OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
11ª Vinheta
DÁMIAN TABAROVSKY
Dámian Tabarovsky (1967-) é um
escritor argentino que, desde o início dos anos noventa, tem escrito várias
novelas e ensaios. Também efectuou algumas traduções e é editor. Provavelmente
a sua obra mais conhecida é um ensaio, “Literatura de Izquierda”(2004), uma
análise polémica da actual situação do universo literário e em que preconiza
uma estratégia social e estética para a literatura de hoje, reflectindo sobre o
peso dos mercados e dos editores nas opções estéticas dos autores (o título
desta obra é um pouco equívoco, pois não se relaciona directamente com a
literatura de autores que se posicionam socialmente “à esquerda” nos termos
convencionais, mas sobre o que deve ser, na opinião do autor, uma “literatura
de esquerda”). Mais tarde, prolonga esta reflexão e análise com “Fantasma de la
Vanguardia” (2018). É um dos críticos e analistas literários mais interventivos
do seu país, colaborando com regularidade em jornais e revistas espanhóis e
argentinos, sempre com posições acentuadamente polémicas e irreverentes.
Os seus romances que mais se destacam
serão, provavelmente, “Autobiografia Médica”, “Una Belleza Vulgar” e “El Amo
Bueno”.
Na caracterização da sua obra,
refere-se sistematicamente a forma como Dámian Tabarovsky articula ironia,
erudição e ainda uma postura anti-capitalista, numa perspectiva externa à
esquerda convencional. Daí que as suas obras reflictam uma atitude que entende
a literatura como um acto de resistência, assente na linguagem, considerada
como o núcleo essencial do acto literário. Por isso, as suas narrativas,
assumindo o autor o seu carácter expositivo e ilustrativo das suas teses sobre
a literatura, recusam-se a qualquer interpretação alegórica e/ou metafórica, evidenciando
o papel estético da frase e a relevância do trabalho sintáxico e efectuando um
permanente confronto com os modelos clássicos e com os códigos convencionais da
narrativa.
Uma das componentes, que integram o
modelo clássico da narrativa, e que a obra de Dámian Tabarovsky
sistematicamente confronta, é o da trama. Mas não através das opções estéticas
do “Nouveau Roman”, mas antes através de um método digressivo, para utilizar os
termos ao autor, ou “derivativo”, o que leva a que as suas narrativas
interliguem constantemente os elementos ficcionais com perspectivas ensaisticas.
Dois exemplos bem claros deste método, para que se tem encaminhado a obra de
Dámian Tabarovsky, são as suas duas últimas novelas: “Una Belleza Vulgar” e “El
Amo Bueno”.
“Una Belleza Vulgar” tem como eixo
uma circunstância banal: uma folha que cai de um plátano numa rua de Buenos
Aires. A partir daí, e enquanto a folha vai esvoaçando até ao chão, o autor
anota a vida comum das pessoas que habitam nos edifícios nas proximidades,
reflectindo sobre ela, o que lhe permite remeter para inúmeras questões
sociais, políticas e até estéticas e literárias. No essencial, a folha que
tomba é apenas um “alibi” para o autor remeter para o que lhe é essencial:
pensar o mundo, a sociedade e a literatura, partindo do pressuposto de que nada
ultrapassa o nível do banal, e que, por isso mesmo, a narrativa não tem
sustentabilidade nem para uma simples trama. A folha que cai é um acto “vazio”
(nem metáfora chega a ser) onde tudo cabe.
Em
“El Amo Bueno”, o modelo narrativo é absolutamente idêntico ao da anterior
obra (daí que o autor considere que as duas obras façam um díptico): três cães,
num quintal de Buenos Aires, fazem um enorme buraco (um autêntico túnel),
conseguindo encontrar vestígios de anteriores ocupações daquele lugar. Mais uma
vez, partindo de uma circunstância vulgar, Dámian Tabarovsky elabora inúmeras
digressões reflexivas sobre a trágica história recente do seu país, sobre o
actual estádio do capitalismo, sobre os resíduos em que o neoliberalismo transforma
as nossas vidas, e até sobre o lugar da palavra literária em relação ao poder.
Algumas das obras de Dámian
Tabarovsky estão traduzidas para francês (publicadas pela Ed. Christian
Bourgois), inglês e alemão.
Abril de 2020
Foto do autor de Mauro Rico e Romina
Santarelli.



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