A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
14. Lars
Amund Vaage (1952-)
É um
escritor norueguês com uma significativa obra publicada nos domínios da
dramaturgia, da literatura para a infância e juventude, da poesia, do conto e
do romance. As suas obras, principalmente de poesia e narrativa, têm recebido
diversos prémios nacionais, e dois dos seus romances já foram nomeados para o
importante Nordic Council Literature Prize em 1996 (“Rubato”) e em 2021 (“Det
uferdig huset”, em tradução literal, “A Casa Inacabada”).
Começou a
publicar romances nos finais da década de setenta com “Øvelse Kald vinter” (“Exercício Inverno Frio”), ainda muito
dependente da estética literária dominante no seu país do “realismo social”. É com
o seu único livro de contos “Kyr” (“Vacas”), 1983, que se percebe que se efectua
uma inflexão estética na sua obra, aproximando-se de um discurso mais pessoal e
reflexivo. Mas é principalmente com o romance “Rubato” que se torna mais nítida
essa inflexão, quando Lars Amund Vaage resolve aproveitar a sua experiência pessoal
como músico (a sua primeira, e malograda, orientação artística), centrando-se
numa personagem que, tendo abandonado a actividade musical, resolve, bem mais
tarde, reflectir sobre os motivos desse abandono, e sobre a importância da
criação e da comunicação como via de realização pessoal.
Provavelmente
é o seu romance “Syngja” (“Cantar”), 2012, a sua obra mais interessante. Considerada
unanimemente como a mais pessoal, “Syngja” tem, como personagem principal, um
escritor já consagrado que tem uma filha autista que não sabe falar nem entende
a linguagem (como sucede na vida real com o escritor). Sem pretensões
autobiográficas, e fugindo, em termos estilísticos, a qualquer registo
melodramático, o romance procura expor não só o modo de ser e a vida dessa
filha (hoje já adulta), a sua (ir)receptividade aos tratamentos e aos
especialistas, mas, sobretudo reflecte sobre as formulas de relacionamento
familiar e o papel da linguagem e da necessidade de expressão e
comunicação. Daí que o romance,
naturalmente, estabelecendo constantes relacionamentos com a situação do
autista, derive para o estatuto do escritor, o seu isolamento estrutural e, por
consequência, sobre o papel da ficção como instrumento de aproximação ao mundo
e ao Outro.
Maio de
2022.
A foto do
autor é de Helge Skodvin.


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