domingo, 9 de junho de 2024

OS POEMAS

 


OS POEMAS

“PULMÃO”

Em 1970, pertencia a um grupo de amigos, na casa dos dezanove/vinte anos, proveniente de várias zonas da Grande Lisboa, que passava o tempo a deambular pelos cafés da cidade. Todos tinham em comum apenas duas coisas: uma obsessiva necessidade de se exprimir por palavras (alguns deles já tinham textos publicados e premiados no suplemento “Juvenil” do Diário de Lisboa) e a consciência de que estavam num momento crucial das suas vidas: ou conseguiam entrar no Ensino Superior (adiando a incorporação militar e afastando assim a inevitável situação de irem “bater com os costados” numa guerra colonial que não entendiam nem desejavam) ou “fugiam” clandestinos para o estrangeiro, iniciando um exílio que na altura parecia definitivo.

Sentiam todos que viviam mergulhados no pântano de um quotidiano asfixiante, cercados por perigosos olhares pidescos, a sonhar com amores que uma moral censória e beata parecia transformar em inalcançáveis. Mas o júbilo da juventude e, principalmente, a convicção absoluta de que a literatura, e a criação artística em geral, lhes iria redimir o futuro, fosse ele qual fosse, fazia-os esquecer por momentos a dramaticidade da situação.

Alguns deles eram oriundos da Outra Banda e, já não sei por que vias, conseguiram convencer a direcção do Jornal de Almada a publicar um suplemento literário. Recordo é que todos nos mobilizámos para atingir esse objectivo e que, assim, conseguimos fazer sair, durante alguns tempos, quatro folhas magrinhas, a que intitulámos (não é por acaso) “Pulmão”. Nele (tudo isto parece espantoso visto aos dias de hoje) começámos a publicar textos, desenhos e fotografias, por nós produzidos, mas também por outras gentes, alguns até de gerações mais velhas (recordo, por exemplo, que o António Barahona enviou alguns poemas e que o Mário Botas alguns desenhos, que lá foram publicados, com enorme entusiasmo nosso).

Vem-me à memória isto tudo, porque, nessa altura, a Fiama Hasse Pais Brandão e o Egito Gonçalves publicavam anualmente, na Editorial Inova (numa edição muito cuidada, com desenhos do Ângelo de Lima e orientação gráfica do Armando Alves), umas antologias de poesia, onde recolhiam o melhor da produção poética portuguesa do ano anterior editada em livro ou em revistas e jornais. Na “Poesia 71”, recolheram do “Pulmão” um poema meu, coisa que me deu uma alegria indiscritível, pois era o meu primeiro texto publicado em livro.

Agora, aos meus olhos, parece-me muito fraquinho (confesso que não me revejo nesta opção estética de uma exasperante repetição de vocábulos), mesmo em comparação com outros poemas que na altura escrevi. Mas, para registo, aqui fica a sua transcrição.

 

A PELE, ENTRE AS PALAVRAS, PAISAGEM

caminho para todas as coisas que faço: árvores são.

lentamente, as coisas me devoram e se sentam sobre o seu repasto.

 tatuado pelas coisas, elas são animais numa caverna.

grandes cavaleiros lançando suas flechas sobre as coisas que vêm,

sobre os animais, sobre as pedras onde nasceram e no único movimento

que puderam fazer.

devagar o animal se torce e berra, devagar ele me atinge.

 

penso assim todos os órgãos que possuo; músculos,

veias, tendões, ossos, todos eles se movimentam e se agarram

às coisas fervorosamente.

unem-se ao tronco das árvores e flechas nascem do meu ventre

 e sou oco e ar e água me atravessa como uma caverna.

vejo-me atado, na mesma posição em que nasci, enterrado em rito.

as pessoas vão então nascendo, saídas dos seus túmulos, destruídas

pela necessidade de se acenderem.

 

Desconheço a autoria da foto.


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