segunda-feira, 16 de maio de 2022

LARS AMUND VAAGE

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

14. Lars Amund Vaage (1952-)

É um escritor norueguês com uma significativa obra publicada nos domínios da dramaturgia, da literatura para a infância e juventude, da poesia, do conto e do romance. As suas obras, principalmente de poesia e narrativa, têm recebido diversos prémios nacionais, e dois dos seus romances já foram nomeados para o importante Nordic Council Literature Prize em 1996 (“Rubato”) e em 2021 (“Det uferdig huset”, em tradução literal, “A Casa Inacabada”).

Começou a publicar romances nos finais da década de setenta com “Øvelse Kald vinter” (“Exercício Inverno Frio”), ainda muito dependente da estética literária dominante no seu país do “realismo social”. É com o seu único livro de contos “Kyr” (“Vacas”), 1983, que se percebe que se efectua uma inflexão estética na sua obra, aproximando-se de um discurso mais pessoal e reflexivo. Mas é principalmente com o romance “Rubato” que se torna mais nítida essa inflexão, quando Lars Amund Vaage resolve aproveitar a sua experiência pessoal como músico (a sua primeira, e malograda, orientação artística), centrando-se numa personagem que, tendo abandonado a actividade musical, resolve, bem mais tarde, reflectir sobre os motivos desse abandono, e sobre a importância da criação e da comunicação como via de realização pessoal.

Provavelmente é o seu romance “Syngja” (“Cantar”), 2012, a sua obra mais interessante. Considerada unanimemente como a mais pessoal, “Syngja” tem, como personagem principal, um escritor já consagrado que tem uma filha autista que não sabe falar nem entende a linguagem (como sucede na vida real com o escritor). Sem pretensões autobiográficas, e fugindo, em termos estilísticos, a qualquer registo melodramático, o romance procura expor não só o modo de ser e a vida dessa filha (hoje já adulta), a sua (ir)receptividade aos tratamentos e aos especialistas, mas, sobretudo reflecte sobre as formulas de relacionamento familiar e o papel da linguagem e da necessidade de expressão e comunicação.  Daí que o romance, naturalmente, estabelecendo constantes relacionamentos com a situação do autista, derive para o estatuto do escritor, o seu isolamento estrutural e, por consequência, sobre o papel da ficção como instrumento de aproximação ao mundo e ao Outro. 

Maio de 2022.

A foto do autor é de Helge Skodvin.



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