quinta-feira, 19 de maio de 2022

CAMILA FABBRI

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

15. Camila Fabbri (1989-)

É uma escritora argentina que já publicou dois livros de contos e um romance. Em 2021, foi considerada, pela revista Granta, uma das escritoras mais promissoras em língua espanhola com menos de trinta e cinco anos. É também dramaturga e actriz, tanto de teatro como de cinema.

A crítica, principalmente a dos seus colegas de ofício (Alejandro Zambra, Leila Guerriero, Marta Sanz, Rodrigo Fresán, entre outros), desde o primeiro livro, considerou muito favoravelmente a narrativa da autora, não só pelo seu cuidado estilístico (referindo-se constantemente ao seu classicismo, mas, ao mesmo tempo, ao seu caracter inovador e à sua “desenvoltura”, para utilizar uma expressão já consagrada de Eduardo Lourenço), mas, em particular, ao facto de criar, em cada história, uma ambiência muito própria. Essas histórias, descrevendo circunstâncias inteiramente banais, conseguem transmitir uma sensação de perigo, de catástrofe iminente, que, a seu modo, é, nos dias de hoje, bem comum e universal.

Mesmo aceitando que a autora, em entrevistas recentes, se assume principalmente como contista (“Los accidentes”, 2015, e “Estamos a salvo”, 2022), interessa-me, em especial, o seu romance “El día que apagaron la luz”, de 2021.

No dia 30 de Dezembro de 2004, houve um incêndio na discoteca de Cromañón, em Buenos Aires, quando decorria um concerto da banda de rock barrial (corrente de rock underground genuinamente argentina) Callejeros. No desastre, morreram 194 jovens e ficaram 1432 feridos, alguns deles com sequelas psicológicas e físicas durante vários anos. As consequências culturais, sociais e políticas desta tragédia na Argentina foram muito marcantes. A autora, entusiasta adolescente rockeira na altura, tinha assistido na véspera a um concerto com a mesma banda naquele local. 

Foi este facto que levou Camilla Fabbri a escrever o seu único romance (que ela própria classificou como um romance de não ficção). Para isso, resolveu recolher um conjunto de depoimentos dos sobreviventes e seus familiares e trabalhá-los em termos narrativos. É, obviamente, um romance sobre o luto e a morte; mas é, muito em particular, uma obra sobre uma geração (que inclui a própria autora) e os seus sonhos e anseios de adolescentes, os seus esforços para afirmar-se como uma determinada identidade e a sua perca de inocência. Note-se, no entanto, que “El día que apagaron la luz” não pretende ser um relato jornalístico: a autora coloca-se no centro da trama e reflecte sobre a sua própria adolescência, sobre o contexto em que a viveu e sobre o peso que um desastre tão grave como este assume na sua memória.   

Maio de 2022.

Foto da autora de Alejandro Guyot.



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