SOBRE O RIO
DO ESQUECIMENTO
(De 25 de
Julho a 18 de Novembro de 1938)
Um
rio, de afluentes e foz, de bronze líquido atravessando o tempo,
de
limite nas margens como qualquer rio. Na memória,
um
rio e um tempo com uma passagem
paisagem.
Um
rio, exagero no tempo salino, demasiado na memória
para
que não nos pareça tampa de túmulo,
rio
imóvel (- mas só em mim e onde assinalo
o
prenúncio deste sangue fluvial, porque mordem os cães
na
memória colectiva com os dentes iluminados na névoa
ou
naquilo que nem chegou a se):
-
Sinaliza aqui o poema a margem como passagem para a imobilidade.
Morrem
setenta mil homens e o tempo, sinal de um limite esperando
o corno
do touro. O poema só pode dizer que são demasiados homens
e
tempo para sedimentos de um rio,
e
que ninguém peneira, ninguém lavra esses campos
corporais;
nem
aristóteles pode vir clamar tragédias. Porque
não
há barca de caronte nesta imobilidade. Só os olhos como berlindes
saltando
podem assinalar a presença do estertor e do veio sanguíneo
de
uma morte líquida, solta por uma margem.
A palavra não o suporta, mas nomeia o nascer
do mito, como o nascer da águia, etc..
Alguém
piará, mas a palavra não pode sustentar setenta mil homens
gritando,
com o seu olho claramente vítreo, com a sua consciência da morte e do
[ebro.
J. M. C.,
janeiro de 73
Foto de
Robert Capa de um soldado da Quinta del Biberón.

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