UMA REVISITAÇÃO A ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Sempre associei a prosa de António Lobo Antunes, desde os
seus primeiros livros, a uma enxurrada. Sei que a imagem não é atraente, mas
tenho que confessar que foi sempre essa a que tive. Uma torrente que leva tudo
à frente: destroços, cadáveres, formas indefinidas, quase imperceptíveis,
objectos heteróclitos, amores e ódios, todos arrancados à sua vida comum, mas
que só reconhecemos o seu sentido e relevância porque foram assim levados no
turbilhão daquelas águas.
Pessoalmente, nunca achei que os seus livros/romances se
destacassem pela significação das suas tramas ou porque integrem personagens
inesquecíveis (talvez aqui esteja a ser um pouco injusto, principalmente quando
me lembro de “O Manual dos Inquisidores”). Mas, segundo creio, nada disso é
muito relevante para o autor.
O que distingue António Lobo Antunes é a riqueza (e
complexidade) do seu estilo. É aí que reside a sua invulgar “marca-d’água”. É
esta enfática dimensão estilística da sua prosa, que foi crescendo de obra para
obra, que dá, pelo menos entre as que eu conheço, a “Que Farei Quando Tudo
Arde?” uma importância muito particular no conjunto da sua extensa produção
narrativa.
Neste estilo, antes do mais, destaca-se o sentido de
observação, fruto de uma sensibilidade “treinada” (hoje, definitivamente, não
tenho mão para as imagens) a retirar significado de todas as coisas, objectos
ou gestos, em particular os mais ínfimos; depois, o tratamento da língua,
reutilizando formas verbais com fortes potencialidades polissémicas, forçando-as
até ao absurdo, o que lhe permite construir imagens de uma beleza, por vezes,
fulgurante; por último, um excepcional sentido do ritmo frásico, principalmente
da sua dramaticidade e/ou emotividade, aproveitando todas as figuras de estilo,
em particular as anáforas e aliterações, para criar intensidades várias, de
forma a arrastar o leitor numa prosódia encantatória.
Ao concluir a leitura de “Que Farei Quando Tudo Arde?”, na
pausa em que nos afundamos, fica-se de garganta apertada, ao percebermos que os
destroços, que aquela enxurrada leva, são os de um país (ou de um povo) a que
pertencemos. Ou ainda, procurando perscrutar mais fundo naquelas águas turvas,
que são destroços da condição humana, que parece irremediavelmente perdida e
sem solução. Até que, por fim, temos a iluminação definitiva: naquela
enxurrada, vamos também nós, leitores de António Lobo Antunes durante décadas e
décadas.
Dizem-me que as suas últimas obras têm cada vez menos
leitores, que já ninguém as lê. Não me admira, não me admira, porque a sua
leitura há-de ser sempre incómoda. Mas isso não lhes retira importância no
quadro da literatura portuguesa (e não só).
A terminar, um pormenor. Intencionalmente, “Que Farei Quando
Tudo Arde?” não tem referência de género, tanto podendo ser encarada como um
romance ou um poema, na linha desta tendência da literatura contemporânea para
a diluição dos géneros. Mas para mim, como leitor, é claramente um romance: tem
várias personagens, a maioria delas também narradoras, diversas situações em
diferentes contextos temporais e espaciais, inúmeros capítulos (mesmo que não
enumerados, dando a entender que a sequência da sua leitura é arbitrária), tudo
amalgamado por um estilo que, como já referi, tudo leva na frente. Dir-me-ão
que todos esses ingredientes também podem estar na poesia; mas sucede que nesta
não são estruturantes, enquanto neste romance o são. Por vezes, desconfio
destas indefinições, pois parecem-me sempre resultantes da menorização do
romance como género. Será?
Foto do escritor retirada de “New In Almada”, sem indicação
de autoria, mas que, segundo creio, é de Pedro Loureiro.

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