A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
15. Camila
Fabbri (1989-)
É uma
escritora argentina que já publicou dois livros de contos e um romance. Em
2021, foi considerada, pela revista Granta, uma das escritoras mais promissoras
em língua espanhola com menos de trinta e cinco anos. É também dramaturga e
actriz, tanto de teatro como de cinema.
A crítica, principalmente
a dos seus colegas de ofício (Alejandro Zambra, Leila Guerriero, Marta Sanz,
Rodrigo Fresán, entre outros), desde o primeiro livro, considerou muito
favoravelmente a narrativa da autora, não só pelo seu cuidado estilístico
(referindo-se constantemente ao seu classicismo, mas, ao mesmo tempo, ao seu
caracter inovador e à sua “desenvoltura”, para utilizar uma expressão já consagrada
de Eduardo Lourenço), mas, em particular, ao facto de criar, em cada história,
uma ambiência muito própria. Essas histórias, descrevendo circunstâncias
inteiramente banais, conseguem transmitir uma sensação de perigo, de catástrofe
iminente, que, a seu modo, é, nos dias de hoje, bem comum e universal.
Mesmo aceitando
que a autora, em entrevistas recentes, se assume principalmente como contista
(“Los accidentes”, 2015, e “Estamos a salvo”, 2022), interessa-me, em especial,
o seu romance “El día que apagaron la luz”, de 2021.
No dia 30 de
Dezembro de 2004, houve um incêndio na discoteca de Cromañón, em Buenos Aires,
quando decorria um concerto da banda de rock barrial (corrente de rock
underground genuinamente argentina) Callejeros. No desastre, morreram 194
jovens e ficaram 1432 feridos, alguns deles com sequelas psicológicas e físicas
durante vários anos. As consequências culturais, sociais e políticas desta
tragédia na Argentina foram muito marcantes. A autora, entusiasta adolescente
rockeira na altura, tinha assistido na véspera a um concerto com a mesma banda
naquele local.
Foi este
facto que levou Camilla Fabbri a escrever o seu único romance (que ela própria
classificou como um romance de não ficção). Para isso, resolveu recolher um
conjunto de depoimentos dos sobreviventes e seus familiares e trabalhá-los em
termos narrativos. É, obviamente, um romance sobre o luto e a morte; mas é,
muito em particular, uma obra sobre uma geração (que inclui a própria autora) e
os seus sonhos e anseios de adolescentes, os seus esforços para afirmar-se como
uma determinada identidade e a sua perca de inocência. Note-se, no entanto, que
“El día que apagaron la luz” não pretende ser um relato jornalístico: a autora
coloca-se no centro da trama e reflecte sobre a sua própria adolescência, sobre
o contexto em que a viveu e sobre o peso que um desastre tão grave como este assume
na sua memória.
Maio de
2022.
Foto da
autora de Alejandro Guyot.


Sem comentários:
Enviar um comentário