A Vontade
Ler: Um Autor, Uma Obra
11. António
Xerxenesky (1984-)
É um
escritor brasileiro que, desde 2006, já publicou quatro romances e três
colectâneas de contos. É também Doutorado em Teoria Literária pela Universidade
de São Paulo. Em 2012, foi considerado, pela revista Granta, um dos escritores
brasileiros com menos de quarenta anos mais promissores (numa lista de vinte,
que incluía os nomes de João Paulo Cuenca, Julian Fuks, Daniel Galera, Michel
Laub, Carola Saavedra e Tatiana Salem Levy, para só referir os mais conhecidos
no nosso país) e o seu romance “F” foi finalista do Prémio São Paulo de
Literatura e a sua tradução francesa foi também finalista no Prix Médicis para
literatura estrangeira.
As
narrativas deste autor têm três ingredientes bem característicos: um enorme
prazer em construir tramas complexas que “brincam” com a realidade, introduzindo
elementos fantasmagóricos, como se esta fosse, antes do mais, uma “construção
mental”; esta dimensão lúdica leva a que o autor “baralhe” e mescle
constantemente géneros e subgéneros narrativos, desde o western, a ficção
científica, o policial e as obras fantásticas com mortos-vivos e zombies; por
último, que o texto esteja repleto de referências literárias, explícitas e
implícitas, como se a referida dimensão lúdica se estendesse à história da
literatura dos últimos dois séculos. O resultado parece assim estar perto do
que alguma crítica anglo-saxónica tem etiquetado de narrativas de
“post-horror”, para além, de facto, de uma certa proximidade à ambiência de
alguns romances de Roberto Bolaño (sobre quais António Xerxenesky fez a sua
tese de doutoramento).
Torna-se assim
compreensível o motivo por que os contextos geográficos (e até históricos)
sejam pouco relevantes na sua obra: eles apenas servem para dar um conjunto de
referências que permitam dar maior consistência à própria evolução do enredo.
Estas opções talvez permitam entender a dificuldade de certa crítica brasileira
em classificar (e aceitar) a sua obra (visto que são narrativas de género que
por sistema se encaminham para outros universos) e também a perplexidade com
que o leitor comum tem acolhido a sua produção literária.
Não se
julgue, no entanto, que a obra de António Xerxenesky se confina apenas a uma
dimensão lúdica. Há sempre a intenção de, subliminarmente, ficcionar uma
reflexão abrangente: ou a metaficção e as estratégias narrativas (“Areia Nos
Dentes”, 2008), ou a literatura como referencial autónomo (“A Página Assombrada
Por Fantasmas”, 2011), ou o sentido da arte (“F”, 2014), ou ainda o
conhecimento como forma de apreensão do não visível (“As Perguntas”, 2017).
Talvez seja
por isso que a obra do autor sofreu uma inflexão significativa no último
romance, “Uma Tristeza Infinita”, 2021, onde se atenuou a já referida dimensão
lúdica (há apenas alusões a Robert Walser) e se abandonou, pelo menos de forma
tão explícita, a ambiência de “terror”.
A trama
situa-se na Suíça do pós-guerra e tem, como personagens centrais, um casal, composto
por um psiquiatra e uma física, que se encontra na vanguarda dos seus
correspondentes conhecimentos científicos: o primeiro, utilizando como
instrumento clínico a psicanálise, e abandonando os electrochoques e a
aplicação sistemática de farmacológicos para tratar a depressão (a melancolia,
como era conhecida na altura); a segunda, dedicando-se ao estudo da estrutura
da matéria e das partículas elementares num centro de investigação nuclear. Por
conseguinte, as questões centrais deste romance deslocam-se para os limites (em
particular, éticos) do conhecimento científico e as suas possibilidades para compreender
em profundidade a vida e a realidade material. Mas, paralelamente, reflecte também
sobre o sentimento de culpa (boa parte dos pacientes, que o psiquiatra trata e com
quem dialoga, estiveram diversamente relacionados com os genocídios perpetrados
na II Guerra Mundial e, por outro lado, pairam, como sinistra sombra sobre o
trabalho científico da mulher, as bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e
Nagasaki) e sobre a forma como as opções políticas e pessoais (ou a falta
delas) condiciona o percurso individual.
Maio de 2022
Foto do autor
de Renato Parada.


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