domingo, 5 de abril de 2020

MAURICIO WACQUEZ


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

12ª Vinheta


MAURICIO WACQUEZ

Mauricio Wacquez (1939-2000) foi um escritor chileno, tradutor e professor, que publicou cinco romances, algumas colectâneas de contos, ensaios e artigos, coligidos postumamente (segundo a sua própria definição, era um “escritor parco”). Começou a publicar na década de sessenta e integrou a chamada “generación de los novíssimos”, onde se destacaram Poli Delano e António Skarmeta (para apenas referir os mais conhecidos no exterior do Chile). Algumas das suas obras foram finalistas de prémios (Casa de las Americas, Seix-Barral, etc.), na sua maioria publicadas em Espanha, país onde residiu uma boa parte da sua vida.

Provavelmente por causa deste facto e porque a sua obra assume uma postura claramente gay, ela, enquanto o autor foi vivo, passou por completo desapercebida no seu país, com exceção de alguns autores (é o caso, por exemplo, de Júlio Cortázar, José Donoso e Jorge Edwards) que muito a apreciavam.  

Uma das características reconhecidas na obra de Mauricio Wacquez é a sua preocupação com o estilo, procurando utilizar a língua espanhola de forma inovadora e criativa. Aliás, as suas primeiras obras, pelas razões acima referidas, eram curtas, resultantes de um pendor fortemente autocrítico e da sua necessidade de pensar a frase, como um ourives de filigrana, palavra a palavra. Não admira por isso, que, nas palavras do próprio autor, as suas obras mais relevantes sejam as suas últimas, que considera com maior maturidade e mais próximas do que pretendia. Aliás, a leitura do conjunto da sua obra transmite a ideia, como sucede em muitos outros autores, de que Maurício Wacquez desejou sempre escrever o mesmo livro (até quando enveredou pelo romance histórico, como foi o caso de “Frente a un Hombre Armado”), dado que todos eles rodeiam uma mesma problemática: a incomunicabilidade, a castração social, a angustiante incapacidade de consumar no objecto amado o seu desejo.

Outra componente da sua obra é o seu carácter (quase) autobiográfico e a importância das experiências vividas na infância e na adolescência, em particular, as resultantes das dificuldades de comunicação e de satisfação afectiva. De certo modo, a infância e a adolescência na obra de Mauricio Wacquez apenas parcialmente são fases de esplendor; pelo contrário, a impossibilidade de afirmar desejos e afectos, os constantes equívocos, a opressão de uma moralidade paterna plena de certezas, leva as personagens principais e os narradores dos seus romances a um obscuro e angustiante mal-estar.

 No entanto, há um significativo consenso de que a obra mais relevante deste autor é “Epifania de una Sombra”, a sua última obra, e que integrava uma trilogia, intitulada “La Obscuridad”, em que Mauricio Wacquez trabalhava quando morreu e que não chegou a concluir (o escritor morreu de SIDA)

“Epifania de una Sombra” é, mais uma vez, sobre a infância e adolescência, mas apresentada de uma forma não cronológica e linear, amalgamando diversos espaços (o campo e a cidade) e distintos tempos, em que as situações são associadas por nexos profundos, procurando assim entender melhor o fluir e a formação emocional da personagem principal, Santiago Warni (assumidamente uma representação ficcional do autor) e dos seus amigos. Saliente-se que o narrador deste romance se identifica com o autor, que, a partir do presente, feito de cansaço e doença, rememora, de forma fragmentária e fantasista, e procura perceber aquilo que no seu “duplo”, ainda criança e adolescente, já gera sentido para o que hoje vive. Por último, salientar que a descrição tanto da paisagem rural como urbana, tem uma componente funcional na obra, pois sincretiza os diversos estados emocionais que atravessam as personagens.

Algumas das suas obras estão traduzidas para francês.

Lisboa, Abril de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


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