A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
17. Carlos
Labbé (1977-)
É um
escritor chileno que, a partir de 2001, publicou oito romances e um livro de
contos. Em 2010, a revista Granta seleccionou-o como um dos narradores mais
promissores em língua espanhola (em conjunto com Andrés Barba, Andrés Neuman,
Pola Oloixarac, Santiago Roncagliolo, Samanta Schweblin e Alejandro Zambra,
para apenas referir os mais conhecidos no nosso país). É também guionista
(premiado), editor, crítico literário e especialista nas obras de Juan Carlos
Onetti e de Roberto Bolaño. Por último, é compositor e músico popular já com
cinco álbuns publicados.
O autor, descrente
da eficácia dos modelos narrativos do sécs. XIX e XX, que considera que foram totalmente
destroçados pelos canais multimédia e informáticos, tem-se dedicado, de obra
para obra, à experimentação literária, procurando soluções estéticas e
políticas radicais que combatam não só os discursos de “ocultação” dos diversos
poderes, mas também a consolidação do capitalismo e a sua maior penetração no
tecido social do seu país. Para estes objectivos, Carlos Labbé procura
apetrechar-se com os conceitos e as teorias da crítica textual (Barthes,
Genette), entrecruzando-os com os arquétipos narrativos das populações
indígenas chilenas, fortemente embebidos do sentido do colectivo, das relações
entre mundos físicos e espirituais, da presença do sagrado.
Assim, desde
“Pentagonal: incluídos tú y yo”, 2001, um romance hipertextual, o autor tem utilizado
todo o tipo de técnicas: desde o uso sistemático de diversos fios narrativos
entrelaçados, com distintos espaços e tempos, em que as personagens cruzam
espaços “reais” para imaginários, às tentativas de criação de romances corais
com diversos narradores debruçando-se com perspectivas distintas sobre as
mesmas situações, ou o aparecimento de situações similares em contextos
distintos, ou as paródias dos modelos dos colectivos de escrita (em que o caso
com maior destaque é o colectivo italiano Wu Ming), ou ainda ao jogo exaustivo
das referências literárias e a deambulação constante entre subgéneros
narrativos. Os romances de Carlos Labbé são, por isso, de uma inegável
complexidade, mas de uma leitura unanimemente aceite como fascinante, dado o seu
cuidado estilístico neo-barroco, a imaginação transbordante na construção de
situações e de personagens e na tessitura do próprio enredo. Saliente-se ainda
que em quase todos os romances deste autor se procura dar um papel activo ao
próprio leitor, pois muitas vezes lhe concede a possibilidade de optar na
sucessão dos capítulos ou dos trechos, podendo, dessa forma, reconstruir a
trama como lhe aprouver.
Não se julgue,
no entanto, que os romances de Carlos Labbé são meros exercícios lúdicos de
literatura. Pelo contrário, estes romances (de onde destaco, de forma quase
arbitrária, “Libro de plumas”, 2004, “Navidad y Matanza”, 2007, “Piezas
secretas contra el mundo”, 2014, e “La parvá”, 2015) revelam-se como denúncias,
com significativa carga simbólica e/ou alegórica, da situação económica e
política do seu país, da sua história de violência e brutalidade sobre quem se
opõe ao modelo compressor da implantação capitalista.
Provavelmente,
pela sua dimensão alegórica, o romance mais fascinante de Carlos Labbé seja o
seu último, intitulado “Viaje a Partagua”, 2021 (e que tem uma actual edição em
conjunto com “La parvá”), onde se narra a viagem num camião de um conjunto de emigrantes, mais ao menos
clandestino, através de um imaginário país decrépito, prevendo-se que só um
deles chegará à “terra prometida”.
Fruto, de
certo modo, da ascensão de Trump ao poder (recordo que o autor vive
regularmente, boa parte do ano, em Brooklyn) e da pandemia de Coronavírus, o
romance parte de pressupostos fortemente radicais e críticos, defendendo a
necessidade cada vez maior de depender do colectivo como forma de sobrevivência.
Neste contexto, a literatura responde ao desejo irredutível de viajar como fuga
à morte (num quadro em que este desejo parece criminoso, sabendo-se, como o
autor refere numa entrevista, “que só os mortos podem viajar”), e que a alegria
de contar, abstraindo qualquer ideia de modernidade e regressando a um “ponto
zero” da linguagem (não generizada e de eliminado binarismo), se sobreporá à
tirania das regras económicas e que levará, no final, a que o filho (todos os
filhos) permaneça como a divindade donde a vida renascerá.
Alguns dos
livros do autor estão traduzidos para inglês.
Maio de
2022.
Foto do
autor de Juan Farias E.


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