A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
13. Adrienne
Yabouza (1965-)
É uma
escritora da República Centro-Africana, de expressão francesa, que já escreveu
vários livros para a infância e juventude e oito romances e colectâneas de
contos (os primeiros escritos em colaboração com o escritor francês Yves
Pinguilly). Sem estudos nem formação académica (boa parte da sua vida teve que
criar sozinha os seus cinco filhos), passou por diversos trabalhos e ofícios, até
que, por fim, “montou” um salão de cabeleireiro na capital, que lhe serviu para
ouvir as histórias de vida das suas vizinhas. Devido às guerras civis que recentemente
assolaram o seu país, foi obrigada a exilar-se por duas vezes: primeiro, em
2004, para a República do Congo, depois, de novo, em 2013, tendo pedido asilo
político em França.
Os romances
de Adrienne Yabouza centram-se fundamentalmente na situação social e familiar
das mulheres africanas, em particular as do seu país, e inspiram-se nas
histórias que foi ouvindo às suas clientes e vizinhas. As tramas são, na
generalidade, lineares; mas este facto não obsta a que, para além do testemunho
sobre as situações vividas pelas mulheres africanas, os seus romances não
tenham qualidades estilísticas, com um aproveitamento significativo do humor no
tratamento sarcástico de situações bem desumanas, em especial de abuso sexual,
e na utilização de africanismos, oriundos das diversas línguas nativas, e que procuram
exprimir a ambiência local. Essas tramas percorrem todas as fases da vida
destas mulheres, desde a infância e a adolescência (“Le Bleu du ciel biani
biani”, 2010) até à viuvez (“La Maltraite des veuves”, 2013, e “Co-épouses et
co-veuves”, 2015) e à velhice. Por outro lado, reflectem também o sofrimento
próprio das mulheres em contextos de guerra civil, demonstrando como são
constantemente utilizadas como despojos (e troféus), e como aquela é sempre
gerada por situações de corrupção e de ânsia de partilha, por parte de grupos com
interesses específicos e antagónicos, das riquezas públicas (“La Défaite des
mères”, 2008, e “La Pluie lave le ciel”, 2019).
O romance
mais interessante parece-nos ser “Co-épouses et co-veuves”, em particular
porque se debruça sobre um tema pouco tratado em termos literários: a situação
da mulher num quadro social poligâmico (é justo lembrar aqui o carácter percursor
da obra da moçambicana Paulina Chiziane, que também se tem debruçado sobre este
tema no contexto do seu país e da África Austral).
As
personagens centrais de “Co-épouses et co-veuves” integram uma unidade familiar
em Bangui, constituída por Lidou e as suas duas esposas, Ndongo Passy e
Grekpoubou, e cinco filhos (respectivamente, um da primeira e quatro da
segunda), onde não há conflitos nem ciúmes, e, pelo contrário, parece a existir
uma certa harmonia erótica e afectiva. À morte súbita do marido, as duas
mulheres vêem-se obrigadas a lutar pela sua sobrevivência e pelo seu
património, como se fossem irmãs, confrontando-se com a guerra civil, a
corrupção institucionalizada, assim como com as trafulhices geradas por uma sociedade
marcadamente patriarcal. Saliente-se, por fim, que, mesmo numa ambiência social
e política sinistra, existe uma clara jovialidade, composta por um tratamento
afectuoso, humorado e optimista, no retrato esboçado das personagens e das
situações que estas se vêem obrigadas a atravessar.
Este romance
está traduzido para inglês.
Maio de 2022
Desconheço a
autoria da foto da escritora.


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