domingo, 16 de junho de 2024

CADERNO DE CAPA NEGRA

 


SOBRE O RIO DO ESQUECIMENTO

(De 25 de Julho a 18 de Novembro de 1938)

 

Um rio, de afluentes e foz, de bronze líquido atravessando o tempo,

de limite nas margens como qualquer rio. Na memória,

um rio e um tempo com uma passagem

paisagem.

Um rio, exagero no tempo salino, demasiado na memória

para que não nos pareça tampa de túmulo,

rio imóvel (- mas só em mim e onde assinalo

o prenúncio deste sangue fluvial, porque mordem os cães

na memória colectiva com os dentes iluminados na névoa

ou naquilo que nem chegou a se):

 

- Sinaliza aqui o poema a margem como passagem para a imobilidade.

Morrem setenta mil homens e o tempo, sinal de um limite esperando

o corno do touro. O poema só pode dizer que são demasiados homens

e tempo para sedimentos de um rio,

e que ninguém peneira, ninguém lavra esses campos

corporais;

nem aristóteles pode vir clamar tragédias. Porque

 

não há barca de caronte nesta imobilidade. Só os olhos como berlindes

saltando podem assinalar a presença do estertor e do veio sanguíneo

de uma morte líquida, solta por uma margem.

 

 A palavra não o suporta, mas nomeia o nascer do mito, como o nascer da águia, etc..

Alguém piará, mas a palavra não pode sustentar setenta mil homens

gritando, com o seu olho claramente vítreo, com a sua consciência da morte e do

      [ebro.   

J. M. C., janeiro de 73

 

Foto de Robert Capa de um soldado da Quinta del Biberón.


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