OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
12ª Vinheta
MAURICIO WACQUEZ
Mauricio Wacquez (1939-2000) foi um
escritor chileno, tradutor e professor, que publicou cinco romances, algumas
colectâneas de contos, ensaios e artigos, coligidos postumamente (segundo a sua
própria definição, era um “escritor parco”). Começou a publicar na década de
sessenta e integrou a chamada “generación de los novíssimos”, onde se
destacaram Poli Delano e António Skarmeta (para apenas referir os mais
conhecidos no exterior do Chile). Algumas das suas obras foram finalistas de
prémios (Casa de las Americas, Seix-Barral, etc.), na sua maioria publicadas em
Espanha, país onde residiu uma boa parte da sua vida.
Provavelmente por causa deste facto e
porque a sua obra assume uma postura claramente gay, ela, enquanto o autor foi
vivo, passou por completo desapercebida no seu país, com exceção de alguns
autores (é o caso, por exemplo, de Júlio Cortázar, José Donoso e Jorge Edwards)
que muito a apreciavam.
Uma das características reconhecidas
na obra de Mauricio Wacquez é a sua preocupação com o estilo, procurando
utilizar a língua espanhola de forma inovadora e criativa. Aliás, as suas primeiras obras, pelas razões acima referidas,
eram curtas, resultantes de um pendor fortemente autocrítico e da sua
necessidade de pensar a frase, como um ourives de filigrana, palavra a palavra.
Não admira por isso, que, nas palavras do próprio autor, as suas obras mais
relevantes sejam as suas últimas, que considera com maior maturidade e mais próximas
do que pretendia. Aliás, a leitura do conjunto da sua obra transmite a ideia,
como sucede em muitos outros autores, de que Maurício Wacquez desejou sempre
escrever o mesmo livro (até quando enveredou pelo romance histórico, como foi o
caso de “Frente a un Hombre Armado”), dado que todos eles rodeiam uma mesma
problemática: a incomunicabilidade, a castração social, a angustiante incapacidade
de consumar no objecto amado o seu desejo.
Outra componente da sua obra é o seu
carácter (quase) autobiográfico e a importância das experiências vividas na
infância e na adolescência, em particular, as resultantes das dificuldades de
comunicação e de satisfação afectiva.
De certo modo, a infância e a adolescência na obra de Mauricio Wacquez apenas
parcialmente são fases de esplendor; pelo contrário, a impossibilidade de
afirmar desejos e afectos, os constantes equívocos, a opressão de uma
moralidade paterna plena de certezas, leva as personagens principais e os
narradores dos seus romances a um obscuro e angustiante mal-estar.
No entanto, há um significativo consenso de
que a obra mais relevante deste autor é “Epifania de una Sombra”, a sua última
obra, e que integrava uma trilogia, intitulada “La Obscuridad”, em que Mauricio
Wacquez trabalhava quando morreu e que não chegou a concluir (o escritor morreu
de SIDA)
“Epifania de una Sombra” é, mais uma
vez, sobre a infância e adolescência, mas apresentada de uma forma não
cronológica e linear, amalgamando diversos espaços (o campo e a cidade) e distintos
tempos, em que as situações são associadas por nexos profundos, procurando
assim entender melhor o fluir e a formação emocional da personagem principal,
Santiago Warni (assumidamente uma representação ficcional do autor) e dos seus
amigos. Saliente-se que o narrador deste romance se identifica com o autor,
que, a partir do presente, feito de cansaço e doença, rememora, de forma
fragmentária e fantasista, e procura perceber aquilo que no seu “duplo”, ainda
criança e adolescente, já gera sentido para o que hoje vive. Por último,
salientar que a descrição tanto da paisagem rural como urbana, tem uma
componente funcional na obra, pois sincretiza os diversos estados emocionais
que atravessam as personagens.
Algumas das suas obras estão
traduzidas para francês.
Lisboa, Abril de 2020
Desconheço a autoria da foto do
escritor.


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