terça-feira, 10 de maio de 2022

THOMAS VAN AALTEN

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

12. Thomas van Aalten (1978-)

 É um escritor holandês que já publicou nove romances e uma novela. Além disso, escreveu dois guiões de filmes, faz crítica literária regular em diversos jornais e revistas e é professor universitário de Comunicação Social. Para além de ser muito prolixo, é também bastante interveniente em termos sociais, tornando-se uma presença regular na comunicação social, em particular na web e nos meios audiovisuais, a comentar, muitas vezes de forma acentuadamente polémica, não só a produção literária do seu país, mas também a vida social e política. Genericamente, pode afirmar-se que as suas posições se situam na esquerda liberal (ou, provavelmente, de forma mais acertada, num peculiar liberalismo de esquerda).

Como seria previsível, o caracter controverso e iconoclasta da figura do autor afectou a leitura da sua obra e, por conseguinte, a crítica, por vezes, divide-se na sua avaliação. No entanto, reconhece-se o carácter experimental da sua narrativa, a vivacidade na construção de tramas complexas, gerando “tournures” imprevisíveis, as personagens peculiares, os diálogos tocando as raias do “non-sense”, as situações muitas vezes surrealizantes e o carácter inovador da arquitectura romanesca, “jogando” com o tempo e o espaço e com a forma de apresentação das personagens e dos seus contextos. Refere-se ainda a radicalidade do seu sentido crítico em relação ao modo de vida dos seus compatriotas, em particular das classes média e alta, e à sua obsessão pelo bem-estar, pelo consumo e pelo luxo. Por último, na tentativa de contextualizar as suas narrativas, é costume referir-se a obras tão distintas, como as de William S. Burroughs, de Denis Johnson, de Bret Easton Ellis, do cineasta David Lynch, de Michel Houellebecq e de Haruki Murakami.

Sem ter a pretensão de definir “ciclos” no conjunto da obra Thomas van Aalten, creio que é possível delinear as suas “flutuações”. Os dois primeiros romances, “Sneeuwbeeld”, 2000, (literalmente, “Imagem de Neve”) e “Tupelo”, 2001, particularmente sombrios e terríveis, têm, como personagens centrais, dois jovens da idade do autor (repare-se que o primeiro romance foi publicado quando Thomas van Aalten tinha apenas vinte e um anos) e retrata as suas dificuldades, entre a droga, o sexo e o álcool, em definir o seu percurso, pressentindo que estão a escorregar para um abismo de destruição e morte; o terceiro e o quarto, “Sluit deuren en ramen”, 2003 (“Fechar Portas e Janelas”) e “Coyote”, 2006, são distopias, o primeiro, reflectindo a actual obsessão securitária, e o segundo, mais experimental e alucinado, apresenta, de forma fragmentária e aparentemente desconexa, um conjunto de personagens imorais e de situações brutais numa gigantesca cidade fictícia; o quarto, “De onderbreking”, 2009 (“A Interrupção”), retoma a personagem de Victor Tupelo (eventual alter-ego do autor), como um escritor de sucesso que questiona, num diálogo ininterrupto com um porteiro de hotel (seu leitor), as relações entre realidade e ficção; e ainda “De schuldigen”, 2011 (“Os Culpados”), que se centra numa família a viver num constante gozo consumista (composta por um banqueiro falido, em permanente especulação financeira, a esposa, que passa o tempo em clínicas estéticas e em curas de desintoxicação, e um filho, que vive à deriva, fugido de casa e em ruptura com os pais), que, quando se encontra acidentalmente num luxuoso hotel no Dubai, é vítima de um ataque terrorista, e onde se defende a tese que a falência da actual sociedade ocidental se deve aos hábitos da classe dominante, o seu principal inimigo.

Porém, a partir de “Leeuwenstrijd”, 2014 (“Luta de Leão”), que referiremos mais adiante, processa-se uma inflexão na obra de Thomas van Aalten, não só por ter uma outra orientação estética, onde a dimensão experimental é mais atenuada, mas principalmente porque se passa a centrar na realidade holandesa do séc. XX: assim, “Henry!”, 2016, o romance seguinte, situa-se na década de sessenta, em redor do “boom” consumista de revistas “mundanas”, e “Een vrouw van de wereld”, 2020 (“Uma Mulher do Mundo”), na fase de franca expansão económica da Holanda da década de setenta, que se debruça sobre o vazio hipócrita e entediante de uma mulher, casada com um próspero homem de negócios, violento e alcoólico, que descobre que existe um mundo bem distinto da Amesterdão onde vive, através de uma relação adultera com um jovem surinamês; por último, “Voorstad” (“Subúrbio”), já no corrente ano, contextualizado na actualidade, sobre as alterações sociais (e arquitectónicas) num subúrbio abastado, onde os antigos residentes se confrontam como uma nova população, de origem estrangeira, mas com meios financeiros suficientes para “contaminar” o seu espaço.   

Não há dúvida que o romance, de certo modo, mais ambicioso, e provavelmente mais interessante, de Thomas van Aalten, é “Leeuwenstrijd” (“Luta de Leão”). A estratégia narrativa do romance é bastante simples e comum: a descoberta de um traje de leão num sótão “familiar” leva um adolescente a tentar descobrir a sua origem e a conhecer o percurso da sua família durante quatro gerações, desde um antepassado, imigrante italiano que se fixou, em 1920, como mineiro em Limburg, até à actualidade. Ao longo de cem anos, é não só a história e as vicissitudes por que a Holanda passou que são reflectidas, mas também as perspectivas de cada geração em relação a essa mesma história: desde o bisavô (filho de um militante comunista, obrigado a fugir do fascismo italiano, e por isso a emigrar para a Holanda), que se sente asfixiado em Limburg, trabalhando no comércio e de noite num circo, e que, perfilhando posições liberais conservadoras, se vê envolto em histórias de espionagem, e que é obrigado, por sua vez, a fugir da guerra para a América, ao seu avô, socialista e radical, empenhado nas lutas sociais dos anos sessenta e setenta, ao seu pai, um executivo publicitário, ambicioso e ansiando por prestígio e promoção social, até à figura central do romance, um jovem revoltado com o actual modelo social e que procura sistematicamente assumir posições radicais.

Para dar realce aos conflitos ideológicos geracionais e aos modos diferentes de reagir ao fluir dos acontecimentos, o autor resolve não seguir uma evolução cronológica, entrecruzando as histórias do passado com as do presente, e apresentando-as sempre na perspectiva do seu actor principal. O “fato de leão”, que está na origem do título, e que o bisavô utilizava no seu trabalho circense, assume assim um valor simbólico, pois não só representa o elo familiar que se sobrepõe aos antagonismos entre pais e filhos, mas também a diversa energia para, ao longo dos tempos, cada geração teve que incorporar para superar as dificuldades que vão surgindo.   

Maio de 2022.

Foto do escritor da autoria de Keke Keukelaar.



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