quarta-feira, 1 de abril de 2020

DÁMIAN TABAROVSKY


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

11ª Vinheta



DÁMIAN TABAROVSKY


Dámian Tabarovsky (1967-) é um escritor argentino que, desde o início dos anos noventa, tem escrito várias novelas e ensaios. Também efectuou algumas traduções e é editor. Provavelmente a sua obra mais conhecida é um ensaio, “Literatura de Izquierda”(2004), uma análise polémica da actual situação do universo literário e em que preconiza uma estratégia social e estética para a literatura de hoje, reflectindo sobre o peso dos mercados e dos editores nas opções estéticas dos autores (o título desta obra é um pouco equívoco, pois não se relaciona directamente com a literatura de autores que se posicionam socialmente “à esquerda” nos termos convencionais, mas sobre o que deve ser, na opinião do autor, uma “literatura de esquerda”). Mais tarde, prolonga esta reflexão e análise com “Fantasma de la Vanguardia” (2018). É um dos críticos e analistas literários mais interventivos do seu país, colaborando com regularidade em jornais e revistas espanhóis e argentinos, sempre com posições acentuadamente polémicas e irreverentes.

Os seus romances que mais se destacam serão, provavelmente, “Autobiografia Médica”, “Una Belleza Vulgar” e “El Amo Bueno”.

Na caracterização da sua obra, refere-se sistematicamente a forma como Dámian Tabarovsky articula ironia, erudição e ainda uma postura anti-capitalista, numa perspectiva externa à esquerda convencional. Daí que as suas obras reflictam uma atitude que entende a literatura como um acto de resistência, assente na linguagem, considerada como o núcleo essencial do acto literário. Por isso, as suas narrativas, assumindo o autor o seu carácter expositivo e ilustrativo das suas teses sobre a literatura, recusam-se a qualquer interpretação alegórica e/ou metafórica, evidenciando o papel estético da frase e a relevância do trabalho sintáxico e efectuando um permanente confronto com os modelos clássicos e com os códigos convencionais da narrativa.

Uma das componentes, que integram o modelo clássico da narrativa, e que a obra de Dámian Tabarovsky sistematicamente confronta, é o da trama. Mas não através das opções estéticas do “Nouveau Roman”, mas antes através de um método digressivo, para utilizar os termos ao autor, ou “derivativo”, o que leva a que as suas narrativas interliguem constantemente os elementos ficcionais com perspectivas ensaisticas. Dois exemplos bem claros deste método, para que se tem encaminhado a obra de Dámian Tabarovsky, são as suas duas últimas novelas: “Una Belleza Vulgar” e “El Amo Bueno”.

“Una Belleza Vulgar” tem como eixo uma circunstância banal: uma folha que cai de um plátano numa rua de Buenos Aires. A partir daí, e enquanto a folha vai esvoaçando até ao chão, o autor anota a vida comum das pessoas que habitam nos edifícios nas proximidades, reflectindo sobre ela, o que lhe permite remeter para inúmeras questões sociais, políticas e até estéticas e literárias. No essencial, a folha que tomba é apenas um “alibi” para o autor remeter para o que lhe é essencial: pensar o mundo, a sociedade e a literatura, partindo do pressuposto de que nada ultrapassa o nível do banal, e que, por isso mesmo, a narrativa não tem sustentabilidade nem para uma simples trama. A folha que cai é um acto “vazio” (nem metáfora chega a ser) onde tudo cabe.

Em “El Amo Bueno”, o modelo narrativo é absolutamente idêntico ao da anterior obra (daí que o autor considere que as duas obras façam um díptico): três cães, num quintal de Buenos Aires, fazem um enorme buraco (um autêntico túnel), conseguindo encontrar vestígios de anteriores ocupações daquele lugar. Mais uma vez, partindo de uma circunstância vulgar, Dámian Tabarovsky elabora inúmeras digressões reflexivas sobre a trágica história recente do seu país, sobre o actual estádio do capitalismo, sobre os resíduos em que o neoliberalismo transforma as nossas vidas, e até sobre o lugar da palavra literária em relação ao poder.

Algumas das obras de Dámian Tabarovsky estão traduzidas para francês (publicadas pela Ed. Christian Bourgois), inglês e alemão.

Abril de 2020

Foto do autor de Mauro Rico e Romina Santarelli.




Sem comentários:

Enviar um comentário