançando suas flechas sobre as coisas que vêm,

sobre os animais, sobre as pedras onde nasceram e no único movimento

que puderam fazer.

devagar o animal se torce e berra, devagar ele me atinge.

 

penso assim todos os órgãos que possuo; músculos,

veias, tendões, ossos, todos eles se movimentam e se agarram

às coisas fervorosamente.

unem-se ao tronco das árvores e flechas nascem do meu ventre

 e sou oco e ar e água me atravessa como uma caverna.

vejo-me atado, na mesma posição em que nasci, enterrado em rito.

as pessoas vão então nascendo, saídas dos seus túmulos, destruídas

pela necessidade de se acenderem.

 

Desconheço a autoria da foto.


quinta-feira, 2 de maio de 2024

AUGUSTO ABELAIRA

 

ALGUNS SINAIS

AUGUSTO ABELAIRA

Numa época em que por aqui proliferam os exercícios literários mais ou menos lúdicos e gratuitos de listas de escritores e quejandos, apeteceu-me, um pouco por inveja do que o meu irmão está a fazer para o cinema, começar a sinalizar algumas obras e autores que foram mais ou menos marcantes no meu percurso como leitor e até como pessoa. Parece-me, sinceramente, que é para mim mais prazeroso do que estar a “corrigir” listas de autores nobilitados …

Não é minha primeira intenção nenhum fim altruísta, mas simplesmente lúdico. É o simples prazer de recordar obras e autores que me move, sem stress nem nenhuma pretensão. Aqui aparecerão conforme a minha paciência e disponibilidade. Poderá ser que isso interesse a alguém que leia estas breves anotações, mas esse não é, confesso, o meu objectivo.

Também como já se percebeu, não virão acompanhadas por nenhumas análises nem sequer por qualquer tipo de valoração (já percebi que este não é o local para o fazer). São apenas obras e autores que, em algum momento da minha vida, me acompanharam e me interpelaram. Por isso, serão apenas introduzidas por algumas breves observações de carácter muito pessoal.

E começo por um autor português: Augusto Abelaira.

Ainda era jovem, cheio de sonhos, desejos e ambições, como é costume nessa idade, quando os romances de Augusto Abelaira me acompanharam durante uma temporada. Mais do que crónicas de um certo tempo português, eram companheiros que me questionavam, fazendo-me pensar na minha forma de sentir e de estar. Lá estavam o jogo dos afectos, a roda dos encantos e desencantos, com que construíamos os dias da altura. E tudo numa prosa elegante, harmoniosa, onde, gota a gota, pingava uma existência próxima da nossa e com os mesmos anseios e interrogações.

Mais tarde, já depois de ter lido os seus romances, conheci o homem. E descobri nele a mesma forma de estar, a mesma interrogação permanente sobre o sentido da vida que encontrava nos seus livros. Era um excelente conversador, com uma enorme pachorra para aturar a malta que dele se aproximava, uma espécie de “flâneur” que gostava de estar acompanhado conforme pacientemente deambulava pelas ruas da cidade.

Hoje, parece-me, está um pouco esquecido. Eu próprio nunca mais o reli. Mas é pena. Constatei, no entanto, que alguns dos seus romances foram agora reeditados. Por isso, é justo recordar, por exemplo, “A Cidade das Flores”, “As Boas Intenções”, “Bolor” e “Sem Tecto, Entre Ruínas”. Mas, muito em particular, “Enseada Amena”, com cuja capa, creio que original, ilustro este texto.