Mostrar mensagens com a etiqueta Narrativa Chilena. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Narrativa Chilena. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de maio de 2022

CARLOS LABBÉ

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

17. Carlos Labbé (1977-)

É um escritor chileno que, a partir de 2001, publicou oito romances e um livro de contos. Em 2010, a revista Granta seleccionou-o como um dos narradores mais promissores em língua espanhola (em conjunto com Andrés Barba, Andrés Neuman, Pola Oloixarac, Santiago Roncagliolo, Samanta Schweblin e Alejandro Zambra, para apenas referir os mais conhecidos no nosso país). É também guionista (premiado), editor, crítico literário e especialista nas obras de Juan Carlos Onetti e de Roberto Bolaño. Por último, é compositor e músico popular já com cinco álbuns publicados.

O autor, descrente da eficácia dos modelos narrativos do sécs. XIX e XX, que considera que foram totalmente destroçados pelos canais multimédia e informáticos, tem-se dedicado, de obra para obra, à experimentação literária, procurando soluções estéticas e políticas radicais que combatam não só os discursos de “ocultação” dos diversos poderes, mas também a consolidação do capitalismo e a sua maior penetração no tecido social do seu país. Para estes objectivos, Carlos Labbé procura apetrechar-se com os conceitos e as teorias da crítica textual (Barthes, Genette), entrecruzando-os com os arquétipos narrativos das populações indígenas chilenas, fortemente embebidos do sentido do colectivo, das relações entre mundos físicos e espirituais, da presença do sagrado.

Assim, desde “Pentagonal: incluídos tú y yo”, 2001, um romance hipertextual, o autor tem utilizado todo o tipo de técnicas: desde o uso sistemático de diversos fios narrativos entrelaçados, com distintos espaços e tempos, em que as personagens cruzam espaços “reais” para imaginários, às tentativas de criação de romances corais com diversos narradores debruçando-se com perspectivas distintas sobre as mesmas situações, ou o aparecimento de situações similares em contextos distintos, ou as paródias dos modelos dos colectivos de escrita (em que o caso com maior destaque é o colectivo italiano Wu Ming), ou ainda ao jogo exaustivo das referências literárias e a deambulação constante entre subgéneros narrativos. Os romances de Carlos Labbé são, por isso, de uma inegável complexidade, mas de uma leitura unanimemente aceite como fascinante, dado o seu cuidado estilístico neo-barroco, a imaginação transbordante na construção de situações e de personagens e na tessitura do próprio enredo. Saliente-se ainda que em quase todos os romances deste autor se procura dar um papel activo ao próprio leitor, pois muitas vezes lhe concede a possibilidade de optar na sucessão dos capítulos ou dos trechos, podendo, dessa forma, reconstruir a trama como lhe aprouver.

Não se julgue, no entanto, que os romances de Carlos Labbé são meros exercícios lúdicos de literatura. Pelo contrário, estes romances (de onde destaco, de forma quase arbitrária, “Libro de plumas”, 2004, “Navidad y Matanza”, 2007, “Piezas secretas contra el mundo”, 2014, e “La parvá”, 2015) revelam-se como denúncias, com significativa carga simbólica e/ou alegórica, da situação económica e política do seu país, da sua história de violência e brutalidade sobre quem se opõe ao modelo compressor da implantação capitalista.

Provavelmente, pela sua dimensão alegórica, o romance mais fascinante de Carlos Labbé seja o seu último, intitulado “Viaje a Partagua”, 2021 (e que tem uma actual edição em conjunto com “La parvá”), onde se narra a viagem num camião de um  conjunto de emigrantes, mais ao menos clandestino, através de um imaginário país decrépito, prevendo-se que só um deles chegará à “terra prometida”.

Fruto, de certo modo, da ascensão de Trump ao poder (recordo que o autor vive regularmente, boa parte do ano, em Brooklyn) e da pandemia de Coronavírus, o romance parte de pressupostos fortemente radicais e críticos, defendendo a necessidade cada vez maior de depender do colectivo como forma de sobrevivência. Neste contexto, a literatura responde ao desejo irredutível de viajar como fuga à morte (num quadro em que este desejo parece criminoso, sabendo-se, como o autor refere numa entrevista, “que só os mortos podem viajar”), e que a alegria de contar, abstraindo qualquer ideia de modernidade e regressando a um “ponto zero” da linguagem (não generizada e de eliminado binarismo), se sobreporá à tirania das regras económicas e que levará, no final, a que o filho (todos os filhos) permaneça como a divindade donde a vida renascerá.  

Alguns dos livros do autor estão traduzidos para inglês. 

Maio de 2022.

Foto do autor de Juan Farias E.



domingo, 5 de abril de 2020

MAURICIO WACQUEZ


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

12ª Vinheta


MAURICIO WACQUEZ

Mauricio Wacquez (1939-2000) foi um escritor chileno, tradutor e professor, que publicou cinco romances, algumas colectâneas de contos, ensaios e artigos, coligidos postumamente (segundo a sua própria definição, era um “escritor parco”). Começou a publicar na década de sessenta e integrou a chamada “generación de los novíssimos”, onde se destacaram Poli Delano e António Skarmeta (para apenas referir os mais conhecidos no exterior do Chile). Algumas das suas obras foram finalistas de prémios (Casa de las Americas, Seix-Barral, etc.), na sua maioria publicadas em Espanha, país onde residiu uma boa parte da sua vida.

Provavelmente por causa deste facto e porque a sua obra assume uma postura claramente gay, ela, enquanto o autor foi vivo, passou por completo desapercebida no seu país, com exceção de alguns autores (é o caso, por exemplo, de Júlio Cortázar, José Donoso e Jorge Edwards) que muito a apreciavam.  

Uma das características reconhecidas na obra de Mauricio Wacquez é a sua preocupação com o estilo, procurando utilizar a língua espanhola de forma inovadora e criativa. Aliás, as suas primeiras obras, pelas razões acima referidas, eram curtas, resultantes de um pendor fortemente autocrítico e da sua necessidade de pensar a frase, como um ourives de filigrana, palavra a palavra. Não admira por isso, que, nas palavras do próprio autor, as suas obras mais relevantes sejam as suas últimas, que considera com maior maturidade e mais próximas do que pretendia. Aliás, a leitura do conjunto da sua obra transmite a ideia, como sucede em muitos outros autores, de que Maurício Wacquez desejou sempre escrever o mesmo livro (até quando enveredou pelo romance histórico, como foi o caso de “Frente a un Hombre Armado”), dado que todos eles rodeiam uma mesma problemática: a incomunicabilidade, a castração social, a angustiante incapacidade de consumar no objecto amado o seu desejo.

Outra componente da sua obra é o seu carácter (quase) autobiográfico e a importância das experiências vividas na infância e na adolescência, em particular, as resultantes das dificuldades de comunicação e de satisfação afectiva. De certo modo, a infância e a adolescência na obra de Mauricio Wacquez apenas parcialmente são fases de esplendor; pelo contrário, a impossibilidade de afirmar desejos e afectos, os constantes equívocos, a opressão de uma moralidade paterna plena de certezas, leva as personagens principais e os narradores dos seus romances a um obscuro e angustiante mal-estar.

 No entanto, há um significativo consenso de que a obra mais relevante deste autor é “Epifania de una Sombra”, a sua última obra, e que integrava uma trilogia, intitulada “La Obscuridad”, em que Mauricio Wacquez trabalhava quando morreu e que não chegou a concluir (o escritor morreu de SIDA)

“Epifania de una Sombra” é, mais uma vez, sobre a infância e adolescência, mas apresentada de uma forma não cronológica e linear, amalgamando diversos espaços (o campo e a cidade) e distintos tempos, em que as situações são associadas por nexos profundos, procurando assim entender melhor o fluir e a formação emocional da personagem principal, Santiago Warni (assumidamente uma representação ficcional do autor) e dos seus amigos. Saliente-se que o narrador deste romance se identifica com o autor, que, a partir do presente, feito de cansaço e doença, rememora, de forma fragmentária e fantasista, e procura perceber aquilo que no seu “duplo”, ainda criança e adolescente, já gera sentido para o que hoje vive. Por último, salientar que a descrição tanto da paisagem rural como urbana, tem uma componente funcional na obra, pois sincretiza os diversos estados emocionais que atravessam as personagens.

Algumas das suas obras estão traduzidas para francês.

Lisboa, Abril de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.