sexta-feira, 6 de maio de 2022

ANTÓNIO XERXENESKY

 


A Vontade Ler: Um Autor, Uma Obra

11. António Xerxenesky (1984-)

É um escritor brasileiro que, desde 2006, já publicou quatro romances e três colectâneas de contos. É também Doutorado em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo. Em 2012, foi considerado, pela revista Granta, um dos escritores brasileiros com menos de quarenta anos mais promissores (numa lista de vinte, que incluía os nomes de João Paulo Cuenca, Julian Fuks, Daniel Galera, Michel Laub, Carola Saavedra e Tatiana Salem Levy, para só referir os mais conhecidos no nosso país) e o seu romance “F” foi finalista do Prémio São Paulo de Literatura e a sua tradução francesa foi também finalista no Prix Médicis para literatura estrangeira.

As narrativas deste autor têm três ingredientes bem característicos: um enorme prazer em construir tramas complexas que “brincam” com a realidade, introduzindo elementos fantasmagóricos, como se esta fosse, antes do mais, uma “construção mental”; esta dimensão lúdica leva a que o autor “baralhe” e mescle constantemente géneros e subgéneros narrativos, desde o western, a ficção científica, o policial e as obras fantásticas com mortos-vivos e zombies; por último, que o texto esteja repleto de referências literárias, explícitas e implícitas, como se a referida dimensão lúdica se estendesse à história da literatura dos últimos dois séculos. O resultado parece assim estar perto do que alguma crítica anglo-saxónica tem etiquetado de narrativas de “post-horror”, para além, de facto, de uma certa proximidade à ambiência de alguns romances de Roberto Bolaño (sobre quais António Xerxenesky fez a sua tese de doutoramento).

Torna-se assim compreensível o motivo por que os contextos geográficos (e até históricos) sejam pouco relevantes na sua obra: eles apenas servem para dar um conjunto de referências que permitam dar maior consistência à própria evolução do enredo. Estas opções talvez permitam entender a dificuldade de certa crítica brasileira em classificar (e aceitar) a sua obra (visto que são narrativas de género que por sistema se encaminham para outros universos) e também a perplexidade com que o leitor comum tem acolhido a sua produção literária.      

Não se julgue, no entanto, que a obra de António Xerxenesky se confina apenas a uma dimensão lúdica. Há sempre a intenção de, subliminarmente, ficcionar uma reflexão abrangente: ou a metaficção e as estratégias narrativas (“Areia Nos Dentes”, 2008), ou a literatura como referencial autónomo (“A Página Assombrada Por Fantasmas”, 2011), ou o sentido da arte (“F”, 2014), ou ainda o conhecimento como forma de apreensão do não visível (“As Perguntas”, 2017).

Talvez seja por isso que a obra do autor sofreu uma inflexão significativa no último romance, “Uma Tristeza Infinita”, 2021, onde se atenuou a já referida dimensão lúdica (há apenas alusões a Robert Walser) e se abandonou, pelo menos de forma tão explícita, a ambiência de “terror”.

A trama situa-se na Suíça do pós-guerra e tem, como personagens centrais, um casal, composto por um psiquiatra e uma física, que se encontra na vanguarda dos seus correspondentes conhecimentos científicos: o primeiro, utilizando como instrumento clínico a psicanálise, e abandonando os electrochoques e a aplicação sistemática de farmacológicos para tratar a depressão (a melancolia, como era conhecida na altura); a segunda, dedicando-se ao estudo da estrutura da matéria e das partículas elementares num centro de investigação nuclear. Por conseguinte, as questões centrais deste romance deslocam-se para os limites (em particular, éticos) do conhecimento científico e as suas possibilidades para compreender em profundidade a vida e a realidade material. Mas, paralelamente, reflecte também sobre o sentimento de culpa (boa parte dos pacientes, que o psiquiatra trata e com quem dialoga, estiveram diversamente relacionados com os genocídios perpetrados na II Guerra Mundial e, por outro lado, pairam, como sinistra sombra sobre o trabalho científico da mulher, as bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki) e sobre a forma como as opções políticas e pessoais (ou a falta delas) condiciona o percurso individual.   

Maio de 2022

Foto do autor de Renato Parada.



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